terça-feira, 20 de setembro de 2016

O Espírito Santo e as reais dimensões do 'corpo' de Cristo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Jesus recuperou nossa dignidade.
 *Artigo de Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM,
doutor em Teologia Sistemática
pela Pontificia Università Antonianum, Roma.


‘O Quarto evangelho narra o processo que conduziu Jesus à morte como ocasião propícia, autêntico kairós, momento decisivo no qual Jesus completa a missão que tinha recebido do Pai. Assim, a ‘hora de Jesus’ coincide com o momento no qual Jesus completa sua obra de glorificação do Pai mediante seu amor oblativo e sua solidariedade efetiva para com o Pai, para com cada um e todos os seres humanos e para com a inteira realidade que ele veio resgatar. Não seria também esta a dinâmica que subjaz aos Cânticos do Servo sofredor : quanto mais desfigurado, mais nitidamente emergem os traços característicos do Servo de Deus (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12)?

Justamente naquela ‘hora’, concebida como momento crucial, Jesus se revela extremamente livre. Não delega aos algozes o poder de pronunciar a palavra derradeira com respeito a seu destino e sua existência. É ele mesmo quem se entrega. Paradigmáticas, neste sentido, são as palavras que a tradição do Quarto evangelho coloca na boca de Jesus : ‘Ninguém a tira de mim [a vida]. Sou eu mesmo que a dou’ (Jo 10,18a).

Como vimos, a singularidade da existência histórica de Jesus, possibilitada pela peculiar cooperação do Espírito Santo, alcançou sua expressão máxima no evento da cruz. Segundo o testemunho da Carta aos Hebreus (cf. Hb 9,14), a ação do Espírito Santo é compreendida como momento íntimo e constitutivo da suprema oblação consumada por Jesus sobre a cruz e, portanto, como cooperação ao cumprimento de seu sacerdócio existencial vivido como uma experiência progressiva de obediência que Ele, enquanto Filho, devia a Deus seu Pai.

O texto da Carta aos Hebreus, relativo à presença do Espírito Santo na hora da cruz, denota a idéia de uma ação sacrificial que o Filho realiza por obra e inspiração do Espírito Santo. Segundo o testemunho oferecido pelo texto, foi ‘com um Espírito eterno’ que o Cristo ‘ofereceu a si mesmo sem mancha a Deus’ (Hb 9,14). No contexto da temática sacrificial, própria da epístola, o Espírito Santo é comparado ao fogo que consumia os sacrifícios antigos, simbolizando, assim, a aceitação por parte de Deus do sacrifício a ele oferecido.

Estando ao testemunho do Quarto evangelho (cf. Jo 19,30.34), o Espírito Santo é concebido ainda como o dom por excelência que Jesus, juntamente com o Pai, oferecem na hora da cruz, no exato momento do cumprimento da própria missão. Desta maneira, graças à sua peculiar cooperação ao dinamismo oblativo da morte de cruz, o Espírito Santo é entregue à Igreja, ao cristão e à cristã, à história e ao mundo inteiro com a missão específica de interiorizar a presença salvífica de Jesus Cristo no seio da comunidade, nos meandros da história e do cosmos e no coração de cada pessoa humana.

A efusão do Espírito Santo por obra do Crucificado-ressuscitado assinala, portanto, as primícias da missão, lenta e fecunda, da ‘In-habitação’ do Espírito Santo, concebida como autêntica obra de ‘cristificação’ – no sentido de uma verdadeira ‘conformação a Cristo’ – da pessoa humana, da comunidade cristã, da história humana e da inteira criação.

Esta conformação a Cristo, fruto primordial do Espírito Santo, não se opera a modo de uma massificação ou de uma uniformidade pura e simples. Na verdade, o Espírito, ao invés de massificar, produz uma variedade enorme de dons, de ministérios, de atividades. Ele potencializa ao máximo e no melhor dos modos a singularidade de cada pessoa, de cada comunidade, e a peculiaridade de cada decisão humana, de cada conexão histórica, de cada processo orgânico e natural. O Espírito desvela, portanto, todas as possíveis virtualidades de cada realidade desde a humana até a cósmica.

Por ter sorvido até sua última gota nossa condição humana, corporal e histórica, Jesus recuperou nossa mais lídima dignidade enquanto seres corpóreos e históricos. A corporeidade é aquele elo capaz de unir mediante um vínculo estreito a existência de cada pessoa humana à história da inteira humanidade e ainda a todo o cosmos. Isto só é possível graças ao mistério da encarnação do Filho de Deus culminado no evento pascal de Cristo cujo desabrochar é a efusão do Espírito Santo, concebido como o dom que Pai e Filho juntos entregam aos cristãos, à história e a complexidade do inteiro cosmos.

A expressão ‘corpo de Cristo’, potencializada e expandida graças à presença e ação do Espírito Santo, revela os reais alcances desta inter-relação a partir daquela realidade histórica e circunstancial da ‘corporeidade de Jesus’ que dá consistência e que, por isso mesmo, funda as demais compreensões desta expressão. Trata-se do ‘corpo de Cristo’ concebido como expressão da vida de Jesus compreendida na totalidade de seus gestos e de suas palavras, culminados no gesto supremo da entrega do próprio corpo como verificação de sua inteira vida e da credibilidade de sua mensagem.

A partir daí emergem as demais compreensões desta expressão : ‘Corpo de Cristo’ entendido como cada pessoa que se empenha por se conformar a Cristo, fazendo da própria vida uma oblação agradável a Deus; ‘Corpo de Cristo’ enquanto Seu corpo histórico, a Igreja, comunidade daquelas pessoas que vivem a partir da consciência de que a pregação e o testemunho de Jesus, que adquiriram singular credibilidade na sua paixão e ressurreição, continuam acontecendo na história das pessoas e do mundo; ‘Corpo de Cristo’ enquanto história que se quer construir, passo a passo, segundo os valores do Evangelho até a plena emergência do Reino de Deus; ‘Corpo de Cristo’, enfim, enquanto inteira criação na sua complexidade, obra que o Pai realiza mediante o Espírito Santo que in-habita o inteiro cosmos, obra de transformação deste mundo no único ‘corpo de Cristo’.

E é precisamente na celebração eucarística que experimentamos a relação íntima e profunda que vigora entre estas distintas dimensões do ‘corpo de Cristo’. O corpo de Cristo eucarístico recolhe em si todas estas distintas dimensões lembradas acima, respeitando e valorizando cada uma delas na sua singularidade, para fazê-las confluir na direção daquela unidade de fundo que as sustenta.’


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