segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Em diálogo com o mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘Na noite de 24 de Setembro de 1965 Paulo VI dialogou prolongadamente com um jornalista italiano, Alberto Cavallari, que estava a fazer um inquérito para o «Corriere della Sera», narrado depois em vinte artigos e reelaborado no ano seguinte no livro O Vaticano muda. A entrevista foi publicada a 3 de Outubro, precisamente quando o Papa partia para Nova Iorque, onde teria falado à ONU, e fez clamor, mesmo não sendo a primeira de um Pontífice : de facto, em «Le Figaro» de 4 de Agosto de 1892 tinha sido publicada aquela sobre o anti-semitismo concedida a 31 de Julho por Leão XIII a Séverine, pseudónimo de Caroline Rémy.

«Sabe, apraz-nos falar do Vaticano» disse Montini a Cavallari, «mas damo-nos conta de que não é fácil compreender o que é feito e debatido no mundo da Igreja. Mesmo se o Papa, muitas vezes tem dificuldade de compreender o mundo de hoje». O diálogo foi tranquilo, e quase no final Paulo VI mencionou também o encontro nas Nações Unidas, citando um salmo – «falarás diante dos reis e sem te confundires» – mas logo a seguir, com simplicidade, aliviou o tom da solene citação bíblica : «Mas sabe-se lá se também nós conseguiremos fazer o melhor possível diante de tantas pessoas importantes».

Em pouco mais de trinta horas, do alvorecer do dia 3 até ao meio-dia de 5 de Outubro, concentrou-se o êxito da viagem que o Papa, falando em francês, descreveu no Palácio de vidro com uma imagem sugestiva : «Nós somos como o mensageiro que, depois de um longo caminho, chega para entregar a missiva que lhe foi confiada», porque «é desde há muito tempo que estamos a caminho, e levamos connosco uma longa história; nós celebramos aqui o epílogo de uma peregrinação fadigosa em busca de um diálogo com o mundo inteiro, desde quando foi comandado : “Ide levar a boa nova a todas as nações”. Agora sois vós, que representais todas as nações».

Acompanhado por oito cardeais em representação dos católicos do mundo inteiro, Paulo VI apresentou-se à assembleia geral das Nações Unidas também em nome do concílio, que no Vaticano estava a viver as suas últimas e intensas semanas : «peritos em humanidade», disse o Papa, «sentimos que devemos fazer nossa a voz dos mortos e dos vivos», e a «dos pobres, dos desfavorecidos, dos sofredores, dos que anseiam pela justiça, pela dignidade de vida, pela liberdade, pelo bem-estar e pelo progresso». Vozes que Montini resumiu no brado repetido depois pelos seus sucessores : «nunca mais a guerra, nunca mais a guerra!».

Com efeito, as armas «geram maus sonhos, alimentam sentimentos negativos» e «requerem enormes despesas, interrompendo projectos de solidariedade e de trabalho útil, falseando a psicologia dos povos» observou Paulo VI. Que pouco antes pedira à assembleia da ONU para se abrir aqueles países que ainda estavam excluídos (China e Indonésia, mas também aqueles divididos como a Alemanha, a Coreia e o Vietname) e recomendou imediatamente o respeito da vida do homem, criticando o controle artificial dos nascimentos destinado a «diminuir o número dos convidados para o banquete da vida».

Não foi por acaso que, cinquenta anos depois da visita de Montini, o Papa retomou no seu discurso à ONU as conclusões do seu predecessor, repetindo que «o edifício da civilização moderna se deve reger sobre princípios espirituais, capazes não só de o apoiar, mas também de o iluminar e animar». Bem ciente da situação descrita por Paulo VI no diálogo com Cavallari. Porque também hoje, como há meio século, «milhões de pessoas já não têm fé religiosa. Isto faz surgir a necessidade de que a Igreja se abra. Devemos enfrentar quem deixou de crer».’


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