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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Paulo VI, sacerdote antes de tudo


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 10.05.1937 Mons. Giovanni Battista Montini Sostituto della Segreteria di Stato
GiovaGiovanni Battista Montini, 1957  (OSSERVATORE ROMANO)

Padre Antonio Marrazzo, postulador da causa de canonização de Paulo VI, fala sobre o pontífice, que tinha uma humanidade tão grande quanto sua inteligência. O símbolo? A estola do seu retrato oficial, sinal do sacerdócio que Papa Montini sempre mostrou aos grandes e pequenos do mundo.

Para Paulo VI, os paramentos usados para seu status não tinham muita importância, a não ser a estola que usava sempre e em todas as ocasiões. ‘Mesmo nas viagens ou quando recebia chefes de Estado queria se apresentar antes de tudo como sacerdote’. São palavras do seu postulador, padre Antônio Marrazzo, que revela este aspecto que determinou a imagem oficial da Canonização.

Antes de tudo a pessoa

O postulador descreve Paulo VI de modo muito diferente dos estereótipos, da ‘vulgata’ formada por dualismos que se cristalizaram no tempo sobre Paulo VI, ou seja, o Papa solene e frio, culto e distante. A estola é um exemplo disso. ‘Para ele não era importante a imagem’,  afirma o postulador, porque em toda sua vida ‘sempre olhou e viu o ser humano assim como Deus vê: precário, indigente, limitado’. Reconhecendo em si mesmo a mesma fragilidade, assim como ‘seus escritos’ testemunham.

Defensor da vida nascente

Certamente era um homem sóbrio, mas sobretudo rico de calor humano, efeito da ‘confiança no homem’ que o animava profundamente. Um homem aberto sem reservas à humanidade que estava rapidamente se modificando, e que para acompanhar levou a Igreja por meio do Concílio. Também era uma pessoa cheia de amor para com a vida, nascida ou não, como demonstram os dois milagres reconhecidos para sua Beatificação e Canonização. ‘Paulo VI – diz padre Marrazzo – deveria ser proposto como defensor da vida nascente’ porque, explica, os dois sinais de cura realizados pela sua intercessão colocam-se em extraordinária ‘continuidade’ com o seu magistério.

Papa que transmitia seus sentimentos

No dia 14 de outubro Paulo VI será declarado santo. Mas não estará sozinho pois serão também canonizados Dom Romero, e algumas Santas e Santos fundadores. ‘A escolha do Papa Francisco não foi casual – explica Marrazzo – mas podemos nos perguntar : até que ponto a santidade é ligada ao papel que uma pessoa exerceu na sua vida?’. No caso de Paulo VI, conclui, a santidade foi vivida com uma vida rica de humanidade de um homem que ‘transmitia a todos o que vivia dentro de si mesmo’.


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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A reviravolta nas relações entre anglicanos e católicos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



‘Há meio século, em 23 e 24 de março de 1966, a história das relações entre anglicanos e católicos mudava completamente de direção com a visita solene a Paulo VI do Primaz Michael Ramsey, Arcebispo de Cantuária e com a assinatura de uma primeira Declaração comum, que deu início a um diálogo teológico intenso.

Quando o Concílio Vaticano II ainda estava em sua fase preparatória, em 2 de dezembro de 1960, foi o seu predecessor, Geoffrey Fisher que encontrou, numa audiência privada, o Papa João XXIII.

A visita de Ramsey foi histórica : ‘São mais de quatro séculos – comentou Montini no início da Audiência Geral realizada em São Pedro, logo após o encontro com o Primaz anglicano – que a Igreja romana tem a dor de estar separada da Igreja da Inglaterra; uma Igreja que Roma tanto amou e que, se poderia dizer, gerou. Repousam nesta Basílica os sagrados restos mortais de São Gregório Magno, que enviou Agostinho, com trinta monges, no final do século VI, para reevangelizar – houve outros missionários antes – a Inglaterra’.

Dois gestos imprevistos marcaram aqueles dias : o Primaz anglicano ajoelhou-se diante do Bispo de Roma, e Montini, ao final de uma longa e comovente oração na Basílica de São Paulo extramuros, tirou seu anel e o colocou no dedos de Ramsey.

Desde então o diálogo entre anglicanos e católicos ficou sempre mais intenso, com a instituição, em 1969, de uma Comissão Internacional Anglicano-Católica (ARCIC), com o multiplicar-se dos encontros, dos documentos e das Declarações comuns.

Neste sentido, o cinquentenário dos encontros daquele março e da instituição do Centro Anglicano de Roma, são comemorados na tarde de 5 de março na Igreja romana de Santo André e Gregório al Celio, com as Vésperas na presença do Papa Francisco e do Primaz anglicano Justin Welby.’


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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Em diálogo com o mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘Na noite de 24 de Setembro de 1965 Paulo VI dialogou prolongadamente com um jornalista italiano, Alberto Cavallari, que estava a fazer um inquérito para o «Corriere della Sera», narrado depois em vinte artigos e reelaborado no ano seguinte no livro O Vaticano muda. A entrevista foi publicada a 3 de Outubro, precisamente quando o Papa partia para Nova Iorque, onde teria falado à ONU, e fez clamor, mesmo não sendo a primeira de um Pontífice : de facto, em «Le Figaro» de 4 de Agosto de 1892 tinha sido publicada aquela sobre o anti-semitismo concedida a 31 de Julho por Leão XIII a Séverine, pseudónimo de Caroline Rémy.

«Sabe, apraz-nos falar do Vaticano» disse Montini a Cavallari, «mas damo-nos conta de que não é fácil compreender o que é feito e debatido no mundo da Igreja. Mesmo se o Papa, muitas vezes tem dificuldade de compreender o mundo de hoje». O diálogo foi tranquilo, e quase no final Paulo VI mencionou também o encontro nas Nações Unidas, citando um salmo – «falarás diante dos reis e sem te confundires» – mas logo a seguir, com simplicidade, aliviou o tom da solene citação bíblica : «Mas sabe-se lá se também nós conseguiremos fazer o melhor possível diante de tantas pessoas importantes».

Em pouco mais de trinta horas, do alvorecer do dia 3 até ao meio-dia de 5 de Outubro, concentrou-se o êxito da viagem que o Papa, falando em francês, descreveu no Palácio de vidro com uma imagem sugestiva : «Nós somos como o mensageiro que, depois de um longo caminho, chega para entregar a missiva que lhe foi confiada», porque «é desde há muito tempo que estamos a caminho, e levamos connosco uma longa história; nós celebramos aqui o epílogo de uma peregrinação fadigosa em busca de um diálogo com o mundo inteiro, desde quando foi comandado : “Ide levar a boa nova a todas as nações”. Agora sois vós, que representais todas as nações».

Acompanhado por oito cardeais em representação dos católicos do mundo inteiro, Paulo VI apresentou-se à assembleia geral das Nações Unidas também em nome do concílio, que no Vaticano estava a viver as suas últimas e intensas semanas : «peritos em humanidade», disse o Papa, «sentimos que devemos fazer nossa a voz dos mortos e dos vivos», e a «dos pobres, dos desfavorecidos, dos sofredores, dos que anseiam pela justiça, pela dignidade de vida, pela liberdade, pelo bem-estar e pelo progresso». Vozes que Montini resumiu no brado repetido depois pelos seus sucessores : «nunca mais a guerra, nunca mais a guerra!».

Com efeito, as armas «geram maus sonhos, alimentam sentimentos negativos» e «requerem enormes despesas, interrompendo projectos de solidariedade e de trabalho útil, falseando a psicologia dos povos» observou Paulo VI. Que pouco antes pedira à assembleia da ONU para se abrir aqueles países que ainda estavam excluídos (China e Indonésia, mas também aqueles divididos como a Alemanha, a Coreia e o Vietname) e recomendou imediatamente o respeito da vida do homem, criticando o controle artificial dos nascimentos destinado a «diminuir o número dos convidados para o banquete da vida».

Não foi por acaso que, cinquenta anos depois da visita de Montini, o Papa retomou no seu discurso à ONU as conclusões do seu predecessor, repetindo que «o edifício da civilização moderna se deve reger sobre princípios espirituais, capazes não só de o apoiar, mas também de o iluminar e animar». Bem ciente da situação descrita por Paulo VI no diálogo com Cavallari. Porque também hoje, como há meio século, «milhões de pessoas já não têm fé religiosa. Isto faz surgir a necessidade de que a Igreja se abra. Devemos enfrentar quem deixou de crer».’


Fonte :


domingo, 19 de outubro de 2014

Paulo VI : O homem de uma grande fé

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  
Neste domingo foi elevado às honras dos altares o Servo de Deus, Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, Papa Paulo VI. Um homem tão amado e ao mesmo tempo não tão reconhecido e valorizado. Sim porque o destino da Igreja, do corpo místico de Cristo, foi guiado por esse Santo homem durante 15 anos. Período em que se realizou e se implementou o Concílio Vaticano II. De fato, ele sucedeu João XXIII, hoje São João XXIII que inaugurou os trabalhos do Concílio. Paulo VI os concluiu.

A sua beatificação se realiza precisamente no encerramento da III Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, dedicada aos desafios que a família enfrenta nos dias de hoje. Pensando na beatificação de Paulo VI, não podemos deixar de recordar o Concílio e aquele momento vivido pela Igreja. Montini guiou a Igreja em época de transição entre o durante e o pós-Vaticano II. Naquele período a Igreja viveu uma profunda transformação com a revisão da liturgia eucarística, com as mudanças no que diz respeito ao sacerdócio, com a abertura a temas da modernidade em um mundo que registrava constantes mudanças de valores.

Sim, os temas quentes da época diziam respeito a índices crescentes de divórcio, de uniões de fato, à liberdade sexual, à legalização do aborto, às técnicas anticoncepcionais. Temas esses que também hoje os padres sinodais enfrentaram nos últimos dias durante a Assembleia sinodal.

Montini escolheu o nome Paulo, para indicar que tinha uma renovada missão universal de propagar a mensagem de Cristo. Após ter concluído os trabalhos do Concílio, Paulo VI assumiu a interpretação e implementação de seus mandatos, frequentemente andando sobre uma linha entre as expectativas conflitantes de vários grupos da própria Igreja. A magnitude e a profundidade das reformas, que afetaram todas as áreas da vida da Igreja durante o seu pontificado, são hoje bem conhecidas.

Homem culto, de fina inteligência, foi um Papa sensível às exigências do seu tempo e se esforçou para interpretar os sinais dos tempos. Escreveu sete encíclicas, 12 exortações apostólicas e inúmeras cartas e constituições apostólicas. A ele se devem três dos documentos que ainda hoje são referência para a doutrina e ação da Igreja : a ‘Populorum Progressio’, sobre a justiça social no mundo; a ‘Evangeli Nuntiandi’, sobre as condições para a evangelização; e a ‘Humanae Vitae’, sobre a dignidade da vida humana, muitas vezes reduzida a uma mera proibição de métodos contraceptivos.

Quando olhamos para este grande homem da Igreja, nos é difícil sintetizar o legado que ele deixou com seus escritos, discursos, e ações. O seu ‘testamento espiritual’ foi lido por mais de uma vez por João Paulo II nos ‘exercícios espirituais’que fazia, e deles tirou ideias, propósitos e pontos de reflexão para a sua vida e pontificado.

Paulo VI foi também um devoto mariano; visitou santuários marianos e três de suas encíclicas são marianas. Montini procurou o diálogo com o mundo, com outros cristãos, religiosos e não, sem excluir ninguém. Viu-se como um humilde servo de uma humanidade sofredora e pediu mudanças significativas dos ricos nos países desenvolvidos, quer no continente americano quer na Europa, em favor dos pobres do então chamado Terceiro Mundo.

Ele não parou, não foi um homem que se acomodou, sempre quis mais, sempre quis ser o peregrino da mensagem de Cristo. Paulo VI foi o primeiro Papa a visitar os cinco continentes. Em 1970 sobreviveu a uma tentativa de assassinato nas Filipinas.

O Papa Francisco promulgou, no dia 6 de maio deste ano, o decreto que reconhece o milagre atribuído à sua intercessão. O milagre está relacionado à cura de uma criança, ocorrida em 2001 nos Estados Unidos. A mãe do bebê, durante a gravidez, descobriu um grave problema cerebral. Os médicos lhe aconselharam o aborto, fato rejeitado pela mãe que optou em continuar a gravidez e pediu a intercessão de Paulo VI. A criança nasceu sem problemas e os médicos consideraram seu nascimento ‘um feito verdadeiramente extraordinário e sobrenatural’.

Montini, Paulo VI, cumpriu a tarefa de levar à Igreja e ao Mundo as novidades que o Concílio Vaticano II tinha introduzido. Conduziu os tempos difíceis do pós-Concílio, em que a sua serenidade foi capaz de levar a bom porto, a nave de Cristo, em uma das épocas mais complicadas da história da Igreja Católica. Um homem de fé que confirmou os irmãos e defendeu o princípio do ‘fidei depositum’, uma vez que lhe foi confiado. Faleceu em 6 de agosto de 1978, em Castel Gandolfo, na Festa da Transfiguração.


Fonte :


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Paulo VI e a alegria no Senhor

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
 
* Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

‘No próximo dia 6 de agosto iremos comemorar 36 anos da Páscoa do Papa Paulo VI, que no dia 19 de outubro será beatificado pelo Papa Francisco, na Praça de São Pedro, em Roma. Elepermaneceu à frente da Igreja de 1963 a 1978, de modo que teve, enquanto sucessor de Pedro, um bom tempo – quinze anos – para exercer seu ministério como Bispo de Roma e, portanto, Sumo Pontífice da Igreja Católica.

Coube a ele – diplomata e pastor, que após servir na Secretaria de Estado da Santa Sé de 1922 a 1954, e na Arquidiocese de Milão, de 1954 a 1963 – a árdua missão de conduzir os trabalhos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1963-1965), iniciados por seu imediato antecessor, São João XXIII. Esta missão, nobilíssima por sinal, rendeu ao Papa Montini grandes alegrias, mas também não poucos dissabores. Recorrências comuns de uma fase pós-conciliar na vida da Igreja.

Como quer que seja, pode-se dizer, sem sombra de dúvidas, que Paulo VI foi um grande Pontífice e, apesar de todos os sofrimentos que o cercaram, não se deixou abater, mas, ao contrário, refugiado na oração pessoal, especialmente pela recitação do Rosário de Nossa Senhora, e comunitária, a Liturgia das Horas e a Santa Missa, encontrou, até o fim de seus dias neste mundo, forças para guiar a Barca do Senhor, que é a Igreja.

Elevado à Cátedra de Pedro em 21 de junho de 1963, deu a conhecer ao mundo, em 6 de agosto de 1964, seu programa de Pontificado por meio da Encíclica Ecclesiam Suam [a Sua Igreja] ao escrever que ‘A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio. (...) Em qualquer esforço que o homem faça para compreender a si mesmo e ao mundo, pode contar com a nossa simpatia; onde quer que as assembleias dos povos se reúnam para determinar os direitos e deveres do homem, sentimo-nos honrados, quando no-lo permitem, tomando lugar nelas’ (n. 38 e 54).

O historiador da Igreja, Henrique Cristiano José de Matos, escreve que ao atender o desejo colegiado dos Padres Conciliares, reunidos em Roma, Paulo VI ‘o fez com a preocupação de não romper com a tradição eclesiástica. Interveio pessoalmente em todas as questões polêmicas. Nesse sentido, podemos citar a Nota Prévia (nov. de 1964, acrescentada à Constituição Lumen Fidei, que visava a reafirmar a doutrina do Concílio Vaticano I sobre o Papado; a Encíclica Mysterium Fidei (1965) sobre a Eucaristia, corrigindo os debates sobre a transubstanciação; a Encíclica Humanae Vitae, sobre a questão do controle de natalidades e do planejamento familiar [na verdade, ‘paternidade responsável’, dizemos com a Igreja] (1968); a intervenção sobre o celibato sacerdotal, cuja discussão fora subtraída ao Concílio (Sacerdotalis Caelibatus, 1967; Sínodo dos Bispos, 1971 : Documento sobre o Ministério Sacerdotal); intervenção sobre o papel da mulher na Igreja (Comissão de Estudos para o Ano da Mulher), 1975’ (Introdução à História da Igreja. Belo Horizonte : O Lutador, 1987, p. 168).

Paulo VI foi um Papa aberto às questões da Igreja de seu tempo, fiel às pegadas do Vaticano II. Implementou o diálogo com o mundo moderno, com outros cristãos (ecumenismo) e com outras religiões (diálogo interreligioso); defendeu a paz mundial; empreendeu viagens internacionais, sendo o primeiro Papa depois de Pedro a estar em Jerusalém, no ano de 1964; deu impulso à colegialidade dos Bispos instituindo o Sínodo deles em 1975; reformou parcialmente a eleição do Sumo Pontífice e a escolha dos Bispos; abriu ainda mais a Cúria Romana para Cardeais não italianos e criou a Comissão Teológica Internacional (CTI).

Com essas atuações, que poderiam assomar-se a muitas outras, Paulo VI, segundo o historiador citado acima, fez duas coisas ou agiu em duas frentes, para dentro e para fora da Igreja. Sim, ‘por um lado, realizou a ingente tarefa de renovar a Igreja na sua vida interna, dando-lhe instrumentos válidos para o trabalho de atualização, enriquecendo-a de orientações adequadas para a formação dos sacerdotes, dos religiosos e do laicato, adaptando a liturgia de acordo com os desejos do Concílio, criando uma viva consciência missionária, estimulando a formação de vários organismos que levam os membros da Igreja a uma participação maior na sua vida e na sua caminhada, não deixando nenhum setor sem sua presença, sua palavra, seu incentivo e seu admirável equilíbrio de moderador, fiel ao que é intangível sem deixar de ser fiel aos apelos dos tempos novos’.

Por outro lado, soube o Papa Paulo VI abrir-se para o mundo inteiro, conseguindo que a Igreja fosse o que dela profetizou Isaías : ‘Um estandarte levantado no meio das Nações’ (Is 11,12). É difícil sintetizar aqui tudo o que ele fez na área do ecumenismo, em relação às Igrejas do Oriente e do Ocidente; com as culturas da Ásia e da África; suas viagens à Índia, à Austrália, às Filipinas, à América Latina, à ONU. De fato, esteve presente no mundo, levando a mensagem do Evangelho, a palavra da justiça, o apelo da paz. Paulo VI parece ter herdado de seu predecessor João XXIII a vontade de atravessar as fronteiras, de procurar o diálogo em vez de lançar anátemas’ (idem, p. 168-169).

Apesar de tudo isso, como já acenamos, Paulo VI foi chamado de ‘o Papa do sofrimento’, dados os dissabores que enfrentou dentro e fora da Igreja na fase imediatamente seguinte ao Concílio. Se isso é real, podemos dizer, a justo título, que Montini foi também ‘o Papa da verdadeira alegria que vem do Senhor’.

Para evocar o lado sereno e feliz desse Pontífice, que em breve será beatificado, desejamos lembrar aqui um documento pouco conhecido, mas de grande profundidade espiritual, que foi assinado por ele em 9 de maio de 1975. Trata-se da Exortação Apostólica Gaudete in Domino, que, em português, significa Alegrai-vos no Senhor!, escrita por Paulo VI em preparação à solenidade de Pentecostes do Ano Jubilar de 1975.

Nessa Exortação, o Santo Padre começa dizendo, com fundamento em Filipenses 4,45 e no Salmo 145,18 : ‘Alegrai-vos no Senhor, porque Ele está perto de todos os que O invocam com sinceridade’ e a partir daí vai desenvolvendo a noção da alegria cristã, que é a alegria no Espírito Santo como um dom d’Ele mesmo para cada um de nós (cf. Gl 5,22), mas que é, não raras vezes, esquecido, como se ser cristão e ser santo fosse ter cara feia e triste. Aliás, duas constatações vêm ao caso a propósito : a primeira lembra aquele dito popular, às vezes também atribuído a algum santo : ‘Um santo triste é um triste santo’; a segunda é a fala do Papa Francisco, no dia 1º de junho de 2013, quando diz, recordando, inclusive, Paulo VI, que ‘muitas vezes os cristãos têm mais cara de que estão num cortejo fúnebre do que louvando a Deus’, mas isso está errado, pois ‘sem a alegria, o cristão não pode ser livre, mas, ao contrário, torna-se escravo da tristeza’.

É precisamente este o ponto em que os Papas Bergoglio e Montini se encontram, uma vez que, na conclusão da Gaudete in Domino se lê : ‘Irmãos e filhos caríssimos : não será normal que a alegria habite dentro de nós, quando os nossos corações contemplam e descobrem de novo, na fé, os seus motivos fundamentais? E estes motivos são simples, aliás : tanto amou Deus o mundo, que lhe deu o seu Filho único. Pelo seu Espírito, a sua presença não cessa de envolver-nos na sua ternura e de nos impregnar com a sua vida; e nós caminhamos para a transfiguração ditosa das nossas existências, seguindo rumo à ressurreição de Jesus. Sim, seria muito estranho que esta Boa-Nova que provoca os aleluias da Igreja não nos deixasse com o semblante de pessoas salvas!

Isso posto, surge uma pergunta comum e interessante : mas, afinal, que tipo de alegria é a cristã? – Responde, então, Paulo VI, citando São Tomás de Aquino, que a expressão mais elevada da alegria ou da felicidade é aquela entendida no sentido estrito da palavra, ‘quando o homem, ao nível de suas faculdades superiores, encontra a sua satisfação na posse de um bem conhecido e amado. Assim, o homem experimenta a alegria quando se encontra em harmonia com a natureza, e, sobretudo, no encontro, na partilha, na comunhão com o outro. Com muito mais razão, pois, chegará ele a conhecer a alegria e a felicidade espiritual quando o seu espírito entra na posse de Deus, conhecido e amado como o bem supremo e imutável’ (Summa Theologica, I-II, q.31,a 3).

No entanto, novamente, pode haver quem tente contradizer o Papa dizendo que, neste mundo finito e dilacerado por discórdias, é praticamente impossível encontrar a felicidade. Daí responder Paulo VI que a questão, de certo modo, parece contraditória porque está mal colocada. Com efeito, pensa-se que a felicidade ou a alegria está no ter... Ter carros bons, casas, dinheiro, artefatos técnicos, enfim coisas materiais, quando, na realidade, a verdadeira alegria vem de outra fonte, é espiritual, por isso nenhum bem material, por maior que seja, pode comprá-la ou conquistá-la.

É por essa razão que, mergulhado no materialismo, o ser humano dos séculos XX e XXI se sente impotente ante os males, especialmente os de ordem moral que os acomete, pois os recursos de natureza material de que dispõe são ineficientes para a batalha. Mais : se essa angústia é grande, há ainda outro agravante que o Papa, já em 1975, denunciou : são alguns meios de comunicação de massa que ‘acabrunham as consciências, sem lhes apresentar, normalmente, uma solução humana adequada’.

Contudo, apesar dos não poucos e nem pequenos desafios, Paulo VI nos convida a olharmos maravilhados, desde a nossa infância até a velhice, para tudo o que Deus fez e sentirmos a serena alegria que só Ele pode nos dar como um dom do Espírito Santo, conforme se lê em Gálatas 5,22. E acrescenta que ‘o homem só poderá experimentar a verdadeira alegria espiritual quando se afastar do pecado e viver na presença de Deus. A carne e o sangue são, sem dúvida, incapazes disso (cf. Mt 16,17). Mas a revelação pode abrir esta perspectiva e a graça pode operar esta conversão’ no coração humano, às vezes petrificado pelo pecado, por meio do sacramento da Penitência.

Paulo VI recorda nessa exortação o Apóstolo das gentes : ‘Estou cheio de consolação, estou inundado de alegria no meio de todas as tribulações’ (7,3-4). Elas mostram que, mesmo entre as intempéries da vida, o verdadeiro discípulo de Cristo jamais perde a esperança, pois está inundado da alegria do Espírito Santo.

Possa, portanto, a Virgem Maria, invocada em sua Ladainha como sendo a ‘Causa de nossa alegria’, interceder por nós para que nossa vida, inundada pela força do Espírito de Deus, seja fonte de verdadeira alegria e felicidade para nós e para todos os que nos cercam. Amém!’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http ://www.zenit.org/pt/articles/paulo-vi-e-a-alegria-no-senhor