domingo, 6 de setembro de 2015

A Igreja dos Leigos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


O papel fundamental dos leigos, além da caridade, está na evangelização pelo testemunho da vida quotidiana.


‘O que é a Igreja? Qual é o pensamento que nos vem de imediato à mente, sempre que ouvimos a palavra «Igreja»? Todos chegamos à mesma conclusão : o papa, os bispos e os padres... Por vezes acrescentamos os consagrados. Mas todo o batizado não é Igreja?

Recordo as minhas aulas de Direito Canônico e recorro à minha apostila onde leio o Decreto de Graciano, do século XII : «Existem duas espécies de cristãos. Aqueles que se ocupam com a liturgia e a oração e que se dedicam à contemplação : a esses pede-se que estejam longe da confusão das coisas temporais. Estes são os clérigos. Klêros quer dizer parte escolhida […] Existe outra espécie de cristãos : os leigos. Laos quer dizer povo. Estes podem possuir bens temporais, podem casar, cultivar a terra, ocupar-se da justiça civil, fazer ofertas e pagar as décimas: e assim poderão salvar-se, fazendo o bem e evitando o mal

O Concílio Vaticano II procurou destruir esta ideia, por isso referimo-nos a ele como o Concílio dos Leigos. Porém, dos textos promulgados não emerge um desenho completo e orgânico do papel destes na doutrina e na pastoral. Não era essa a intenção dos padres conciliares. No entanto, o uso de conceitos como «Povo de Deus» ou «Comunhão», procuram esse ideal : a Igreja, graças ao Batismo, como participação de todo o corpo eclesial.

Ao acompanhar o Papa Francisco nos seus gestos e nas suas palavras, esta forma de Igreja entra em ruína... O apelo que faz, respeitando os ministérios de cada um, destrói esta dualidade. A atenção que dá aos pobres e a quem com eles trabalha é uma das suas marcas de água. Se acompanharmos as homilias das celebrações em Santa Marta, vemos o cuidado com que se refere aos leigos e a luta contra as «zonas de conforto» em que a hierarquia pode «cair em tentação».

A valorização inegável dos leigos está, sobretudo, na ativa participação no ministério da Igreja, enquanto catequistas, animadores litúrgicos, colaboradores na assistência aos pobres e doentes... Mas se ficarmos apenas por esta colaboração, caímos, de novo, no clericalismo... Se os vemos apenas como colaboradores ou como suplemento da ação do sacerdote, favorecemos e perpetuamos esta dualidade e pomos em risco a construção de uma verdadeira comunidade de batizados. Surge assim, como necessária, uma formação mais profunda do que é ser Igreja, na palavra e na ação.

Creio que o papel fundamental dos leigos, além da caridade, está na evangelização pelo testemunho da vida quotidiana. O Evangelho será melhor anunciado, quanto melhor for narrado por cristãos adultos na fé no confronto com os outros adultos. Sem dúvida que o clero, seja na condição de serviço à Igreja universal ou particular, terá sempre a responsabilidade desse primeiro anúncio à comunidade humana. Mas é impensável que seja o único. A Igreja precisa de pessoas comprometidas e empenhadas em evangelizar o mundo.

Os leigos anunciam o Evangelho onde vivem, por palavras e obras; vivem de várias formas o múnus profético, real e sacerdotal recebido pelo Batismo; contribuem, através da sua especificidade, para a compreensão do Evangelho na Igreja e do «nós» na vida eclesial.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EuuEElVVAVLFGJQpFg


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