quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Iraque : Cristãos perseguidos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Jean Benjamin Sleiman,
Arcebispo de Bagdá


 A perseguição sofrida pelos cristãos no Iraque não é somente o resultado do fundamentalismo islâmico, que atingiu o seu apogeu com o autoproclamado Estado Islâmico, mas responde igualmente a cálculos políticos e projetos de desintegração do Médio Oriente que remontam aos anos 50 do século XX.


‘A perseguição dos cristãos no Iraque alcançou o seu apogeu com a invasão do país pelos jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico. Assistiu-se a uma longa sucessão de atentados com carros-bomba contra lugares de culto cristãos, sequestros, assassínios, expropriações, assaltos à mão armada, ameaças para os abater, discriminação para os desalentar, pressões psicológicas para os exasperar, discursos cheios de ódio para incitar ao exílio, etc.

Entre 1 de Agosto de 2004 – em que várias igrejas foram atacadas com bombas – e a invasão do Estado Islâmico, os cristãos do Iraque foram alvo de três grandes ondas de perseguição : Dora, um subúrbio da capital, no período 2006-2007, esvaziou-se de cristãos; em Outubro de 2008, Mossul e a província de Nínive; aldeias cristãs com Mossul novamente em Junho, Julho e Agosto de 2014. Em todos os casos, os extremistas advertiram os cristãos a tornarem-se muçulmanos ou a pagar o jiziah, a taxa dos dhimmis para a sua sobrevivência, ou a irem-se embora sem levar nada. O imposto poderia ser substituído pelo recrutamento de jovens cristãos para a guerra ou de raparigas para o nikah e a jihad [as noivas da Jihad, isto é, para se unirem à milícia e terem filhos para os educar em combate – ndr.]. Os cristãos tiveram de ir para o exílio, deixando tudo. Se tivessem ficado, seria legítimo matá-los, ato justificado por Deus de acordo com a lei Sharia, o código das leis e da jurisprudência islâmicas.

A perseguição é, portanto, o resultado do fanatismo religioso muçulmano que faz estragos no Iraque. Todavia, a perseguição não parece uma criação espontânea. Parece-me a ponta de um grande icebergue. Em vista disso, tem de se explorar esta montanha para encontrar um melhor diagnóstico, e um remédio efetivo. Para isso, proponho responder a três perguntas : de onde nasce a perseguição? Quem são os seus patrocinadores? Como detê-los?


De onde nascem as perseguições?

Uma das características fundamentais da perseguição é que não se produz por casualidade. É organizada de forma voluntária, às vezes de maneira premeditada – é o produto de uma história, de um processo, de uma evolução, num contexto cultural particular. A perseguição dos cristãos no Iraque, que marca a evolução deste país desde 2003, vem de muito longe.

Em 2003, cai a ditadura [de Saddam Hussein – ndr], e a sociedade fica entregue a si mesma. Os seus conflitos, os seus muitos problemas congelados durante demasiado tempo… tudo rebenta. Privada do Estado, que sucumbe à anarquia, uma regressão inexorável, sem nenhum tipo de refúgio... O tribalismo tem o protagonismo. A religião, a dominante, «fundamentaliza-se», «confessionaliza-se» e legitima assim a perseguição.

Em vez de proteger a cultura e a mentalidade da regressão, a religião já não enfrenta a violência para reconciliar. Este tipo de violência incide na cultura e nas estruturas que nunca perderam o seu fundo tribal, no sentido etnológico.

Em lugar da fundação da alteridade, de aceitar a diferença, para recriar a relação entre unidade e pluralidade, deixa-se monopolizar pelos fanáticos, pelos ignorantes, pelos oportunistas, pelos líderes em busca de legitimidade, pelos homens da religião, sedentos de poder, a religião dos muçulmanos que se reproduz todos os dias para legitimar os excessos, a discriminação, a perseguição. Das novas estruturas políticas – entre as quais a Constituição – apesar da sua abertura à modernidade, apesar do progresso sério em favor da liberdade, o que resta é para se imbuir da religião, e utilizaram-na para a explorar. Acerca deste ponto, o artigo 2 da Constituição di-lo amplamente [o artigo 2 da Constituição iraquiana estabelece que o Islão é a religião do Estado; a alínea A determina que nenhuma lei que contradiga o Islão pode ser promulgada. Segundo vários especialistas, é possível que se use este parágrafo para ir contra outras liberdades – que também a Constituição defende – ndr].


Quem patrocina a perseguição?

A perseguição é um fenômeno complexo. A nossa história no Médio Oriente ensina-nos que pode ser óbvia ou subtil, sistemática ou ocasional, como uma torrente ou um sussurro furioso. Pode envolver diferentes atores sociais ou políticos. Pode ser o trabalho de um grupo ou de uma ação individual. O nacionalismo árabe, que chegou ao poder em alguns países, recorre à violência e à perseguição. O fundamentalismo religioso, que quer substituir-se nisso, não é menos ardente em recorrer à violência e à perseguição. A política internacional, que se desdobra para assegurar os seus interesses na região, contribui para a instabilidade e incita às ações extremistas e à perseguição.

O que vemos são os executores e não os seus patrocinadores. Vemos as tragédias e nunca estamos seguros do quê ou a quem vão servir.

Olhando superficialmente para o Iraque, não se pode não estar consciente da «limpeza étnico-confessional». E por detrás dos protagonistas visíveis não são visíveis as forças dos facilitadores e «desfacilitadores» da história humana?

Desde os anos 50 do século XX que se fala de um novo Médio Oriente, dilatado, grandioso, etc. Este projeto de remodelação da sociedade, de homogeneizar os grupos humanos, de os transferir, eliminar, de exilar outros, não prepara o caminho para a perseguição?

Perseguir os cristãos no Iraque e obrigá-los a exilar-se, a cortar as pontes entre os grupos étnicos e confissões durante a reconstrução, sempre os cristãos; eliminar os mediadores e moderadores que eram cristãos; provocar as comunidades, que se distanciarão umas das outras em direção a um narcisismo político-social-cultural. A violência será – como diz a Bíblia acerca de Caim – essa besta selvagem que atingirá um e outro, porque as contendas não mais acabarão: «Porque te encolerizaste? Porque descaiu o teu semblante? Se procedes bem, não serás enaltecido? Mas se não procedes bem, o pecado está à porta; para ti é o teu instinto, mas é preciso dominá-lo» (Gn 4, 6-7).


Como conter a perseguição?

Parece claro que vamos ter de lutar em duas frentes. No interior, é essencial voltar a examinar a cultura e as estruturas. Temos de trabalhar muito na educação, na formação contínua dos valores e comportamentos da população civil… é um grande trabalho para fazer no âmbito das leis para eliminar a discriminação. Mas também para refundar a cidadania a fim de estabelecer «a igualdade, a fraternidade e a liberdade».

Na frente externa, o principal é deter a desestabilização política da guerra através de terceiros, a nível regional e internacional, recordando que a paz é a melhor forma de conceber os seus próprios interesses e de coexistir em condições de segurança. Voltando ao Iraque, isto é necessário para ajudar o Estado a ser novamente a instituição fundamental da sociedade, que anima, regula, dá abrigo e a salva da sua própria violência. O Estado, apesar de todos os limites possíveis, será a melhor garantia para uma convivência entre os cidadãos.’


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