quarta-feira, 9 de abril de 2014

O sonho missionário

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Francisco Machado,
Missionário Comboniano


‘Finalmente chegou o dia do baptismo e primeira comunhão de 60 adolescentes que terminavam uma caminhada de três anos de iniciação cristã e se comprometiam num novo estilo de vida. Este dia tinha sido preparado com uns cuidados muito especiais, porque a vida em Dzogborve definhava de dia para dia. Dzogborve é uma pequena aldeia meio abandonada devido à sua pouca importância económica e ao grande fluxo migratório, especialmente em direcção à capital, Acra.

Esta aldeia fica situada no Volta Region, região bem conhecida do Gana pela enorme barragem que aí foi construída e que deu origem a um enorme lago artificial, talvez um dos maiores do mundo.

A importância dada ao ensino é muito pobre e seria mesmo sem qualquer relevância se não fosse o grande contributo oferecido pelos missionários combonianos. Estes construíram a escola e apelam constantemente para a necessidade de novos professores. Uma das consequências do baixo nível cultural é a dificuldade que o povo de Dzogborve sente em abandonar muitas das suas nefastas práticas tradicionais, baseadas no medo e na vingança.

Assim, no dia 20, eu acordei por volta das 4.30 da manhã e preparei-me como habitualmente para o meu “safari”. Já com o saco de trabalho missionário às costas e quando retirava a moto da garagem, uma visita atrasou a minha partida. Uma jovem dos seus 19 anos de idade e com um rosto muito triste e pesado apresentou-se e disse: «Sr. padre, não sou cristã, mas porque tenho muita estima por vós e pela vossa Igreja, gostaria que escutasse a minha mágoa.”


Ser útil ao povo

Deixando o saco e esquecendo completamente a minha tão esperada celebração em Dzogborve, escutei esta menina. Com o rosto um pouco escondido, ela disse: “Desde criança que trabalho para poder frequentar a escola e acredito que o meu esforço um dia será útil ao meu povo. No fim de tão longa caminhada, consegui a admissão na universidade para estudar enfermagem.” E continuou: “Dirigi-me a quem me poderia ajudar. O meu pai disse-me que os seus recursos não chegavam para prover às necessidades das suas três esposas. O meu tio disse-me que me ajudaria se me entregasse a ele. Eu, por mim, prefiro não estudar e ser eu mesma, que ser um dia enfermeira mas sem a minha dignidade de mulher e de africana. Confesso-lhe que ainda não perdi a coragem.” Sentindo todo o seu sofrimento, assegurei-a de que a missão a ajudaria nos seus propósitos.


Agruras da vida

Feita a despedida, pus-me a caminho para Dzogborve. Nesse dia a estrada de terra batida estava mais estragada do que habitualmente, porque tínhamos já entrado na estação das chuvas. Parecia-me também mais longa, muito embora o coração me palpitasse de expectativa e os lábios balbuciassem canções de alegria. Subitamente, um relâmpago iluminou os céus e um forte trovão atroou aos meus ouvidos. Aí estava a chuva tropical tipicamente africana que, num instante, deixou a minha estrada quase impraticável. Como se estes imprevistos não fossem suficientes para me indicarem a dificuldade de realizar a tal viagem, dei-me conta de que a roda da frente da moto estava quase vazia. “Não faz mal”, disse em voz baixa e um pouco ansioso; “cheguei até aqui, não voltarei para trás, para frente é que é o caminho”.

Embora com hora e meia de atraso, por fim cheguei à minha comunidade. Estava molhado da cabeça à ponta dos pés, mas o meu entusiasmo renovou-se quando vi o rosto paciente e surpreendido dos cristãos e catecúmenos que cantavam um pouco para esquecerem o seu desencanto. Já ninguém esperava que o missionário chegasse, nem mesmo o catequista, que, no entanto, tinha iniciado uma pequena celebração.

Ao entrar, notei que ao fundo da sala, onde chovia quase tanto como lá fora, se encontrava a senhora Mawusi - nome que significa nas mãos de Deus. Esta senhora, embora sendo a mãe do catequista e gostasse muito de Jesus, não conseguia libertar-se das práticas religiosas tradicionais.

Ainda antes do início da Eucaristia dirigi-me a ela e disse-lhe: “Então, senhora Mawusi, é hoje que vai receber Jesus?” Com uma certa tristeza, respondeu-me: “Sabes que eu gosto muito de Jesus, mas não posso abandonar aqueles a quem sirvo há já tanto tempo (referia-se aos ídolos que herdara dos seus antepassados), caso contrário levar-me-ão à morte e castigarão a minha família”. Sim, mais uma vez, senti e experimentei quanto custa deixar tudo e confiar n’Aquele que morreu e ressuscitou para trazer uma nova vida aos homens.


Terror dos espíritos

A celebração ultrapassou em muito todas as minhas expectativas, não só porque participei na alegria de muitos jovens que se viram definitivamente livres das fortes cadeias do medo, mas também porque a celebração não terminou com a Eucaristia. Enquanto muitos cantavam e dançavam à chuva, alguns apressaram-se a reparar o furo da moto; eram só seis buracos!

Uma senhora bastante idosa aproximou-se e disse-me em voz submissa mas confidente: “Uma vez que já sou filha de Deus e que tenho Jesus como amigo e protector, já não necessito dos ídolos que me mantiveram sob o terrível e poderoso peso do medo durante toda a minha vida. Quero que hoje mesmo venha a minha casa, os retire e leve consigo. Desejo mostrar ao meu povo e à senhora Mawusi que, com Jesus, nada temos a temer.”

Não hesitei e acompanhei a velhinha, que agora apresentava um ar mais alegre, mas um pouco temeroso. Depois de uma breve oração, retirámos todas a estátuas, mesas, bancos e bonecos, tudo em miniatura, juntamente com algumas moedas e facas. Quando regressávamos para junto da comunidade que cada vez se animava mais na sua festa, ouviu-se a voz já bem mais firme e confiante da nossa simpática velhinha: “Pai do Céu, obrigado porque me permitiste conhecer e confiar no Teu Filho”.

Nada mais belo para o missionário do que sentir a realização do seu sonho da vida, ao ajudar as pessoas a experimentarem e partilharem a alegria da libertação conseguida através de Jesus Cristo. Era a realização do desejo de Jesus: “Eu vim para que tenhais a vida e a tenhais em abundância.”’


Fonte :
*Artigo na íntegra http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EEuuEFAApZkbXyorPZ


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