sexta-feira, 25 de abril de 2014

Missionárias Combonianas em Israel : Flores no deserto

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
* Artigo de Padre E. Ismael Piñón,
Missionário Comboniano


 Em Israel, a terra de Jesus, há realidades que não saltam à vista, como a situação dos beduínos ou a tragédia dos imigrantes e refugiados africanos que chegam a este país depois de uma infernal odisseia no Sinai. A estas duas realidades entregam-se de corpo e alma duas missionárias combonianas : a espanhola Alicia Vacas e a eritréia Azezet Habtezghi.


‘As Missionárias Combonianas já trabalham há muitos anos na Terra Santa. Vivem em Betânia, numa bonita casa literalmente pegada ao muro de segurança que separa Jerusalém da zona palestina e na qual têm um pequeno jardim-de-infância frequentado por meia centena de crianças. Quando o Governo israelita levantou o muro, cortou-lhes praticamente a possibilidade de estar em contacto com as pessoas. Desde então, duas delas, as Irmãs Alicia Vacas e Azezet Habtezghi, vivem numa pequena casa arrendada do outro lado do muro, apenas a cinquenta metros da casa de Betânia, mas à qual só se pode chegar fazendo um desvio de 18 quilómetros. Não foi uma decisão fácil, mas se queriam estar presentes no meio das pessoas, não lhes restava outra alternativa.


Beduínos

Várias vezes por semana vão visitar os acampamentos de beduínos, uma comunidade que vive completamente marginalizada e cuja subsistência depende quase exclusivamente do que recebe das Nações Unidas. Quando se criou o Estado de Israel, em 1948, muitos deles negaram-se a ir para o Exército israelita para cumprir o serviço militar, o que teve como consequência ser-lhes negado o passaporte e verem-se votados a um abandono total por parte de Israel.

A Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) também não se preocupa com eles, o que faz com que seja um povo abandonado à sua sorte. Vivem precariamente no deserto da Judeia, entre Jerusalém e Jericó. Pelo menos, têm o estatuto de refugiados, o que os coloca sob a protecção das Nações Unidas. Na actualidade, a ONU tem registados 24 acampamentos nestas condições, onde vivem cerca de 450 famílias no total, à volta de quatro mil pessoas.

Quando começaram os colonatos judaicos’, conta-me Alicia enquanto conduz o carro por uma estrada empedrada a caminho do acampamento de Wadi Abi Hindi, ‘construíram-se justamente sobre as fontes de água e criaram-se zonas de segurança ao seu redor, nas quais os beduínos não podem entrar, pelo que já não têm acesso à água. Não têm, igualmente, a possibilidade de apascentar, e sem esta forma de sustento animal, eles não podem alimentar os rebanhos, ficando sem o seu principal recurso para sobreviver. A pouca água que têm no acampamento chega-lhes através de uma simples canalização à superfície a partir de um povoado palestino que se encontra a 14 quilómetros.’ A dado momento do nosso trajecto, passámos diante da lixeira de Jerusalém Este, onde o Governo israelita tinha planeado abandoná-los. Por sorte, o plano chegou aos ouvidos das Nações Unidas e pôde ser travado.

À medida que crescem os colonatos judaicos, vai-se reduzindo o espaço vital dos beduínos. Vivem praticamente em reservas ao ar livre. Ao não poder alimentar o gado, foram-no vendendo. Cada família mantém apenas dez ou doze cabras, quando antes os seus rebanhos somavam 200 ou 300 animais. ‘Perderam a sua forma de vida tradicional e tornaram-se dependentes das Nações Unidas, que a cada três meses, desde há 65 anos, lhes dá uns sacos de farinha, lentilhas, umas latas de azeite ou de açúcar’, queixa-se amargamente Alicia.

Por definição, os beduínos estão todos no deserto’, comenta Alicia. ‘Não têm autorização de construção, não podem ampliar a casa, por exemplo, quando se casa um filho. Vivem em barracas de chapa de zinco ou de madeira. Se construírem uma barraca para os animais, inclusive, é imediatamente demolida. Em quase todos os lugares onde trabalhamos há ordens de demolição pendentes. Daí nasceu a ideia de construir uma escola com rodas de carro. Não tem alicerces, nem estrutura metálica, nem cimento. Mas até essa, antes de estar terminada, já tinha a ordem de demolição. A nós, confiscaram até os baloiços de um centro de educação infantil.


Prioridade para a educação

A presença das Combonianas nesta realidade data de 2007. Primeiro de maneira muito simples, visitando as famílias para conhecer a sua realidade e saber quais eram as suas necessidades mais urgentes. ‘Com outra Irmã e um membro da ONG Rabinos pelos Direitos Humanos, comecei a ir de acampamento em acampamento’, afirma a Irmã Alicia, que acrescenta : ‘Aí dei-me conta de que para eles a primeira prioridade era a educação. São conscientes de que os seus filhos não vão ser beduínos, que a sua forma de vida tradicional está a acabar e que não têm outras alternativas, e vêem na educação a única saída. Por isso, vamos onde formos, pedem-nos sempre escolas. Dão muitíssima importância à educação. Começámos então a colaborar com outros organismos para a construção das escolas e a formar raparigas dos acampamentos para que possam ser professoras.’

À parte a educação, o tema sanitário ocupa o segundo lugar nas prioridades. Graças à ajuda de outros organismos, conseguiram formar como agentes de saúde 18 jovens beduínas, três das quais foram contratadas pelo Ministério da Saúde palestino e são já funcionárias públicas.


Uma tragédia no Sinai

Tanto a Irmã Alicia como a Irmã Azezet colaboram também com a ONG Médicos pelos Direitos Humanos (MPDH), uma organização internacional cuja delegação israelita se ocupa especialmente daquelas pessoas que em Israel não têm acesso à assistência sanitária. Além de uma clínica móvel, que se desloca todos os sábados a território palestino para oferecer um serviço especializado, a MPDH tem uma clínica aberta em Jaffa, na periferia de Telavive, onde atende nomeadamente as pessoas que não têm médico seguro nem gozam de qualquer tipo de seguro de saúde; entre eles, os refugiados e imigrantes sem papéis, a maioria dos quais são africanos.

Enquanto vamos a caminho da visita a este centro, a Irmã Alicia dá-me pormenores de uma realidade trágica que brada aos céus. ‘Em 2007, começaram a chegar mais de cem sudaneses por dia, quase todos do Sul, devido à violência que se vivia naquele então Sudão Meridional. A clínica entrou em colapso e a ONG Médicos pelos Direitos Humanos começou a questionar-se a que se devia essa enorme afluência de sudaneses.’

A comboniana prossegue o seu relato : ‘A nossa surpresa aconteceu sobretudo quando vimos que vinham com feridas de bala. Logo de seguida, começaram a chegar pacientes com sinais evidentes de tortura; chagas infectadas, golpes, ferimentos provocados pela corrente eléctrica, queimaduras de plástico... Ao princípio, aquilo ultrapassava-nos, porque não tínhamos nem o tempo nem a capacidade de compreender o que se estava a passar. Os pacientes falam pouco, estão traumatizados, não querem contar muito, não sabem a língua.

Nesse contexto, entre 2008 e 2009, fez-se um estudo sobre o número de mulheres que tinham chegado à clínica a pedir para abortar, porque diziam que as tinham violado no Sinai. ‘Em pouco tempo’, prossegue a Irmã Alicia Vacas, ‘o número tinha duplicado, e quase todas aduziam a mesma razão : que as tinham violado no Sinai. Aquilo cheirava-nos mal por todos os lados. Começámos a investigar e a fazer um questionário a todos os que chegavam. O que nos acontecia do ponto de vista médico, sucedia também a outras organizações de apoio social.’

Foi nessa época que chegou a Irmã Azezet. Para Alicia e os demais médicos, foi como um presente de Deus, porque ao ser eritréia e ao ter trabalhado no Sudão conhecia a língua e podia comunicar-se sem problemas com os refugiados que chegavam. Antes de entrar no processo médico, Azezet tinha uma entrevista com eles para tentar saber o que se estava a passar no Sinai.


Rede de tráfico

Esta comboniana eritréia fez mais de 1800 entrevistas e o que descobriu foi aterrador : havia toda uma rede de tráfico de seres humanos desde os seus países de origem ou desde os países limítrofes, campos de refugiados da Etiópia, do Sudão ou Egipto até Israel, através do Sinai. ‘Cada vez se via com maior clareza como funciona a coisa’, explica-me a Irmã Alicia. ‘Nos seus próprios países ou nos campos de refugiados, alguém se aproxima deles e oferece-se para os passar para Israel por um preço entre os 2000 e os 2500 dólares. Mas quando chegam ao Sinai são retidos e submetidos a tortura e extorsão. Os 2500 dólares vão subindo e multiplicando-se. Põem-nos ao telefone com as famílias para que mandem mais dinheiro. Quanto mais tarda em chegar o dinheiro, mais se incrementam as torturas ou são vendidos a outros grupos. Temos pacientes que estiveram nove meses no Sinai. Alguns a trabalhar como escravos a cuidar dos camelos, outros a sofrer castigos corporais, as mulheres, na sua maioria, como escravas sexuais. O que seja até que consigam pagar. Agora ainda estão a pagar até 40 mil dólares por sair do Sinai.’

O enorme esforço de escuta das vítimas e o seu grande trabalho para dar a conhecer e denunciar esta situação valeu à Irmã Azezet ser galardoada com vários prémios internacionais, entre os quais sobressai o Prémio Heróis contra o Tráfico de Pessoas, do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que recebeu em Julho de 2012.


Mulheres desesperadas

Na parte sul de Telavive há também uma casa de acolhimento para mulheres que permaneceram vários meses no deserto do Sinai. Enquanto vamos visitá-la, Alicia e Azezet põem-me ao corrente da situação destas mulheres, a maioria das quais foram violadas e chegam a Israel grávidas de seis ou sete meses e com o desejo de abortar. A Irmã Azezet é para elas uma tábua de salvação, porque podem falar e desabafar com ela. Em Julho, a casa foi atacada pelos vizinhos. ‘Uma casa que recolhe somente mulheres grávidas e bebés’, protesta a Irmã Alicia. Neste momento há 17 mulheres grávidas ou com bebés nessa casa, que necessitam de protecção.

A Irmã Azezet vai a Telavive todas as terças-feiras e fica a dormir lá. De manhã, faz um trabalho de seguimento e acompanhamento, visitando especialmente as mulheres. À tarde, ajuda na clínica. É ela que suporta toda a carga emocional, já que ao conhecer a língua e a cultura dos imigrantes é quem escuta os seus testemunhos, as torturas e os vexames que sofrem. Está constantemente a receber chamadas telefónicas de todas as partes, gente desesperada que procura nela uma palavra de consolo ou simplesmente um coração aberto que escute as suas penas e lhe dê um pouco de paz. Não é fácil, porque as sequelas humanas que a tortura ou a violação deixam são enormes. ‘Em poucos meses, tivemos três casos de suicídio, casos de violência doméstica ou alcoolismo. Várias organizações humanitárias, juntamente com a União Europeia, iniciaram um programa de reabilitação e ajuda a esta gente e deram-lhe o nome ‘Projecto Azezet’’, explica a comboniana espanhola.


Tudo e para sempre

Já em casa, converso amigavelmente com estas duas missionárias que são como duas flores no meio do deserto israelita. Chama-me enormemente a atenção a sua vitalidade e, sobretudo, a sua alegria. A resposta, dão-ma elas mesmas : o segredo está na sua fé em Deus e na convicção de que a sua vocação está enraizada em Cristo.

Alicia decidiu-se a consagrar a sua vida depois de uma Páscoa missionária em que participou quando tinha 17 anos. ‘Foi fundamental para a orientação da minha vida’, confessa. ‘Desde então, começou uma reflexão sobre para onde estava a levar a minha vida, que espaço tem a missão nela e o que tem que ver Jesus Cristo com esta missão. Foi como um chamamento a passar de uma inquietude pelo social, pelos pobres e a missão a ir mais além. Para mim, foi-se confirmando cada vez mais a vocação de consagrada, que no princípio não entrava nos meus horizontes nem no meu programa original, mas que encaixava como resposta a esse chamamento que eu sentia dentro de mim. Quando queria encaixar a missão na minha vida de fé, a resposta que me surgia sempre era “tudo e para sempre” e isso agradara-me ou não implicasse uma consagração.’

Azezet começou a trabalhar com leprosos. A sua primeira missão foi o Sul do antigo Sudão, onde passou treze maravilhosos anos, segundo ela própria confessa. Para ela, a chave de tudo é a sua convicção de que Deus é Pai de todos. ‘É a primeira vez que venho a Israel e que tenho contacto com o povo judeu, as suas sinagogas, as suas orações, a sua crença e a sua visão’, afirma. E acrescenta : ‘São os nossos antepassados na fé, Jesus era hebreu. Sou afortunada por ter crescido em Massawa, onde a maioria é muçulmana, todos os meus amigos e colegas de escola eram muçulmanos. Na Etiópia também há coptas e protestantes. Para mim, Deus é único, para as três religiões é o Pai de todos, que ama a todos e nos criou à sua imagem e semelhança. Todos – judeus, católicos, muçulmanos ou protestantes – somos filhos de Deus, criados à Sua imagem. A diferença está em que nós partimos de baixo, das nossas diferenças, em vez de partir de cima, da nossa crença de que todos somos imagem de Deus.’


O nosso lugar

Israel é um país com uma situação muito complexa, com realidades tão distintas como são os beduínos ou os refugiados. Porém, ambas respondem a uma única pergunta, que é uma pergunta muito comboniana : ‘Quem são os mais pobres e abandonados aqui e agora?’ Esta é a pergunta que ressoava na comunidade das Combonianas quando a Irmã Alicia chegou : ‘Projectávamos como dar resposta a esta situação concreta como combonianas. O nosso ser missionárias coloca-nos nas fronteiras, sejam geográficas, culturais ou humanas. Estes dois grupos humanos com os quais escolhemos trabalhar são a resposta à pergunta de onde devemos estar neste momento. Onde estejam essas fronteiras, aí está o nosso lugar.’

O facto de viver em Jerusalém não é alheio à vivência que estas duas missionárias têm da sua vocação. Aqui, na Terra Santa, tudo se vê e se vive de maneira diferente. ‘Parte da serenidade, da força, da alegria que recebemos vem da certeza de que nesta terra a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo ainda se vivem hoje’, confessa a Irmã Alicia.

Por seu lado, a Irmã Azezet admite : ‘Com Jesus Cristo, sinto-me mais enraizada na minha fé. Ao encontrar tanto sofrimento, sinto que Cristo vive a cruz comigo e me ajuda a viver as cruzes e sofrimentos que encontro todos os dias nas pessoas. Esse sofrimento faz-me entrar na vida de Jesus, na sua cruz, e isso ajuda-me em todos os sentidos, faz-me ser mais radical, já que não posso passar de maneira superficial pela vida que encontro em cada dia.’

Estes povos e esta terra são para elas uma riqueza inegável : ‘Vejo como a minha vida e o meu caminho espiritual se dilatam quanto mais conheço e quanto mais participo na sua vida, nos grandes acontecimentos como o casamento, o nascimento de um filho, a morte…’, reconhece Alicia, para acrescentar que ‘é algo específico que dá um sentido muito pessoal à minha própria experiência da vida, da morte, da dor, do sofrimento, do conflito, do perdão.’’


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFAyVkkpuAONaCqaKw
  

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