Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘A primazia
da história, a leitura dos textos sagrados, a relação de amizade com o Senhor,
a oração. São numerosos os temas abordados pela constituição dogmática Dei
Verbum que o Papa Leão XIV colocou no centro da catequese da audiência
geral da quarta-feira, na Sala Paulo VI, no âmbito do novo ciclo dedicado à
redescoberta dos documentos do Concílio Vaticano II. ‘A Dei
Verbum esclarece qual é o significado e a maneira pela qual Deus se
revela aos homens’, afirma padre Maurizio Girolami, presidente da
Associação Bíblica Italiana. E ‘é significativo – acrescenta – que o Papa tenha
querido começar justamente pela introdução deste documento, onde se define o
diálogo entre Deus e os homens como um diálogo que ocorre em uma relação de
amizade’.
Uma longa
gestação
‘Deus se
revela em primeiro lugar através de palavras autênticas’, acrescenta padre
Girolami, lembrando como, a esse respeito, o Papa destacou ‘a diferença’ entre
a palavra e a conversa de circunstância, bem como a importância de se dedicar à
oração. ‘Deus se revela também através de eventos intimamente relacionados’,
sublinha o sacerdote, que convida a considerar a longa gestação que teve
a Dei Verbum, texto aprovado em 18 de novembro de 1965, poucas
semanas antes do encerramento da assembleia, em 8 de dezembro. ‘Na verdade,
porém, foi um dos primeiros textos a ser apresentado pela comissão preparatória’.
O contexto
histórico-cultural
Qual é o
motivo desse longo processo? ‘Os padres conciliares – explica o sacerdote –
precisavam chegar a um acordo sobre como entender a revelação cristã : se
apenas como palavras, verdades reveladas, ou se, como ensina a Sagrada
Escritura, havia uma história a ser acolhida, composta tanto de palavras quanto
de eventos’. O contexto cultural, teológico e filosófico da época, ainda
marcado pelo iluminismo e pelo positivismo, bem como pela grande controvérsia
com a reforma protestante, estimulou essa reflexão que levou a colocar a
história no centro do mistério da revelação divina. ‘Não se trata apenas de ter
textos – afirma padre Girolami –, o cristianismo não é a religião do livro,
mas, como também nos disse o Papa Bento XVI, é em primeiro lugar o encontro com
Jesus, do qual certamente a Sagrada Escritura é a testemunha privilegiada, mas
não sem o leito que a transporta, ou seja, a tradição e a vida da Igreja’.
O olhar sobre
a realidade
Padre
Girolami também cita a recente carta apostólica do Papa Leão, Uma
fidelidade que gera futuro, divulgada em 22 de dezembro passado, por
ocasião do sexagésimo aniversário dos decretos conciliares Optatam
totius e Presbyterorum Ordinis. Os dois documentos
sobre a formação sacerdotal estão em plena sintonia com o espírito da Dei
Verbum. ‘Os padres conciliares – explica ele – pediam uma revisão profunda
dos estudos de teologia, porque obviamente não se tratava mais de estudar as
verdades reveladas, como se Deus quisesse revelar algo de si mesmo de forma
abstrata, como se fosse uma filosofia a ser aprendida, mas era preciso voltar
ao contexto da história, sabendo ouvir a história’.
‘A Bíblia –
continua padre Girolami – nos diz que é através de rostos, encontros e pessoas
que Deus revela seu plano de salvação’. E é justamente aí que reside o poder da
constituição dogmática, que convida todos os fiéis – não apenas os
especialistas – a ler a Sagrada Escritura e a alimentar a familiaridade com os
Textos Sagrados. ‘É graças à Dei Verbum – sublinha ainda o
presidente da Associação Bíblica Italiana – que hoje podemos dizer que o Senhor
continua a acompanhar a sua Igreja e a revelar o seu rosto através da vida da
Igreja. A nossa catequese, o nosso ensino teológico já não é uma repetição de
fórmulas pré-fabricadas, por mais corretas que sejam, mas que correm o risco de
não comunicar nada. Em vez disso, é a Igreja que se questiona continuamente
sobre como anunciar o Evangelho eterno de Jesus Cristo na história, no hoje,
com a linguagem do homem contemporâneo’.
O processo de
renovação
O documento,
portanto, ofereceu a estrutura teológica para todo o Concílio Vaticano II. ‘A Dei
Verbum nos permite compreender qual foi o espírito e a perspectiva
correta com a qual a Igreja repensou a si mesma, sua missão no mundo, o sentido
da Sagrada Escritura e da tradição, e como viver a experiência cristã hoje,
dando primazia e valor à história e a este mundo amado por Deus’. Segundo padre
Maurizio Girolami, além disso, a intuição teológica da constituição dogmática
está na base de todo o processo de renovação estabelecido pelo Concílio : da
liturgia à linguagem, até às estruturas e instituições. ‘Provavelmente –
conclui – se não tivesse havido a Dei Verbum, toda a vida da
Igreja, a nova evangelização de todos os últimos Pontífices, não teria tido a
profundidade teológica que teve’.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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