Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Foi no
continente africano, vasto e multifacetado, que os primeiros ancestrais do ser
humano surgiram e se desenvolveram dando base às demais civilizações. Saindo
das areias do Saara até as densas florestas do Congo, das terras férteis do
vale do Rio Nilo até as savanas do sul, em seu passado a África abrigou
impérios florescentes, reinos e sociedades complexas muito antes do advento das
grandes nações europeias que posteriormente subjugariam e explorariam suas
riquezas.
O brilho da
África sempre esteve presente na história do mundo, porém, muitas vezes foi
obscurecido pelos interesses daqueles que, pela arrogância e voracidade,
tentaram apagar a grandeza de seus povos.
Povos e
civilizações
Diversos
povos africanos desenvolveram sofisticadas culturas e avançadas formas de
organização política e social. O Antigo Egito, frequentemente citado por
narrativas ocidentais como se fosse uma civilização isolada do restante do
continente, na verdade, se constitui num dos muitos exemplos da riqueza
histórica africana. O Reino de Kush, ao sul do Egito, localizado onde existe o
Sudão, floresceu como potência militar e econômica, chegando a governar a terra
dos faraós em um período conhecido como Dinastia Núbia. A grandiosidade de
Timbuktu, no Império Mali, se rivalizava com as mais célebres cidades europeias
da Idade Média, como um centro de saber, onde se reuniam estudiosos, filósofos
e matemáticos que alimentavam a ciência muito antes do Renascimento europeu. No
Império de Gana, riquezas incalculáveis em ouro circulavam por rotas comerciais
que conectavam a África ao mundo islâmico e mais além.
Enquanto a
Europa vivia no sistema feudal, os reinos africanos já haviam estabelecido
dinâmicas comerciais bem sofisticadas. No Zimbábue foram erguidas edificações
em pedra sem o uso de argamassa, um feito arquitetônico notável. O Reino do
Congo já mantinha diplomacia com Portugal no século XV, mostrando que os povos
africanos não eram meramente receptores passivos da presença estrangeira, mas
agentes de suas próprias histórias. No entanto, à medida que as potências
europeias foram conhecendo as imensas riquezas da África, iniciou-se a longa e
brutal campanha de exploração que definiria séculos de sofrimento e
resistência. O mercantilismo, muitas vezes explorando divergências entre reinos
e tribos locais, gerou séculos de colonização.
Confronto com
as civilizações ocidentais
A chegada dos
europeus não significou um intercâmbio pacífico de culturas, mas o início de
uma de uma triste página da história mundial graças à escravização
transatlântica. Milhões de africanos sequestrados de suas terras, arrancados de
suas famílias e acorrentados em navios negreiros cruzaram o oceano rumo às
Américas.
A partir do
final do século XV e início do século XVI, algumas florescentes sociedades
foram destruídas, com a fragmentação de estruturas políticas que haviam levado
séculos para serem construídas. Os impérios africanos, que haviam prosperado, foram
minados por uma política de desestabilização que visava garantir um fluxo
contínuo de seres humanos para alimentar a necessidade de mão de obra que
sustentaria a produção em outros continentes.
Maia tarde,
ao longo do século XIX, aconteceu a partilha da África em várias áreas de
influência e dominação. Fronteiras artificiais foram traçadas, povos que antes
coexistiam foram separados, e inimigos históricos foram forçados a compartilhar
o mesmo espaço, criando conflitos que repercutem até hoje.
As marcas da
colonização com a exploração de suas terras e de seus recursos agro-minerais
persistiram por muito tempo e ainda hoje não foram de todo superadas. Várias
regiões foram palco de exploração que geraram morte e perda de milhões de vidas
humanas.
Mas a África
nunca se curvou completamente. A resistência sempre esteve presente, desde as
revoltas contra o domínio colonial até os modernos movimentos de libertação.
Homens e mulheres lutaram pela liberdade com grande coragem e determinação. A
Etiópia, sob Menelik II, impôs uma das maiores derrotas a uma potência europeia
na Batalha de Adwa, mantendo sua soberania diante do imperialismo italiano.
Samori Touré resistiu bravamente ao domínio francês, assim como os Ashanti
contra os britânicos.
E, no século
XX, líderes como Kwame Nkrumah, Patrice Lumumba e Nelson Mandela desafiaram as
forças coloniais e neocoloniais, mostrando ao mundo que a África pertencia aos
africanos.
O continente
ainda carrega as cicatrizes da exploração, mas sua resiliência nunca se apagou.
A África continua sendo um berço de inovação, cultura e resistência, mesmo
enfrentando os desafios herdados do colonialismo. A história africana é uma
história de grandiosidade, e sua trajetória futura será escrita por aqueles que
continuam a desafiar os resquícios de um passado que tentou, mas nunca
conseguiu, apagar sua luz.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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