Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Talvez toda
identidade nasça do conflito. Heráclito, o filósofo pré-socrático, pensava que
tudo vinha do conflito. Em sua infância, a identidade cristã, também teve que
se envolver e se separar de fortes forças religiosas e filosóficas no judaísmo,
no pensamento grego e no gnosticismo. Alexandria, uma cidade fundada na visão
universalista, tornou-se o primeiro cadinho desse processo. Mesmo na época de
Cristo, quando Filo, o pensador judeu, estava reconciliando as mentes grega e
judaica, e a Bíblia hebraica estava sendo traduzida para o grego, Alexandria
era um lugar onde o diálogo, não a coerção, era a marca registrada da busca
pela verdade. Clemente de Alexandria, nascido talvez em Atenas em 150 d.C.,
gravitou em direção a esta extraordinária cidade de ideias e lá encontrou seu
mentor cristão. Panteno, que visitou e estudou a filosofia da Índia, foi o
primeiro chefe da primeira Escola Catequética no cristianismo, posição à qual
Clemente sucedeu. Quando essa temporada aberta de fermentação intelectual foi
encerrada pelas perseguições do início do terceiro século, Clemente, um homem
casado, foi forçado a arrumar seus livros e fugir, morrendo em algum lugar no
exílio por volta do ano 215.
Como o
primeiro teólogo místico, ele nos deixou um modelo duradouro de uma mente
cristã, tão profundamente colorida com a catolicidade da mente de Cristo, que
proclamou : ‘nada que não seja contra a natureza pode ser contra Cristo’. Um
humanista cristão que viu a Palavra de Deus, preparar-se duplamente para a
Encarnação por meio da filosofia grega, bem como da Bíblia hebraica, Clemente
apresentou o cristianismo de uma forma que o mundo educado poderia respeitar.
Imagine hoje o quanto melhor alguém se sente com suas crenças centrais sendo
representadas por um Ratzinger ou um Williams, em vez de um fundamentalista de
questão única. A mente católica de Clemente contrasta com a de seu contemporâneo
africano Tertuliano, cuja fé tinha um tom muito diferente – ‘o que Atenas tem a
ver com Jerusalém?’, ele perguntou com desdém. Mesmo como um ‘platônico cristão’,
no entanto, Clemente manteve as doutrinas fundamentais da Encarnação, a
natureza humana-divina de Jesus e de Cristo como salvador universal (‘todos têm
necessidade de Cristo’) não como um teste dogmático da ortodoxia convencional,
mas como uma revelação inspiradora. Para Clemente, a Encarnação é uma obra
tanto de ‘inscrição quanto de revelação’, e esse avanço contínuo na fé,
sustenta o frescor e amplitude de sua teologia, assim como deve ter
fundamentado e orientado sua oração. Nele, vemos que teologia e experiência não
devem ser separadas.
Clemente é o
primeiro teólogo a falar da salvação como ‘theosis’ (divinização). Não é um
processo legal. O pecado para ele, não é uma infração de regras que merece
punição, mas o resultado irracional da ignorância. Ele usa uma metáfora que
Juliana de Norwich também empregaria para ilustrar sua teologia da salvação – o
Adão que caiu em uma vala, porque não conseguiu pular e não conseguiu sair. O
segundo Adão veio para ajudá-lo, não para punir. É na profundidade sem imagem
da oração de alguém, que essa teologia da misericórdia salvífica nasce e
cresce. A salvação para Clemente não é um adiamento, mas liberdade, saúde,
conhecimento, vida. O ‘remédio do médico divino’, a Palavra que eternamente
‘segurou o leme do universo’ e que, encarnado, é conhecido como o ‘médico que
cura todas as enfermidades humanas e o santo encantador da alma doente’.
Saber disso é
fé. Clemente, portanto, vê os cristãos como ‘verdadeiros gnósticos’. Embora ele
defenda a crença cristã de uma oferta de aquisição pelo gnosticismo, ele não
nega como e onde a abordagem gnóstica é verdadeira. A visão de Clemente sobre o
crescimento pessoal do discípulo desse conhecimento espiritual, é expressa em
suas três grandes obras. O Protrepticus (Exortação), introduz a mente pagã a
Cristo como Logos com ênfase na crença. ‘Todos podem escolher acreditar ou não acreditar.’
No Paedogogus (Tutor), ele se concentra no trabalho educacional de Cristo e na
purificação do discípulo. Aqui vemos a primeira ilustração do que poderia ser
chamado de uma ‘espiritualidade’ cristã integral – a fé como um modo de vida
holístico com um significado socioeconômico, tocando em como as pessoas se
vestiam, comiam, usavam joias e perfumes, iam aos banhos, andavam, falavam e
faziam amor na câmara matrimonial. Em Stromateis (Carpetbags), um estilo mais
esotérico se dirige a alunos mais avançados, nos quais o conhecimento
experiencial direto da verdade já começou a aparecer. Esses três estágios da
jornada espiritual se tornarão normativos para toda a tradição. Cristo, o
Mestre, ‘treina o gnóstico por mistérios, o crente por boas obras, o duro de
coração por disciplina corretiva’. O neófito obedece por medo, motivado pelo
desejo de recompensas, o crente forma bons hábitos, o gnóstico obedece por amor
e não tem desejos, porque tem tudo o que precisa por meio do Espírito Santo e é
tão semelhante a Deus quanto é humanamente possível.
Irineu,
Atanásio e mais tarde Agostinho compartilharam com Clemente a crença patrística
fundamental de que a importância da Encarnação de Deus, é a divinização do ser
humano. Essa afirmação corajosa — que se tornou perigosa mais tarde na tradição
— atraiu os gnósticos da época, assim como atrai os mais vagos ‘New Agers’ de
hoje. O significado cristão da ideia, no entanto, é preciso e racional. Ela
vincula a experiência pessoal ao mistério sempre inefável da natureza de Deus.
A teose é obra do amor, não apenas do pensamento. Veremos continuamente em
nossa pesquisa da tradição que a contemplação é obra do amor. ‘Quanto mais
alguém ama a Deus, mais profundamente ele entra em Deus’, diz Clemente, e o que
torna isso possível é o que Aquino chamaria de ‘conaturalidade’. É uma ideia de
Platão que Clemente desenvolveu na fé cristã, por meio do versículo em Gênesis
que diz que o ser humano é feito ‘à imagem e semelhança de Deus’. Só podemos
conhecer aquilo com que somos semelhantes. É o nous (mente), a parte mais
interna da alma, de acordo com Platão, que torna possível conhecer Deus. Mas
traduzir isso como ‘intelecto’ hoje é enganoso. É muito mais próximo daquela
função da mente chamada ‘buddhi’ em sânscrito ou o ‘coração’ nas Escrituras.
Para Clemente, nous é o significado do humano como ‘imagem de Deus’ e é o órgão
da oração.
Ser o ícone
(imagem) de Deus é, para o pensador místico, não um estado congelado, mas um
processo dinâmico. Somos um tornar-se semelhante, um ser em processo de
assimilação a Deus. Há uma tendência à abstração em tudo isso – o corpo não
recebe muita atenção e a contemplação pode parecer um tanto espectral. Mas a
âncora cristã de Clemente na Encarnação controla isso. O ‘verdadeiro gnóstico’
é um cristão eclesial totalmente envolvido. Boas obras fluem da oração e, como
um cristão contemplativo, ele é ‘maior no reino que fará e ensinará. (porque)
todos para ele são amigos’.
A combinação
de transcendência, expressa em theosis, e imanência, expressa em amor, é infinito.
Em Clemente, perfeição significa que nunca nos tornamos perfeitos, e que ‘todo
fim é um novo começo’. A natureza sem imagem da contemplação – o que Orígenes,
sucessor de Clemente, chamaria de ‘oração pura’, é o trabalho experiencial
desta teologia na qual estamos continuamente nos movendo ‘através da santidade
para a imensidão’. A de Clemente é a primeira grande articulação da dimensão
apofática de conhecer Deus para a qual todos são convocados. ‘Podemos atingir
de alguma forma a concepção do Todo-Poderoso, não sabendo o que Ele é, mas o
que Ele não é.’ O cristão maduro, aprendemos com Clemente no início de nossa
tradição, é teologicamente bilíngue. Ele pode dizer : onde Deus não está? Em
lugar nenhum. Então, Deus está em todo lugar. Isso cobre todas as bases e evita
a arrogância que nos levou nesta era à loucura do cientificismo, acreditando
apenas no que podemos ver e medir.
Imensa como
tem sido a impressão da inteligência mística de Clemente no pensamento e
espiritualidade cristã, é a profundidade e amplitude de seu encontro com Cristo
que o torna essa rara combinação, uma autoridade amável. Para ele, Jesus ‘tem
uma voz de muitos tons e métodos variados na salvação dos homens. Seu objetivo
é criar a verdadeira saúde na alma’. Jesus como salvador descobriu para todos,
as ‘drogas racionais que tendem à rapidez da percepção e salvação’. Por trás da
arquitetura de uma grande mente, sentimos a intimidade de alguém que é apanhado
na maravilhosa beleza do amor.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/clemente-de-alexandria-jesus-o-medico-divino/
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