sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O que mudou quanto aos refugiados no mundo, dez anos após a foto de Alan Kurdi

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Rodrigo Borges Delfim

‘O dia 2 de setembro de 2015 ficou marcado na história pela divulgação de uma foto que chocou o mundo : a imagem capturada pela fotojornalista turca Nilüfer Demir do menino curdo-sírio Alan Kurdi, de apenas 3 anos, morto em uma praia de Bodrum, na Turquia, após a embarcação na qual estava com a família e outros refugiados naufragar na tentativa de chegar a uma ilha grega. Um caso que colocou a questão dos refugiados tanto no noticiário quanto no discurso de autoridades nacionais e internacionais.

Além do menino, outros integrantes de sua família (irmão e mãe) também morreram na tentativa de chegar à Europa por meio da travessia do mar Mediterrâneo em um barco com dezenas de outros refugiados. O pai foi o único sobrevivente do acidente.

Passados exatos dez anos da morte de Alan Kurdi e de sua foto estampando mídias em todo o mundo, o quanto se evoluiu ou não na temática dos refugiados? Foi o que o MigraMundo procurou entender, a partir de pesquisadores envolvidos com Comunicação, Relações Internacionais e que lidam com a temática migratória.

O total de pessoas em situação de deslocamento forçado no mundo, incluindo refugiados e deslocados internos, chegou a 122 milhões de pessoas no final de abril, de acordo com a edição mais recente do relatório Tendências Globais (ou Global Trends, no original em inglês), do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados). Palco de uma guerra que se arrasta há dois anos e considerada uma crise ignorada pela comunidade internacional, o Sudão é o país que mais gera deslocados forçados internos e refugiados no momento (14,3 milhões de pessoas), superando a Síria (13,5 milhões). Uma em cada três pessoas em situação de deslocamento forçado ou de refúgio é natural de um dos seguintes países : Sudão, Síria, Afeganistão e Ucrânia. 

Ressignificações

Todos os especialistas ouvidos pelo MigraMundo concordaram que a foto de Alan Kurdi de fato ajudou a chamar a atenção para uma problemática que estava longe de ser nova, inclusive sendo ressignificada por diferentes representações ao longo do tempo – inclusive pela imagem que ilustra esta reportagem, que homenageia o menino ao lado do Papa Francisco, notório defensor dos migrantes em âmbito internacional. Por outro lado, apontaram avanços tímidos e até mesmo efêmeros, apesar de toda a comoção que se seguiu nos dias e semanas seguintes à imagem.

‘A imagem viralizou nas redes sociais e foi ressignificada, gerando um conjunto de imagens que contribuiu para denunciar e mobilizar a opinião pública para a condição vivida pelos refugiados sírios e especialmente as crianças. Apesar disso, também é importante lembrar que dados da época também mostraram que, após a viralização na imagem, não houve redução das mortes de migrantes, nem de crianças migrantes, especialmente no Mediterrâneo. Ou seja, as políticas migratórias europeias não foram alteradas substancialmente por conta dessas mobilizações nas redes em torno da imagem de Alan Kurdi’, recordou Denise Cogo, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM.

Cilene Victor, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, onde é líder do grupo de pesquisa Jornalismo Humanitário e Media Interventions, acrescentou : ‘Discutiram que a roupinha usada por Kurdi, com características ocidentais, levou as pessoas ao redor do mundo a usar a expressão : ‘parecia com um filho, um neto, um irmãozinho nosso’’. Isso é tão ruim e tão perverso, pois a solidariedade e a empatia dependem do quanto o outro se assemelha a nós’.

Nem todas as ressignificações em torno da foto de Alan Kurdi expressaram solidariedade ou empatia. Um caso emblemático ocorreu em janeiro de 2016, quando o periódico satírico francês Charlie Hebdo trouxe a imagem de homens identificados como muçulmanos perseguindo mulheres, e ao lado, o menino morto na beira do mar, acompanhado das seguintes falas : ‘O que teria sido o pequeno Alan se tivesse crescido? Perseguidor de mulheres na Alemanha’.

Muita comoção e pouca ação de acolhimento

‘No geral, as respostas foram insuficientes, xenofóbicas e pouco tolerantes. Enquanto parte da sociedade civil desempenhou um papel crucial de acolhimento, garantindo que essas pessoas tivessem o mínimo para sobreviver e reconstruir suas vidas, a população em geral foi bastante influenciada por discursos que apresentavam os migrantes como ameaça’, expressou Aline Arruda, professora de Relações Internacionais do CEUB (Centro Universitário de Brasília).

Alguns governos europeus até toparam acolher as pessoas em situação de refúgio, mesmo que temporariamente – o Reino Unido prometeu receber 20 mil sírios, a França 24 mil, e a Alemanha abriu suas portas sem restrições por um tempo maior. Pouco depois, no entanto, o crescente fluxo em direção ao continente europeu levou a episódios como o do acordo entre a União Europeia e a Turquia, firmado no começo de 2016, por meio do qual o país que serve de ponte geográfica natural entre Europa e Ásia ficaria encarregado de reter os solicitantes de refúgio em seu território, em troca de ajuda financeira do bloco europeu. Um modelo que acabou replicado para outros países que vêm servindo de ‘portarias’ para o chamado ‘Velho Continente’, como Líbia, Marrocos, Albânia e outros.

‘Jamais precisávamos da morte de uma criança, de um simbolismo para discutir a situação dos refugiados, mas nem isso conseguimos fazer. Não fomos capazes de ir além do debate, que também foi incipiente. A comoção, ainda que tenha resultado no aumento de doações para agências humanitárias, não foi nem é capaz de fechar a conta de acontecimentos que envolvem sofrimento humano em larga escala’, acrescentou Victor.

Além da decisão dos governos europeus em terceirizar sua política migratória – em um processo chamado de externalização de fronteiras –, a chegada de migrantes (incluindo aqueles em situação de refúgio) também tem sido cada vez mais explorada por partidos e políticos de extrema-direita como forma de semear medo e preconceitos junto às sociedades locais, inclusive com o uso de informações falsas e teorias conspirtatórias. Essa tática vem obtendo êxito, como bem mostram a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e os resultados eleitorais recentes obtidos por agremiações extremistas como Reunião Nacional (França), Irmãos da Itália, Aurora Dourada (Grécia), Fidesz (Hungria), Chega (Portugal) e Alternativa para a Alemanha. Além disso, o crescimento obtido por esses partidos e seus expoentes tem levado ainda a agrupamentos que se situam mais ao centro do espectro político a adotar medidas antimigração para evitar ainda mais perda de espaço eleitoral.

A própria Merkel, em entrevista recente, admitiu que sua decisão de abrir a Alemanha em 2015 para refugiados tem sido usada como pretexto para o endurecimento de políticas migratórias e para a ascensão de partidos de ultra e extrema-direita. No entanto, ela negou arrependimento. ‘Isso certamente fortaleceu a AfD. Mas seria motivo para eu não tomar uma decisão que considero importante, correta, sensata e humana?’, disse a ex-chanceler em documentário veiculado em agosto passado pela emissora pública alemã ARD.

‘A ascensão de partidos e de governos de ultradireita em diversos países europeus vem enfraquecendo o sistema de proteção internacional, e o governo Trump, no segundo mandato, contribui para erodir as bases desse sistema e do multilateralismo que o avaliza’, destacou Gilberto Rodrigues, pós-doutor pela Universidade de Notre Dame (EUA) e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

O termo ‘crise de refugiados’

A foto de Alan Kurdi também ajudou a consagrar um termo que se tornou comum nos discursos de autoridades e até mesmo de entidades da sociedade civil, disseminado com força pela própria mídia : ‘crise de refugiados’. Uma terminologia que, segundo os pesquisadores ouvidos pelo MigraMundo, pouco ou nada contribui para um melhor entendimento da questão.

‘O termo ‘crise de refugiados’ acabou contribuindo fortemente para a desumanização dessas populações. Ele reforçou a ideia de caos, quando na verdade não havia uma crise de refugiados, mas sim uma crise de xenofobia e de racismo em muitos países’, ressaltou Arruda.

Rodrigues reforçou essa percepção, ao acrescentar que o termo ‘crise de refugiados’ induz a uma percepção negativa dos refugiados e coloca sobre eles o ônus do problema, quando eles são as vítimas. ‘Trata-se de crise humanitária, gerada por violência e guerras, que por sua vez geram fluxo migratório. Essa inversão das causas contribui muito, e ainda hoje contribui, para atribuir aos refugiados a culpa por diversos problemas que não têm relação com a migração e com o refúgio, e alimenta o discurso e a narrativa antimigratória e xenófoba, sobretudo no Norte Global’.

Na mesma linha, Victor recordou que há uma questão estrutural do jornalismo atual muito focada em declarações públicas e sem um devido contexto dos fatos, aliada ao fato de ainda há certo desconhecimento sobre as terminologias mais adequadas para se definir a questão migratória. ‘A associação entre refugiados e qualquer palavra ou expressão negativa, sem dúvida alguma, contribui para a sua desumanização e, portanto, para o seu aniquilamento, em todos os sentidos. O termo ‘crise de refugiados’ é infeliz e desonesto, embora não consiga acreditar que jornalistas façam uso dele conscientemente’.

Como alternativa, Cogo ressaltou que a partir de debates no meio acadêmico e em outros ambientes ligados à temática migratória emergiu o uso do termo ‘crise humanitária’ para descrever as cifras crescentes de deslocamento forçado tanto interno quanto internacional’. ‘Em vez de ‘crise de refugiados’, é importante pensar que o direito a migrar ou a cidadania universal é um direito que tem sido defendido por ativistas e movimentos migratórios em todo o mundo’, acrescentou.

Perspectivas futuras

Apesar dos retrocessos verificados em escala global quanto à questão do refúgio, os pesquisadores ouvidos pelo MigraMundo apontam avanços que não podem ser ignorados e servem como ponto de partida para que essa situação não seja vista como uma ‘terra arrasada’.

Para Arruda, um ponto positivo a ser mencionado foi o fato de o tema do refúgio ter ganho de fato um alcance global. ‘Houve, sim, avanços. O tema passou a ser muito mais discutido mundialmente. No Brasil, por exemplo, a compreensão sobre o que significa ser refugiado mudou bastante. Antes, havia até uma associação equivocada de que refugiado era alguém ‘fugido’ por ter cometido um crime. Hoje, é mais claro que se trata de pessoas forçadas a deixar seu país por perseguições ou crises humanitárias’.

Apesar das limitações que o sistema multilateral vem enfrentando no contexto atual, Rodrigues citou alguns marcos importantes obtidos em anos recentes. ‘Chegamos a um ponto de grande estrangulamento das capacidades das organizações internacionais e da comunidade humanitária de atender às demandas. O momento é de grande instabilidade e de insegurança sobre o porvir. Contudo, há avanços que podem ser reconhecidos como o processo de Cartagena + 40, cuja Declaração e Plano de Ação do Chile de 2024 incorporam, pela primeira vez, a temática do deslocamento forçado por razões ambientais e climáticas, um marco no desenvolvimento progressivo do direito internacional dos refugiados no âmbito regional’.

A mídia também é apontada como um agente importante para que novas perspectivas sejam vislumbradas no horizonte. Contudo, isso passa por uma melhor preparação dos comunicadores para que abordem o tema migratório com a complexidade e profundidade necessárias. ‘Precisamos investir mais na formação de jornalistas para a cobertura de tragédias e crises humanitárias, que resultam de ameaças interconectadas. O refúgio é uma consequência, uma das faces mais delicadas dessas crises, mas não podemos colocar os refugiados como culpados pelo destino de suas vidas. A academia, as agências humanitárias e veículos como o MigraMundo têm feito um excelente trabalho de preservar a dignidade da pessoa humana dos refugiados, mas é difícil diante de um jornalismo generalista, com profissionais que conhecem pouco sobre o que esse assunto demanda’, acrescentou Victor.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-que-mudou-quanto-aos-refugiados-no-mundo-dez-anos-apos-a-foto-de-alan-kurdi/

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