Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘O dia 2 de
setembro de 2015 ficou marcado na história pela divulgação de uma foto que
chocou o mundo : a imagem capturada pela fotojornalista turca Nilüfer Demir do
menino curdo-sírio Alan Kurdi, de apenas 3 anos, morto em uma praia de Bodrum,
na Turquia, após a embarcação na qual estava com a família e outros refugiados
naufragar na tentativa de chegar a uma ilha grega. Um caso que colocou a
questão dos refugiados tanto no noticiário quanto no discurso de autoridades
nacionais e internacionais.
Além do
menino, outros integrantes de sua família (irmão e mãe) também morreram na
tentativa de chegar à Europa por meio da travessia do mar Mediterrâneo em um
barco com dezenas de outros refugiados. O pai foi o único sobrevivente do
acidente.
Passados
exatos dez anos da morte de Alan Kurdi e de sua foto estampando mídias em todo
o mundo, o quanto se evoluiu ou não na temática dos refugiados? Foi o que o
MigraMundo procurou entender, a partir de pesquisadores envolvidos com
Comunicação, Relações Internacionais e que lidam com a temática migratória.
O total de
pessoas em situação de deslocamento forçado no mundo, incluindo refugiados e
deslocados internos, chegou a 122 milhões de pessoas no final de abril, de
acordo com a edição mais recente do relatório
Tendências Globais (ou Global Trends, no original em inglês), do ACNUR
(Alto Comissariado da ONU para Refugiados). Palco de uma guerra que se arrasta
há dois anos e considerada uma crise ignorada pela comunidade internacional, o
Sudão é o país que mais gera deslocados forçados internos e refugiados no
momento (14,3 milhões de pessoas), superando a Síria (13,5 milhões). Uma em
cada três pessoas em situação de deslocamento forçado ou de refúgio é natural
de um dos seguintes países : Sudão, Síria, Afeganistão e Ucrânia.
Ressignificações
Todos os
especialistas ouvidos pelo MigraMundo concordaram que a foto de Alan Kurdi de
fato ajudou a chamar a atenção para uma problemática que estava longe de ser
nova, inclusive sendo ressignificada
por diferentes representações ao longo do tempo – inclusive pela
imagem que ilustra esta reportagem, que homenageia o menino ao lado do Papa
Francisco, notório defensor dos migrantes em âmbito internacional. Por outro
lado, apontaram avanços tímidos e até mesmo efêmeros, apesar de toda a comoção
que se seguiu nos dias e semanas seguintes à imagem.
‘A imagem
viralizou nas redes sociais e foi ressignificada, gerando um conjunto de
imagens que contribuiu para denunciar e mobilizar a opinião pública para a
condição vivida pelos refugiados sírios e especialmente as crianças. Apesar
disso, também é importante lembrar que dados da época também mostraram que,
após a viralização na imagem, não houve redução das mortes de migrantes, nem de
crianças migrantes, especialmente no Mediterrâneo. Ou seja, as políticas
migratórias europeias não foram alteradas substancialmente por conta dessas
mobilizações nas redes em torno da imagem de Alan Kurdi’, recordou Denise Cogo,
professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de
Consumo da ESPM.
Cilene
Victor, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Universidade Metodista de São Paulo, onde é líder do grupo de pesquisa
Jornalismo Humanitário e Media Interventions, acrescentou : ‘Discutiram que a
roupinha usada por Kurdi, com características ocidentais, levou as pessoas ao
redor do mundo a usar a expressão : ‘parecia com um filho, um neto, um
irmãozinho nosso’’. Isso é tão ruim e tão perverso, pois a solidariedade
e a empatia dependem do quanto o outro se assemelha a nós’.
Nem todas as
ressignificações em torno da foto de Alan Kurdi expressaram solidariedade ou
empatia. Um caso emblemático ocorreu em janeiro de 2016, quando o periódico
satírico francês Charlie Hebdo trouxe a imagem de homens identificados
como muçulmanos perseguindo mulheres, e ao lado, o menino morto na beira do
mar, acompanhado das seguintes falas : ‘O que teria sido o pequeno Alan se
tivesse crescido? Perseguidor de mulheres na Alemanha’.
Muita comoção
e pouca ação de acolhimento
‘No geral, as
respostas foram insuficientes, xenofóbicas e pouco tolerantes. Enquanto parte
da sociedade civil desempenhou um papel crucial de acolhimento, garantindo que
essas pessoas tivessem o mínimo para sobreviver e reconstruir suas vidas, a
população em geral foi bastante influenciada por discursos que apresentavam os
migrantes como ameaça’, expressou Aline Arruda, professora de Relações
Internacionais do CEUB (Centro Universitário de Brasília).
Alguns
governos europeus até toparam acolher as pessoas em situação de refúgio, mesmo
que temporariamente – o Reino Unido prometeu receber 20 mil sírios, a França 24
mil, e a Alemanha abriu suas portas sem restrições por um tempo maior. Pouco
depois, no entanto, o crescente fluxo em direção ao continente europeu levou a
episódios como o do acordo entre a União Europeia e a Turquia, firmado no
começo de 2016, por meio do qual o país que serve de ponte geográfica natural
entre Europa e Ásia ficaria encarregado de reter os solicitantes de refúgio em
seu território, em troca de ajuda financeira do bloco europeu. Um modelo que
acabou replicado para outros países que vêm servindo de ‘portarias’ para o
chamado ‘Velho Continente’, como Líbia, Marrocos, Albânia e outros.
‘Jamais
precisávamos da morte de uma criança, de um simbolismo para discutir a situação
dos refugiados, mas nem isso conseguimos fazer. Não fomos capazes de ir além do
debate, que também foi incipiente. A comoção, ainda que tenha resultado no
aumento de doações para agências humanitárias, não foi nem é capaz de fechar a
conta de acontecimentos que envolvem sofrimento humano em larga escala’,
acrescentou Victor.
Além da
decisão dos governos europeus em terceirizar sua política migratória – em um
processo chamado de externalização de fronteiras –, a chegada de migrantes
(incluindo aqueles em situação de refúgio) também tem sido cada vez mais
explorada por partidos e políticos de extrema-direita como forma de semear medo
e preconceitos junto às sociedades locais, inclusive com o uso de informações
falsas e teorias conspirtatórias. Essa tática vem obtendo êxito, como bem
mostram a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e os resultados eleitorais
recentes obtidos por agremiações extremistas como Reunião Nacional (França),
Irmãos da Itália, Aurora Dourada (Grécia), Fidesz (Hungria), Chega (Portugal) e
Alternativa para a Alemanha. Além disso, o crescimento obtido por esses
partidos e seus expoentes tem levado ainda a agrupamentos que se situam mais ao
centro do espectro político a adotar medidas antimigração para evitar ainda
mais perda de espaço eleitoral.
A própria
Merkel, em entrevista recente, admitiu que sua decisão de abrir a Alemanha em
2015 para refugiados tem sido usada como pretexto para o endurecimento de
políticas migratórias e para a ascensão de partidos de ultra e extrema-direita.
No entanto, ela negou arrependimento. ‘Isso certamente fortaleceu a AfD.
Mas seria motivo para eu não tomar uma decisão que considero importante,
correta, sensata e humana?’, disse a ex-chanceler em documentário veiculado em
agosto passado pela emissora pública alemã ARD.
‘A ascensão
de partidos e de governos de ultradireita em diversos países europeus vem
enfraquecendo o sistema de proteção internacional, e o governo Trump, no
segundo mandato, contribui para erodir as bases desse sistema e do
multilateralismo que o avaliza’, destacou Gilberto Rodrigues, pós-doutor pela
Universidade de Notre Dame (EUA) e professor de Relações Internacionais da
Universidade Federal do ABC (UFABC).
O termo ‘crise
de refugiados’
A foto de
Alan Kurdi também ajudou a consagrar um termo que se tornou comum nos discursos
de autoridades e até mesmo de entidades da sociedade civil, disseminado com
força pela própria mídia : ‘crise de refugiados’. Uma terminologia que, segundo
os pesquisadores ouvidos pelo MigraMundo, pouco ou nada contribui para um
melhor entendimento da questão.
‘O termo ‘crise
de refugiados’ acabou contribuindo fortemente para a desumanização dessas
populações. Ele reforçou a ideia de caos, quando na verdade não havia uma crise
de refugiados, mas sim uma crise de xenofobia e de racismo em muitos países’,
ressaltou Arruda.
Rodrigues
reforçou essa percepção, ao acrescentar que o termo ‘crise de refugiados’ induz
a uma percepção negativa dos refugiados e coloca sobre eles o ônus do problema,
quando eles são as vítimas. ‘Trata-se de crise humanitária, gerada por
violência e guerras, que por sua vez geram fluxo migratório. Essa inversão das
causas contribui muito, e ainda hoje contribui, para atribuir aos refugiados a
culpa por diversos problemas que não têm relação com a migração e com o
refúgio, e alimenta o discurso e a narrativa antimigratória e xenófoba,
sobretudo no Norte Global’.
Na mesma
linha, Victor recordou que há uma questão estrutural do jornalismo atual muito
focada em declarações públicas e sem um devido contexto dos fatos, aliada ao
fato de ainda há certo desconhecimento sobre as terminologias mais adequadas
para se definir a questão migratória. ‘A associação entre refugiados e qualquer
palavra ou expressão negativa, sem dúvida alguma, contribui para a sua
desumanização e, portanto, para o seu aniquilamento, em todos os sentidos. O
termo ‘crise de refugiados’ é infeliz e desonesto, embora não consiga acreditar
que jornalistas façam uso dele conscientemente’.
Como
alternativa, Cogo ressaltou que a partir de debates no meio acadêmico e em
outros ambientes ligados à temática migratória emergiu o uso do termo ‘crise
humanitária’ para descrever as cifras crescentes de deslocamento forçado tanto
interno quanto internacional’. ‘Em vez de ‘crise de refugiados’, é importante
pensar que o direito a migrar ou a cidadania universal é um direito que tem
sido defendido por ativistas e movimentos migratórios em todo o mundo’,
acrescentou.
Perspectivas
futuras
Apesar dos
retrocessos verificados em escala global quanto à questão do refúgio, os
pesquisadores ouvidos pelo MigraMundo apontam avanços que não podem ser
ignorados e servem como ponto de partida para que essa situação não seja vista
como uma ‘terra arrasada’.
Para Arruda,
um ponto positivo a ser mencionado foi o fato de o tema do refúgio ter ganho de
fato um alcance global. ‘Houve, sim, avanços. O tema passou a ser muito mais
discutido mundialmente. No Brasil, por exemplo, a compreensão sobre o que
significa ser refugiado mudou bastante. Antes, havia até uma associação
equivocada de que refugiado era alguém ‘fugido’ por ter cometido um crime.
Hoje, é mais claro que se trata de pessoas forçadas a deixar seu país por
perseguições ou crises humanitárias’.
Apesar das
limitações que o sistema multilateral vem enfrentando no contexto atual,
Rodrigues citou alguns marcos importantes obtidos em anos recentes. ‘Chegamos a
um ponto de grande estrangulamento das capacidades das organizações
internacionais e da comunidade humanitária de atender às demandas. O momento é
de grande instabilidade e de insegurança sobre o porvir. Contudo, há avanços
que podem ser reconhecidos como o processo de Cartagena + 40, cuja Declaração e
Plano de Ação do Chile de 2024 incorporam, pela primeira vez, a temática do
deslocamento forçado por razões ambientais e climáticas, um marco no
desenvolvimento progressivo do direito internacional dos refugiados no âmbito
regional’.
A mídia
também é apontada como um agente importante para que novas perspectivas sejam vislumbradas
no horizonte. Contudo, isso passa por uma melhor preparação dos comunicadores
para que abordem o tema migratório com a complexidade e profundidade
necessárias. ‘Precisamos investir mais na formação de jornalistas para a
cobertura de tragédias e crises humanitárias, que resultam de ameaças
interconectadas. O refúgio é uma consequência, uma das faces mais delicadas
dessas crises, mas não podemos colocar os refugiados como culpados pelo destino
de suas vidas. A academia, as agências humanitárias e veículos como o
MigraMundo têm feito um excelente trabalho de preservar a dignidade da pessoa
humana dos refugiados, mas é difícil diante de um jornalismo generalista, com
profissionais que conhecem pouco sobre o que esse assunto demanda’, acrescentou
Victor.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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