Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘O luto,
antes de tudo, é uma experiência singular, onde cada sujeito irá senti-lo de
uma forma e tempo diferentes. A maioria das pessoas entende o luto como um
processo decorrente de uma ausência física, sendo a mais comum pela morte. Mas,
para além da morte, o luto pode também ser sentido a partir de uma quebra ou
mudança, como o luto por uma separação relacional, a perda de um emprego, um
novo colégio e também uma mudança de estado ou país — esses então chamados de
lutos não reconhecidos.
Neste texto
abordarei o luto não reconhecido no contexto migratório e de refúgio, não
apenas focando no enfoque da transitoriedade entre um país e outro, mas sim
naquilo que se perde e se deixa ao chegar em um novo destino, muitas vezes de
forma forçada, decorrente de questões políticas, migratórias ou religiosas.
O luto
invisibilizado
No contexto
migratório e de refúgio, o luto não reconhecido representa uma dimensão
frequentemente invisibilizada da experiência de deslocamento forçado. Falamos
de um tipo de perda que não recebe validação social adequada, deixando muitas
vezes os migrantes, refugiados e apátridas sem o suporte necessário para
elaborar suas perdas.
Dentro desse
contexto, as perdas vivenciadas pelas pessoas vão muito além da dimensão do
território físico. Não se perde apenas a casa, mas também as memórias ali
construídas; não se perde somente o bairro, mas os vínculos com os vizinhos, as
festas tradicionais e o senso de pertencimento. Perde-se o mundo presumido que
cada sujeito constrói para si.
Da mesma
forma, não se perde apenas o país de origem, mas o contato cotidiano com a
língua materna, as redes de apoio tecidas ao longo de décadas, o reconhecimento
e o status profissional, bem como as referências culturais que sustentam a
identidade. No caso de pessoas refugiadas, soma-se com frequência a perda de
entes queridos em contextos de violência, muitas vezes sem a possibilidade de
despedida ou da realização de rituais funerários, aprofundando ainda mais o
sofrimento vivido.
Por que esse
luto não é reconhecido?
Diversas
razões contribuem para a invisibilidade dessas perdas. A sociedade de acolhida
muitas vezes marginaliza o migrante, não o deixando elaborar suas perdas, e
espera que os mesmos demonstrem gratidão pela oportunidade recebida, o que
inibe a expressão de tristeza, reclamações e até mesmo verbalização de saudades
da terra de origem. Ainda existe também a invalidação caso essa pessoa não
tenha tido uma perda física, e ainda mais caso ela tenha feito seu processo de
deslocamento de forma voluntária e sem pressões de violência ou questões
ambientais.
A barreira
linguística dificulta a nomeação e comunicação das emoções complexas associadas
ao luto, assim como dificulta que essas pessoas que migram tenham acesso à rede
pública de forma legítima e assistida. Além disso, diferenças culturais nos
rituais de luto podem tornar a expressão da dor incompreensível ou inadequada
no novo contexto.
Outro ponto é
que na maioria das vezes pessoas em deslocamento estão sob alerta, procurando
imediatamente empregos, novas recolocações, buscando moradias e lutando pela
sua sobrevivência em primeiro lugar. Não sobra tempo hábil ou até mesmo
conhecimento necessário para que olhem para suas questões psicossociais, e até
mesmo façam o reconhecimento interno de seu processo de elaboração.
Caminhos para
o reconhecimento e cuidado
É fundamental
criar espaços seguros onde migrantes e refugiados possam nomear e compartilhar
suas perdas sem julgamento. Profissionais de saúde mental e serviços de
acolhimento precisam desenvolver competência cultural para reconhecer as
múltiplas formas de luto migratório.
Intervenções
terapêuticas culturalmente sensíveis e acessíveis que respeitem os rituais e
significados de origem, enquanto facilitam a construção de novos significados,
são caminhos importantes. Grupos de apoio entre pares, onde pessoas com
experiências similares possam validar mutuamente suas vivências, também são
recursos valiosos.
A educação da
sociedade de acolhida sobre as complexidades do processo migratório pode
reduzir o estigma e criar ambientes mais acolhedores. Políticas públicas que
reconheçam não apenas as necessidades materiais, mas também as dimensões
emocionais e existenciais do deslocamento são essenciais.
Uma
experiência prática
Posso citar
aqui minha experiência prática na condução de grupos com imigrantes
venezuelanos, acerca do luto. O grupo foi formado por homens e mulheres
venezuelanos, em um total de 15 pessoas, residentes do bairro onde a OSC está
localizada. Muitos deles relataram sentimentos de tristeza, isolamento social e
dificuldades de integração, especialmente pela barreira linguística e pela
limitação no acesso ao mercado de trabalho, assim como dificuldade de lidar com
o luto pela transição da Venezuela para o Brasil.
O grupo
configurou-se como um espaço de escuta e partilha sobre o luto, além de
promover atividades artísticas, culturais e rodas de conversa. Tais iniciativas
possibilitaram acolhimento, fortalecimento emocional e resgate do senso de
pertencimento comunitário entre os participantes, através de dinâmicas,
oficinas de arte e cultura, passeios pela cidade, trocas de saberes individuais
e rodas de conversas. Todas as iniciativas foram construídas em conjunto com os
participantes e também contaram com organizações parceiras para o
financiamento.
A iniciativa
mostrou-se eficaz para elaboração do luto em conjunto, assim como o
fortalecimento comunitário entre os pares. Os participantes relataram sentir-se
mais acolhidos, compreendidos e capazes de nomear suas perdas em um ambiente
livre de julgamentos. A possibilidade de compartilhar suas histórias com
pessoas que vivenciaram experiências similares criou um senso de pertencimento
que havia sido perdido no processo migratório.
Considerações
finais
Reconhecer o
luto no contexto migratório e de refúgio é um ato de dignidade e humanidade.
Significa validar que a construção de uma nova vida não apaga as perdas do
passado, mas exige integrá-las em narrativas que permitam tanto honrar o que
ficou quanto abrir-se para novas possibilidades. Apenas através desse reconhecimento
é possível apoiar processos de reconstrução identitária genuínos e
sustentáveis.
O trabalho
com populações migrantes e refugiadas exige de nós, profissionais e sociedade
de acolhida, um compromisso ético com a escuta atenta, o respeito às diferenças
culturais e a criação de espaços onde todas as formas de luto possam ser
validadas e elaboradas. Somente assim construiremos uma sociedade
verdadeiramente inclusiva e acolhedora.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://migramundo.com/o-luto-nao-reconhecido-no-contexto-migratorio-e-de-refugio/
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