segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O luto não reconhecido no contexto migratório e de refúgio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mariana Spicacci Rigonati


‘O luto, antes de tudo, é uma experiência singular, onde cada sujeito irá senti-lo de uma forma e tempo diferentes. A maioria das pessoas entende o luto como um processo decorrente de uma ausência física, sendo a mais comum pela morte. Mas, para além da morte, o luto pode também ser sentido a partir de uma quebra ou mudança, como o luto por uma separação relacional, a perda de um emprego, um novo colégio e também uma mudança de estado ou país — esses então chamados de lutos não reconhecidos.

Neste texto abordarei o luto não reconhecido no contexto migratório e de refúgio, não apenas focando no enfoque da transitoriedade entre um país e outro, mas sim naquilo que se perde e se deixa ao chegar em um novo destino, muitas vezes de forma forçada, decorrente de questões políticas, migratórias ou religiosas.

O luto invisibilizado

No contexto migratório e de refúgio, o luto não reconhecido representa uma dimensão frequentemente invisibilizada da experiência de deslocamento forçado. Falamos de um tipo de perda que não recebe validação social adequada, deixando muitas vezes os migrantes, refugiados e apátridas sem o suporte necessário para elaborar suas perdas.

Dentro desse contexto, as perdas vivenciadas pelas pessoas vão muito além da dimensão do território físico. Não se perde apenas a casa, mas também as memórias ali construídas; não se perde somente o bairro, mas os vínculos com os vizinhos, as festas tradicionais e o senso de pertencimento. Perde-se o mundo presumido que cada sujeito constrói para si.

Da mesma forma, não se perde apenas o país de origem, mas o contato cotidiano com a língua materna, as redes de apoio tecidas ao longo de décadas, o reconhecimento e o status profissional, bem como as referências culturais que sustentam a identidade. No caso de pessoas refugiadas, soma-se com frequência a perda de entes queridos em contextos de violência, muitas vezes sem a possibilidade de despedida ou da realização de rituais funerários, aprofundando ainda mais o sofrimento vivido.

Por que esse luto não é reconhecido?

Diversas razões contribuem para a invisibilidade dessas perdas. A sociedade de acolhida muitas vezes marginaliza o migrante, não o deixando elaborar suas perdas, e espera que os mesmos demonstrem gratidão pela oportunidade recebida, o que inibe a expressão de tristeza, reclamações e até mesmo verbalização de saudades da terra de origem. Ainda existe também a invalidação caso essa pessoa não tenha tido uma perda física, e ainda mais caso ela tenha feito seu processo de deslocamento de forma voluntária e sem pressões de violência ou questões ambientais.

A barreira linguística dificulta a nomeação e comunicação das emoções complexas associadas ao luto, assim como dificulta que essas pessoas que migram tenham acesso à rede pública de forma legítima e assistida. Além disso, diferenças culturais nos rituais de luto podem tornar a expressão da dor incompreensível ou inadequada no novo contexto.

Outro ponto é que na maioria das vezes pessoas em deslocamento estão sob alerta, procurando imediatamente empregos, novas recolocações, buscando moradias e lutando pela sua sobrevivência em primeiro lugar. Não sobra tempo hábil ou até mesmo conhecimento necessário para que olhem para suas questões psicossociais, e até mesmo façam o reconhecimento interno de seu processo de elaboração.

Caminhos para o reconhecimento e cuidado

É fundamental criar espaços seguros onde migrantes e refugiados possam nomear e compartilhar suas perdas sem julgamento. Profissionais de saúde mental e serviços de acolhimento precisam desenvolver competência cultural para reconhecer as múltiplas formas de luto migratório.

Intervenções terapêuticas culturalmente sensíveis e acessíveis que respeitem os rituais e significados de origem, enquanto facilitam a construção de novos significados, são caminhos importantes. Grupos de apoio entre pares, onde pessoas com experiências similares possam validar mutuamente suas vivências, também são recursos valiosos.

A educação da sociedade de acolhida sobre as complexidades do processo migratório pode reduzir o estigma e criar ambientes mais acolhedores. Políticas públicas que reconheçam não apenas as necessidades materiais, mas também as dimensões emocionais e existenciais do deslocamento são essenciais.

Uma experiência prática

Posso citar aqui minha experiência prática na condução de grupos com imigrantes venezuelanos, acerca do luto. O grupo foi formado por homens e mulheres venezuelanos, em um total de 15 pessoas, residentes do bairro onde a OSC está localizada. Muitos deles relataram sentimentos de tristeza, isolamento social e dificuldades de integração, especialmente pela barreira linguística e pela limitação no acesso ao mercado de trabalho, assim como dificuldade de lidar com o luto pela transição da Venezuela para o Brasil.

O grupo configurou-se como um espaço de escuta e partilha sobre o luto, além de promover atividades artísticas, culturais e rodas de conversa. Tais iniciativas possibilitaram acolhimento, fortalecimento emocional e resgate do senso de pertencimento comunitário entre os participantes, através de dinâmicas, oficinas de arte e cultura, passeios pela cidade, trocas de saberes individuais e rodas de conversas. Todas as iniciativas foram construídas em conjunto com os participantes e também contaram com organizações parceiras para o financiamento.

A iniciativa mostrou-se eficaz para elaboração do luto em conjunto, assim como o fortalecimento comunitário entre os pares. Os participantes relataram sentir-se mais acolhidos, compreendidos e capazes de nomear suas perdas em um ambiente livre de julgamentos. A possibilidade de compartilhar suas histórias com pessoas que vivenciaram experiências similares criou um senso de pertencimento que havia sido perdido no processo migratório.

Considerações finais

Reconhecer o luto no contexto migratório e de refúgio é um ato de dignidade e humanidade. Significa validar que a construção de uma nova vida não apaga as perdas do passado, mas exige integrá-las em narrativas que permitam tanto honrar o que ficou quanto abrir-se para novas possibilidades. Apenas através desse reconhecimento é possível apoiar processos de reconstrução identitária genuínos e sustentáveis.

O trabalho com populações migrantes e refugiadas exige de nós, profissionais e sociedade de acolhida, um compromisso ético com a escuta atenta, o respeito às diferenças culturais e a criação de espaços onde todas as formas de luto possam ser validadas e elaboradas. Somente assim construiremos uma sociedade verdadeiramente inclusiva e acolhedora.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-luto-nao-reconhecido-no-contexto-migratorio-e-de-refugio/

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