Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘João
Cassiano, a quem Thomas Merton chamou de ‘mestre da vida espiritual dos
monges – a fonte para todos no Ocidente’ e que reconduziu John Main ao caminho da
contemplação, nasceu provavelmente na atual Romênia, por volta de 360 d.C. Em
seus últimos anos, quando orava, suas distrações eram, pelo menos em parte,
alimentadas pelas histórias e poemas que estudara na juventude, o que nos
permite imaginar que era uma pessoa culta. Ainda jovem, talvez aos vinte anos,
viajou para a Palestina e ingressou em um mosteiro que, mais tarde, considerou
insatisfatoriamente morno em seu fervor pelo ‘progresso espiritual’ que
Cassiano e muitos de seus contemporâneos tanto almejavam. O monasticismo
palestino tinha a reputação de ser marcado por orações excessivamente longas e
ostentação. Mas os monges egípcios atraíam multidões de buscadores sérios, bem
como turistas espirituais. Os pais e mães espirituais do deserto do norte do
Egito – os abades e as amas – não se
interessavam por turistas ou fama, mas sim pelo autoconhecimento (‘maior que
o poder de realizar milagres’) e pelo conhecimento de Deus. Os monges
diziam que fugiam de bispos e mulheres, evitando as tentações do clero e da
carne. As amas, algumas das quais eram prostitutas arrependidas,
não tiveram sua sabedoria tão bem documentada quanto a de seus pares
masculinos, mas, por meio de mais de um relato, podemos afirmar que elas se
viam e eram respeitadas por seus contemporâneos com igual reverência.
O movimento
monástico do deserto que levou Cassiano a deixar sua comunidade em Belém para
passar cerca de vinte anos absorvendo a mais pura fonte de sabedoria espiritual
de sua época era um movimento laico. Os monges não consideravam seu modo de
vida inerentemente superior ao matrimônio e sequer conseguiam decidir com
certeza se a vida comunitária ou a solitária era melhor. Sozinho, de quem se
pode lavar os pés? Eles eram cristãos. E viviam os paradoxos do Evangelho. Seu
lendário pioneiro, Antão do Deserto, renunciou aos seus bens e ao seu lar
quando jovem, mergulhando cada vez mais na solidão e em moradas inóspitas,
assim como os monges celtas de Skellig Michael, o rochedo íngreme a treze
quilômetros da costa de Kerry, cerca de um século depois. A ‘Vida de Antão’, de
Atanásio, é um banquete junguiano da luta de uma alma apaixonada pela
integração, individuação e autoconhecimento que chamavam de santidade. Assim
como em outras épocas de declínio cívico e pessimismo disruptivos – este foi o
período da ‘Cidade de Deus’ de Agostinho – as pessoas foram
impelidas a retornar à busca por um significado humano fundamental.
Após saciar
sua sede no deserto, Cassiano foi impelido por violentas controvérsias
teológicas, primeiro a Constantinopla, onde foi ordenado diácono, e depois a
Roma, onde se tornou sacerdote. Sua última parada foi Marselha, onde fundou um
mosteiro duplo para homens e mulheres. A convite do bispo local, preocupado em
conter os aspectos mais radicais do movimento monástico que ali se espalhara,
Cassiano escreveu três grandes obras. ‘As Instituições Cenobíticas’ concentram-se
mais nas medidas externas para reformar a vida corrompida pelos oito pecados
capitais (posteriormente chamados de sete pecados capitais). Um Tratado contra
a heresia Nestoriana demonstra sua ortodoxia, mas ele também se depara com
algumas divergências sobre a relação entre o livre-arbítrio e a graça, chegando
a divergir de Agostinho. Como resultado, ele é homenageado com uma festa em 29
de fevereiro na Igreja Ocidental, apesar de ter sido a inspiração especial de
Bento, Tomás de Aquino e Domingos, mas recebe todas as honras na Igreja
Oriental.
Sua terceira
e maior contribuição para a espiritualidade ocidental e a prática da vida
mística são suas ‘Conferências dos Padres’, que Bento fazia seus
monges ouvirem diariamente. Elas são apresentadas como diálogos com alguns
dos abades do deserto e combinam uma profunda percepção
psicológica com teologia e sabedoria bíblica. Com a influência mediadora de
Evágrio, o mais intelectual dos padres do deserto, a doutrina de Orígenes
permeia as ideias de Cassiano e forma sua própria compreensão singular de oratio
pura, a oração pura. O propósito prático da vida monástica, segundo essa
sabedoria, é simplesmente alcançar o estado de oração contínua. Analisando
isso, Cassiano afirma que há um objetivo imediato e um objetivo final : a
pureza de coração e o reino de Deus. A equação se equilibra de forma simples na
espiritualidade do deserto : amor perfeito é igual a pureza de coração, que é
igual a oração pura.
O problema
são os ‘demônios’. Essas tendências e estados de espírito, cuidadosamente
observados, foram organizados em um sistema psicoespiritual que mostra a
sequência em que surgem, interagem e podem ser pacientemente suportados e,
eventualmente, dominados por meio do ascetismo, da amizade espiritual, da
discrição e do autoconhecimento. A tentação, é claro, persiste até o fim – a
perfeição não é um estado a ser alcançado permanentemente – e, na verdade, é
necessária para o progresso. Os oito defeitos principais nos são familiares
hoje em uma cultura onde a obesidade (gula), a pornografia (luxúria), o
dinheiro (avareza), a violência (raiva), o estresse e a depressão (acídia e
tristeza) e a celebridade (orgulho e vaidade) dominam nossos pensamentos,
fantasias e manchetes. A cura, então como agora, é a oração.
As Conferências giram
em torno de dois ensinamentos (Conferências 9 e 10) sobre a Oração, de Abba
Isaac. Na primeira delas, a diversidade da oração é analisada e alguns
princípios básicos são descritos. ‘Devemos nos preparar antes do
momento da oração para sermos a pessoa que desejamos ser. Pois a mente em
oração é moldada pelo estado em que se encontrava anteriormente.’ Toda
oração avança em direção àquela ‘oração ardente e sem palavras’ que ‘transcende
toda a compreensão humana’ e é a união em e com Cristo. Cassiano cita
a autoridade de Antão para insistir que, nesse estado, a autoconsciência
finalmente foi deixada para trás, porque ‘essa não é uma oração
perfeita na qual o monge compreende a si mesmo ou o que está orando’.
Assunto
profundo. E Cassiano fica devidamente impressionado com Abba Isaac. Mas então
reclama que ele não lhe mostrou como alcançar isso. Isaac o elogia por fazer a
pergunta crucial. A próxima conferência de Isaac ensina a ‘fórmula’, que se
tornou a oração monologística (de uma só palavra) do Ocidente,
assim como a Oração de Jesus se tornou mais tarde no Oriente. Ele recomendou o
versículo ‘Ó Deus, vinde em meu auxílio’, que
São Bento, certamente em deferência a Cassiano, adotou como abertura do Opus
Dei ou Ofício Divino. A fórmula condensa em simplicidade e pureza tudo
o que a mente agitada e os sentimentos turbulentos contêm. Repeti-la ‘incessantemente
e continuamente’ permite ‘renunciar a todas as riquezas do pensamento
e da imaginação’ e passar da pobreza de espírito à pureza de coração. Em uma
conclusão extensa da ‘Conferência’, Isaac descreve a maioria
dos estados de espírito que qualquer pessoa seriamente comprometida com a
oração contemplativa regular experimentará, da euforia à depressão, da distração
à sonolência, do medo à inquietação. A fórmula se torna o guia fiel para o
objetivo através de todos eles. Ela permanece conosco na ‘adversidade e
na prosperidade’ e, por fim, entra no coração, onde é recitada até
mesmo durante o sono e desperta conosco pela manhã. ‘Que ela o
acompanhe em todos os momentos’, diz ele, especialmente no início e no
fim de cada tarefa que você realizar.
Esta oração é
distinta, mas indissociavelmente relacionada à lectio, ou leitura
das Escrituras, que, segundo Cassiano, torna-se ainda mais enriquecedora e
esclarecedora como resultado desta fórmula para a pobreza de espírito, que
concentra e unifica nossa atenção. Ele acrescenta que não é tão fácil quanto
parece, mas que seus frutos compensam amplamente o esforço envolvido. E,
antecipando uma longa e contínua tradição que flui do deserto até nossos tempos
áridos, observa que este é um formato simples, a ser mantido por
iniciantes; e que, por sua virtude intrínseca, ninguém está excluído
do objetivo universal – tanto de monges quanto de prostitutas – o objetivo da
pureza de coração.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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