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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Teologia da liturgia na 'Sacrosanctum Concilium'

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Cristo está presente na celebração eucarística tanto no ministro quanto nas espécies eucarísticas.
*César Thiago do Carmo Alves pertence 
à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos)


‘O Concílio Vaticano II (1962-1965) constituiu uma guinada para a vida eclesial. Entre essas guinadas está a reforma da liturgia. A constituição conciliar que trata dela é a Sacrosanctum Concilium. Foi aprovada pelos Padres Conciliares no dia 04 de dezembro de 1963. Estavam presentes 2.178 votantes. 2.158 votaram favoráveis para sua aprovação, 19 foram contrários e 1 aprovou desde que se fizesse alguma modificação. Portanto, nota-se um número expressivo de votos favoráveis para aprovação da Constitutio De sacra Liturgia. Esses dados podem ser encontrados nas atas do Concílio Vaticano II (Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticani II).

Fruto de todo um trabalho que a precedeu como o movimento litúrgico; a nouvelle théologie que buscou um retorno às fontes escriturísticas, patrísticas e litúrgicas; o trabalho das comissões pré-preparatória e preparatória que cuidou de apresentar inicialmente um esquema para a Constitutio De sacra Liturgia, no intuito de ser examinada pelos Padres Conciliares, a Sacrosanctum Concilium, com os seus 130 números, surge como uma resposta para a pessoa contemporânea de fé que procura celebrar o seu crer em Deus por meio da vida litúrgica (proêmio). Tendo presente isso, uma pergunta emerge : se o Concílio Vaticano II julgou importante uma reforma litúrgica para que se pudesse fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptando-a às necessidades contemporâneas, qual é o conceito teológico de liturgia que se pode extrair da Sacrosanctum Concilium? Para responder essa pergunta o primeiro elemento que se faz necessário afirmar é que a liturgia constitui um lugar teológico. Embora o teólogo Melchior Cano (1509-1560) não a tenha citado em seu tratado De locis theologicis, sabe-se, pela Tradição, que a partir dela o conhecimento teológico pode elaborar o seu saber, então cabe a afirmação de que a liturgia constitui um lugar teológico.

São os primeiros números que ajudam a responder a questão proposta. A liturgia é o lugar no qual se celebra a obra da redenção do ser humano (n.2). Essa obra teve o seu prelúdio já no Antigo Testamento, quando Deus operava maravilhas na vida do povo. Percorrendo a literatura veterotestamentária poder-se-á constatar isso. Como exemplo das maravilhas de Deus está a libertação dos israelitas da escravidão no Egito (cf. Ex 13,17-15,21). Tal obra se completou em Jesus Cristo por meio de sua paixão, morte e ressurreição. No mistério pascal toda a Trindade está envolvida. O Filho se entrega na obediência filial ao Pai ao seu projeto salvífico por meio da força do Espírito Santo. Além disso, foi do seu lado aberto na cruz que nasceu o sacramento de toda a Igreja (n.5). É esse sacramento que é celebrado. O mistério pascal é para a liturgia o seu fulcro. Numa perspectiva cristológica e eclesiológica, para a Sacrosanctum Concilium a liturgia é fruto de um mandato do Senhor. Da mesma forma que Cristo foi enviado pelo Pai, de igual modo ele enviou os apóstolos não somente para pregar o Evangelho e anunciar o mistério pascal, mas para também levarem a efeito o que anunciavam, isto é, a obra de salvação através do Sacrifício, que é a eucaristia, e dos demais sacramentos. Por conta disso a Igreja nunca deixou de se reunir para a celebração do mistério pascal (n.6). O caráter comunitário está implícito no modo de se pensar a vida litúrgica. Não se celebra isolado da comunidade. Em outras palavras, a dimensão cristológica da liturgia está na celebração do mistério pascal. Já a dimensão eclesiológica aponta que esse mistério celebrado é feito em comunidade. Mais ainda, ele cria comunidade. De tal modo que se faz valer o antigo e sempre atual axioma de Próspero de Aquitânia (†465) lex orandi-lex credendi, ou seja, aquilo que a Igreja ora é aquilo que ela crê. A Igreja se reúne para celebrar a páscoa do Senhor justamente pelo fato de querer evidenciar no que ela professa a sua fé. Isso faz a comunidade e vice-versa. Dito de outra forma, a liturgia faz a Igreja e a Igreja faz a liturgia.

A perspectiva cristológica na Constituição leva a radicalização positiva de algum ponto. Esse ponto diz respeito à presença de Cristo na liturgia.  Era pacífica para a teologia católica dos sacramentos a afirmação da presença do Senhor no pão e no vinho eucaristizados. Sobretudo com o Concílio de Trento (1545-1563) que buscou reforçar essa ideia por conta dos Reformadores, não se pairava nenhuma sombra de dúvida a respeito disso. No entanto, se focou tão somente nesse aspecto não dando espaço significativo para se pensar a presença de Cristo em toda a ação litúrgica. Desse modo, a Sacrosanctum Concilium vem como que dar uma maior visibilidade para esse ponto que foi um tanto quanto negligenciado no decorrer dos séculos. A Constituição sobre a liturgia do Vaticano II reconhece que Cristo está presente na celebração eucarística tanto na pessoa do ministro quanto nas espécies eucarísticas. Está presente nos sacramentos, na Palavra e na Igreja que se reúne para orar (n.7). Essa guinada revela a posição global em que Cristo ocupa na ação litúrgica. Não se restringe a tão somente um aspecto, como o das espécies do pão e do vinho. A atenção da assembleia orante é convidada a se voltar para o todo e perceber que cada parte da liturgia tem sua importância e dignidade que lhe é própria. Essa hermenêutica proposta pela Constituição corrobora com a tese de que a liturgia é a celebração do mistério pascal pelo fato de que o Senhor está presente realmente em toda ela. Portanto, ao se falar de presença real de Cristo não se pode cair no risco do reducionismo. Com esse número 7 a Sacrosanctum Concilium deixa, de certa forma, um alerta para se perceber uma dinâmica holística da presença.

Celebrar o mistério pascal é fonte de vida das comunidades eclesiais. Fazer memória do seu Senhor é algo vital e favorece um itinerário mistagógico. A Sacrosanctum Concilium vem ao encontro dessas comunidades. Nesse sentido, sua recepção por parte da Igreja se torna elemento indispensável para que se possa nutrir a vida de fé dos fiéis. A riqueza teológica que a Constituição traz a respeito da liturgia não pode ser engavetada. Se assumida e traduzida no cotidiano da vida das comunidades, mediante a criatividade própria do Espírito, tende a fortalecer nos fiéis a experiência de Deus, o caminho da solidariedade com os sofredores e a comunhão com os irmãos, haja vista que a páscoa de Jesus revela esses três aspectos. Em tempos em que a liturgia está sendo vista por certos grupos eclesiais como algo mecânico e/ou voltado tão somente para o cumprimento das rubricas, urge a necessidade de revistar a Sacrosanctum Concilium e (re)descobrir a beleza apresentada pela Constituição no que diz respeito à vida litúrgica. Tal (re)descoberta, indubitavelmente, colaborará para uma maior vivência daquilo que é o núcleo da fé cristã : o mistério pascal do Senhor. ‘Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19).’


Fonte :


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Paulo VI e a alegria no Senhor

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
 
* Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

‘No próximo dia 6 de agosto iremos comemorar 36 anos da Páscoa do Papa Paulo VI, que no dia 19 de outubro será beatificado pelo Papa Francisco, na Praça de São Pedro, em Roma. Elepermaneceu à frente da Igreja de 1963 a 1978, de modo que teve, enquanto sucessor de Pedro, um bom tempo – quinze anos – para exercer seu ministério como Bispo de Roma e, portanto, Sumo Pontífice da Igreja Católica.

Coube a ele – diplomata e pastor, que após servir na Secretaria de Estado da Santa Sé de 1922 a 1954, e na Arquidiocese de Milão, de 1954 a 1963 – a árdua missão de conduzir os trabalhos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1963-1965), iniciados por seu imediato antecessor, São João XXIII. Esta missão, nobilíssima por sinal, rendeu ao Papa Montini grandes alegrias, mas também não poucos dissabores. Recorrências comuns de uma fase pós-conciliar na vida da Igreja.

Como quer que seja, pode-se dizer, sem sombra de dúvidas, que Paulo VI foi um grande Pontífice e, apesar de todos os sofrimentos que o cercaram, não se deixou abater, mas, ao contrário, refugiado na oração pessoal, especialmente pela recitação do Rosário de Nossa Senhora, e comunitária, a Liturgia das Horas e a Santa Missa, encontrou, até o fim de seus dias neste mundo, forças para guiar a Barca do Senhor, que é a Igreja.

Elevado à Cátedra de Pedro em 21 de junho de 1963, deu a conhecer ao mundo, em 6 de agosto de 1964, seu programa de Pontificado por meio da Encíclica Ecclesiam Suam [a Sua Igreja] ao escrever que ‘A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio. (...) Em qualquer esforço que o homem faça para compreender a si mesmo e ao mundo, pode contar com a nossa simpatia; onde quer que as assembleias dos povos se reúnam para determinar os direitos e deveres do homem, sentimo-nos honrados, quando no-lo permitem, tomando lugar nelas’ (n. 38 e 54).

O historiador da Igreja, Henrique Cristiano José de Matos, escreve que ao atender o desejo colegiado dos Padres Conciliares, reunidos em Roma, Paulo VI ‘o fez com a preocupação de não romper com a tradição eclesiástica. Interveio pessoalmente em todas as questões polêmicas. Nesse sentido, podemos citar a Nota Prévia (nov. de 1964, acrescentada à Constituição Lumen Fidei, que visava a reafirmar a doutrina do Concílio Vaticano I sobre o Papado; a Encíclica Mysterium Fidei (1965) sobre a Eucaristia, corrigindo os debates sobre a transubstanciação; a Encíclica Humanae Vitae, sobre a questão do controle de natalidades e do planejamento familiar [na verdade, ‘paternidade responsável’, dizemos com a Igreja] (1968); a intervenção sobre o celibato sacerdotal, cuja discussão fora subtraída ao Concílio (Sacerdotalis Caelibatus, 1967; Sínodo dos Bispos, 1971 : Documento sobre o Ministério Sacerdotal); intervenção sobre o papel da mulher na Igreja (Comissão de Estudos para o Ano da Mulher), 1975’ (Introdução à História da Igreja. Belo Horizonte : O Lutador, 1987, p. 168).

Paulo VI foi um Papa aberto às questões da Igreja de seu tempo, fiel às pegadas do Vaticano II. Implementou o diálogo com o mundo moderno, com outros cristãos (ecumenismo) e com outras religiões (diálogo interreligioso); defendeu a paz mundial; empreendeu viagens internacionais, sendo o primeiro Papa depois de Pedro a estar em Jerusalém, no ano de 1964; deu impulso à colegialidade dos Bispos instituindo o Sínodo deles em 1975; reformou parcialmente a eleição do Sumo Pontífice e a escolha dos Bispos; abriu ainda mais a Cúria Romana para Cardeais não italianos e criou a Comissão Teológica Internacional (CTI).

Com essas atuações, que poderiam assomar-se a muitas outras, Paulo VI, segundo o historiador citado acima, fez duas coisas ou agiu em duas frentes, para dentro e para fora da Igreja. Sim, ‘por um lado, realizou a ingente tarefa de renovar a Igreja na sua vida interna, dando-lhe instrumentos válidos para o trabalho de atualização, enriquecendo-a de orientações adequadas para a formação dos sacerdotes, dos religiosos e do laicato, adaptando a liturgia de acordo com os desejos do Concílio, criando uma viva consciência missionária, estimulando a formação de vários organismos que levam os membros da Igreja a uma participação maior na sua vida e na sua caminhada, não deixando nenhum setor sem sua presença, sua palavra, seu incentivo e seu admirável equilíbrio de moderador, fiel ao que é intangível sem deixar de ser fiel aos apelos dos tempos novos’.

Por outro lado, soube o Papa Paulo VI abrir-se para o mundo inteiro, conseguindo que a Igreja fosse o que dela profetizou Isaías : ‘Um estandarte levantado no meio das Nações’ (Is 11,12). É difícil sintetizar aqui tudo o que ele fez na área do ecumenismo, em relação às Igrejas do Oriente e do Ocidente; com as culturas da Ásia e da África; suas viagens à Índia, à Austrália, às Filipinas, à América Latina, à ONU. De fato, esteve presente no mundo, levando a mensagem do Evangelho, a palavra da justiça, o apelo da paz. Paulo VI parece ter herdado de seu predecessor João XXIII a vontade de atravessar as fronteiras, de procurar o diálogo em vez de lançar anátemas’ (idem, p. 168-169).

Apesar de tudo isso, como já acenamos, Paulo VI foi chamado de ‘o Papa do sofrimento’, dados os dissabores que enfrentou dentro e fora da Igreja na fase imediatamente seguinte ao Concílio. Se isso é real, podemos dizer, a justo título, que Montini foi também ‘o Papa da verdadeira alegria que vem do Senhor’.

Para evocar o lado sereno e feliz desse Pontífice, que em breve será beatificado, desejamos lembrar aqui um documento pouco conhecido, mas de grande profundidade espiritual, que foi assinado por ele em 9 de maio de 1975. Trata-se da Exortação Apostólica Gaudete in Domino, que, em português, significa Alegrai-vos no Senhor!, escrita por Paulo VI em preparação à solenidade de Pentecostes do Ano Jubilar de 1975.

Nessa Exortação, o Santo Padre começa dizendo, com fundamento em Filipenses 4,45 e no Salmo 145,18 : ‘Alegrai-vos no Senhor, porque Ele está perto de todos os que O invocam com sinceridade’ e a partir daí vai desenvolvendo a noção da alegria cristã, que é a alegria no Espírito Santo como um dom d’Ele mesmo para cada um de nós (cf. Gl 5,22), mas que é, não raras vezes, esquecido, como se ser cristão e ser santo fosse ter cara feia e triste. Aliás, duas constatações vêm ao caso a propósito : a primeira lembra aquele dito popular, às vezes também atribuído a algum santo : ‘Um santo triste é um triste santo’; a segunda é a fala do Papa Francisco, no dia 1º de junho de 2013, quando diz, recordando, inclusive, Paulo VI, que ‘muitas vezes os cristãos têm mais cara de que estão num cortejo fúnebre do que louvando a Deus’, mas isso está errado, pois ‘sem a alegria, o cristão não pode ser livre, mas, ao contrário, torna-se escravo da tristeza’.

É precisamente este o ponto em que os Papas Bergoglio e Montini se encontram, uma vez que, na conclusão da Gaudete in Domino se lê : ‘Irmãos e filhos caríssimos : não será normal que a alegria habite dentro de nós, quando os nossos corações contemplam e descobrem de novo, na fé, os seus motivos fundamentais? E estes motivos são simples, aliás : tanto amou Deus o mundo, que lhe deu o seu Filho único. Pelo seu Espírito, a sua presença não cessa de envolver-nos na sua ternura e de nos impregnar com a sua vida; e nós caminhamos para a transfiguração ditosa das nossas existências, seguindo rumo à ressurreição de Jesus. Sim, seria muito estranho que esta Boa-Nova que provoca os aleluias da Igreja não nos deixasse com o semblante de pessoas salvas!

Isso posto, surge uma pergunta comum e interessante : mas, afinal, que tipo de alegria é a cristã? – Responde, então, Paulo VI, citando São Tomás de Aquino, que a expressão mais elevada da alegria ou da felicidade é aquela entendida no sentido estrito da palavra, ‘quando o homem, ao nível de suas faculdades superiores, encontra a sua satisfação na posse de um bem conhecido e amado. Assim, o homem experimenta a alegria quando se encontra em harmonia com a natureza, e, sobretudo, no encontro, na partilha, na comunhão com o outro. Com muito mais razão, pois, chegará ele a conhecer a alegria e a felicidade espiritual quando o seu espírito entra na posse de Deus, conhecido e amado como o bem supremo e imutável’ (Summa Theologica, I-II, q.31,a 3).

No entanto, novamente, pode haver quem tente contradizer o Papa dizendo que, neste mundo finito e dilacerado por discórdias, é praticamente impossível encontrar a felicidade. Daí responder Paulo VI que a questão, de certo modo, parece contraditória porque está mal colocada. Com efeito, pensa-se que a felicidade ou a alegria está no ter... Ter carros bons, casas, dinheiro, artefatos técnicos, enfim coisas materiais, quando, na realidade, a verdadeira alegria vem de outra fonte, é espiritual, por isso nenhum bem material, por maior que seja, pode comprá-la ou conquistá-la.

É por essa razão que, mergulhado no materialismo, o ser humano dos séculos XX e XXI se sente impotente ante os males, especialmente os de ordem moral que os acomete, pois os recursos de natureza material de que dispõe são ineficientes para a batalha. Mais : se essa angústia é grande, há ainda outro agravante que o Papa, já em 1975, denunciou : são alguns meios de comunicação de massa que ‘acabrunham as consciências, sem lhes apresentar, normalmente, uma solução humana adequada’.

Contudo, apesar dos não poucos e nem pequenos desafios, Paulo VI nos convida a olharmos maravilhados, desde a nossa infância até a velhice, para tudo o que Deus fez e sentirmos a serena alegria que só Ele pode nos dar como um dom do Espírito Santo, conforme se lê em Gálatas 5,22. E acrescenta que ‘o homem só poderá experimentar a verdadeira alegria espiritual quando se afastar do pecado e viver na presença de Deus. A carne e o sangue são, sem dúvida, incapazes disso (cf. Mt 16,17). Mas a revelação pode abrir esta perspectiva e a graça pode operar esta conversão’ no coração humano, às vezes petrificado pelo pecado, por meio do sacramento da Penitência.

Paulo VI recorda nessa exortação o Apóstolo das gentes : ‘Estou cheio de consolação, estou inundado de alegria no meio de todas as tribulações’ (7,3-4). Elas mostram que, mesmo entre as intempéries da vida, o verdadeiro discípulo de Cristo jamais perde a esperança, pois está inundado da alegria do Espírito Santo.

Possa, portanto, a Virgem Maria, invocada em sua Ladainha como sendo a ‘Causa de nossa alegria’, interceder por nós para que nossa vida, inundada pela força do Espírito de Deus, seja fonte de verdadeira alegria e felicidade para nós e para todos os que nos cercam. Amém!’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http ://www.zenit.org/pt/articles/paulo-vi-e-a-alegria-no-senhor

  

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Inter Mirifica : 50 anos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Dom Orani João Tempesta, O.Cist,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro
 
 
‘Há cinquenta anos, no dia 4 de dezembro de 1963, o Papa Paulo VI, em Roma, junto a São Pedro, assinava um dos dois primeiros documentos do Concílio Vaticano II: o Decreto “Inter Mirifica”, que se inicia com a seguinte tradução: “entre as admiráveis invenções da técnica...” Há dez anos, ao me pronunciar sobre os 40 anos desse Decreto, eu afirmava que para nós, pessoas da Igreja, “a comunicação é um processo de comunhão, participação, planejamento, acolhida e informação mais do que a utilização dos “meios”. Contudo, não podemos ficar alheios às modernas técnicas de comunicação e devemos dominá-las”.
 
Da comemoração dos 40 anos da “Inter Mirifica” ocorrida em Salvador, BA, no 3º. Mutirão Brasileiro de Comunicação já se passa uma década. Quantas maravilhas a humanidade pode contemplar neste período! Quantos passos foram dados pelo “engenho humano” que “rasgaram caminhos novos na comunicação”! Devemos olhar para o tempo sem piscar os olhos por que a tecnologia não para. Para nós, que comemoramos nestes anos o jubileu de ouro do Concílio Vaticano II, este ano nos alegramos em comemorar os seus dois primeiros documentos! A comunicação e seus meios estão entre “as maravilhas do nosso tempo”. Pela primeira vez um documento conciliar abre a discussão sobre esse assunto. É um decreto que abriu enormes possibilidades para a Igreja diante desses novos tempos de “mudança de época”. Esse decreto é a porta que se abre para essa dimensão e que será aprofundada pelos documentos que se seguirão.
 
 É louvável acompanhar estas evoluções tão rápidas criadas pela inteligência humana em todas as partes do mundo. Diferentes propostas e execuções acontecem a cada momento. Neste exato momento bilhões de palavras, bilhões de pessoas, entre todas as raças, línguas e nacionalidades se relacionam e se comunicam, transferindo conhecimentos e informações em tempo real graças às modernas tecnologias da invenção humana, através da comunicação social em favor das relações interpessoais.
 
A Igreja Católica também está conectada com esta realidade transformadora das relações humanas. Estas relações acontecem na esfera presencial e virtual. A Igreja faz uso de todas as formas de comunicação para levar o anúncio do Evangelho, mostrar os valores do Reino de Deus e os seus sinais seja na comunicação interpessoal presencial, bem como atingindo milhões de pessoas através dos diversos suportes de comunicação que hoje são utilizados graças à inteligência humana criativa, dom querido e gratuito dado por Deus ao homem.
 
Celebrar os 50 anos do Decreto “Inter Mirifica” significa muito mais que celebrar a maravilha da existência de tanta tecnologia em favor do anúncio da Palavra de Deus com os meios de comunicação. Pode-se dizer que é, também, celebrar o amanhecer de cada dia de um técnico, de um engenheiro, de um produtor, dos diretores, enfim, de todos os que passam 24h por dia respirando tecnologia para destinar uma mensagem ao mundo, que hoje não possui mais fronteiras. O grande segredo para nós é exatamente o ser humano que produz comunicação e que se utiliza dos meios – quanto melhor formada, quanto mais iluminada pelo evangelho, melhor utilizará para o bem os meios de comunicação social.
 
Parece impossível para os “adotados digitais” acompanhar tantos lançamentos que o mercado apresenta. Cada dia tem um novo modelo de Smart, de iPad, de iPhone, Tablets, de aparelhos trazendo “High Definition”. Para os “nativos digitais” é quase conatural. A cada nova edição ou modelo de meio de comunicação, a cada possibilidade de mídias sociais, os “nativos se sentem “em casa”. Porém, tudo isso é “assessório da comunicação” ou tornou-se meio essencial? A discussão entre virtual e presencial ainda é um sério debate que se trava. A discussão antiga sobre o “meio e a mensagem” ainda se trava em nosso dia a dia com os pensadores da comunicação. Fala-se hoje da “nova cultura” gerada por esses novos tempos e tecnologias.
 
Dentro dessa realidade, a pergunta que fazemos é como anunciar a palavra, como testemunhar Jesus Cristo, como proclamar a verdade em nosso tempo de tanta comunicação e tantos meios possíveis? A virtude do decreto “Inter Mirifica” é justamente abrir essa discussão e suscitar essa reflexão na Igreja. Por isso, um pequeno decreto, no alvorecer dos documentos do Concílio Vaticano II, colocou a Igreja na discussão desse grande fator de mudança da sociedade. Ele suscitou documentos importantíssimos e uma nova postura da instituição com relação ao tema. Além da utilização dos meios de comunicação, o documento suscita ainda a discussão sobre a própria comunicação enquanto tal e abre caminhos para refletir também sobre esse fator na sociedade hodierna.
 
A Palavra sempre existiu e existirá. Ganhará novos canais de veiculação para chegar ao seu destinatário de forma mais rápida e eficaz. A Palavra é a força motivadora para a criação de novas formas sempre mais rápidas e eficazes para chegar aos olhos e/ou aos ouvidos do receptor. Junto com a Palavra teremos também o exemplo e a vida. No passado a Igreja foi pioneira na utilização dos meios de então: imprensa, rádio, pintura, arquitetura, música e tantas outras manifestações. Por exemplo, na virada para o século XX um jovem italiano, Tiago Alberione, hoje Beato Padre Tiago Alberione, viu que os meios de comunicação poderiam servir para o anúncio do Evangelho. “Já que estas máquinas podem imprimir tantas informações que não constroem o bem, por que não as utilizar para o anúncio da Palavra de Deus? Preciso fazer algo pelo homem do novo século...” pensava ele. E assim se lançou numa missão inovadora e como protagonista daquele tempo, na longínqua cidade de Alba, norte da Itália, colocou a Igreja Católica no pódio das grandes conquistas no mundo das comunicações sociais do século XX.
 
Além dos meios modernos de comunicação, hoje, também vêm crescendo velozmente as diferentes formas de se expressar. É importante salientar o grande papel que hoje representam as redes sociais em nossa sociedade. Elas são um auditório e ao mesmo tempo o púlpito de todas as formas de manifestações de ideias que se possa imaginar. Desde as construtivas até as maléficas ao desenvolvimento do processo da educação humana em todos os níveis. Sabemos da utilização do tweter por parte do Papa e como crescem o número de seguidores. As mídias sociais estão mudando o mundo atual, convocando as pessoas às ruas e às manifestações. É, portanto, um território livre para todo tipo de manifestação.
 
É de se pensar: será que já vimos de tudo? Quando isso vai acabar? O que ainda será inventado? Para os que travam no tempo, a incredibilidade é a âncora; estagnaram com medo do novo, do diferente. Muitos dos instrumentos de comunicação que utilizaremos daqui a uma década ainda não estão inventados.
 
A modernidade cria uma nova geração de intérpretes da realidade, uma geração de cibernautas com ações de habilidades distintas daquelas gerações acostumadas somente com o texto impresso e ainda também somados os da era da imagem televisiva e os espectadores do cinema. Hoje tudo pode ser concentrado num único instrumento com qualidade HD. Manipulamos isto tudo, resgatamos os conteúdos que nos são necessários muitas vezes até sem compreender o processo de tamanha velocidade. E tudo isso cabe em nosso bolso com as novas tecnologias descobertas.Ao comemorarmos essa grande data dos 50 anos da assinatura do decreto conciliar “Inter Mirifica”, vemos com clareza como agiu o Espírito Santo, colocando como um dos dois primeiros documentos conciliares justamente a questão da comunicação. Este tema seria um dos mais importantes para a atualidade que estava se iniciando. Este documento, que criou o “dia mundial das comunicações”, estabeleceu coleta para o sustento dos meios e orientou a reorganização do departamento da Igreja na missão da comunicação.
 
Entre todas as maravilhas do universo estão os meios de comunicação social com suas diferentes formas. A comunicação humana também continuará existindo para sempre com suas diferentes formas. A qualidade de como é utilizada e o bem da humanidade estão dentro de nossas discussões. Nada melhor do que aprofundar esses tempos neste dia da comemoração da assinatura do decreto sobre a comunicação produzido pelo maior evento católico do século XX, o Concílio Vaticano II.
 
Muito já foi escrito e muita coisa terá que ainda ser, mas precisamos, com a qualidade da comunicação, construir pontes entre os seres humanos que os tornem ainda “pessoas humanas”. Num mundo que necessita de paz e fraternidade, comunicação para a comunhão pode ser um desafio proposto para hoje.
 
 
Fonte :
 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Movimento Litúrgico e os efeitos do Concílio Vaticano II na Liturgia (Capítulo 3 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



4. OS EFEITOS DO CONCÍLIO VATICANO II
NA LITURGIA DA IGREJA CATÓLICA

W  25 de dezembro de 1961 convocação deste Concílio, o XXI Concílio Ecumênico, pelo papa João XXIII

W  11 de outubro de 1962 início em ritmo extraordinário

João XXIII
W  8 de dezembro de 1965 término sob o papado de Paulo VI  

Paulo VI

A Reforma Litúrgica (de 1963 a 1990 )

            A reforma litúrgica, decorrente do movimento litúrgico, foi o resultado mais notório deste Concílio.

            Com a promulgação da constituição ‘Sacrosanctum concilium’, que reproduz e am­plia a ‘Mediator Dei’, exatamente 400 anos após o fim do Concílio de Trento (04.12.1563 – 04.12.1963), testemunhamos um colegiado ocupando-se do tópico liturgia pela primeira vez na caminhada histórica da Igreja perante uma assembléia ecumênica.

            O propósito do Concílio Vaticano II era:

W  ‘Fomentar a vida cristã entre os fiéis’
W  ‘Adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mu­dança’
W  ‘Promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo’ e
W  ‘Fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja

            E a finalidade da reforma era avivar a fé, proporcionar a justa medida entre tradição e adequações necessárias na liturgia – sem limitar-se a ritos, cerimônias e textos – e incen­tivar a participação ativa do fiel leigo. Sua importância foi inexorável para distinguirmos a liturgia como a luz primordial do ser cristão e o povo de Deus como o indivíduo da ação litúrgica. Impulsionou, ainda, a centralização da Palavra de Deus na liturgia e o reconheci­mento das Igrejas locais.

            Embora a reforma tenha sido relativamente bem aceita na Igreja de Rito Romano, ela não foi de todo compreendida, expondo atitudes equivocadas e contraditórias.

            Vale destacar que a reforma litúrgica não ocorreu sozinha, apartada de outros gru­pos. Na verdade, a atuação foi de maneira integrada ao movimento bíblico, ao ecumênico, às frentes missionárias, à pesquisa das várias religiões e à averiguação do elo entre a religião e as necessidades humanas antes e após o Concílio. Acima de tudo, a reforma litúrgica esta­beleceu um legado vigoroso :

W  Ampliou a vivência cristã ao incentivar a participação deliberada e ativa do fiel na litur­gia
W  Aumentou o sentido comunitário da vida litúrgica
W  Sancionou o uso da língua vernácula
W  Prestigiou o enriquecimento doutrinal e catequético
W  Incentivou a leitura bíblica
W  Adequou as instituições eclesiais ao contemporâneo
W  Estimulou o ecumenismo pela união dos cristãos
W  Recomendou a participação de todos na missão da Igreja
W  Simplificou e permitiu a transparência na brevidade dos ritos

            Contudo, passados os primeiros anos da promulgação conciliar, era nítido que a litur­gia atravessava momentos difíceis. Da exaltação inicial, ávidos por granjear resultados apressadamente, migrou-se para a desilusão.

            Alguns problemas não estavam previstos com clareza no Concílio. Por exemplo : as atenções estiveram focadas na liturgia em si e não no sacerdote; priorizaram a renovação de livros litúrgicos e não a reciclagem das assembléias celebrantes; assim como o problema da inculturação ou adaptação da liturgia às diversas culturas.

            Diferentes fases permearam estes anos:

Fase do Entusiasmo

            A década de 60, num geral, foi assinalada pela expectativa de aplicação da reforma :
ü  liturgia elaborada na língua pátria (ou vernácula)
ü  maior relevância às Conferências Episcopais
ü  reabilitação da concelebração e da comunhão sob as duas espécies
ü  sintetização do Ofício Divino
ü  impulso às frentes missionárias
ü  ênfase no mistério pascal, isto é, na paixão, morte, ressurreição e ascensão de Cristo
ü  fiel participativo
ü  exaltação do culto

Fase do Desencanto

            Na década de 70, o desapontamento era reflexo de uma renovação de cunho raso e que, talvez, não estivesse preparada para imersões mais profundas. A partir daí, a preocu­pação pastoral recorreu à evangelização ao entender que a liturgia não solucionava todas as questões de base :
ü  surgem novos livros litúrgicos
ü  a consolidação das celebrações
ü  a abertura da Igreja para a dimensão social reflete-se na liturgia
ü  propagação veloz da secularização na sociedade
ü  a deficiente formação litúrgica nos seminários
ü  a insuficiente reciclagem oferecida ao clero e
ü  sacerdotes em conflito 

Fase da Recuperação

            A reorientação litúrgica, na década de 80, reacendeu pesquisas e proporciou um novo estilo de celebração:
ü  pesquisa sobre a situação da vida litúrgica no Brasil (1983) e ampla avaliação das Dire­trizes Gerais da Ação Pastoral da CNBB (1987)
ü  a reciprocidade celebração-evangelização tornou-se mais dinâmica e conciliatória 

Fase da Pastorial Litúrgica

            Na década de 90, notabiliza-se a pastoral litúrgica e um renovado empenho pela Pala­vra de Deus:
ü  edição de novos Lecionários
ü  reconhecimento e uma certa apreciação da Liturgia das Horas e
ü  a prática do silêncio na oração


A Espiritualidade Litúrgica (de 1990 em diante)
           
      Espiritualidade é ‘a vida do cristão movida pelo Espírito’ e Espiritualidade litúr­gicafaz da liturgia (Eucaristia, Sacramentos e Ofício Divino) o grande referen­cial da vida do cristão’, conforme Dom Estevão Bettencourt, do mosteiro do Rio de Ja­neiro. A espiritualidade litúrgica não elimina ‘as respostas pessoais do cristão à graça de Deus ou às devoções particulares’. Porém, inexiste para muitos fiéis pela falta de uma formação ou catequese adequada. 
Dom Estevão Bettencourt
       Características :

ü  Sentir (pulsar) com a Igreja
o   O lema ‘Sentire cum Ecclesia’, isto é, pensar e viver com a Igreja, divulgado no princípio da restauração litúrgica, conscientiza o fiel de que, para ser Igreja, tem que se alimentar da Palavra de Deus.

ü  A leitura eclesial da Bíblia
o   Para entende-la é preciso interpretá-la sob o impulso do Espírito que a ins­pirou’ (Cons. Dei Verbum nr. 12).

ü  Formação doutrinária
o   Através da Bíblia e da tradição oral, a liturgia e a fé relacionam-se de acordo com a máxima dos antigos: lex orandi lex credendi (‘o conteúdo da oração deve condizer ao conteúdo da fé’)

ü  A Eucaristia e os sacramentos
o   Ser cristão é pertencer a um Corpo cuja Cabeça é Cristo e o tronco é Jesus. O embasamento no Corpo ou no tronco se faz primeiro pelo Batismo, é confirmado pela Crisma e nutrido periodicamente pela Eucaristia.

ü  Sacramentais 
o   São os ritos (bênçãos) ou objetos (rosário, crucifixos, etc...) pelos quais Deus difunde suas graças. Por exemplo : a Liturgia das Horas, ou Ofício Divino, expressa a oração da Igreja para as várias fases do dia e a santifica­ção do tempo.
ü  As devoções ou a piedade particular
o   Piedade objetiva (litúrgica) e piedade subjetiva (particular) não se opõem; mas a Igreja interpela para que o cristão tenha um elo doutrinário entre a liturgia e a oração individual.

ü  Sacerdócio comum dos fiéis
o   Segundo a doutrina da Igreja, todos os batizados participam do sacerdócio de Cristo, sem confundir com o sacerdócio ministerial, que é um sacra­mento da Ordem.

ü  Arte Litúrgica
o   Sendo um dos modos de representar o inefável ou invisível, está vinculada à liturgia, porém, a arte na Igreja ‘é um meio e não um fim e que o artista entenda o porquê e o para quê de cada objeto de arte, no contexto do templo sagrado’. 


5.   CONCLUSÃO

Da liturgia para a vida cotidiana

O Vaticano II sumarizou todas as ânsias do movimento litúrgico, ultrapassando precon­ceitos sem fundamento e o fiel transcendeu da liturgia para a vida, propagando no mundo essa transformação, que é obra do Espírito Santo.

A liturgia é o meio que Deus nos concede para falar com Ele, por isto, ela não se es­gota na celebração, mas existe um antes e um depois que devem ser cuidados pondera­damente : ‘a celebração litúrgica incorpora-nos na igreja de hoje e projeta-nos para o amanhã, num progresso contínuo, porque o Espírito que ressuscitou Jesus Cristo den­tre os mortos está presente na Igreja e acompanha-a através dos séculos’.