terça-feira, 5 de julho de 2016

As obras de misericórdia de Caravaggio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fernando Félix,
Jornalista


As sete obras de misericórdia corporais são o tema de uma pintura do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio, do final de 1606. O quadro encontra-se no altar da Igreja Pio Monte della Misericordia, numa estreita rua do centro histórico de Nápoles.


‘Em 1597, o cardeal italiano Roberto Belarmino escreveu um catecismo em que defendia um retorno aos valores mais puros do Evangelho e, nesse espírito, recomendava a prática de obras de caridade como um meio de expiação dos pecados e de elevação espiritual. Em consequência, uma das missões da Igreja seria a promoção e a prática das obras de misericórdia, para ser uma Igreja mais acolhedora dos desamparados. Os pobres eram, na retórica religiosa oficial, considerados a imagem terrena de Jesus Cristo, o redentor sofredor.

Nesse contexto, em 1601, nasceu em Nápoles a irmandade Pio Monte della Misericordia, fundada por sete jovens nobres piedosos que se dedicavam a cuidar dos pobres. Cinco anos mais tarde, eles encomendam ao grande mestre da pintura renascentista Michelangelo Caravaggio sete quadros, cada um dedicado a uma obra de misericórdia corporal. Todavia, Caravaggio optou por reunir as sete obras numa única tela. E completou a sua maior obra – tem quase quatro metros de altura e mais de dois metros e meio de largura – em menos de quatro meses. Entregou-a a 9 de Janeiro de 1607.


Mendigo e guardião da misericórdia

Michelangelo Merisi nasceu em 1571, na pequena cidade de Caravaggio, no Norte de Itália, de onde colheu o seu apelido. O seu pai, Fermo Merisi, era administrador e arquiteto-decorador do marquês de Caravaggio.

Tinha 6 anos quando a peste bubônica matou o seu pai e praticamente todos os homens da família. Por causa disso, cresceu buliçoso e o temperamento conflituoso nunca o abandonou. Teve inúmeros confrontos com a polícia e viveu os últimos anos da sua vida como fugitivo da justiça, mudando constantemente de cidade. Morreu com apenas 38 anos, em circunstâncias nunca esclarecidas, a caminho de Roma, levando consigo três quadros.

Caravaggio era talentoso. Era dono de uma técnica apurada. Tornou-se famoso por pintar diretamente sobre as telas sem esboços preliminares. Pintava tanto cestos com frutas quanto pessoas. Usava o contraste entre luzes e sombras para transmitir maior realismo. No entanto, foi nas pinturas religiosas que lhe encomendavam que ele encontrou a sua verdadeira vocação, assim como a fama. As suas pinturas A Vocação de São Mateus e O Martírio de São Mateus, por exemplo, fizeram dele, por volta de 1600, o artista mais imitado na Itália, mas também o mais polémico, por causa do naturalismo com que abordava as paisagens bíblicas e que o clero não via com bons olhos. O ser humano era analisado e representado a partir do seu lado animalesco, da sua agressividade e das suas características fisiológicas e naturais. O homem e a mulher são apenas um fruto da Natureza.

Havia, simultaneamente, teatralidade nos seus quadros. Na Crucificação de São Pedro e na Conversão de São Paulo imprimiu uma intensa ação dramática.

Também a sua espiritualidade era intensa e crítica. Socialmente, os ricos tudo faziam para banir os pobres. Diziam que estes eram capazes de todos os crimes. Metiam-nos em asilos, por exemplo. Mas Caravaggio tinha o hábito de retratar as cenas com mendigos comuns : os seus santos são camponeses, os seus anjos assemelham-se às crianças das ruas de Nápoles. Também abundam bispos e cardeais representados. «O que Caravaggio faz é trazer os homens e mulheres comuns para dentro de suas pinturas e torná-los sagrados», diz o escritor norte-americano Terence Ward na obra dedicada ao autor italiano, The Guardian of Mercy : How an Extraordinary Painting by Caravaggio Changed an Ordinary Life Today [O Guardião da Misericórdia : Como a Extraordinária Pintura de Caravaggio Muda a Vida Quotidiana, em tradução livre].


As sete obras de misericórdia

A obra de misericórdia «enterrar os mortos» [1] é retratada ao fundo, à direita, com o transporte de um cadáver de que se vêem apenas os pés. Quem o leva é um diácono que segura uma tocha.

As obras de misericórdia «visitar os presos» [2] e «dar de comer a quem tem fome» [3] são representadas num único episódio, do lado direito da tela, retirado do livro Factorum et dictorum memorabilium, do escritor romano Valério Máximo. Cimone estava condenado a morrer à fome na prisão, mas foi alimentado pela filha Pero, que lhe dava leite do seu peito. Em atenção a isso, os magistrados perdoaram-lhe a pena e ergueram no local um templo dedicado à deusa Misericórdia. No mesmo sítio, mais tarde foi construída a Basílica de São Nicolau no Cárcere.

A obra de misericórdia «vestir os nus» [4] surge à frente, do lado esquerdo. Caravaggio usa a figura de um jovem cavaleiro, que representa São Martinho de Tours a dar de presente o seu manto ao homem nu. À esquerda do homem nu está outro homem, um paralítico, também associado a São Martinho de Tours, em cuja biografia se refere a prática de «visitar os doentes» [5].

A obra de misericórdia «dar de beber a quem tem sede» [6] é retratada a meio da faixa esquerda da tela, no homem que bebe água servindo-se de uma mandíbula de burro. Esta cena evoca o episódio bíblico em que Sansão, depois de derrotar os filisteus lutando com uma queixada de jumento (Jz 15, 18-19), bebe água no deserto graças a um milagre do Senhor.

A obra de misericórdia «dar pousada aos peregrinos» [7] é sintetizada em duas figuras na faixa esquerda da tela : um estalajadeiro de pé aponta para o exterior a outro homem que ostenta uma concha no chapéu, símbolo do peregrino de Santiago de Compostela.

A figura de Maria com uma criança ao colo e o seu manto que desce em direção ao homem nu aludem ao papel da Igreja na promoção e prática das obras de caridade.

Os anjos simbolizam a Graça divina que inspira as obras de misericórdia. E a sua sombra projetada na parede indica que é algo concreto, que tem uma aplicação terrena.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


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