terça-feira, 19 de julho de 2016

Participar do sofrimento de Deus no mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Deus respeita a liberdade de cada ser humano.
 Deus respeita a liberdade de cada ser humano


*Artigo de Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM,
doutor em Teologia Sistemática
pela Pontificia Università Antonianum, Roma.


Deus e ser humano se encontrem em uma situação de contínua competição.


‘As várias vertentes do ateísmo dos séculos XIX e XX, na sua quase totalidade, comungam de um mesmo pressuposto : condição imprescindível para a afirmação do humano é a expulsão de Deus da própria vida. Pois, na verdade, o Deus dos catecismos e das igrejas o oprime tanto a ponto de ele se sentir sufocado e sem espaço. Convém, pois, que o ser humano se liberte dessa situação em vistas da realização de sua própria identidade. Acredita-se que Deus e ser humano se encontrem em uma situação de contínua competição. Para que um se afirme, é necessário que o outro se anule. Deste modo, o ser humano adulto e emancipado, consciente de si e das suas ilimitadas possibilidades, emerge cada vez mais no cenário da cultura e da história fazendo de tudo para anular a presença incômoda de Deus. Por esta razão, em tal contexto, ser humanista implicava quase sempre em ser ateu ou, ao menos, anti-religioso.

A grande conquista do ser humano moderno talvez tenha sido aquela de organizar a própria vida e o próprio destino sem ter que contar com a ajuda de Deus. O ser humano descobriu-se como sujeito autônomo, alimentando, assim, a ilusão da própria onipotência. Julga-se, enfim, autônomo e finalmente liberto de toda sorte de elo que o mantinha antes preso a uma pesada corrente. A religião passa a ser vista como uma grande corrente que o mantém enredado nas suas muitas malhas doutrinais, rituais e míticas.

Não se pode ignorar que muitos de nós vivemos, na prática, como se Deus não existisse. Isto significa, em outras palavras, que Deus não participa mais de nossos projetos pessoais e sociais. Tudo parece girar, agora, em torno de nós próprios. Tudo parede depender ora de nossas possibilidades ora de nossos limites. Sentimo-nos cada vez mais postos ao centro da vida e do mundo. Projetamos e construímos, fazemos planos e os realizamos segundo nossos próprios critérios e parâmetros sem a necessidade de recorrer a Deus.

Depois de ter tomado consciência das potencialidades mais recônditas da própria razão, o ser humano é capaz de solucionar os problemas mais diversos e de encontrar respostas para as questões mais difíceis. Deus tornou-se, de fato, dispensável e até supérfluo. Não se necessita mais da sua constante presença experimentada como graça nem da sua generosa e gratuita providência. A providência divina tornou-se desnecessária, uma vez que tudo, praticamente, pode ser previsto e planejado pelo ser humano mediante cálculos cada vez mais precisos.

Quais seriam os efeitos positivos de uma mentalidade secular que parece propor uma vida sem a necessidade de Deus? A dificuldade maior, em tal caso, talvez resida na pergunta pelas eventuais interpelações do Deus cristão precisamente numa situação de aparente ausência sua. Como, em outras palavras, indagar acerca da presença e interpelação do Deus de Jesus Cristo numa situação cultural e social que nega formalmente a sua existência? Ou, dito em outros termos, como perceber Deus presente numa sociedade que, na prática, vive como se Ele não existisse?

A estas fundamentais indagações seguem outras não menos desafiadoras : Como é possível que, na sua onipotência, Deus se deixe expulsar do mundo? Se, desde os tempos mais remotos, Ele foi invocado como o todo-poderoso, como pode agora se revelar como um Deus desconcertantemente fraco, que se deixa vencer pela força do ser humano? Outros ainda se perguntam : se Deus é tão misericordioso, por que é que Ele se retira do mundo para deixar o ser humano entregue às suas próprias forças e ao seu inelutável destino? Por que Deus não intervém para pôr um fim a esta situação de injustiça criada pelo ser humano na sua autonomia e impostura? Poderíamos continuar indefinidamente com estas perguntas.

Talvez quem mais tenha levado a sério estas questões e as tenha explicitado com invejável lucidez seja o mártir do nazismo, o teólogo D. Bonhöffer. A este propósito, ele assim se exprime em uma de suas cartas escritas na prisão : ‘E não podemos ser honestos sem reconhecer que temos de viver no mundo – etsi deus non daretur. E reconhecemos justamente isso – perante Deus! Deus mesmo nos obriga a esse reconhecimento. Assim, nossa maioridade nos leva a um reconhecimento mais veraz de nossa situação perante Deus. Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona (Mc 15,34)! O Deus que faz com que vivamos no mundo sem a hipótese de trabalho Deus é o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz, Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, somente assim ele está conosco e nos ajuda. Em Mt 8,17 está muito claro que Cristo não ajuda em virtude da sua onipotência, mas da sua fraqueza, do seu sofrimento! Neste ponto reside a diferença decisiva em relação a todas as religiões. A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo, Deus é o deus ex machina. A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus; somente o Deus sofredor pode ajudar. Neste sentido, pode-se dizer que o desenvolvimento, acima descrito, que levou à maioridade do mundo, através do qual se acaba com uma concepção errônea de Deus, liberta o olhar para o Deus da Bíblia, que obtém poder e espaço no mundo por meio de sua impotência. Este decerto será o ponto de partida da ‘interpretação mundana’’.

Em que consiste propriamente esta ‘interpretação mundana’ ou, dito de outra forma, esta ‘interpretação não-religiosa dos conceitos teológicos e bíblicos’? Bonhöffer a concebe como um processo de purificação das categorias religiosas, incompreensíveis ao ser humano adulto, emancipado e a-religioso, interlocutor privilegiado da reflexão teológica moderna. Ele quer, para todos os efeitos, aprofundar teologicamente o sentido escondido por detrás da expressão etsi deus non daretur (ainda que deus não existisse). A dificuldade maior desta empresa reside precisamente no fato que tal locução não constitui, na verdade, um novo pressuposto, mas designa, ao contrário, a eliminação de um pressuposto considerado enfim superado : a afirmação da necessidade de Deus para o mundo. Bonhöffer insiste em interpretar em sentido positivo esta expressão, afirmando que Deus quer ser conhecido e encontrado não somente nas experiências-limite e na fronteira da realidade mas sim no centro da nossa vida e da nossa história.

Bonhöffer vê a morte de Jesus na cruz como a confirmação da necessidade de viver no mundo etsi deus non daretur. De fato, na cruz Deus se deixa expulsar do mundo revelando assim toda a sua impotência e debilidade. Viver no mundo sem Deus torna-se, portanto, exigência direta da atitude humana de honestidade não só para com o mundo, mas também para com Deus. Assim, procurando refletir seriamente sobre o ser mesmo de Deus, Bonhöffer não pretende ‘pensar Deus sem o mundo’ apesar de defender a necessidade de se ‘pensar o mundo sem Deus’. Ele sublinha que apesar de ter se deixado expulsar do mundo pelo ser humano, Deus mantém uma profunda e estreita relação para com o mundo. Deste modo, o Deus de Jesus Cristo revela-se como Deus suportando na cruz o mundo que não o suporta a ponto de expulsá-lo.

Esta ‘interpretação não-religiosa dos conceitos bíblicos’ permite a Bonhöffer recuperar a singularidade ontológica do Deus de Jesus Cristo. Segundo tal perspectiva, Ele aparece como aquele que coloca em crise a clássica alternativa entre presença e ausência. Deixando-se expulsar do mundo e permitindo que o ser humano seja autônomo e, portanto, adulto, Deus faz-se radicalmente presente. Tal afirmação contrasta nitidamente com a típica atitude religiosa de fixar um lugar ‘fora do mundo’ e ‘acima do ser humano’ para Deus. Esta concepção produziu a teoria metafísica da onipotência divina, de um Deus presente em toda parte e, a rigor, em nenhuma parte.

Participar do sofrimento de Deus no mundo implica em associar-se à experiência de Jesus que morre abandonado pelo Pai sobre o lenho da cruz. Contemplar a presença/ausência de Deus procurando, sobretudo, deslindar os traços inusitados do Seu rosto presentes de modo singular no rosto desfigurado do Crucificado constitui a atitude por excelência da participação do sofrimento de Deus no mundo. Na pessoa do Crucificado, Deus se revela em sua fraqueza e sofrimento radicais, interpelando-nos a nos fazermos solidários com Ele no mundo, a participar da sua impotência no mundo. Tal exigência implica em uma sincera atitude de conversão concebida como uma autêntica renúncia aos próprios problemas, tribulações, angústias e mesmo à própria condição de pecador para deixar-se guiar única e exclusivamente por Jesus Cristo.

Profundamente convencido de que o Pai de Jesus Cristo não abandona jamais seus filhos, o cristão desentranha sua singular presença para além desta sua aparente ausência. Isto significa que a tão propalada ausência de Deus deve ser interpretada mediante outros critérios que não aqueles geralmente utilizados. Na verdade, é Deus quem se deixa expulsar do mundo para que o ser humano se torne adulto e emancipado. É Ele que, de fato, se revela na sua desconcertante fraqueza para que o ser humano se descubra forte. É Deus quem se retira do cenário do mundo e da história para que o ser humano se torne sujeito. É Ele, enfim, quem se deixa vencer para que o ser humano realize todas as suas virtuais possibilidades. Por mais escandaloso que tudo isso possa parecer, encontramo-nos frente à inusitada, porém livre, decisão paterna e amorosa de Deus.

Deste modo, Deus se revela não como um competidor, nem como alguém que está aí para tolher ao ser humano a liberdade. Pelo contrário, Ele é o primeiro a se interessar pelas criaturas humanas e, para tanto, engaja-se pessoalmente a favor do bem delas. No entanto, ao invés de interferir de maneira brusca e repentina, violentando desta forma a liberdade humana, Deus prefere apelar sutilmente para sua consciência. Neste sentido, Ele não perde uma oportunidade sequer para convencer o ser humano daqueles valores que julga serem importantes. E isto se chama respeito pela liberdade do outro. E o que é mais importante : Deus respeita a liberdade de cada ser humano sem, contudo, mostrar-se indiferente ou insensível. Deus continua presente, mas sua presença é particularmente respeitosa. Aguarda o momento justo para interpelá-lo. Não força, nem desrespeita o ritmo de cada um. Está ali à espreita, aguardando a ocasião mais propícia para oferecer sua proposta de diálogo e para dirigir-lhe sua interpelação. E o faz de maneira tal a não lesar a inviolável liberdade humana. Só um Deus concebido como autêntico Pai assume esta atitude de respeito e de cuidado para com seus próprios filhos e filhas.’


Fonte :
* Artigo na íntegra

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