terça-feira, 29 de março de 2016

As obras de misericórdia corporais

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


 

*Artigo de JOVENS EM MISSÃO

‘As obras de Misericórdia são as ações caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar, suportar com paciência e rogar a Deus pelo próximo são obras de misericórdia espirituais. As obras de misericórdia corporais consistem em dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, albergar quem não tem teto, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, e sepultar os mortos.


Caridade fraterna e justiça que agrada a Deus

Ser cristão é ser como Jesus Cristo, é manifestar a fé em atos de caridade : «A fé se não tiver obras está completamente morta» (ler Carta de Tiago 2, 14-26). Como pode um cristão dizer que tem fé, se esta não se manifesta nos seus atos? Que sentido teria uma fé assim?

A transmissão oral da fé é fundamental, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Neste tempo, em que a fé celebrada na Igreja corre o risco de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade é tornar Deus presente neste mundo através dos gestos que são manifestação concreta de Deus que é Amor.

No Ano Santo da Misericórdia, recordamos a tradição das Obras de Misericórdia. Não são ‘caridadezinha’, mas amor ao próximo como arte do encontro, como arte da relação, como arte de viver em fraternidade e na prática da justiça que agrada a Deus.


As obras de misericórdia corporais

O evangelista São Mateus apresenta no capítulo 25 uma narração do Juízo Final (Mt 25, 31-36). E apresenta as obras de misericórdia corporais que dizem respeito às necessidades materiais do outro.

Dar de comer a quem tem fome e dar de beber a quem tem sede são duas obras que se complementam e referem-se à ajuda que devemos disponibilizar em alimentos e outros bens aos mais necessitados, àqueles que não têm o indispensável para comer em cada dia.

Jesus, segundo o Evangelho de S. Lucas, recomenda : «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça o mesmo» (Lc 3, 11).

Dar pousada aos peregrinos é uma obra que remonta aos tempos antigos, em que dar hospedagem aos viajantes era um assunto de vida ou de morte, pelas dificuldades e riscos das caminhadas e viagens. Não é o normal hoje em dia. Mas, mesmo assim, poderia acontecer recebermos alguém em nossa casa, não por pura hospitalidade de amizade ou família, mas por alguma, verdadeira, necessidade. O êxodo dos refugiados que chega à Europa dá, atualmente, uma nova urgência à prática desta obra de fraternidade e justiça social e cristã.

Vestir os nus é um apelo para aliviar outra necessidade básica : o vestuário. Muitas vezes é-nos proporcionada com as recolhas de roupa que se fazem nas paróquias e noutros centros. Ao entregar a nossa roupa é bom pensar que podemos dar o que nos sobra ou já não nos serve, mas também podemos dar do que ainda nos é útil. A carta de São Tiago propõe-nos sermos generosos : «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser : ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome», mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?’» (Tg 2, 15-16).

Visitar os enfermos. Trata-se de uma verdadeira atenção para com os doentes e idosos, tanto no auxílio físico, como em lhes proporcionar um pouco de companhia. O melhor exemplo da Sagrada Escritura é o da parábola do Bom Samaritano que curou o ferido e, ao não poder continuar a cuidar dele diretamente, confiou os cuidados que necessitava a outro em troca de pagamento (ver Lc 10, 30-37).

Visitar os presos é prestar-lhes não só ajuda material, mas também assistência espiritual que lhes sirva para melhorarem como pessoas, emendar-se, aprender a desenvolver um trabalho que lhes possa ser útil quando terminarem o tempo que lhes foi imposto pela justiça, etc. Significa também resgatar os inocentes e sequestrados. Em tempos antigos os cristãos pagavam para libertar escravos ou se trocavam por prisioneiros inocentes.

Por fim, enterrar os mortos. Foi um amigo de Jesus Cristo, José de Arimateia, que lhe cedeu o seu túmulo. Mas, não apenas isso, teve a valentia para se apresentar ante Pilatos e pedir-lhe o corpo de Jesus. Nicodemos também participou e ajudou a sepultá-lo (Jo 19, 38-42). Enterrar os mortos parece um mandato supérfluo, porque, de fato, todos são enterrados. Mas, por exemplo, em tempo de guerra, pode ser um mandato muito exigente. Porque é importante dar sepultura digna ao corpo humano? Porque o corpo humano foi morada do Espírito Santo. Somos templos do Espírito Santo (1 Cor 6. 19).


A obra de misericórdia mais pobre

Visitar os presos é uma obra de misericórdia muito difícil de ser praticada nos tempos atuais. Muitas são as razões que as pessoas afirmam para não o praticar : não dá jeito, não têm tempo, não sabem como fazer, poderiam ser julgados, não conhecem as pessoas de lado nenhum, não se devem meter em assuntos alheios…

É difícil transformar os corações, os de dentro e os de fora. Uma sobressai : por causa do aumento da violência e da sensação de impunidade, acabamos por desejar que as pessoas que cometem crimes sejam condenadas para que desapareçam das nossas vidas. Ou seja, estamos a deixar de acreditar no ser humano. Começamos a acreditar mais no castigo do que na recuperação, mais na destruição do que na conversão, mais na força do crime do que no amor de Deus e o amor humano. Deixamo-nos levar por este mundo violento, um mundo que descarta as pessoas, esquecendo-nos que também os encarcerados são filhos e filhas de Deus.

As prisões não podem ser um ponto final na vida das pessoas, mas um ponto de passagem. Cair na rua desamparado também não pode ser o ponto final de uma pessoa que passou pela prisão.

A Igreja, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, é uma comunidade terapêutica, comunidade de irmãos capaz de reconstruir pessoas com percursos de vida insensatos. O cristão acredita que todas as pessoas possuem dignidade, conferida por Deus, devendo ser valorizadas pelo que são, e não pelo que têm, fazem ou produzem. O cristão crê na arte de visitar, levando para dentro da cadeia a ideia de liberdade com responsabilidade, com palavras e gestos de conforto, carinho, companheirismo e esperança.’


Fonte :
* Artigo na íntegra

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