quarta-feira, 7 de maio de 2014

Mártires da Argélia sob o olhar sagrado (Capítulo 1 de 8)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Catedral de Argel - Nossa Senhora d’África 

Panorama

A antiquíssima Argélia, povoada desde 10.000 A.C., situa-se na parte ocidental do mundo árabe, no noroeste africano. Faz parte do Magreb, uma das subdivisões da África do Norte, que também é composto pela Mauritânia, Tunísia, Saara Ocidental e Marrocos, podendo se ampliar até a Líbia, no notório grande Magreb.

Em sua derradeira colonização, o território argelino foi ocupado militarmente após o desembarque da frota francesa em 05 de julho de 1830. Desde então, passou por intensas transformações em seu aspecto cultural, político-social e econômico. 


Cronologia de uma catástrofe anunciada

Depois de um século de ocupação, a Argélia apresenta um cenário complexo e turbulento :

. 1938 - Ferhat Abbas alicerça o movimento independentista ‘União Popular Argelina’ com o intuito de reaver a personalidade árabe da colônia.

. 1943 - O mesmo Abbas pede a sanção de um Estado argelino soberano, que é negado pelo governador francês. Consequentemente, eclode a oposição ostensiva que não se deterá mais.

. 1954 - A Frente de Libertação Nacional (FLN), capitaneada por Ben Bella, Ait Ahmed e Mohammed Kedir, incita conflitos pela emancipação.

. 1962 - Tais conflitos determinam a assinatura da independência no dia 3 de julho. Estabelecido o sistema de partido único – e com o apoio do exército – Ahmed Ben Bella torna-se o primeiro presidente.

. 1965 - Ben Bella é destituído. O conselho de revolução, comandado pelo coronel Bounmedian, toma o poder através de um golpe de estado.

. 1976 - A Argélia alcança seus objetivos com o anúncio da Carta Magna : torna-se um país socialista, de religião islâmica e  língua árabe.

. 1978 - Falece Bounmedian.

. 1979 - Chadli Benjedid é eleito presidente pelo congresso da Frente de Libertação Nacional (FLN).

. 1984 - Chadli Benjedid é reeleito.

. 1989 - O pluripartidarismo é reconhecido pela Constituição. Fundamentalistas e ressentidos com a Carta de 1976 crescem vertiginosamente.

. 1990 - A Frente Islâmica de Salvação (FIS), que promove diversas insurreições, ganha as eleições gerais.

. 1992 - Em janeiro, o processo eleitoral é interrompido e o presidente Chadli Benjedid é deposto. O poder passa às mãos de Mohamed Boudiaf, da Alta Comissão do Estado (HCE). A Frente Islâmica de Salvação (FIS) parte para a clandestinidade e todas as atividades políticas são suspensas. Paralelamente, o Grupo Islâmico Armado (GIA), facção extrema da FIS, promove a ascensão do terror. Em junho, com o assassinato de Boudiaf, a Argélia é sugada por ondas incontroláveis de fúria.


A presença católica neste pedaço de mundo

A Igreja...estava imersa no mesmo processo e teve que fazer adaptações de alcances não pensados. Com humildade evangélica e com muita lucidez e intuição, foi adaptando-se ao que a voz do Reino ia manifestando na leitura de fé e na atenção aos sinais dos tempos. Atrás ficava a ostentação dos bons tempos de esplendor, das celebrações massivas, da vistosidade dos paramentos, das grandes solenidades. Inaugurou-se a Igreja do silêncio,...das catacumbas,...das minorias,...da esperança.

A Igreja da Argélia tem uma longa história. Aquela florescente e próspera Igreja dos primeiros séculos do cristianismo, com figuras tão relevantes como a de Santo Agostinho, foi dando, pouco a pouco lugar à atual, tão reduzida numericamente, como viva e evangélica. Primeiro com a conquista árabe-muçulmana, mais tarde com a ocupação francesa e atualmente com a violência, que parece asfixiar as mais firmes esperanças; e a Igreja da Argélia tem experimentado uma trajetória continuamente decrescente, no que se refere à quantidade. Primeiro a independência, depois a arabização do ensino e da administração diminuíram as possibilidades reais de trabalho para os estrangeiros. Na década de 80, com a desvalorização do dinar e do dólar, cidadãos procedentes dos países do leste europeu, não encontravam nenhum incentivo para seguir trabalhando na Argélia. A sua retirada do país foi baixando drasticamente o número de membros das comunidades cristãs(1).

Qual o sentido desta Igreja formada por uma cota insignificante de religiosos e leigos, num país constituído por 99% muçulmanos e 1% cristão? Depende. Sob o ‘olhar profano’, beira o desprezível. Sob o ‘olhar sagrado’, é imprescindível. Haja vista o trabalho delicado e penoso do Cardeal Leon Etienne Duval (1903 – 1996) à frente da Igreja argelina em seus momentos mais obscuros. Ele acompanha de perto a rápida e contínua diáspora de cristãos a seus países de procedência, estimulando a abertura de colégios e de oportunidades de trabalho para reinseri-los nesta sociedade conturbada.

A presença e o trabalho, especialmente dos religiosos, se descentraliza, vai tomando uma aparência leiga, perdendo o seu estilo de grupos seletos, situados em lugares exclusivos. É a realização viva do axioma paulino de ‘fazer-se judeu com os judeus’, a partir da própria identidade.

Formam-se comunidades pequenas. O Cardeal Duval, indiscutível líder carismático e espiritual desta Igreja, numericamente decrescente, dotado de uma vigorosa personalidade, é referência não só para os fiéis...O correr do tempo o aproxima da aposentadoria...mas deixar o cargo não o impede de continuar vivendo a sua missão carismática que se traduz na escuta e orientação(1).

Em dezembro de 1980, como Arcebispo coadjutor, Dom Henri Teissier sucede Duval.

Nesta época, a Argélia, numa associação colegiada, possui quatro dioceses (Argel, Oran, Constantine-Hipona e Laghouat) para conduzir  seu rebanho na ‘casa do Islã’. Fiéis a Jesus Cristo, permanecem discretos e vigilantes enquanto interpretam os acontecimentos à luz da fé.

Em outubro de 1993, algumas pessoas do consulado francês são sequestradas e logo postas em liberdade para divulgar a mensagem categórica de seus raptores : todos os estrangeiros devem partir até primeiro de dezembro. Ao término do período, quatro são mortos aleatoriamente, abrindo a temporada de desumanos e macabros assassinatos, inclusive de milhares de argelinos predestinados ao anonimato.

A morte atroz de Henri Vergès (dos Irmãos Maristas) e Paul-Hélène (das Irmãzinhas da Assunção), em 8 de maio de 1994, evidencia aos religiosos a perda da ‘imunidade’, compartilhando o mesmo destino da multidão : ficar à mercê da cólera de fanáticos radicais.

Vizinhos incitam a fuga para o exterior. Simultaneamente, a diplomacia das embaixadas pede aos seus cidadãos que abandonem o país, caso não tenham motivos sólidos para ficar.

Os bispos alegam que é o momento oportuno para ‘um discernimento eclesial, comunitário e pessoal’. Em agonia, as comunidades religiosas tentam se equilibrar entre a dispersão de seus membros e a (in)sensatez daqueles que desejam perseverar. Dos que optam pela permanência, eis os 19 mártires, de 8 congregações distintas (que abordaremos nos próximos capítulos), sistematicamente abatidos entre os períodos de 1994 e 1996 (2) :

. 08.05.1994
. Irmão Henri Vergès (Irmãos Maristas)
. Irmã Paul-Hélène Saint-Raymond 
               (Irmãzinhas da Assunção)

. 23.10.1994 – (Irmãs Agostinianas Missionárias)
. Irmã Esther Paniagua Alonso
. Irmã Caridad Alvarez Martín

. 27.12.1994 – (Missionários da África (Padres Brancos))
. Padre Jean Chevillard
. Padre Alain Dieulangard
. Padre Charles Deckers
. Padre Christian Chessel

. 03.09.1995 – (Nossa Senhora dos Apóstolos)
. Irmã Angèle-Marie
. Irmã Bibiane

. 10.11.1995 – (Irmãzinhas do Sagrado Coração)
. Irmã Odette Prévost

. 21.05.1996 – (Monges Trapistas)
. Dom Christian de Chergé
. Irmão Luc Dochier
. Dom Christophe Lebreton
. Irmão Michel Fleury
. Dom Bruno Lemarchand
. Dom Celestin Ringeard
. Irmão Paul Favre-Miville

. 01.08.1996 – (Bispo de Oran, Dominicano)
. Dom Pierre Claverie


O Magreb, o Saara e os tempos atuais

 ‘O Saara costumava ser uma zona econômica próspera, famosa por suas longas caravanas de camelos carregando sal (na Idade Média, valiam mais do que o ouro). Mas os tempos – e as rotas – mudaram e agora os países nas margens ao sul do deserto, todos ex-colônias francesas, estão entre os mais pobres do mundo’.

Para aqueles que vivem e se relacionam com os povos desta zona inóspita, o Saara é uma extensão ampla e única. E não o retalho de diversas nações.

Muito abaixo das areias escaldantes deste território depauperado, a natureza abriga recursos valiosos, verdadeiros objetos de desejo e cobiça :
. o Níger, com suas reservas colossais de urânio, abastecem as usinas nucleares da França
. o Mali possui a maior produção mundial de ouro e
. a Argélia dispõe de campos de gás e petróleo  

Acima das areias, embora seja difícil determinar os limites de atuação, quadrilhas aparelhadas e moradores do deserto – que optam pela criminalidade – raptam estrangeiros para negociar polpudos resgates, utilizam mutuamente rotas antigas para escoar o contrabando de armamentos, munições e mercadorias, além do tráfico de seres humanos e drogas com o objetivo deslavado de enriquecimento, autossuficiência, jihad universal, etc...

Por exemplo, os militantes fundamentalistas islâmicos da Nigéria (Boko Haram e Al-Shabab) mantém conexões com outros jihadistas do Saara :
. na década de 1990, guerreiros tuaregues, uniram-se aos insurgentes muçulmanos expulsos da Argélia, espalharam-se pelo Magreb, firmaram parceria com a Al Qaeda e atacaram todos os países da região
. após a queda do coronel Khadafi, na Líbia, os tuaregues voltaram ao Mali fortemente treinados e armados, difundindo o medo, coordenando rebeliões e atacando audaciosamente uma refinaria de gás na Argélia

Analistas internacionais acreditam que os rebeldes não estejam mais fortes; na verdade, os Estados em que operam estão fragilizados pela ‘pobreza, vácuo de poder, desordem institucional, tensões étnicas, fronteiras artificiais...e problemas institucionais pós-coloniais ainda não resolvidos’.

           Em suma, é neste panorama que devemos orar por todos. 


Fontes :

(1) Rodríguez Muñoz, Irmã María Jesús e Martín de la Mata, Irmã María Paz, (Agostinianas Missionárias (AM)). Testemunhas da Esperança - Mensageiras do Amor, Aparecida - SP, Editora Santuário, 2005.

(2) Bigotto, Irmão Giovanni Maria, postulador marista das causas dos santos, livreto ‘O Sangue do Amor, Os Mártires da Argélia 1994-1996’, 2006.


Nenhum comentário: