domingo, 24 de fevereiro de 2019

A coragem de dar um nome ao mal dos abusos


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Missa presidida pelo Papa na Sala Régia
*Artigo de Andrea Tornelli,
jornalista e escritor



Já no passado, durante a conversa com os jornalistas no avião, Francisco havia comparado o abuso a ‘uma missa negra’. Portanto, ‘por trás disso está satanás’, a mão do mal. Reconhecer isso não significa esquecer todas as explicações, ou diminuir as responsabilidades pessoais de indivíduos e coletivas da instituição. Significa situá-las em um contexto mais profundo.

Em seu discurso, o Papa falou sobre os abusos no mundo, não apenas na Igreja. Mas isto para manifestar uma preocupação de pai e de pastor, que não pretende de forma alguma diminuir a gravidade dos abusos cometidos no âmbito eclesial, porque a abominável desumanidade do fenômeno ‘torna-se ainda mais grave e mais escandalosa na Igreja.’

Os pais que tinham confiado seus filhos e os seus jovens aos sacerdotes, para que os educassem introduzindo-os na vida de fé, os viram sendo restituídos com o corpo e a alma irremediavelmente e permanentemente feridos.

Na ira justificada do povo, explicou o Papa, a Igreja ‘vê o reflexo da ira de Deus, traído e esbofeteado por estes consagrados desonestos’.

O grito silencioso dos abusados, o drama incurável de suas vidas destruídas por consagrados transformados em porcos corruptos e insensíveis, ecoou na Sala do Sínodo. Ele traspassou o coração dos bispos e superiores religiosos. Varreu justificativas, imagens jurídicas, a frieza de discussões técnicas, o buscar abrigo nas estatísticas. A absoluta gravidade do fenômeno tornou-se consciência da Igreja universal como nunca antes havia acontecido.

Francisco em seu discurso conclusivo quis agradecer a todos os sacerdotes e religiosos que se consomem para anunciar o Evangelho, educar e proteger os pequenos e indefesos, dando a própria vida no seguimento de Jesus. Olhar na cara o abismo do mal não pode fazer esquecer o bem, não por inúteis lampejos de orgulho, mas porque é preciso saber onde olhar e quem seguir como exemplo.

Mas o encontro no Vaticano não foi apenas um soco no estômago que tornou os participantes mais conscientes dos efeitos devastadores do mal e do pecado e, portanto, da necessidade de pedir perdão, invocando a ajuda graça divina.

O encontro de cúpula também atesta a firme vontade de dar substância ao que irá emergir a partir dos próximos dias, com escolhas operacionais eficazes. Porque a consciência da gravidade do pecado, e o constante apelo ao Céu para implorar ajuda, que caracterizaram o encontro no Vaticano, andam de mãos dadas com um compromisso renovado e operacional, para fazer com que os ambientes eclesiais sejam sempre mais seguro para os menores e os adultos vulneráveis. Na esperança de que este compromisso possa contagiar também todos os outros setores de nossas sociedades.’


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