quinta-feira, 30 de março de 2017

Distrações

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Dom Leven Harton, OSB,
Vice-Prior de St. Benedict´s Abbey, Atchison, Kansas, EUA


Ninguém presuma relatar a outrem qualquer das coisas que tiver visto ou ouvido fora do mosteiro, pois é grande a destruição.’ RB 67,5. ‘Raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de falar por causa da gravidade do silêncio...’ RB 6,3.


‘Fora do contexto do carisma monástico, algumas frases da Regra de São Bento podem aparecer severas e isoladas. Qual seria o mal que poderia causar o monge, escutando notícias de fora do mosteiro? E por que a conversa entre os irmãos deve ser regulada? Monges não são adultos com capacidade de filtrar o que ouvem e beneficiar-se da interação com as realidades externas? O que pode ser o valor positivo que São Bento imagina quando coloca estas e outras restrições nas comunicações do mosteiro?

Admitimos que nossa cultura seja bem carregada – cheia de comunicação e informação. Vivemos na era de ‘informação’, um momento da história em que desfrutamos de acesso sem precedente a conteúdo de toda variedade. E enquanto recebemos grandes benefícios com informação rapidamente disponível, há uma grande cilada que ameaça profundamente a dignidade humana : a distração.

Por ‘distração’ não me refiro ao inseto perturbante que faz zum-zum na consciência de vez em quanto, causando irritação temporária pela atenção dividida. Eu quero dizer uma vida de distração, vida cheia de distração, vida focalizada na distração. A era em que tentamos viver ‘cristianidade’ é uma era que nos oferece um verdadeiro ‘carisma’ de secularidade neste tipo de vida – uma vida de distrações.

Viver distraído é estar habitualmente desconectado da realidade que se encontra à nossa frente. Para o cristão, distração é um perigo grave. Desvinculado da realidade, está separado de Deus. Distração cria obstáculo na avenida pela qual Cristo vem até nós. Assim, a vida de distração pode ser uma forma de revolta, rejeição da própria vida; e esforços de providência divina são insuficientes, faltosos, sem eficácia. Um ‘não’ a Deus desta maneira fica tácito, basicamente não reconhecido. Em vez de viver a vida sem filtro, cara a cara, vem a intervenção de uma postura confortável de entretenimento. E iludimos a responsabilidade consciente da nossa vida, escondendo-nos atrás de centenas de pequenas escolhas para manter distração. O compromisso assumido, único à ação humana, é descartado neste caso, e nos entregamos por um nada. A vida distraída, ainda mais, é alienação, não só de Deus, mas da dignidade de poder fazer verdadeiras escolhas humanas.

Minha oportunidade para distração veio de uma conversa provocante sobre o time de beisebol de Kansas City no ano passado, quando se dizia que este time tão calcado estava para jogar no campeonato nacional. Escutar um jogo na rádio é bom para relaxar e um entretenimento moralmente neutro. Todavia, houve o risco de tal modo distraído de vida tornar-se real para mim. Viajando recentemente para uma reunião de suma importância, aproximando-se do meu destino, estava precisando rezar e refletir bastante em preparação para esta reunião. Surgiu, então, a tentação de escutar na rádio este jogo importante do meu time preferido. Pensando, não poder ser tentação, pois eu gosto de seguir este time. Não é tentação porque seguir o time não é ‘prazer do mundo’. A tentação para mim era o desvio de atenção da situação levando-me a não assumir o que eu deveria. Era tentado a dividir minha pessoa entre o jogo e a reunião que precisava da minha atenção. Parece brincadeira. Mas participar do jogo neste momento me tiraria de uma preparação adequada para uma reunião importante. Será que posso sacrificar algo que gosto muito, um jogo do meu time preferido em ascensão? Felizmente resisti à tentação e a reunião saiu ótima.

São Bento reconheceu tal tentação para humanidade, a vontade de descuidar de nossa interioridade e viver distraídos. Mesmo sem a tecnologia de comunicação do século 21, ou jogos de esporte!

São Bento se preocupava que os monges mantivessem o estado de recolhimento e exortava a comunidade a guardar silêncio. As primeiras palavras da Regra são emblemáticas da espiritualidade beneditina : obsculta, ‘escuta’. Não há escuta, percepção com os olhos da fé, ou atenção com o coração se a pessoa estiver distraída, perdida nas imaginações, ansiedades ou jogos esportivos. A tarefa de permanecer-se ligado e colocar-se a si mesmo frente à realidade é aplicar-se a escutar e prestar atenção. Cremos que a realidade é portadora da presença de Deus em nossa vida. Tal experiência é impossível ao coração distraído.

Monges no século 21, em geral, têm mais acesso ao mundo do que São Bento podia imaginar. Hoje, há mais comunicação interna na maioria dos mosteiros do que no mosteiro onde ele morava – Monte Cassino. O valor de ficar recolhido, face à realidade, porém, é ainda bom para o monge hoje. É um testemunho ao mundo contemporâneo que cegamente incentiva relações superficiais. Mas o coração humano, que precisa da realidade e é feito para comprometer-se com ela, não é enganado pela distração.

Um exemplo de um ‘santo’ pela fidelidade à realidade vem de uma forma improvável de um falecido magnata da moda. O ex-editor da revista Elle, Jean-Dominique Bauby, foi submetido a uma mudança de sorte quando sofreu Síndrome do Encarceramento (Locked-in Syndrome), que paralisou seu corpo inteiro, exceto o olho esquerdo que ainda podia piscar. Neste estado de paralisia, após um ritmo de vida agitado e glamoroso, ele piscou, letra por letra, a um fonoaudiólogo, sua autobiografia, o livro com o título Le Scaphandre et le Papillon. (1)

Pelas cortinas desfiadas da minha janela uma luminosidade pálida anunciou o dia. Meu calcanhar dói, minha cabeça pesa uma tonelada, e algo como um enorme escafandro invisível mantém meu corpo prisioneiro. Meu quarto aos poucos clareou : fotos dos queridos, desenhos dos filhos, o suporte do soro suspenso sobre minha cama onde fiquei confinado estes últimos seis meses, como um caranguejo eremita cravado ao seu rochedo. Até agora nunca ouvi falar do tronco cerebral. Aprendi que é o componente essencial em nosso computador interno, o elo inseparável entre o cérebro e cordão espinhal. Fui brutalmente introduzido a este vital pedaço de anatomia quando o AVC atrapalhou meu tronco cerebral.

Aos poucos, tornando aclimatada a sua situação, Bauby começa a descobrir esperança. Ele descreve seu lugar favorito no Hospital Naval de Berck, no terraço, a um protetor ao qual ressegura : ‘Saindo do elevador no andar errado, eu o vi : alto, robusto e tranquilizador, com listras vermelhas e brancas que me fez lembrar a camisa de rúgbi. Coloquei-me de novo sob a proteção deste símbolo tão fraterno, guardião não só de marinheiros, mas dos doentes – aqueles jogados nas praias da solidão. O farol e eu permanecemos em contato constante, e frequentemente o visitei, pedindo alguém a me levar ao terraço na cadeira de rodas.’

Paralisado, este homem se encontra na posição de enxergar a realidade de uma maneira nova. A sua vida de distração lhe foi retirada, e ele se viu forçado a olhar e escutar de forma diferente. Ele reconheceu no farol a presença de um benigno e poderoso guardião, ao qual eu chamo Deus. Esta nova posição, nova capacidade de perceber a realidade e o que a realidade contém, é o que São Bento estava pensando quando colocou limites na comunicação e interação entre os membros da comunidade. Claro, ele não quer e não espera que seus monges sejam impedidos de conseguir isso. Não precisamos nos separar uns dos outros para experimentar a diferença em sermos livres de distrações. Para todos nós, em qualquer estado de vida em que o Senhor tem nos colocado, podemos ter a certeza de que Ele quer nos encontrar em nossa própria realidade. Se conseguirmos cultivar aquele silêncio e aquela paz que nos são dados, O encontraremos em nossas circunstâncias. E encontrando-O, Ele nos traz aquela paz que o mundo não nos pode dar.’


Fonte :

(1) O Escafandro e a borboleta. França, Éditions Robert Laffont, 1997

Tradução : Duane G. Roy, OSB

Revisão : Josias Dias da Costa, OSB

Priorado São José, Mineiros-GO


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