sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Desarmar Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


A intenção de oração do papa para o passado mês de Janeiro era sobre o diálogo inter-religioso. No vídeo feito para a difundir, Francisco disse : «Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente, procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões só há uma certeza que todos podemos ter: somos todos filhos de Deus.»

Somos filhos de Deus, mas indispostos e com dificuldade de diálogo e de entendimento. O diálogo inter-religioso é, por isso, necessário para que possamos conhecer, entender e trabalhar juntos pela paz e a justiça. Desde o famoso encontro de Assis – em 1986, entre João Paulo II e representantes das várias religiões – que oficialmente as iniciativas de diálogo se multiplicaram. São momentos simbólicos cuja função é dar o exemplo de encontro e promover o aprofundamento do diálogo de vida e de ideias entre os crentes das várias fés.

Dado que a maioria das pessoas no mundo são crentes, as religiões são interlocutoras imprescindíveis em qualquer entendimento que possa conduzir à paz. O teólogo Hans Küng enunciou o princípio em 2001 na Assembleia Geral das Nações Unidas : «Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo com paz e justiça sem um novo paradigma de relações internacionais, baseado em padrões éticos globais.»

Tal «roteiro para a paz» nunca terá sido tão óbvio como hoje, num momento em que o radicalismo islâmico, sob a forma de grupos tão extremistas quanto o Estado Islâmico, al-Shabaab ou Boko Haram, tem vindo a revelar a face mais odiosa da religião e a exportar o terror. Por outro lado, tornou-se claro que tais grupos, que se alimentam de uma «mística» alegadamente religiosa, são o fruto de políticas internacionais erradas que tentaram apagar o fogo com gasolina. O que torna especialmente clara a necessidade de um novo paradigma nas relações internacionais, indispensável para assegurar a paz e a justiça.

Ao mesmo tempo, cada religião terá também de fazer o seu trabalho de casa, começando por «desarmar» Deus. Os livros sagrados das várias religiões, especialmente das religiões abraâmicas ou religiões do livro, Judaísmo, Cristianismo e Islão, estão repletos de relatos de violência e de diversas formas de guerra «sagrada». Requer-se, portanto, uma leitura contextualizada, uma hermenêutica correta desses episódios para não imputar a Deus o que é puramente humano e cultural. No caso do Islão, o conceito de «grande jihad» (jihad significa luta, esforço) terá de ser entendido – como o profeta Maomé explica aos seus companheiros na Hadith, o livro que contém as suas palavras e actos – como «a luta pela purificação do coração», «luta espiritual interna» (e não como guerrilha ou terrorismo).

A guerra em nome de Deus é uma blasfêmia : Deus não pode aprovar a guerra ou a morte. Não poucas vezes, as religiões são usadas para encobrir a mera ânsia de poder e domínio geoestratégico. No caso do Islã, a comunidade muçulmana global terá de se dissociar cada vez mais do terrorismo praticado em nome da sua religião, em vez de continuar a proclamar à exaustão que «o Islã é uma religião de paz». Pois todos os extremismos que florescem num caldo de cultura «religioso» pervertem necessariamente a religião.

Deus é o senhor da paz, da justiça e do encontro. Honrá-lo-emos na medida em que admitamos e trabalhemos para desconstruir os preconceitos religiosos que nos dividem e impedem de conhecer a riqueza de outras religiões e de outras tradições religiosas.’


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