quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

País muçulmano financia restauração de catacumbas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



Afrescos extraordinários das Catacumbas romanas dos Santos Marcelino e Pedro, num vasto sítio arqueológico aberto recentemente ao público, recuperaram seu antigo esplendor. Na sede do Pontifício Conselho da Cultura foram apresentados na manhã desta terça-feira os resultados da complexa obra de restauração, cujos custos foram cobertos em parte pela Fundação ‘Heydar Aliyev’, presidida pela Sra. Mehriban Aliyeva, esposa do Presidente muçulmano do Azerbaijão.

As Catacumbas dos Santos Marcelino e Pedro, na Via Casilina, 641, são uma extraordinária pinacoteca subterrânea. Terceiras catacumbas em Roma em extensão, abrigam em uma área de mais de 18 mil m² pinturas paleocristãs únicas no mundo, dentro do complexo arqueológico ‘Ad duas lauros’. O recente e precioso trabalho de restauração permite contemplar excepcionais afrescos em suas cores originais. Estas Catacumbas, ligadas ao martírio dos Santos Marcelino e Pedro, foram por séculos, assim como neste Ano Santo da Misericórdia, metas privilegiadas de peregrinação.


Os Santos Marcelino e Pedro

Pedro era um jovem exorcista que recusou-se abjurar da própria fé e de adorar outros deuses. Por isto foi torturado e encarcerado. Entre os carcereiros havia um homem especial, Artêmio, que profundamente tocado pela fé de Pedro, converteu-se ao cristianismo. Converteram-se também muitos outros detentos, carcereiros e famílias inteiras. Pedro não podia administrar o batismo e um sacerdote, Marcelino, foi até a prisão para batizar.


O martírio dos Santos Marcellino e Pedro

Marcelino e Pedro foram condenados à morte, sendo mortos em 304 d.C. por ordem do Imperador Diocleciano, que considerava o cristianismo um obstáculo para o desenvolvimento econômico e social do Império. Os dois mártires foram obrigados, antes da decapitação, a escavar o próprio túmulo com as mãos em uma densa floresta, conhecida como Floresta Negra, para que o local em que haviam sido enterrados permanecesse ignorado.


Restos mortais transferidos para o cemitério ‘Ad duas lauros’

Uma romana chamada Lucila, conseguiu transferir os restos mortais daquela área – que atualmente é chamada de Floresta Candida, em honra aos dois mártires – para um Cemitério cristão na Via Casilina, na localidade de ‘Ad duas lauros’. O lugar, mais tarde dedicado à memória dos dois Santos, tornou-se meta de peregrinação. No período carolíngio, as relíquias dos dois Santos foram levadas à Alemanha, na cidade de Seligenstadt, onde são guardados até hoje.


Os afrescos salvos pelas obras de restauração

A vinda dos recursos da Fundação ‘Heydar Aliyev’, foi possível graças aos acordos firmados em 2012, o que permitiu, com o uso de avançadas técnicas de conservação, a restauração de extraordinários monumentos pictóricos, como o Cubículo de Susana e o coveiro; o nicho de Daniele; o Arcosolium de Sabina; o Arcosolium de Orfeu; o Cubículo de Nossa Senhora com os dois Magos; o Cubículo da dama orante, que mostra uma mulher com a cabeça velada e os braços abertos. Uma joia pictórica que antecipa a iconografia medieval das Nossas Senhoras da Misericórdia.


Prevista restauração das Catacumbas de São Sebastião

A colaboração entre a Santa Sé e o Azerbaijão prosseguirá com outros importantes projetos. Hoje, em particular, foi selado um protocolo de intenção para obras de restauração e a valorização do complexo monumental de São Sebastião fora dos Muros, na Via Apia Antiga. O acordo diz respeito, entre outros, a uma extraordinária coleção de sarcófagos.

Ao ser questionada sobre o por quê de uma fundação de um país muçulmano financiar a restauração de patrimônios cristãos, a Sra. Mehriban Aliyeva explicou :

O Azerbaijão é um país entre a Europa e Ásia, entre o Ocidente e Oriente, e esta posição geográfica influenciou a profunda diversidade que caracteriza o país. A amizade e a fraternidade sempre acompanharam os povos que viveram no país. A nossa grande riqueza também é constituída pela presença de múltiplas confissões religiosas. Em particular, a restauração das Catacumbas dos Santos Marcelino e Pedro insere-se neste projeto de uma colaboração entre a Santa Sé e o Azerbaijão. No futuro, a nossa Fundação estará sempre pronta a prosseguir com esta cooperação’.


Cardeal Ravasi fala da ampla colaboração

A colaboração entre a Santa Sé e o Azerbaijão tem uma ampla abrangência, sublinha o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho da Cultura e da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra :

A colaboração tem o seu cerne principal nas Catacumbas dos Santos Marcelino e Pedro e agora na de São Sebastião. Mas o compromisso da Fundação ‘Aliyev’ e, em particular da sua presidente, ampliou-se também para a Biblioteca Apostólica Vaticana, com a restauração de muitos manuscritos azeris, e aos Museus Vaticanos, onde tiveram início  trabalhos de restauração, sobretudo de uma imponente estátua de Júpter. A segunda consideração diz respeito ao fato de que eu mesmo, certa vez, visitei o Azerbaijão e tive  a oportunidade de lá encontrar várias comunidades religiosas. Portanto, trata-se de uma rede de colaboração muito difundida.’’


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