sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Um elogio de Bergoglio a Guardini, pensador profético

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Recebendo em audiência os participantes do congresso patrocinado pela fundação dedicada ao teólogo ítalo-alemão, o Papa Francisco identifica alguns traços do trabalho : a necessidade do perdão, a fé do povo, a reflexão sobre os fundamentos cristãos da civilização europeia

Romano Guardini, um dos teólogos mais citados pelo Papa Francisco, é ‘um pensador que tem muito a dizer aos homens de nosso tempo, e não só aos cristãos’. Assim disse na manhã de hoje o próprio Pontífice, durante a audiência concedida aos participantes do congresso promovido pela ‘Fundação Romano Guardini’ de Berlim, por ocasião do 130º aniversário do nascimento do filósofo italiano-alemão.

Desejando um ‘bom sucesso’ para a Fundação, que está trabalhando para fazer ‘entrar o pensamento de Guardini em um diálogo polifônico com os âmbitos da política, da cultura e da ciência de hoje’, o Santo Padre refletiu sobre uma passagem da obra crítica ‘O mundo religioso de Dostoiévski’.

Neste ensaio, Guardini cita um episódio de Os Irmãos Karamazov, em que o starec Zosima recebe as pessoas para a confissão e a benção. Aproxima-se dele também uma anciã camponesa que matou o marido, suportando as suas violências e abusos.

Oprimido pela culpa, ‘a mulher acredita que é condenada’. O sacerdote, porém, lhe recorda que ‘a sua existência tem um sentido, porque Deus a acolhe no momento do arrependimento’.

Justamente as ‘pessoas mais simples’ compreendem melhor ‘o que significa santidade, ou seja, uma existência vivida na fé, capaz de ver que Deus está perto dos homens, tem as suas vidas nas mãos’.

A este respeito, o Papa mencionou outro passo de Guardini : ‘Aceitando com simplicidade a existência da mão de Deus, a vontade pessoal se transforma em vontade divina e assim, sem que a criatura pare de ser unicamente criatura e Deus verdadeiramente Deus, se realiza a unidade viva deles’.

Guardini vê esta ‘unidade viva’ como a ‘relação concreta das pessoas com o mundo e com os outros ao seu redor’, disse o Santo Padre.

Além disso, por ‘povo’, o teólogo ítalo-alemão, compreende ‘o compêndio do que no homem é genuíno, profundo, substancial’, portanto, como um ‘campo de forças da ação divina’, que o próprio povo percebe como ‘em todas as coisas operante e intui o seu mistério, a presença perturbadora’.

Uma concepção muito diferente, portanto, daquela do ‘racionalismo iluminista que considera real apenas o que pode ser apreendido pela razão e que tende a isolar o homem arrancando-o das relações vitais naturais’, frisou Bergoglio.

As reflexões de Guardini, portanto, podem ser aplicadas ao ‘nosso tempo’, tentando ‘encontrar a mão de Deus nos eventos atuais’; por exemplo, fazendo reconhecer que ‘Deus, na Sua sabedoria, nos enviou, na Europa rica, o faminto para que lhe déssemos de comer, o sedento para que lhe déssemos de beber, o peregrino para que o acolhêssemos, e o nu para que o vestíssemos’, comentou o Pontífice.

A história depois vai provar : se somos um povo, certamente o acolheremos como um irmão nosso; se somos somente um grupo de indivíduos, seremos tentados a salvar principalmente a nossa pele, mas não teremos continuidade’, acrescentou o Santo Padre, concluindo com a felicitação aos participantes do congresso voltado a aprofundar a obra de Romano Guardini, com a finalidade de ‘sempre mais compreender o significado e o valor dos fundamentos cristãos da cultura e da sociedade’.’  


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