quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Que nos diz Santa Teresa depois do V Centenário?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Frei Patrício Sciadini, OCD,
Provincial dos carmelitas descalços no Egito


Frei Patrício Sciadini, OCD, explica as cinco mensagens que nunca podemos esquecer, sem correr o risco de nos tornar ‘robôs’ espirituais

A musica cessou. A festa terminou. A vida continua, mais rica ou mais pobre, depois de ter celebrado em tantas maneiras os 500 anos do nascimento de Santa Teresa d’Ávila? Muitas foram as mensagens bonitas tiradas dos seus escritos, muitos livros foram publicados sobre sua doutrina, sua personalidade humana, espiritual e mística. Os seus ensinamentos foram transmitidos com todos os meios de comunicação. Sem dúvida Teresa no céu deve estar feliz em ver tantas celebrações nos 5 continentes e em todas as línguas. Mas acredito que isto não constitui a felicidade dos santos no céu, que vivem em ‘eterna contemplação do face a face de Deus e intercedem por nós’. A missão dos santos, como costumava dizer a mais nobre filha de Teresa, Teresa do Menino Jesus, começa no céu onde ela, a pequena Teresa não queria ficar de braços cruzados, mas importunar Deus em favor de todos os missionários do mundo.

Teresa d’Ávila deixa cada vez mais a sua marca indelével nas almas que buscam, não um Deus distante, mas sim um Deus próximo, um Deus não ‘legalista’, mas um Deus misericordioso.  Dizem os estudiosos que a palavra misericórdia e termos afins recorrem nos escritos teresianos mais de 600 vezes. Aliás, ficou famosa a frase que ela escreveu como ‘prefácio’ à sua autobiografia, ‘cantarei as misericórdias do Senhor’. Em um e em outro lugar ela diz com verdade acertada : ‘me cansarei antes eu de ofender a Deus, que ele de me perdoar’. E ainda : ‘Deus doura os nossos pecados para que os outros, não os vejam e assim possamos fazer um pouco de bem’. Esta mulher, que soube dar uma volta por cima na mentalidade do seu tempo, que queria relegar as mulheres ‘à cozinha, fiando e tecendo, dando filhos, cuidando da casa, ou sendo freiras às vezes sem vocação, enchendo conventos e esvaziando o coração de amor e de afeto’.

Teresa não se dá por vencida. Ela toma consciência lentamente de sua missão humana, religiosa, seja no Carmelo da Encarnação antes, e depois como fundadora do Carmelo de São José, e na mesma Igreja. Não se forma nos bancos de universidade e nem de escola, não leem muitíssimos livros, mas os que leem são escolhidos a dedo, e faz que os autores se tornem seus mestres, como era o caso de Santo Agostinho que, com suas confissões, influenciam a sua visão de Deus. Sejam os livros de Pedro de Alcântara ou de Francisco de Osuna, e mais tarde o magistério oral de João da Cruz e do Padre Graciano. Teresa está atenta especialmente ao seu divino Mestre interior, Jesus, que um dia para consolá-la quando os teólogos e doutores, apavorados diante do povo que quer conhecer a bíblia, encontra uma solução : proibir a leitura da bíblia em espanhol, especialmente às mulheres. Nesta crise e revolta de Teresa, Jesus lhe diz : ‘tranqüila, eles - os teólogos, biblistas e todos os intelectuais – não me poderão amarra as mãos. Dar-te-ei um livro vivo, que sou eu mesmo!

Creio que no fim deste centenário, Teresa nos repete simplesmente cinco mensagens que nunca podemos esquecer, sem correr o risco de nos tornar ‘robôs’ espirituais e esvaziar a nossa humanidade :

1.       O ser humano não pode ser nunca descartável. Deve ser amado. Deus o criou à sua imagem e semelhança e tem feito dele a sua morada preferida, o seu ‘castelo interior’, onde ele mora não como escravo, mas como rei e príncipe. Esta consciência do ser humano templo e amigo de Deus, é fundamental sempre, mas especialmente neste mundo onde nós descartamos e vemos o outro como inimigo que deve ser eliminado e não amado.  As intuições teresianas, às vezes mal interpretadas pelos psicanalistas e os psicólogos, que veem o ser humano como ‘cobaia’ para ser estudado, tem uma força única na antropologia e na mística. Devemos ler e reler o livro ‘Castelo interior’, como autêntica auto-biografia de Teresa, e por ela deixar-nos tomar pela mão e conduzir-nos de morada em morada, até à morada central, onde habita o Rei, Jesus, ‘sua Majestade’.


2.      Sem dialogar com Deus não há felicidade. Tem-se escrito muito sobre a oração teresiana como uma belíssima história de amizade entre nós e Deus. Teresa vê a oração não como um repetir ‘orações que não têm fim’, mas como um íntimo diálogo silencioso, um estar face a face com aquele que sabemos que nos ama. Esteja claro que Teresa não é contra a oração vocal. Aliás a aprecia   desde que ela tenha três pequenas qualidades: saber com quem se fala, o que se diz e como se diz. ‘O simples movimentar dos lábios isto não chamo de oração’, nos adverte a orante Teresa. Sem ofender ninguém e com a esperança de não ser mal interpretado, eu diria que hoje se reza demais e se reza mal. Há uma indigestão de orações que em lugar de dar-nos liberdade no amor, nos escravizam. Teresa não busca na oração a sua satisfação pessoal, mas sim a glória de Deus e, por amor a Deus, é capaz de rezar sem nada sentir, e passar tranquilamente 19 anos de aridez interior, mas sendo fiel ao seu tempo de oração. Hoje redescobrir a oração é um caminho que deve ser percorrido na simplicidade e compreendendo que ‘a oração não consiste em muito pensar, mas sim em muito amar.’


3.      A santidade não consiste nas penitências, mas nas virtudes. Teresa não é amiga das muitas penitências e mortificações. Ela sabe por experiência que estas coisas não ajudam a ter uma autêntica experiência de Deus. Ela quer ver as virtudes, especialmente quatro virtudes que eram raras nos tempos de Teresa e são raras hoje : o amor a Deus, o amor fraterno, o desapego das coisas e a humildade. Sobre estas quatro colunas Teresa vai construindo toda a sua doutrina e a sua vida espiritual. O novo Carmelo que ela gera junto a João da Cruz não é feito das penitências e de negação de si mesmo, mas sim de uma nova descoberta do amor, vivido na simplicidade da vida. Admira-se pelas penitências de Pedro de Alcântara, que nem dormia e nem comia, e cuja aparência era como de raízes de árvores. Teresa não apresentava este santo e amigo como modelo nem para as monjas e nem para os frades. Teresa queria ver em cada monja e frade, e toda pessoa, bem unidas ‘Marta e Maria’, a vida ativa de disponibilidade e vida de oração e contemplação. Os livros de Teresa, depois de 500 anos, são livros de espiritualidade equilibrada, serena e tranqüila, e, como ela dizia, ‘sem bobeiras’.


4.      Uma Igreja em caminho.  Um dos nomes mais belos que a história tem dado a Teresa é a ‘andarilha’, a caminhante, a peregrina. Hoje nós ficamos espantados quando tentamos de ver como esta monja de clausura caminhou sem parar para difundir o evangelho, fazer fundações de Carmelos, anunciar com sua vida, a sua doutrina e experiência de Deus. Ela tem usado todos os meios à sua disposição no tempo. Tem mudado a Igreja com seu silêncio, com sua vida, sendo fermento de uma vida nova de oração, de humanidade, de amor. Teresa é uma revolucionária que sabe encontrar o caminho certo, as palavras certas, para mostrar que não se pode colocar ‘vinho novo em odres velhos, senão corremos o risco de perder tudo’. Amar a Igreja e caminhar ao ritmo da Igreja. Avançar o passo quando a Igreja é lenta e frear o passo para esperar que a Igreja chegue. Uma harmonia que as vezes nos falta hoje.


As lições de Teresa são sempre válidas porque são evangélicas, humanas e espirituais. É uma mestra que não passa de moda porque não diz coisa contingente do momento, mas verdades que são sempre verdades : Deus, homem, oração, Igreja, verdade. Serão sempre atuais. O que posso dizer depois da celebração dos 500 anos de nascimento de Teresa? Leiamos os seus escritos e seremos mais humanos e mais divinos! 


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