domingo, 8 de novembro de 2015

Investir nas crianças

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Margarida Gaspar de Matos,
Professora Catedrática e Psicóloga


‘As crianças e adolescentes são muito afetados pela pobreza. A pobreza por um lado limita-lhes o acesso a bens materiais, mas priva-os também da disponibilidade dos pais, que se encontram mais frequentemente em situações de exclusão sociolaboral ou em situações de doença física ou mental; priva-os da disponibilidade dos professores, eles próprios inseridos num contexto precário; priva-os do acesso (e da motivação ao acesso) à saúde e à educação; priva-os da vivência da sua infância e adolescência onde é tão importante manter a segurança, os afetos, a saúde, a motivação e a curiosidade para aprender e para participar na vida social, priva-os ainda de um espaço físico e social de vizinhança onde seja bom viver, conviver e partilhar; priva-os finalmente da expectativa de um futuro com esperança. Sem oportunidades, instala-se a apatia e o desinteresse, que por seu lado continuam a gerar precariedade.

Em situações de precariedade, se os governos não apoiam políticas públicas de solidariedade social (não no sentido assistencialista, mas no sentido da criação de competências e oportunidades e na manutenção de motivações), alguns mais aflitos virar-se-ão uns contra os outros : homens contra mulheres; crianças contra adultos; adultos contra idosos; nacionais contra estrangeiros…. Cada um destes subgrupos ‘culpando’ o outro do mal-estar que se vive, e da incapacidade que se sente de melhorar as coisas. A ‘culpa’ é sempre dos outros, dos que são ‘estranhos’ e esta xenofobia promove uma segmentação social que como que sabota a cooperação e impede um desenvolvimento plural.

Na União Europeia, um em cada 20 habitantes tem menos que 18 anos e mais do que uma em cada quatro crianças está em risco de pobreza ou exclusão social As políticas macroeconomicas não encaram a proteção das crianças e das suas famílias como uma prioridade política. Por vezes, afirmam-no, mas um básico ‘estudo de caso’ das vidas das crianças e adolescentes mostra que num número exagerado de vezes, ou não há cuidadores, ou os cuidadores não têm meios economicos ou outros, ou os cuidadores não têm tempo, ou os cuidadores não conseguem manter a saúde, a energia ou a vontade. Em síntese os cuidadores não têm, nem conseguem criar e manter condições individuais ou sociais. A verdade é que as crianças e os adolescentes são pouco (ou deficientemente) acompanhados, justamente quando (em precariedade) mais necessitavam deste apoio. Este fato inverte para ‘negativos’ a tendência a um maior bem-estar e uma maior proximidade entre pais e filhos, que se vinha notando desde 2002, na Europa Ocidental.

Pede-se hoje à Comissão Europeia que considere a inclusão de indicadores sobre o número de crianças em risco de pobreza ou de exclusão social e que solicite a todos os Estados-membros que apresentem subobjetivos específicos a nível nacional para a redução da pobreza infantil e da exclusão social. Incentivam-se os Estados-membros a utilizar o financiamento da UE e quaisquer outros instrumentos disponíveis para implementar uma recomendação da Comissão Europeia intitulada investir nas crianças para quebrar o círculo vicioso da desigualdade.

Partilhamos estas preocupações alertando ainda para a necessidade de crianças e adolescentes serem ouvidos e considerados (como seu direito fundamental) em todas as políticas públicas que lhes dizem respeito. Este foi o objetivo do nosso mais recente projeto Dream Teens (http://www.dreamteensaventurasocial.blogspot.pt/)  Durante os dois anos do projeto crianças e adolescentes desenvolveram uma voz motivada, competente e oportuna na identificação de necessidades e na definição de soluções, em questões que lhes digam respeito.’  


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