quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Chocolate amargo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Padre José Vieira,
Missionário Comboniano


‘Foram os Maias e os Astecas que há mais de 2500 anos domesticaram o cacaueiro e inventaram o chocolate, duas palavras que vêm do nauatle, a língua dos Astecas mexicanos : cacahuat quer dizer suco amargo e xocolatl, água quente ou espumosa, e usavam os grãos como moeda. Mas é na África que hoje se cultiva cerca de 80 por cento do cacau que nos reconforta.

A Costa do Marfim e o Gana, na África Ocidental, produzem 69 por cento das sementes de cacau que a indústria utiliza para produzir chocolates e outros derivados. A Nigéria e os Camarões são outros dois grandes produtores, responsáveis por 11 por cento da colheita mundial de cacau. A Indonésia, o Brasil e o Equador também têm uma boa produção.

Os fabricantes de chocolate normalmente não imprimem nas embalagens os nomes de dois ingredientes comuns que entram na confecção da barra : a violência e a exploração.

Em Junho, a Interpol – Organização Internacional da Polícia Criminal – resgatou 48 crianças, com idades entre os 5 e os 16 anos, na aldeia de San Pedro, na Costa do Marfim, de uma roça onde trabalhavam em condições extremamente perigosas para a saúde, e prenderam 22 adultos, acusados de tráfico. As crianças – de Burkina Faso, Guiné, Mali e da própria Costa do Marfim – declararam à polícia que eram obrigadas a trabalhar na colheita do cacau há mais de um ano, durante longas horas e sem remuneração.

Aliás, a Unicef, a agência da ONU para a protecção da infância, calcula que entre 2011 e 2014 o número de crianças envolvido na cultura do cacau na região duplicou de 800 mil para 1,62 milhões. Dessas, cerca de 176 mil foram traficadas do Mali, Burkina Faso e Togo para trabalharem como escravas na Costa do Marfim. Algumas foram levadas ao engano com promessas de estudos. O país até tem uma lei bastante severa contra o trabalho infantil (penas de prisão de um a cinco anos e multas de 700 a 2000 euros), mas é geralmente ignorada numa cultura muito permissiva.

A produção de cacau representa o sustento principal para cerca de 14 milhões de pessoas que vivem em grande pobreza. Produzem cerca de 4,3 milhões de toneladas por ano (3,1 milhões na África, 716 mil na América Latina e 484 mil na Ásia).

A produção do cacau é um trabalho extenuante e perigoso, feito na floresta : as árvores são tratadas com pesticidas tóxicos e os frutos – que não amadurecem ao mesmo tempo – são colhidos durante todo o ano à mão e abertos à catanada para separar as sementes, fermentá-las e secá-las ao sol antes de serem ensacadas e carregadas às costas para venda.

A indústria do chocolate gera anualmente cerca de 80 mil milhões de euros, mas os produtores ficam com as migalhas do bolo : 4,8 mil milhões. As chocolateiras dos Estados Unidos, Itália, Suíça e Japão repartem entre si uma volumosa fatia de 56 mil milhões. O resto fica para os retalhistas (13,6 mil milhões) e intermediários (5,6 mil milhões).


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Os europeus conhecem as delícias do chocolate desde 1528, altura em que Hernán Cortés ofereceu a Carlos V de Espanha algumas sementes de cacau que trouxera do México. Hoje consomem quase metade da produção mundial dos seus derivados.

Organizações internacionais não-governamentais (como a Anti-slavery, a Stop the Traffik e a Fairtrade Foundation) criaram um sistema de certificação de origem do cacau para combaterem o tráfico e uso de crianças na sua produção. Defendem que as grandes marcas têm a responsabilidade e o poder de resolver o problema da mão-de-obra infantil através de códigos de conduta que protejam as crianças. E de pagarem mais aos produtores para tornar a produção do cacau sustentável.

É a pobreza – e o baixo preço do cacau nos mercados internacionais apesar da procura sempre maior deste produto – que obrigam os produtores, maioritariamente pais, a empregarem mão-de-obra infantil nas roças. Cabe aos consumidores de chocolate – branco ou negro, em pó ou em barra, doce ou amargo, sólido, líquido ou recheado – preferir produtos certificados para obrigar as grandes marcas a mudar de atitude e dar às crianças das regiões produtoras uma infância feliz.’  

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