segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ruanda : Memória e luto de um genocídio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Maria Tatsos e Fernando Félix


Vinte anos depois do genocídio no Ruanda, um romance de uma escritora ruandesa conta a história de um grupo de jovens estudantes das etnias tutsi e hutu que frequentavam um liceu de elite vinte anos antes dos trágicos acontecimentos. Através das histórias dos jovens e de várias personagens, o livro faz os leitores respirar a atmosfera de ódio e desconfiança que marcava aqueles tempos e que culminou na chacina.


‘Um milhão de mortos em cerca de três meses. De 7 de Abril a meados de Julho de 1994, na chacina que ficou registada na História como genocídio do Ruanda, famílias inteiras tutsis e muitos hutus moderados, que se recusaram a colaborar na carnificina, sucumbiram no extermínio.

Em 2014, no vigésimo aniversário deste acontecimento sangrento, o Ruanda – terra verdejante de colinas e planaltos, no coração de África – fez contas com o seu passado. Os tribunais populares, criados em cada povoação – os gacacas, na língua kinyarwanda – julgaram mais de dois milhões de arguidos. Os sobreviventes foram capazes de falar e testemunhar o horror. Mas, e acima de tudo, procuraram fechar para sempre o capítulo de ódio interétnico, cujas raízes estão na época colonial, quando, primeiro, os Alemães e, depois de 1918, os Belgas alimentaram a divisão na população, fomentando uma suposta superioridade dos Tutsis sobre os Hutus. Estas teorias basearam-se em ideias racistas em voga no início do século XX na Europa.

Os Tutsis, que são minoria no Ruanda, são pastores altos, magros e de fisionomia mais fina. Os colonizadores favoreceram-nos, em detrimento dos Hutus, em maioria, a quem classificaram como camponeses ‘menos evoluídos’.

Quando os Europeus deram a independência ao Ruanda, em 1962, o fogo do ódio já estava em ignição. E um dos legados dos colonizadores seria usado na caça às vítimas durante o genocídio : a colonia belga deixou ao recém-nascido Ruanda um bilhete de identidade onde constava a indicação da etnia.

Vinte anos depois, os Ruandeses de hoje não querem ouvir falar de grupos étnicos. Nos documentos, os cidadãos são ruandeses.


Escrever para testemunhar

Scholastique Mukasonga, de 57 anos, nascida em Nyamata, no Ruanda, foi viver para França em 1992. Em 2004, tomou consciência do dever da memória. ‘A memória deve ser preservada, para testemunhar em nome daqueles que já não existem’, afirma.

Assistente social, casada com um etnólogo francês e mãe de dois filhos, trabalhava num tribunal em Caen, na Normandia. ‘Esperei dez anos. Ganhei coragem para voltar ao Ruanda só em 2004.’ Voltou à sua terra natal. ‘E foi depois desta estada que decidi começar a escrever’, conta.


Uma forma de fazer luto

No genocídio de 1994 perdeu 37 membros da sua família. Os seus dois primeiros livros foram autobiográficos. Inyenzi ou les cafards (‘Inyenzi ou as baratas’), Éditions Gallimard, 2006, dá, desde logo, ênfase à designação depreciativa com que foram designados os Tutsis. ‘É a história da minha infância em Nyamata’, revela.

La femme aux pieds nus (‘A mulher com os pés descalços’), Éditions Gallimard, 2008, é uma homenagem à sua mãe e à coragem de todas as mulheres de Nyamata que se esforçaram para sobreviver e salvar as crianças de morte. Este livro ganhou o Premio Seligman contra o racismo e a intolerância, em França.

O genocídio dos tutsis do Ruanda, em 1994, fez de mim escritora. A escrita tem sido uma forma de fazer luto. Com os meus livros, teço uma mortalha para aqueles cujos corpos, enterrados em valas comuns ou espalhados em ossários, estão perdidos para sempre’, revela Scholastique.


A metáfora das vítimas e dos maus

A seguir vieram obras de ficção, porque lhe davam a distância de que precisava para dizer coisas que não poderiam ser expressas em autobiografia. L’Iguifou – nouvelles rwandaises (‘O Igifu – notícias do Ruanda’), Éditions Gallimard, 2010. Esta é uma obra tão assombrada pelas memórias como as anteriores. O Igifu é uma metáfora de uma boca insaciável. No livro, pessoas e animais são engolidos, macerados pelo medo, pela dor, pela morte e pelo luto.

O seu quarto livro, Notre Dame du Nil (‘Nossa Senhora do Nilo’), Éditions Gallimard, 2012, é o seu primeiro romance. Com ele, foi distinguida com o Premio Théophraste Renaudot, uma das distinções literárias mais importantes de França. Embora esta seja uma história de ficção, descreve como se foi esboçando o genocídio. ‘O romance toma o nome de um liceu que imaginei implantado na montanha, a 2500 metros de altitude, não muito longe de uma suposta fonte do Nilo’, diz Scholastique. ‘É uma escola frequentada pelas filhas da elite do poder. Às estudantes tutsis apenas é concedida uma quota de dez por cento. Neste lugar fechado, as rivalidades étnicas exacerbam-se de tal modo que conduzem, vinte anos mais tarde, ao genocídio.’

Scholastique não deixa, porém, de expor algo da sua vida pessoal neste livro. ‘O liceu Nossa Senhora do Nilo assemelha-se ao liceu Notre Dame de Cîteaux, em Kigali, em que estudei. A segregação das estudantes tutsis que eu sofri em 1973 forçou-me ao exílio no Burundi.’

O romance conta a vida diária das estudantes : os livros escolares, os primeiros amores, rituais mágicos, a vigilância rigorosa das freiras que administram o liceu. Seriam histórias da adolescência comum a todas as pessoas, não fosse a exceção do ódio étnico que atravessou os muros da instituição. Virgínia e Veronica, alunas tutsis, encarnam as vítimas. O papel de má é atribuído a Gloriosa, jovem sedenta de poder, racista e politizada, que encontra no padre hutu Herménégilde o seu aliado contra as colegas tutsis. ‘E lembremo-nos que é uma escola que formava as mulheres de elite do Ruanda.’’



Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EukZAZFylZtuCwYdcK


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