sábado, 25 de abril de 2015

O Bom Pastor abarca o mundo inteiro no seu Coração

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


IV Domingo de Páscoa – Ano B – 26 de Abril de 2015

Atos 4, 8-12
Salmo 117
1João 3, 1-2
João 10, 11-18


Reflexões

‘O Bom Pastor (Evangelho) é a primeira imagem usada pelos cristãos, desde as catacumbas, para representar Jesus Cristo, muitos séculos antes do crucifixo. ‘O bom Pastor é a versão suavizada do crucifixo. Suavizada só a nível figurativo, porque a substância é a mesma. Não é por acaso que no trecho de João a frase ‘dar a vida’ seja a mesma que explica o que significa ‘bom’, e aparece pelo menos cinco vezes’ (D. Pezzini). Jesus repete com insistência que ‘o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas’ (v. 11.15). Jesus é identificado com a imagem bíblica do pastor (cf. Êxodo, Ezequiel, Salmos…), e João releu-a em chave messiânica. Abunda mas expressões que indicam uma vida de estreita relação entre Jesus e as ovelhas : entrar-sair, abrir, chamar-escutar, conduzir, guiar, caminhar-seguir, conhecer, dar a vida… Até se identificar plenamente com o ‘bom pastor que dá a vida pelas ovelhas’ (v. 11.15). De notar que o texto grego usa um sinónimo : o pastor ‘belo’ (v. 11.14), isto é bom, perfeito, que une em si a perfeição ética e estética. Bela, ou seja, boa, é : uma pessoa, uma alma, uma colheita, um casal, etc. É assim, porque ‘a beleza salvará o mundo’, segundo a tese de vários autores atuais : F. M. Dostoievski, card. Carlo M. Martini, Bruno Forte, G. Bergantini…

Jesus dá a sua vida por todos : há ainda outras ovelhas a reunir, até formar um só rebanho e um só pastor (v. 16). Ele não renuncia a nenhuma ovelha, mesmo se estão distantes e não o conhecem : precisam todas de entrar pela porta que é Ele mesmo, porque Ele é o único salvador. A missão da Igreja move-se dentro destes parâmetros de universalidade : vida oferecida por todos, perspectiva de rebanho único, vida em abundância… Mesmo se o rebanho é numeroso, ninguém está a mais, ninguém se perde no anonimato; pelo contrário as relações são pessoais : o pastor conhece as suas ovelhas e estas conhecem-no (v. 14), chama-as uma a uma, pelo nome (v. 3). Há uma circularidade de vida e de relações entre o Pai, Jesus e as ovelhas, animados por uma mesma seiva de conhecimento e de amor (v. 15). Esta circularidade torna-se modelo para a missão pastoral da Igreja.

O intenso amor com que o Bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas produz frutos extraordinários : faz de nós filhos de Deus (II leitura). João assegura-nos que ‘somo-lo realmente!’. E que um dia veremos Deus ‘tal como Ele é’ (v. 1-2). Com o dom da sua vida, o Bom Pastor tornou-se o Salvador único e universal, de todos. Afirma-o com firmeza o apóstolo Pedro, ao falar de Jesus Cristo perante o Sinédrio (I leitura) : ‘Em nenhum outro há salvação; pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos’ (v. 12).

Seguir as pegadas de Jesus ‘Bom Pastor’ é também o objetivo que se propõe hoje o 49º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, com o convite a refletir sobre o tema : ‘As vocações, dom da Caridade de Deus’. (*) É necessário ter confiança em Deus, que quer a vida e cuida do seu rebanho, e portanto suscita certamente os pastores que o guiem; mas é preciso que os chamados respondam ao apelo do ‘Senhor da messe’. A vocação de especial consagração (sacerdócio, vida consagrada, vida missionária, serviços laicais…) reforça-se solidamente na experiência pessoal de sentir-se amado e chamado por Alguém que existe antes de mim. Para qualquer tipo de vocação, é determinante sentir como verdadeira a palavra de Jesus : ‘Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me’ (v. 14). Trata-se de uma experiência fundante, que o teólogo protestante Karl Barth, superando o idealismo cartesiano, exprime assim : ‘Cogitor, ergo sum’ (sou pensado, logo existo). Sentir-se pensado por Deus faz-me viver, faz-me sentir grande, dá-me segurança, faz-me sentir filho e irmão, faz de mim um apóstolo.

Saber que vivo no coração de Deus abre-me ao mundo, torna-me disponível a partilhar os projetos e as preocupações do Bom Pastor, que tem ‘outras ovelhas’ (v. 16) a reunir, guiar, salvar. A proximidade e a contemplação do Bom Pastor faz-me ser Igreja missionária, com horizontes tão amplos quanto o mundo inteiro. Com esse fim é preciso habilitar as paróquias e as comunidades a não ser recintos tranquilos onde se cuida do que restou, mas campos de base onde se experimenta o encontro com o Ressuscitado e de onde se parte para anunciar Jesus aos que estão perto e aos que estão longe.’


Palavra do Papa Francisco

(*) ‘O Dia Mundial de Oração pelas Vocações nos lembra a importância de rezar para que o ‘dono da messe – como disse Jesus aos seus discípulos – mande trabalhadores para a sua messe’ (Lc 10, 2). Jesus dá esta ordem no contexto dum envio missionário : além dos doze apóstolos, Ele chamou mais setenta e dois discípulos, enviando-os em missão dois a dois (cf. Lc 10,1-16). Com efeito, se a Igreja ‘é, por sua natureza, missionária’ (Conc. Ecum. Vat. II., Decr. Ad gentes, 2), a vocação cristã só pode nascer dentro duma experiência de missão. Assim, ouvir e seguir a voz de Cristo Bom Pastor, deixando-se atrair e conduzir por Ele e consagrando-Lhe a própria vida, significa permitir que o Espírito Santo nos introduza neste dinamismo missionário, suscitando em nós o desejo e a coragem jubilosa de oferecer a nossa vida e gastá-la pela causa do Reino de Deus.’



Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EukAZlZyypkpjMteTk

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