domingo, 6 de agosto de 2017

Discípulos para acolher ou para excluir?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Um idoso e calmo missionário viajava de trem até o local onde participaria de uma reunião de pastoral de sua Diocese no Japão. Estava ele num dos assentos reservados para pessoas idosas, deficientes ou gestantes, quando, numa estação, embarcou um jovem que se dirigiu, autoritariamente, ao missionário dizendo-lhe : ‘Você é estrangeiro! Levante-se porque eu sou japonês e tenho direito a este lugar’. ‘Sim, você deve estar mal. Sente-se. Eu viajo de pé,’ disse humildemente o missionário.

Situações como essas chocam, especialmente os imigrantes, dando a ideia de que são excluídos dos direitos de que os cidadãos locais gozam. Pode-se imaginar a dor impressa no semblante do missionário diante da exclusão provocada pelo jovem autoritário e arrogante.

Os conflitos entre quem era de seu grupo e quem era de fora provocaram intervenções firmes de Cristo, em diversas ocasiões. Curiosamente, as tentativas de exclusão partiram de pessoas do grupo de apóstolos e discípulos. Não se sabe se por zelo de ter a Cristo como Mestre ou por esperar uma oportunidade, quando Ele estivesse no seu Reino. Com certeza esta última falava muito forte no grupo dos doze.

É significativo o fato narrado pelo Evangelista Lucas (Lc 18,15-17). Algumas pessoas levavam suas crianças a Cristo para que Ele as tocasse. Diante disso, eis que os discípulos, por iniciativa própria, começaram a repreender aquele grupo de pais, na tentativa de afastá-los. Cristo não só concedeu espaço físico às criancinhas, abraçando-as, carinhosamente, mas elevou-as até o mais alto grau, talvez o pretendido pelos dois irmãos que queriam estar um à sua direita e outro à esquerda : ‘Deixem as crianças virem a mim. Não lhes proíbam, porque o reino dos Céus pertence a elas’. Embora, frágeis, Ele as valorizou a ponto que os adultos devem ser como elas. ‘Eu garanto a vocês que quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele’.

 Dramática também é a cena da mulher Cananéia, a estrangeira, narrada por Mateus 15:21-28, suplicando-lhe ajuda, angustiadamente, por causa da doença da filha. Cristo assumiu a atitude do diálogo e de dar tempo ao tempo, como fez com a mulher samaritana e na conversa com Nicodemos, como meios de amadurecimento na fé. Os membros do grupo fechado dos discípulos entraram em ação, autoritariamente, para solucionar o ‘problema’. ‘Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós’. Ignorando a voz deles, Jesus continuou o diálogo sério e respeitoso com a mulher que revelou sua grande fé, que lhe permitiu voltar para a casa e encontrar sua filha curada. Assim ela encontrou a porta aberta para participar da mesa junto com os filhos de Israel.

Não nos cabe o direito de julgar os discípulos pelas suas palavras e gestos, no sentido de impedir que Jesus fosse perturbado pelas brincadeiras das crianças ou pelos autores do pedido para afastar uma mulher em desespero diante da grave situação de sua filha. Contudo, eles nos dão uma excelente oportunidade para questionar nossa atitude com os recém-chegados em nossas comunidades. Quase todas elas têm seus coordenadores. Em algumas são eleitos, em outras são nomeados; não faltam os autopromovidos. É muito comum perceber que se perpetuam no cargo e dão à comunidade um rumo pessoal, longe do modelo de Cristo. Por isso, ao inteirar-se de alguma iniciativa de alguém que não de seu clube, assumem o direito de transmitir ordens como se fossem emanadas do padre da paróquia. Ouve-se amiúde, ‘Não podemos fazer assim esta atividade porque o padre não quer’. Na verdade, está comunicando que elas não querem, usando o nome do padre. Assim, as oportunidades de envolvimento são para as pessoas de sua simpatia ou religiosidade, excluindo os diferentes ou aqueles que podem ameaçar sua posição. Já houve casos em que a celebração dominical foi atrasada porque alguém, do grupo fechado da pessoa coordenadora, não chegava para fazer uma das leituras, enquanto na igreja havia diversas que, pela primeira vez, poderiam ser convidadas para exercer esse ministério com eficiência.

Um dos perigos das comunidades é o fechamento do pequeno grupo de amigos que as insensibiliza diante das angústias das pessoas de fora ou que se aproximam pela primeira vez, ou não são cristãos da mesma linha religiosa. Com atitudes ou mesmo com palavras podem estar atualizando a expressão : ‘Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós’.

Este tipo de grupo tende a fechar-se sobre si ao mesmo tempo em que se fecha às orientações pastorais das dioceses. Seus mentores citam seguidamente o Papa em suas conversas, não para seguir suas orientações, mas justificar sua religiosidade.

Não raramente, manipulam a Bíblia e os ensinamentos da Igreja, geralmente, extraindo algumas frases isoladas como muleta para seu grupo, mas evitam ter uma visão abrangente da doutrina. Na prática, tal atitude filtra as pessoas, permitindo a aproximação de quem comunga com suas visões parciais em contraposição ao ‘Deixem vir a mim as crianças...’ de Cristo. São como o pedágio seletor. Fácil é entender que Cristo ama muito mais os que são impedidos de chegar a Ele.

Quando as pessoas se transformam em donas exclusivas da verdade, dogmáticas, radicais e moralistas, o prejuízo para a construção de comunidades dinâmicas é enorme, especialmente para a pequena Igreja no Japão, por exemplo, que necessita abrir-se e acolher. Pretendem empobrecer o Espírito Santo, limitando-O ao ‘dom de falar em línguas’ e mais algum. Daí a grande resistência de ler e meditar a 1ª. Cor 14,1-35, sobre as línguas e 1 Cor 12 sobre os muitos dons presentes no Povo de Deus. Herodes ficou preocupado ao saber que havia nascido um Rei em seu território. O medo era ser destronado. Será que os muitos ‘discípulos’ não estariam impedindo que os recém-chegados assumam algum ministério, nas comunidades, por medo de perder seus lugares?

Hoje é notória a existência de uma oferta exuberante de religião e de movimentos religiosos de todo tipo e gosto, tanto sob o guarda-chuva da Igreja Católica como de outras denominações cristãs. Cada dia surgem grupos novos, ‘comunidades’ e movimentos autoproclamando-se como os melhores e os mais ortodoxos. Com frequência esses grupos de ‘discípulos’ se atribuem erroneamente o título de ‘missionários’ e porta-vozes da Igreja. Considerando o mandato de Cristo, o missionário é seu enviado para anunciar a Boa Nova a toda criatura, sendo instrumento de Deus na construção do Reino. Na verdade, o que se vê é uma preocupação ardorosa de propagar e atrair pessoas, cada um para seu próprio grupo, linha religiosa ou movimento, desconsiderando o anúncio a toda criatura tão desejado por Cristo com a finalidade de construir o Reino de Deus.

Nem tudo é tenebroso quando falamos de discípulos. São milhares aqueles e aquelas que se engajam com denodo ao anúncio da Boa Nova, acolhendo a todas as pessoas de forma livre e desinteressada, traduzindo o amor em obras com a visão voltada para a construção do Reino. Um exemplo maravilhoso é um velhinho e simpático sacerdote japonês que, nas dependências de sua igreja acolhe alcóolatras, dependentes químicos e excluídos de qualquer nacionalidade. Certamente as palavras de Cristo : ‘Venham vocês, que são abençoados de meu Pai. Recebam em herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo’ (Mt25, 34) serão dirigidas para esses discípulos verdadeiros.’


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