terça-feira, 7 de junho de 2016

Sucateamento de tesouros

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


É alto o preço que se paga em decorrência do sucateamento da máquina pública. Um doloroso prejuízo que atingirá também gerações futuras. Exemplo emblemático é o que ocorre com a educação : o acúmulo de déficits dificulta a construção de novas possibilidades. É muito preocupante a lista de tudo o que se perde quando não se trata adequadamente essa importante área. Compromete-se o tecido da cultura, tornando-o incapaz de garantir às instituições o adequado funcionamento. A análise de todo esse processo merece uma profunda reflexão que se desdobre em novas atitudes, particularmente de líderes nos âmbitos regionais. Uma tarefa que exige adequada compreensão do atual contexto sociopolítico.

Esse exercício requer, prioritariamente, considerar a realidade mais próxima - o domicílio, o ambiente de trabalho, a prática religiosa, os representantes escolhidos - mas, sem deixar de olhar para o que se localiza na amplitude de uma nação como a brasileira.  Quando o cidadão passa um ‘pente-fino’ nas inúmeras situações que formam seu cotidiano, percebe com nitidez pontos relevantes das muitas fragilidades que corroem o tecido social. Só assim será possível detectar os vícios que levam à mediocridade e até mesmo ao desrespeito em relação aos tesouros que se tem. Ignorar esses hábitos ruins traz consequências nefastas, a exemplo da tibieza da representação política, em contextos regionais e nos cenários mais amplos. Faltam vozes com força de convencimento, pessoas com capacidade para articular e produzir projetos, atrair benefícios e imprimir dinâmicas com inventividade e competência.

A política passa, então, a carecer de líderes com autoridade para defender o bem comum e impulsionar projetos que garantam destaque nacional a contextos regionais. O resultado é o espetáculo da mediocridade que impacta negativamente as diferentes esferas da vida, com graves desdobramentos. Ainda no âmbito da educação, constata-se a timidez da incidência do mundo acadêmico sobre o cotidiano das pessoas. A grande rede de ensino, que reúne instituições governamentais e particulares, muitas de tradição e qualidade, não consegue dar novos rumos às mentalidades. Com isso, muitos desconhecem os valores de sua própria região e de suas raízes. A educação formal não chega a tocar o âmago da consciência e, com isso, perde-se a força da cultura, necessária para produzir riquezas inovadoras e libertárias. O que se percebe é certo comodismo e a falta de inteligência que alicerçam o desconhecimento sobre as heranças históricas, ambientais e religiosas.

A força dominadora da mediocridade vai tomando conta e não se tem o ânimo necessário para se falar da ética. Grande é o desconhecimento para se falar e compreender os parâmetros da solidariedade. Há uma cegueira quanto à prática da distribuição de bens. Pouca sensibilidade para efetivamente defender os mais fracos. Progressivamente, esmaece a referência a Deus, com o consequente enfraquecimento da indispensável defesa cotidiana da justiça. Com isso, no âmbito político, profissional e empresarial, prioriza-se mais o que atende a interesses individuais e partidários. Fica obscurecida a nobre tarefa de se deixar interpelar por um sentido mais amplo da vida.

Assim, são preocupantes os consequentes processos de desumanização, muitos deles irreversíveis, como é o caso da violência e do desrespeito à sacralidade da dignidade de toda pessoa. Não menos grave é o caos ético que sucateia experiências familiares, enfraquece narrativas que sustentam as tradições e, dessa forma, corrói os tesouros da cultura, depreda os acervos patrimoniais, escava, escandalosamente, pelo lucro, as paisagens, passa por cima de povoados e pessoas, apagando suas histórias.

É urgente que cada pessoa busque cuidar ‘da própria casa’, sob pena de perdas maiores. Especialmente, quando se pensa no povo mineiro, essa tarefa requer a elaboração de uma consciência social e política, religiosa e cultural condizente com a história tricentenária de Minas Gerais. Desse modo, será possível efetivamente reconhecer, reverenciar e respeitar a herança de antepassados que escreveram uma história mais exitosa, menos mesquinha, mais audaciosa e menos medíocre. Efetivamente serão valorizadas as tradições, sem a negociação do que se tem como herança. Oportuna é uma reação de todos os segmentos no cenário da própria cultura regional para aperfeiçoar competências, redescobrir valores e riquezas que precisam ser adequadamente tratados. Nesse caminho se configura luminosidade na consciência cidadã para tornar sempre mais forte e qualificado o território dessa pátria menor, determinante para sustentar a grandeza da pátria maior e, assim, debelar, definitivamente, o sucateamento de tesouros.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


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