sábado, 30 de abril de 2016

Os peregrinos de Xeique Hussein

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Andrea Semplici


Etiópia : A Pequena Meca sufi

O pequeno túmulo do Xeique Hussein é o coração do santuário que acolhe milhares de peregrinos e o convertem na pequena Meca sufi.


‘Xeique Hussein, o santuário branco. Imaculado de cal. Brilha sob o sol na savana dos grandes planaltos do Oriente etíope. Esta é terra de fronteira entre Arsi e Bale, regiões muçulmanas. A qubba, a cúpula, pintada de novo para as grandes festas, é deslumbrante. Lugar santo do Islão etíope. Lugar dos sufis da África. É a Pequena Meca. «Para muitos muçulmanos da Etiópia, Xeique Hussein é a peregrinação – explica Teshome Berhanu Kemal, estudioso do Islão da África Oriental. Estão convictos de cumprir a obrigação da viagem a Meca, indo rezar junto do túmulo deste grande homem sábio. Durante séculos Meca esteve distante, demasiado distante da Etiópia e os fiéis não podiam ir até lá. Havia guerras nesta terra. E então vinha-se venerar o túmulo de Xeique Hussein

No fundo, também Maomé esteve aqui : veio visitar o seu discípulo, este xeique lendário que estava a pregar a nova religião em África, por volta do ano 1000. Conta-se que o Profeta veio da península arábica percorrendo um longo túnel subterrâneo. O Xeique Hussein e Maomé rezaram juntos numa gruta eremítica. «É preciso acreditar nisso – diz ainda Teshome. O Islão é uma fé de sonhos como o Cristianismo. As lendas são mais reais do que a realidade.»

Xeique Hussein é uma povoação distante e dispersa. Horas num todo-o-terreno pelas estradas principais da Etiópia. Não há um único automóvel. Quatro mil habitantes e um motociclo. Duas vezes por semana, nos dias de mercado, uma camioneta da carreira parte de madrugada para Jarra, a pequena cidade mais próxima. Não há eletricidade, só uma casa tem um gerador (e uma parabólica colossal). Cozinha-se com a lenha das acácias. Não há água corrente. As mulheres vão com os bidões amarelos às costas à cova da água santa no recinto do santuário do xeique. É preciso tirar o calçado para chegar ao charco conhecido como Dinkiro e depois remover uma camada de algas para poder beber e encher os bidões. A água de Xeique Hussein como a de zamzam de Meca.

Dia de Mawled. Aniversário de Maomé. É um dos três nos quais, todos os anos, uma multidão de peregrinos viaja até Xeique Hussein. Três vezes por ano os fiéis reúnem-se entre as antigas colunas da mesquita de Zuqxum. A mais antiga da povoação. Ao ler antigas crônicas, vê-se que o seu nome significa ‘Lugar dos estudantes’. Esta povoação alberga escolas alcorânicas, sabedorias rurais do mundo sufi. Muitos peregrinos empunham um bastão estranho e delgado, bifurcado e inútil. Tem a forma dos chifres de um bode. É conhecido como oulle xeique hussein, sinal e símbolo dos homens obcecados pelo culto do xeique, prova da sua grande fé.

De manhã, pequenos grupos de homens chegam dos campos. Trazem grandes cestos e recipientes de madeira. As mulheres não podem entrar na mesquita. Sentam-se em círculo. Ao lado uns dos outros, costas com costas. Os mais velhos cantam, entoam lengalengas de transe, recitam, balanceiam. É o dhikz, oração mística. É grande teatro religioso. Retiram-se as tampas dos cestos e dos frasco s: estão cheios de sopa de cevada com manteiga clarificada. Metemos as mãos lá dentro, passamos os alimentos de boca em boca.

Saímos da penumbra da mesquita. Detemo-nos ao ar livre. À sombra de um grande sicómoro. Árvore espiritual. Árvore do agradecimento pelos dons de Deus. Os velhos lêem suras, canta-se, reza-se, erguem-se as mãos para o céu, contam-se histórias do xeique. Há homens vestidos com roupas festivas e maltrapilhos com calças rotas. Queima-se incenso. Chegam, alegres, os rapazes das escolas alcorânicas. Têm folhetos escritos em árabe e um megafone. Recitam, gritam os louvores do Xeique Hussein. É quase uma competição. Um velho convida ao aplauso. Recolhe-se e distribui-se dinheiro. Chegam contentores cheios de mel. É festa tranquila, abençoada, feliz.

Surpreendente Islão da Etiópia. Lendo o recenseamento de 2007, os muçulmanos são pelo menos 25 milhões, 34 por cento da população. Dados falsos, segundo algumas autoridades islâmicas : ‘Somos pelo menos metade da população’, protestam. São muçulmanos os somalis, os afares, os argobbas, os hararis, grande parte dos oromos. Certamente sub-representados no Governo. Mas o Islão já escalou as altitudes do planalto etíope, terra cristã. O homem mais rico da Etiópia, Mohammed Hussein al-Amoudi (não só : é o quinto homem mais rico do mundo árabe, entre os vinte homens mais poderosos da África, o homem de pele negra com mais dinheiro, o 64.º entre os multimilionários da Terra), é muçulmano, o seu pai era saudita e a sua mãe etíope, tem o título de xeique e mandou construir uma mesquita ao lado do seu Sheraton de Adis-Abeba.

Vi muçulmanos e cristãos rezar juntos nos mesmos lugares. Vi muçulmanos deslocar-se a igrejas cristãs e peregrinos cristãos ir aos santuários islâmicos. O Islão da Etiópia é uma fé de convivência. Mas é preciso ter atenção e preocupação pelos riscos, os rumores, os falsos sinais : da península arábica chegam dinheiro e pregadores de um Islão conservador. Nascem mesquitas wahabitas. Que mal suportam as heresias dos sufis de Xeique Hussein e, em tempos recentes, procuraram impedir com as armas a peregrinação ao santuário. Há dois anos, o Governo etíope prendeu líderes islâmicos que considerava radicais e proibiu as ONG islâmicas. Como parecem distantes estas tensões, enquanto mergulho os meus dedos no mel.

O Xeique Hussein, porventura, viveu há mil anos. Talvez tenha vindo da península arábica como pregador. Ou, segundo outras crônicas, nasceu nestas terras e, depois dos estudos religiosos, voltou para a Etiópia para dar a conhecer a nova fé. O seu túmulo está no coração do santuário, protegido por uma grande cúpula. A arquitetura destas construções está modelada pela passagem de milhões de homens e mulheres : mãos e pés poliram a pedra e deram lustro às colunas. É preciso contorcer-se para entrar no túmulo. Os fiéis giram à volta da grande pedra, roçam o corpo nas colunas, caminham às escuras, ajoelham no chão. Todos passam a mão por entre os ladrilhos do pavimento. Esta terra é sagrada, é jawara, é argila. Roça o corpo do xeique. Os fiéis lambem a palma empoeirada da mão, sabor ácido na boca. Depois esfregam a cara: sinais húmidos e escuros na testa, no nariz, nas bochechas. Como numa Quarta-Feira das Cinzas. Cumpriram o rito da purificação.

Terra queimada que se torna cinza, água benta, árvores espirituais. O Islão do Xeique Hussein, filho da conversão das populações oromos, é sincrético. Não esquece a Natureza, os lugares secretos, as grutas, os antigos espíritos, as divindades dos bosques, das montanhas, das solidões. Se este santuário é a réplica de Meca, a cidade santa de Lalibela, planalto da Etiópia, é Jerusalém Negra, a Jerusalém da África. Aqui, como em Xeique Hussein, milhões de peregrinos chegam caminhando, roçam as pedras, rezam com as mãos erguidas para o céu e a cabeça no chão. Os cristãos como os muçulmanos bebem água santa, descansam e rezam debaixo de árvores espirituais, esfregam o rosto e a testa com cinzas, lambem e comem terra santa. Islão e Cristianismo encontram o seu caminho comum na ritualidade dos gestos, dos movimentos, na matéria.

À noite, durante horas sem fim, nos dias santos, em Xeique Hussein e em Lalibela, soam, obsessivos, os tambores. A oração torna-se sonolência. As mãos não se cansam. A voz é um ritmo que conduz ao sonho e abre as portas dos céus. Entre as basílicas de pedra dos cristãos como na cal branca dos santuários muçulmanos.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


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