quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sobre Corpos e Almas (Capítulo 2 de 2)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
*Artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina

‘Lembro-me, ainda em tenra idade, sentado na mesa da cozinha a fazer as tarefas de casa da escola enquanto a minha mãe lavava os pratos. Sempre que me acometia aquela preguiça, aquela dispersão própria dos estudantes, eu me queixava com a minha mãe : ‘estou com a cabeça cheia, não quero mais estudar! Não tem mais espaço no meu cérebro!’ E ela, muito sábia na sua simplicidade, respondia : ‘estude, menino! Conhecimento não ocupa espaço!

Esta é uma lembrança que resgato, às vezes, quando penso em minha própria mente como um ‘disco rígido’ de computador, que ela não é. De fato, jamais ouvi falar de um disco rígido com, digamos, dramas existenciais, tendências suicidas, ou mesmo com angústias religiosas. O mundo da informática jamais nos dará um único Kierkegaard.

... No texto anterior a este, eu mencionava a minha conversa com alguns colegas ‘materialistas’ e ‘espiritualistas’ no meu trabalho, e como a nossa falta de noção sobre dois conceitos básicos do pensamento aristotélico (matéria e forma) torna difícil e confuso falar sobre noções como alma, espírito, ser vivo, ser humano e pessoa. E como a conversa tinha sido abruptamente interrompida pelos colegas com a observação : ‘você complica demais as coisas!’. Ora, não se trata de complicar, mas de respeitar aquele sábio conselho aristotélico que constitui a primeira frase do pequeno (e magnífico) livro de Tomás de Aquino chamado ‘O Ente e a Essência’ : ‘um erro insignificante ao início pode tornar-se grande ao final’; e por isto é sempre necessário voltar ao início, aos princípios, quando se fala de grandes erros de pensamento. Sim, porque a forma com que encaramos nosso próprio corpo e nosso próprio ser faz toda a diferença com relação à forma com que vivemos.

Então vamos simplificar; ou melhor, vamos aprofundar. Tratamos ali da noção de forma e matéria, como elementos que formam os seres corporais, e como a unidade essencial dos seres corporais é às vezes confundida com simplicidade. Os seres corporais são sempre unos, indivisíveis como seres, mas nunca são simples; há, em todo ser corporal, uma composição intrínseca de forma e matéria que leva à sua identidade : é assim que da mesma matéria(por exemplo, a porcelana) posso fazer coisas de diferentes formas (por exemplo, um prato ou um vaso sanitário), e, se por um lado é a sua matéria que torna estas coisas distintas entre si, é a sua forma que tornará inteligíveis para mim as diferenças entre essas coisas. Vimos, também, que a forma dos seres vivos, aquela forma capaz de dar a uma porção de matéria a sua capacidade de ser a causa dos próprios movimentos (capacidade que chamamos de vida) faz com que tais formas sejam chamadas de alma. A mesma matéria, portanto, que um dia esteve diluída no mar, ou mesmo espalhada como poeira ou lama num campo, pode hoje compor um corpo vivo, sob uma forma animada. (anima nada mais é que a palavra latina para ‘alma’). Não há nada de esotérico aí, nada que não possa ser perfeitamente constatado empiricamente.

Há, porém, nessas formas animadas, diversos graus de animação. Não estou falando, aqui, de biologia, mas de observação livre da natureza, aquela que faz um menino curioso num dia de sol. exemplo, há coisas animadas que são capazes apenas de nutrir-se, crescer e reproduzir-se. Deste tipo de ser dizemos que apenas vegeta, ou que possui apenas as funções vegetativas. Há um uso contemporâneo deste termo quando nos referimos, por exemplo, a alguém num estado de coma profundo como uma pessoa em estado vegetativo.

Este mesmo menino observaria, no entanto, outros seres que caminham, voam ou rastejam em torno de si, que ciscam, observam, assustam-se e fogem à sua aproximação. Ele nota que esses mesmos seres animados desempenham funções mais elaboradas do que a das plantas que ele contemplou anteriormente. Além de fazer as mesmas coisas que as plantas fazem, eles são capazes ainda de perceber o estímulo ambiental, interpretá-lo e mover-se na direção do estímulo, conforme o estímulo lhes seja agradável, ou para longe dele, conforme lhes seja repulsivo. Sua forma, sua alma, portanto, concede-lhes uma aguçada capacidade sensorial aos estímulos que são apresentados aos sentidos, e concede mesmo uma capacidade de unificar estes estímulos e reagir em conformidade com esta imagem que seus sentidos lhe fornecem, estimando ademais qual a reação adequada a cada estímulo, e mesmo guardar memória deles; isto acontece, por exemplo, quando seu cachorrinho, em casa, busca sua companhia, mas foge de estranhos. A este ser, capaz de agir assim, dizemos que tem uma alma sensitiva.

Este menino, no entanto, se ainda não estiver contaminado por nenhuma dessas ‘filosofias’ monistas ou panteístas que discutimos no texto anterior, poderá contemplar-se e descobrir que ele é o único ser ali capaz de elaborar todos estes raciocínios, todas estas classificações, de perguntar-se mesmo pela estrutura da realidade que se está apresentando a ele. Ele é capaz de perguntar não somente o que é esta realidade que ele está conhecendo, mas, principalmente de perguntar quem é ele mesmo, quem é o autor de tantas perguntas que assomam em sua mente. Como dizia um querido amigo mineirinho que tenho, ele é o único ser ali que pode perguntar : ‘quemcossô, poncovô, donqueuvim e oncotô’ (se não entender estas palavras, procure um amigo de Minas Gerais para explicar).

Este exato ato de contemplar-se, de refletir, tem necessariamente que ser destituído de materialidade. Todos nós sabemos, das nossas aulas básicas de ciência, que dois corpos materiais não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. É por isso que um ser corporal com olhos jamais é capaz de olhar dentro dos próprios olhos : a matéria não pode curvar-se sobre si mesma de modo a interpenetrar-se. Para olhar os próprios olhos, um ser corporal precisa sempre de um outro objeto material que reflita sua imagem de volta para si mesmo, como um espelho. Mas aquele nosso menino é capaz de perceber-se pensando, e de refletir sobre seus próprios pensamentos, sobre sua própria imaginação e memória, e mesmo de observar-se a imaginar, a pensar e a lembrar. Sem nenhuma ajuda de um objeto material externo, como um espelho. É capaz mesmo de observar mentalmente a si mesmo enquanto reflete. Numa palavra, ele percebe que é inteligente! E que a sua inteligência, conquanto lide com dados sensoriais, dobra-se sobre estes dados de uma maneira que nenhuma dimensão material do seu corpo é capaz de fazer. A inteligência tem uma qualidade, portanto, que, se por um lado está entranhada em sua materialidade, por outro a supera, já que pode dobrar-se sobre si mesmo de um modo tal que nenhum corpo material pode fazê-lo.

E mais : é capaz de perceber em si as inclinações, os instintos, os desejos e escolher entre eles, não somente cedendo ao mais apetitoso, mas eventualmente ao que contraria aos seus apetites sensoriais. Ele colhe uma pequena fruta daquela árvore, bela, madura e suculenta, e não a come, apesar de desejá-la profundamente, a ponto de estimular sua salivação : reserva-a para levar, mais tarde, à sua vovó amada que se encontra doente num quartinho dos fundos. Ou mesmo de um pobre mendigo que senta-se na calçada de sua casa. É assim que ele descobre que ele tem uma vontade, capaz de escolher entre os diversos desejos que se lhe apresentam aos sentidos. E, uma vez que esta vontade lhe conduz além dos desejos sensoriais, percebendo que são os corpos externos a si que estimulam seus sentidos, ele poderia intuir também que esta vontade capaz de reconhecer os apetites sensoriais e escolher não satisfazê-los deve, de algum modo, ser capaz de superar a materialidade dos seus desejos, instintos, inclinações e estímulos, uma vez que pode escolher uma conduta que, embora reconhecendo-os, ignore-os todos e se dirija a um fim que é deles independente. A esta alma, capaz das mesmas funções que a alma simplesmente vegetativa, capaz ainda das mesmas funções da alma sensitiva, e ainda capaz de reflexão e escolha, chamamos de alma espiritual ou espírito – por envolver dimensões reflexivas que de algum modo superam a matéria. E aos seres capazes de reflexão chamamos de pessoas, e dessa capacidade de reflexão vem a sua dignidade. Um ser humano, por ser pessoa, tem o direito de ser mais do que vegetativo. Tem o direito de ser mais que simplesmente sensitivo e instintivo. Tem o direito de ser reflexivo no pensar e livre no escolher. Cada vez que uma pessoa está reduzida apenas aos aspectos vegetativos e sensitivos de sua alma, ele está sendo ofendido em sua dignidade humana, que se plenifica no direito de desenvolver plenamente a sua capacidade de reflexão e livre escolha – no desenvolvimento pleno da sua capacidade espiritual. Uma planta realiza-se plenamente por ser planta. Um animal tem sua dignidade, que consiste em ser mais que uma planta, e poder exercer livremente seus potenciais sensitivos. Uma pessoa humana não pode reduzir a si mesmo, ou mesmo reduzir o outro, a viver como um animal irracional, ou mesmo como uma planta, sem perder, exatamente aí, e exatamente por isso, a sua dignidade de pessoa. Mas para isso, para discutir ética, precisaríamos aprofundar a noção de ato e potência, o que somente poderá ser feito em outra ocasião...’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/sobre-corpos-e-almas-2
  

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