segunda-feira, 9 de junho de 2014

Pão para todos


   * Artigo de Fernando Domingues
Missionário Comboniano

‘O nome do pregador já se me varreu da memória. Mas o lugar, esse ficou : era em Fátima. E o tema daquele retiro também ficou para sempre : era «Pão para todos».

Eram os primeiros anos em que se começava a projectar dispositivos durante encontros daquele tipo, e a nossa imaginação de jovens ficou aos saltos quando, para entendermos a Missa, víamos no ecrã uma foto de um pão fresco. A imagem era tão realista que até me pareceu sentir, ali na sala, aquele odor agradável do pão acabadinho de sair de um forno a lenha.

As outras coisas, que o senhor padre disse naquele dia, já não as lembro. Mas saber que aquele Pão da Eucaristia é, ainda hoje, alimento para tão pouca gente nunca deixou de me incomodar.

Ainda ontem, foi a Missa da primeira comunhão na paróquia romana onde celebro aos domingos : é lindo ver a alegria e o ar de festa das crianças que recebem pela primeira vez o Pão da Eucaristia; mas que pena ver tantos dos familiares deles que ficam a olhar, de longe... O Papa Francisco bem disse, um destes dias, na sua homilia que «o altar da nossa Eucaristia é uma mesa de almoço». Não pode deixar de preocupar-nos a todos ver esse «banquete» em que tantos membros da família ficam sem comer...

Enquanto vou seguindo com interesse as várias discussões sobre como podemos admitir este ou aquele tipo de pessoas à sagrada comunhão, discussões certamente importantes, fica-me às vezes a impressão de que acabam por ficar «afastados da mesa» precisamente aqueles que são espiritualmente «débeis e doentes», aqueles que mais precisariam deste pão que é «remédio que cura e alimento que dá força», como gosta de dizer o nosso papa.

A solução? Não será fácil, mas gostei de ler, nestes dias, a carta de um católico, publicada numa revista inglesa. Dizia mais ou menos assim :

Em vez de estarmos para aqui a decidir quem tem ou não tem direito a receber a Eucaristia, como se fosse propriedade nossa, porque não perguntamos simplesmente: «Jesus, a quem gostaria de a dar, quem eram os seus comensais preferidos?»

A verdade é que ninguém tem méritos suficientes para pensar que tem direito a sentar-se e comer à mesa da Eucaristia. Como bem dizemos todos, mais ou menos sinceramente, antes da comunhão : «Senhor, eu não sou digno...» Não poderíamos, simplesmente, deixar de nos preocupar com «quem pode, ou quem tem direito, a receber a Eucaristia», e deixar isso a Deus e à consciência das pessoas? Não seria mais importante para nós trabalharmos para que a Eucaristia, esse remédio e alimento, possa de facto ser recebido, antes de mais, por quem mais dele precisa?

Desde aquele dia de retiro em Fátima, sempre me atraiu esta possibilidade bonita : que a Eucaristia de Jesus possa mesmo ser «Pão para todos»’.


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EupEZllFkytRGohyyQ

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