terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Liberdade religiosa


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Nos últimos anos aumentou a perseguição religiosa e surgiu um novo fenômeno de violência com motivação religiosa, o hiperextremismo islâmico. Os cristãos perseguidos são 334 milhões.


‘No prefácio do relatório da Liberdade Religiosa no Mundo da Ajuda à Igreja que Sofre, o padre Jacques Mourad, sacerdote sírio-católico que foi detido pelo autoproclamado Estado Islâmico (EI), mas fugiu cinco meses depois, conta a sua experiência. «No dia 21 de Maio de 2015, fui raptado na Síria pelo grupo EI e fui encarcerado em Raqqa. Durante oitenta e três dias, a minha vida esteve presa por um fio. Temi que cada dia fosse o último. No oitavo dia, o wali (governador) de Raqqa veio à minha cela e convidou-me a considerar o meu cativeiro como uma espécie de retiro espiritual. Estas palavras tiveram um grande impacto em mim. Fiquei espantado por ver que Deus conseguia até usar o coração de um alto responsável do EI para me enviar uma mensagem espiritual. Este encontro marcou uma mudança na minha vida interior e ajudou-me durante o tempo em que estive preso. Mais tarde, fui transferido de volta para a minha cidade, Qaryatain, e a partir daí consegui alcançar a liberdade, graças à ajuda de um amigo muçulmano da região. Teria sido muito fácil ceder à raiva e ao ódio pelo que me aconteceu. Mas Deus mostrou-me outro caminho. Em toda a minha vida como monge na Síria procurei encontrar ligações com os muçulmanos e que aprendêssemos uns com os outros.»

O recente relatório da Liberdade Religiosa no Mundo analisa o período de dois anos – Junho de 2014 a Junho de 2016 –, centrando-se no Estado e nos atores não estatais (militantes ou organizações fundamentalistas), que restringem ou recusam a expressão religiosa. No total, 196 países foram analisados, com um foco especial em cada caso em relação à liberdade religiosa nos documentos constitucionais e em outros documentos estatutários, em incidentes de referência e finalmente na projeção de tendências prováveis. Foram levados em consideração os grupos religiosos reconhecidos, independentemente da sua dimensão numérica ou influência percebida em qualquer país. Cada relato foi depois avaliado, no sentido de criar uma tabela de países onde há violações significativas da liberdade religiosa.

Os países onde as violações graves ocorrem foram colocados em duas categorias : ‘Discriminação’ e ‘Perseguição’. Na essência, a ‘Discriminação’ envolve habitualmente uma institucionalização da intolerância, levada normalmente a cabo pelo Estado ou pelos seus representantes de diferentes níveis, com regulamentos legais e outros que enraízam os maus tratos a grupos de indivíduos, incluindo as comunidades de fé. Enquanto a categoria ‘Discriminação’ identifica habitualmente o Estado como o opressor, a categoria ‘Perseguição’ também inclui grupos terroristas ou atores não estatais, pois o foco aqui está nas campanhas ativas de violência e subjugação, incluindo assassínio, detenção falsa e exílio forçado, bem como danos a bens e expropriação de bens.


Situação mundial

Dos 196 países apresentados, trinta e oito revelaram provas inequívocas de violações significativas da liberdade religiosa. Dentro deste grupo, vinte e três foram colocados no nível máximo da categoria de ‘Perseguição’ e os quinze restantes foram colocados na categoria de ‘Discriminação’.

Desde o último Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo – há dois anos –, a situação relativa à liberdade religiosa piorou claramente no caso de catorze países (37 %), com vinte e um (55 %) sem sinais de mudança óbvia. Apenas em três países (8 %) a situação melhorou claramente : Butão, Egito e Catar. Em relação aos países classificados com nível de ‘Perseguição’, onze – pouco menos de metade – foram avaliados como situações onde o acesso à liberdade religiosa está em declínio acentuado. Entre os países classificados com ‘Perseguição’ que não revelam quaisquer sinais visíveis de melhoria, sete caracterizam-se por cenários extremos (Afeganistão, Iraque, Nigéria (Norte), Coreia do Norte, Arábia Saudita, Somália e Síria), onde a situação já é tão má que dificilmente pode piorar. Isto significa que há um espaço crescente entre um grupo maior de países com níveis extremos de abuso da liberdade religiosa e aqueles países onde os problemas são menos evidentes, como, por exemplo, Argélia, Azerbaijão e Vietnam.

Em países como a Índia, Paquistão e Mianmar, onde uma religião específica é identificada com o Estado-nação, foram dados passos para defender os direitos dessa religião, por oposição aos direitos dos fiéis individuais. Isto resultou em restrições mais rigorosas à liberdade religiosa de minorias religiosas, aumentando os obstáculos à conversão e impondo maiores sanções para a blasfémia.

Nos países com as piores violações, incluindo a Coreia do Norte e a Eritreia, a contínua penalização da expressão religiosa representa a negação total dos direitos e liberdades, por exemplo, através do encarceramento de longa duração sem julgamento justo, da violação e do assassínio.

Houve uma repressão renovada dos grupos religiosos que se recusam a seguir a linha do partido nos regimes autoritários, como a China e o Turquemenistão. Por exemplo, mais de 2000 igrejas viram as suas cruzes demolidas em Zhejiang e nas províncias vizinhas.

O período em análise viu surgir um novo fenômeno de violência com motivação religiosa, que pode ser descrita como híperextremismo islamita, um processo de radicalização intensificada, sem precedentes na sua expressão violenta. As suas características são : crença extremista e um sistema radical de lei e governo; tentativas sistemáticas de aniquilar ou afastar todos os grupos que não concordem com a sua perspectiva, incluindo correligionários : moderados e aqueles com diferentes tradições; tratamento cruel das vítimas; uso das redes sociais mais recentes, principalmente para recrutar seguidores e intimidar os opositores através da exibição de violência extrema; impacto global, tornado possível através de grupos extremistas filiados e de redes de apoio com bons recursos.

A ameaça do Islamismo militante pode ser sentida numa proporção significativa dos 196 países analisados : pouco mais de 20 % dos países – pelo menos um em cinco – viveram um ou mais incidentes de atividade violenta, inspirados pela ideologia islâmica extremista, incluindo pelo menos cinco países na Europa Ocidental e dezessete países africanos.

Ao definir um novo fenômeno de hiperextremismo islamita, o relatório corrobora as alegações generalizadas de que, ao atacar cristãos, yazidis, mandeanos e outras minorias, o grupo EI e outros grupos fundamentalistas estão a infringir a Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio.’


Fonte :


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