sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Silêncio, que é um filme

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Fernando Félix,
Jornalista


‘O realizador norte-americano Martin Scorsese visitou o Japão em 1989. Conheceu o romance Silêncio do escritor católico japonês Shusaku Endo, publicado em 1966. Manteve desde então – e apesar de ter produzido doze filmes entretanto – o desejo de adaptar para a grande tela a obra de Endo.

O que uniu Endo e Scorsese? As suas inquietações e os seus dilemas acerca do que é o Cristianismo, da sua inculturação e de como é assumido pelas pessoas.

Shusaku Endo morreu em 1996. Todavia, continua a ser uma referência para os cristãos japoneses. Eles constituem apenas um por cento da população. Carregam consigo uma história de perseguição, de clandestinidade e vivem em constante necessidade de diálogo cultural e inter-religioso.


Fé, medo do sofrimento e compaixão

O romance Silêncio remete-nos para os primeiros tempos da evangelização do Japão. Esta nação asiática, imperial, budista, recebeu o Evangelho pelo jesuíta espanhol São Francisco Xavier, entre 1549 e 1552, a pedido da Coroa portuguesa. Poucas décadas depois, a comunidade católica sofreu uma dura perseguição : os primeiros mártires, encabeçados por São Paulo Miki, foram crucificados em Nagasáqui em 1597.

No século XVII, as comunidades cristãs continuavam a sofrer a perseguição cruel ordenada pelos xoguns (comandantes do Exército do imperador). E chegou à Europa o rumor de que o padre Cristóvão Ferreira (representado por Liam Neeson), jesuíta português, tinha renegado a fé. Então, dois dos seus alunos foram ao Japão para verificar a veracidade dessa alarmante notícia. Uma vez lá, inseriram-se na vida dos camponeses e pescadores batizados, que viviam a fé às escondidas, para escapar às autoridades locais, que procuravam cristãos a quem obrigar a abjurar mediante suplícios atrozes e perversos.

Martin Scorsese adapta o romance de Endo para o cinema, mas não faz um filme simplesmente comercial. Silêncio é uma expressão da arte de questionar os modos de ver e ouvir, de observar o mundo. Scorsese faz um filme em que os conflitos terrenos se transferem para um campo de batalha íntimo e espiritual. Uma das surpresas é a ausência de música. A verdade faz-se ouvir pelos sons do quotidiano e nessa verdade ecoam duas vozes íntimas : a consciência e o misterioso silêncio de Deus.

Tanto no livro de Shusaku Endo como no filme de Scorsese, o Cristianismo não é uma religião superior para classes superiores. A vida dos camponeses e dos pescadores é marcada pela miséria e pela violência dos ferozes perseguidores. Os dois jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (interpretado por Andrew Garfield) e Francisco Garupe (na pele de Adam Driver), escondem-se durante o dia e exercem em segredo a sua missão sacerdotal pela noite. Então, à luz do dia, vêem a perseguição que cerca a todos, que é brutal, que exprime um ódio gratuito, mesmo quando se insiste que o Cristianismo «não foi feito para o Japão». E, à noite, observam a realidade com os olhos da fé : o martírio dos japoneses pobres e humildes batizados é participação na morte e ressurreição de Cristo.

Pode vislumbrar-se o gênio artístico de Scorsese unido ao de Endo para narrar o martírio nas suas características básicas – é cruel, desumano, horrendo –, como se pode ver logo na abertura, onde se assiste ao suplício, com água a ferver das fontes termais, dos cristãos às mãos de soldados.

Endo e Scorsese deixam um questionamento : o que há de heróico ou sublime na maneira como os cristãos japoneses são assassinados quando enfrentam o medo do sofrimento, negam a apostasia e recusam pisar a fumie (imagem de Jesus Cristo de bronze numa madeira)? Não haverá também algo heróico ou sublime naqueles que, realmente, pisam a madeira, querendo com isso salvar os cristãos dos suplícios atrozes e da morte, e intimamente, crêem praticar um ato de amor supremo?

Há pelo menos duas cenas em que isso é exposto. Uma é a agonia noturna do padre Rodrigues, que enfrenta o tremendo dilema de manter-se firme na sua fé e condenar os seus, ou apostatar, mas salvar o próximo. A outra é quando o rosto do próprio Cristo na tábua pede ao padre Rodrigues para O pisar, o convida a confiar e não ter medo : «Pisa! Pisa! Eu sei melhor do que ninguém quão cheio de dor está o teu pé. Pisa! Para ser pisoteado pelos homens Eu vim a este mundo. Para partilhar a dor dos homens carreguei a cruz

Para a magia artística do filme sublinhe-se a direção de Rodrigo Prieto na fotografia, que cria choques emocionais a partir das escolhas das luzes e das sombras, e a montagem de Thelma Schoonmaker, que dá expressividade à solidão e dor dos jesuítas.


A humanidade e a coragem dos Judas

Os dois jesuítas acabam por ser capturados depois de serem traídos por Kichijiro, um cristão que é facilmente associado ao apóstolo Judas Iscariotes. Em mais de uma ocasião, ao longo do filme, ele renega a fé e pede perdão pelas traições e recaídas. E o padre Rodrigues nunca lhe nega a absolvição na confissão, inclusive quando ele próprio apostatou e se sente indigno de exercer o sacerdócio. Desta maneira, Silêncio reconhece a natureza humana debilitada pelo pecado e frágil. Quem trai pode continuar a trair. A coragem é um dom que não se pode dar por garantido, mas que se agradece.

Scorsese não demoniza os Japoneses, pois dá-lhes a possibilidade de exporem as suas razões pela repressão do Cristianismo. O velho governador-inquisidor Inoue (desempenhado por Issei Ogata) é intencionalmente inteligente e astuto. Também não reduz a história a um choque de religiões, frisando que o conflito é igualmente cultural, de mentalidades e político.

Acerca do Cristianismo, ficam expostas duas ideias. Para muitos dos camponeses e pescadores convertidos, resume-se à promessa de um Paraíso que compensará uma vida terrena de miséria e dor. Por outro lado, não estariam os missionários apóstatas a negar a imagem do Deus ocidental que levaram, o Deus-Juiz, quando a população vivia na miséria e do que necessitava era de um Deus que os amparasse? «No início, o padre Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso. Depois, na prisão em Nagasáqui, esse Cristo começou a ser sofredor, de olhos tristes. Finalmente, quando pisa a imagem, vê um Cristo desfeito, de sofrimento», explicou o padre Adelino Ascenso, missionário no Japão durante mais de uma década, à Rádio Renascença.

Os católicos que sobreviveram à perseguição – milhares abjuraram a fé publicamente para sobreviver, mas continuaram a praticar em segredo – tiveram de ocultar-se durante 250 anos, até à chegada de missionários europeus no século XIX.’


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