terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Quaresma : Outono do Tempo Litúrgico

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Paulo Augusto Tamanini,
Hieromonge


‘Na natureza há quatro grandes estações que, de modo emblemático, caracterizam os dias, as noites, a temperatura, as temporadas de chuvas ou a falta delas. Cada uma destas estações é marcada por singularidades que fazem diferir uma das outras e traz benefícios a toda a Criação. A primavera, dita como a estação mais linda, nos presenteia com os aromas das flores que despontam das mais diferentes espécies. Os pássaros compõem a sinfonia da natureza, cada qual com seu acorde específico, dando aos nossos ouvidos a doce sensação de encantamento. No verão, a temperatura é mais elevada, o ciclo das chuvas é ocasional, o sol se levanta mais cedo e se põe tardiamente. O outono é quando as plantas deixam cair suas folhas velhas ao chão para dar lugar, mais tarde, às novas que virão. Os galhos secos, sem vida, adormecem ao solo depois de terem cumprido sua função singular. A chegada do inverno é anunciada pelo silenciar dos pássaros, pela ausência do verde nas árvores, já quase sem folhas. A temperatura vai bruscamente declinando, principalmente à noite, e assim permanece até perto do meio-dia. O anoitecer dá o ar de sua graça mais cedo e as chuvas finas são acompanhadas pelo assoviar dos ventos gélidos.

A Igreja, da mesma forma, tem seus grandes ciclos, cada qual com suas características e finalidades. Usando desta metodologia, talvez imitando a Natureza, a Igreja nos ensina as verdades da fé, sobre a qual devemos guiar nossa vida espiritual. Por analogia, diria que estamos vivendo o Tempo da Quaresma, como a mãe natureza vive seu outono. É o momento do desvencilhar-se, é o momento de nos libertar e de deixar cair por terra o ‘homem velho’ para dar lugar ao ‘homem novo’. Homem novo este que virá acompanhado com o perfume da ressurreição e os cantos dos anjos que entoam o solene ‘Aleluia primaveril’.

É preciso ter coragem para abandonar nossas ‘folhas velhas’ e nossos ‘galhos secos’ que teimam em permanecer em nós, mesmo sem vida. Estão agarrados a nós como se nos pertencessem de maneira definitiva. Lutam por ficar e não se deixam facilmente vencer. Na natureza, entra em cena o vento que ajuda as plantas a se libertar daquilo que não é mais necessário. Ventos fortes, às vezes, é preciso, para levar as folhas e os galhos secos que ‘insistiam’ em permanecer agarrados à arvore.

Nós cristãos, como na natureza, temos um forte aliado : é o Espírito Santo de Deus. Ele nos auxilia na tarefa tão árdua de discernir o momento certo de nos desprender das coisas antigas para que haja em nós possibilidade de regeneração. É necessário rezar e pedir a Deus que envie, nesta Quaresma, o seu Espírito Santo para cumprir a missão de levar para longe o que nos atrapalha e nos suga. Da mesma forma que as folhas e os galhos secos não resistem à força dos ventos, não há pecado em nós, não há vício em nós que resista à força do Espírito de Deus em nossas vidas.

As folhas secam e os galhos, com elas, perdem a vitalidade, pois os nutrientes já não lhes chegam. A planta faz uma ‘abstenção’, pratica um ‘jejum’. O jejum, neste tempo de Quaresma, tem seu papel primordial : ele fará com que somente o necessário em nós seja o bastante. A Quaresma é o tempo do ‘basta-me o necessário’; na Quaresma não deve existir lugar para a fartura, para o excesso, para o exagero. Pelo contrário, é o tempo marcado pela modéstia, pelo comedimento, pela prudência. Onde há exagero há risco da ostentação. Onde a ostentação se instala os vícios e os pecados se fartam e se alojam. O Jejum e a abstenção de determinados alimentos, antes mesmo de serem vistos como ‘privações’ ou ‘proibições’ que nos vem do exterior, devem ser considerados como preciosos indícios da presença de Deus na vida do fiel que tem a sincera intenção de se libertar do ‘homem velho’, mas não encontra força para isso. Deus age, em sua providência, nas mais diversas maneiras e, no jejum, que fazemos de forma livre e consciente, a Providência Divina age e dá condições para que o fiel se fortifique espiritualmente e seja um vencedor em seu intento. O jejum e abstenção podem até enfraquecer nosso corpo, contudo fortalece nosso espírito e dá a ele o sustento indispensável para vencermos o pecado.

Contemplemos a Natureza e aprendamos dela as mais belas lições de vida que ela nos revela a cada instante. Ela espera seu tempo certo para agir; tem paciência e confia. Assim também, o Espírito Santo nos tornará pessoas mais pacientes e confiantes, pela Graça que nos vem do Alto.

É preciso estar atento às vozes de Deus em nosso cotidiano. Ele nos fala de maneira paterna e amorosamente. Não esbraveja e muito menos altera sua voz. Para ouvir a voz de Deus é imprescindível calar, é necessário emudecer. A Quaresma é o momento do ouvir Deus e cessar a ‘tagarelice’ de nossa língua; é o momento de cessar a inquietude dos afazeres e nos colocar em atitude de oração. Observemos as plantas como agem no outono : parecem estar adormecidas, parecem contemplar o Criador numa postura silenciosa e ouvinte. Uma das maneiras mais eficazes de se ouvir Deus é deixar somente que Ele fale, através do suave vento que toca o ouvido de nossas almas.

As plantas, obedientes à natureza, deixam que se cumpram nelas a fase do desapego às folhas velhas; elas não relutam, não vão contra seu destino. É preciso que aprendamos isso também das árvores : sejamos obedientes à vontade de Deus em nossas vidas sem que haja resistência de nossa parte, frente à ação da Providência. Sejamos obedientes à vontade do Pai e confiemos em seu amor e em sua ação restauradora.

Por mais que caiam as folhas e os ramos secos das árvores, ainda restam-lhe o caule e as raízes. O caule permanece de pé, ‘olhando’ para o céu, recebendo do sol a luz e os elementos necessários para sua vida. As raízes continuam a retirar do solo o substrato para alimentar a planta. Por mais que caiam por terra nossos vícios, nossos pecados; por mais que vão para longe aquilo que não faz parte de nossa essência de Filhos de Deus, permanecem em nós, intocáveis, a imagem e semelhança divinas que olham para os céus, retirando do sol de nossa fé, as luzes necessárias para a vida espiritual. Por mais que as ‘folhas’ e os ‘galhos’ sejam levados de nossa existência, por graça e obra de Deus, nossas raízes continuarão a tirar da Tradição da Igreja, dos Santos Padres, da Vida dos Santos e da Sagrada Escritura, os elementos nutritivos elementares para permanecermos firmes, confiantes e cheios de vida. Nós somos cristãos, contudo não somos os únicos. Antes de nós muitos testemunharam sua fé, levando uma vida cheia de Deus, testemunhando a Ressurreição d’Aquele que é Verdade e Vida. Construíram sua história baseados na fé e deixaram o seu legado para as gerações que depois vieram. Foram exemplos de vida a serem seguidos, pelo seu testemunho de coragem, solidez e perseverança. É nesses modelos de vida que nossas ‘raízes’ buscam nutrientes para alimentar o ‘caule’ de nossa existência. É também permanecendo fiel à Igreja, conhecendo os preciosos escritos dos Padres e lendo as páginas da Sagrada Escritura que permaneceremos firmes, apesar das tempestades da vida. As raízes não buscam somente nutrientes sólidos, mas a água que é condição indispensável para sua sobrevivência. Precisamos beber da fonte, saciando assim nossa sede de Deus. A água é a oração. Assim como sem ela uma planta não sobrevive, nossa fé sem oração, não resistirá. Um cristão sem oração é inconcebível. Uma planta que não se nutre de água é impensável. Mesmo aquelas que vivem em ambientes de deserto, retiram do ar, durante à noite, sua água. A quaresma é o tempo propício para a oração e não devemos ignorá-lo.

As raízes cumprem outro papel preponderante : fixar a planta no chão. Um cristão é alguém que vive no mundo, apesar de não pertencer a ele. É neste mundo, no espaço de sua casa, de sua família, de sua vizinhança que ele dá testemunho de sua fé. A árvore é mais fiel que nós. Uma vez fixada à terra, permanece ali, enfrentando as mais torrenciais das chuvas, os mais impetuosos dos ventos; ali ficará até sua morte. Nós, ao contrário, por motivos variados, sentimos necessidade, vez por outra, de fugir de nosso ambiente, quando as coisas parecem ficar difíceis. É nas maiores dificuldades que somos convidados a testemunhar nossa fé em Deus. O ato de fugir não deve fazer parte das atitudes de um cristão, ante as intempéries da vida.

A Natureza é um dos sinais visíveis e sensíveis da constante e permanente ação providencial de Deus que continua a nos ensinar grandes verdades. Basta-nos sermos discípulos atentos ao que o Mestre nos ensina, também através da sábia natureza.’


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