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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Via da misericórdia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG



Esse caminho está na contramão da perversidade e da indiferença. Envolvendo corações e mentes, esses males marcam os tempos atuais com os frutos da insanidade e da ignorância, insensíveis às muitas possibilidades para os avanços humanitários, sociais e políticos. A misericórdia é, assim, remédio indispensável, lição inigualável.

Quando um coração é forjado pela misericórdia, torna-se base para uma mente límpida, orientada para a fraternidade solidária, repleta de uma luz que inspira a inteligência e a sabedoria, qualidades indispensáveis em qualquer momento da história. Afinal, a desastrosa percepção dos mais diferentes processos é um tipo de cegueira que causa confusões, leva a decisões equivocadas, à falta de senso crítico sobre as próprias atitudes.

Percorrer a via da misericórdia é necessário treinamento para se conquistar a competente compreensão a respeito de si e do outro. Permite reconhecer a vida de cada pessoa como dom. É, pois, atitude fundamental para se administrar, com equilíbrio, a própria vida. Caminho que consolida a justiça, pois conduz ao compromisso com a verdade, o bem comum, a honestidade. Quem se aproxima do amor misericordioso de Deus, revelado em Jesus Cristo, desenvolve o gosto pela honestidade, não alimenta qualquer tipo de orgulho ou ilusória concepção sobre si.

Sem a via da misericórdia, tudo se enfraquece. A religiosidade deixa de contribuir para que a sociedade alcance nova etapa de seu desenvolvimento. As famílias, que deveriam ser ambiente para muitos aprendizados, ficam desfiguradas. Buscar a misericórdia não é, pois, um passeio sem propósito. É experiência renovadora, a partir do encontro com Jesus Cristo, o rosto misericordioso de Deus-Pai. Um acontecimento capaz de corrigir muitos descompassos, a exemplo do costume de se alegrar, perversamente, com o fracasso dos outros. As lições de Jesus Cristo salvam a humanidade também de males que afligem a alma, tornando-a suscetível a sofridas depressões.  Quem segue o Mestre, rosto da misericórdia divina, não desiste de viver, pois passa a reconhecer a própria existência como dom. Cultiva especial apreço à vida de todos, acima de qualquer interesse egoísta que possa levar a disputas insanas.

Nesse horizonte, compreende-se a oportunidade singular oferecida na Semana Santa: buscar a misericórdia seguindo os passos do Mestre, na sua paixão, morte e ressurreição, a partir das celebrações e da escuta da Palavra de Deus. A Semana Santa condensa lições essenciais que, se aprendidas por todos, permitem o surgimento de uma humanidade nova, solidária. Jesus é único e seus ensinamentos são a verdadeira sabedoria. Todos aproveitem a chance de fixar o olhar em Cristo, para percorrer com Ele a via da misericórdia. Assim, cada pessoa tem a oportunidade de unir-se a Deus, abrir o próprio coração para o amor, que transforma, produz sabedoria, permite discernimentos e escolhas acertadas.

Os atos de Jesus são permeados de compaixão, que não pode ser confundida com fraqueza. Trata-se de corajosa fidelidade à verdade e ao bem de todos.  Acolher suas palavras, silenciar ante seus sofrimentos e sua morte expiatória, refletindo sobre os preciosos ensinamentos reunidos na Bíblia, a exemplo dos que estão concentrados no Sermão da Montanha, é passo importante para percorrer a via da misericórdia junto com Cristo. A humanidade precisa, com urgência, trilhar esse caminho. Seja, pois, compromisso de todos, percorrer a via da misericórdia para aproximar-se de Deus e aprender com o seu amor.’


Fonte :

sexta-feira, 23 de março de 2018

O remédio da compaixão


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  ÃƒÂ‰ preciso um remédio que tenha força de ação no coração humano.
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


 ‘Causam perplexidade a crescente violência e a força destruidora das indiferenças. As perseguições e o gosto mórbido de se destruir reputações ou tratar, com espetacularização, a condição humana são graves ameaças. E diante deste turbulento cenário, ainda surgem figuras que se apresentam como a ‘força da moralização’, mas agem com truculência e se autopromovem a partir da disseminação de notícias falsas, criando confusões e semeando desarranjos. Há, assim, uma retroalimentação das hostilidades, disputas, revides e, de modo preocupante, do espírito doentio daqueles que querem ver ‘o circo pegar fogo’.

Constata-se que o coração das pessoas, projetado para ser da paz, se transforma em lugar que abriga sentimentos de vingança, de apreço ao banditismo. Distancia-se, assim, do sentido humanístico indispensável para alimentar a fraternidade e a solidariedade. O processo crescente de desumanização conduz a sociedade ao colapso. Os cenários são de guerra, o que é comprovado pelas estatísticas sobre homicídios provocados pela falta de compromisso com a sacralidade da vida do outro, que é irmão.

Na contramão da indispensável e urgente sensibilização humana, o que se verifica é um processo de petrificação dos corações, uma patologia. Afinal, quem cultiva o hábito de praticar maldades é doente. As práticas que, apesar de sedutoras, levam pessoas e instituições ao fracasso, são também indicações do grave sintoma da devastação das referências humanísticas. Há uma perda de limites : as consequências dos atos inadequados e imorais sequer são consideradas. Isso decorre da falta de compromisso com a honestidade. A probidade, que deveria ser norteadora de condutas, não tem seu valor reconhecido.

Uma sociedade vivida neste horizonte confuso não tem força para recuperar-se de crises. Carece de sabedoria para reencontrar caminhos e respostas. E as pessoas não conseguem perceber o sentido e o alcance da vida como dom. Pelo contrário, as condutas ficam emolduradas pelos estreitamentos humanísticos que levam a cidadania a ser palco de teatralizações.  Consequentemente, a vida cotidiana distancia-se da felicidade, possível quando todos se reconhecem como pertencentes a uma grande família – todos se percebendo como irmãos uns dos outros.

É preciso um remédio que tenha força de ação no coração humano. É lá que reside o problema. Chegue, pois, aos corações, o remédio da compaixão, capaz de fazê-lo sede da experiência do amor.  Os processos que tendem a brutalizar o coração humano precisam ser debelados. Isso inclui investimentos em segurança pública, legislações, infraestrutura e, principalmente, promover, no ambiente familiar, religioso, entre tantos outros, o remédio da compaixão. A compaixão permite o desenvolvimento de competências, de responsabilidades, a recuperação do sentido de irmandade, a alegria do pertencimento a um povo, o gosto de zelar por seu patrimônio e o comprometimento com aqueles que precisam de ajuda. A patologia do embrutecimento, por sua vez, leva à perda do sentido mais profundo da vida, causando sequelas e trazendo prejuízos preocupantes - mortes, suicídios, violências de todo tipo, indiferenças destruidoras. Por isso mesmo, precisa ser tratada com o remédio da compaixão.

A compaixão não é fraqueza, menos ainda conivência com os erros que requerem penas e correções. A aprendizagem e a prática da compaixão, legado próprio da espiritualidade cristã, é o remédio que trata o coração humano, fonte inesgotável para se lavar e se purificar. É preciso reconhecer-se como necessitado desse remédio. Vivenciar a Semana Santa, seguindo os passos de Jesus Cristo - a compaixão - é tomar esse remédio para curar-se de muitos males, caminho para se tornar agente construtor de uma vida nova, de um tempo novo e um exercício que permite educar o coração para reconhecer a importância do outro, principalmente de quem é pobre e indefeso.

Limpar o coração de mágoas que geram vinganças e ressentimentos. Cultivar o gosto pelo bem e pela verdade. Compreender a vida como dom. Abrir um ciclo novo para a própria vida, na vivência e celebração da Semana Maior, a Semana Santa. Eis o convite : o remédio da compaixão!


Fonte :




quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Misericórdia e comprometimento : duas faces da mesma moeda

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Imagem relacionada
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘As misericórdias do Senhor se renovam todas as manhãs. É comum aos cristãos tanto falar esse versículo quanto também ouvi-lo nos diversos sermões que se escutam aos domingos, bem como nos diversos eventos que celebram os rituais da vida, tais como o nascimento de uma criança ou o funeral de um ente querido. O fato de saber isso se torna, então, motivo de conforto e alegria para aqueles/as que creem.
Ainda que muito falada, muitas vezes não se reflete a respeito do significado que essa expressão tem. O termo central é a misericórdia. Essa, etimologicamente, é formada pela junção de duas palavras do latim, a saber, miseratio (compaixão) + cordis (coração), de tal forma que é possível entender misericórdia como significando um ‘coração compadecido’. Com isso em mente, não é difícil entender que o fato das misericórdias do Senhor se renovarem todos os dias tem a ver com sua bondade em olhar com compaixão em nossa direção.
Para o Cristianismo, a partir da vida de Jesus, a misericórdia do Senhor é entendida de uma maneira totalmente encarnada. Por meio da fé, a compaixão do Pai para com seus filhos chega ao seu ponto máximo ao se revelar como ser humano na pessoa do Cristo.
Dessa forma, a misericórdia não é vista somente como algo externo e transcendente, como uma espécie de mágica que vem do céu para a humanidade, mas é vista e experimentada na concretude da vida e na realidade do mundo.
Por sua vez, entender a pessoa de Cristo como a manifestação da misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo se dizer seguidor/a desse Cristo, implica em tratar a misericórdia também como algo que tem a ver com a concretude da vida, ou seja, como algo que precisa ser demonstrado no dia a dia para com todos/as que vivem nas diversas misérias do mundo.
A misericórdia, então, nas atitudes humanas, é uma virtude que deve ser desenvolvida. Contudo, muito comumente, aquilo que se chama misericórdia não tem a ver com o coração que se identifica e compadece, muito mais com o coração que se acha melhor que os miseráveis e que, por isso, sente que deve ajudá-los a sair da sua miséria. A ajuda e a atitude compassiva, nesse sentido, são demonstrações das relações de poder daquele/a que se considera superior na relação com outro. Com isso, essa ‘misericórdia’ não é virtuosa, antes, pseudomisericórdia e, por isso mesmo, vício a ser combatido.
À luz das narrativas evangélicas, a misericórdia passa pela identificação com o outro. Somente é possível ser compassivo com aquele/a com o/a qual nos identificamos e com o/a qual nos colocamos no lugar. Dessa forma, a misericórdia só é possível com empatia e somente pode ser virtuosa quando, ao olhar a miséria alheia seja possível pensar : ‘Poderia ser eu esse que passa fome, que pede moeda na rua, que está preso injustamente, que é vítima de violência etc’.
Com isso, a miséria do outro se coloca como aquela que nos interpela e demanda de nós uma resposta, não somente teórica frente às estruturas sociais, políticas e econômicas que causam as diversas misérias nessa terra, mas também de ordem prática, que atenda efetivamente a necessidade daquele/a que chega a nós com suas necessidades.
Compreender a categoria de misericórdia na perspectiva cristã implica em comprometimento com as questões da sociedade e encarnação na realidade do mundo. Essa misericórdia nunca deve ser vista como somente algo transcendente, que nada tem a ver com a realidade e afastada das condições miseráveis a que os poderosos dessa terra submetem humanos e natureza.
Misericórdia para com o outro nunca deve ser vista como uma atitude passiva ou de comodismo. Ao contrário, como fruto de um coração compadecido, demanda de nós uma atitude de luta em favor dos miseráveis, dos desumanizados e da natureza, assumindo suas questões como nossas questões.
Fazer isso é trazer para os dias atuais a mensagem de que as misericórdias do Senhor se renovam todas as manhãs e, por esse motivo, as lutas por uma sociedade melhor e mais digna também se renovam com ela diariamente.’

Fonte :


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Se Saint Louis é o 'novo Selma' qual o papel dos católicos na reconciliação racial?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Frente: Irmã Antona Ebo e Irmã Anne Christopher marcham em Selma. Médio: o arcebispo Robert J. Carlson fala em um serviço de oração inter-religioso depois que o agente Jason Stockley foi absolvido. Atrás: jornais locais cobrem a homilia de Heithaus.
Frente: Irmã Antona Ebo e Irmã Anne Christopher marcham em Selma.
Meio: o arcebispo Robert J. Carlson fala em um serviço de oração
inter-religioso depois que o agente Jason Stockley foi absolvido.
Atrás: jornais locais cobrem a homilia de Heithaus.

*Artigo de Colleen Dulle


‘O padre jesuíta Chris Collins dirigiu-se apressadamente para a faculdade de direito da Universidade de St. Louis quando ouviu que um veredito seria divulgado no dia 15 de setembro referente ao julgamento do assassinato de Jason Stockley, o policial branco que matou Anthony Lamar Smith, um jovem negro de 24 anos, em 2011.
O julgamento foi controverso : Stockley foi acusado de assassinato premeditado depois de ser gravado dizendo que ele iria matar ‘esse filho da p***’ enquanto perseguia o Smith no seu carro pelo norte de St. Louis. Os advogados no processo também argumentaram que Stockley tinha plantado a arma que foi recuperada do carro do jovem Smith : especialistas descobriram o DNA do Stockley na arma, mas não de Smith.
Apesar desta evidência, Stockley foi absolvido, e os manifestantes imediatamente começaram a protestar frente à decisão na rua entre o tribunal e a escola de direito dos jesuítas.
Não importava qual fosse o veredito, sabíamos que haveria protestos’, disse o padre Collins à revista América. Ele sabia que o clero católico não era visto normalmente nos protestos e queria estar lá como ‘uma presença pastoral’.
Na calçada fora da faculdade de direito, o padre Collins encontrou-se com um ministro que conhecia e alguns outros membros do clero de várias denominações religiosas que se reuniram em torno do acontecido. Eles começaram a orar juntos e, enquanto oravam, alguém puxou o grupo para a rua.
Padre Collins disse que um dos ministros que iniciou a oração, uma negra, cujo nome não conseguiu lembrar, segurou-o firmemente. ‘Ela não me soltaria, um padre católico, branco e lá’, disse padre Collins. ‘Isso foi potente para mim... De alguma forma, isso pareceu um gesto muito significativo’.
Isto é significativo porque em St. Louis as comunidades afro-americanas e brancas permanecem completamente divididas. Os mapas demográficos da cidade mostram o que foi apelidado de ‘A Divisão Delmar’ : grande parte dos pretos de St. Louis vivem ao norte de Delmar Boulevard e grande parte dos brancos de St. Louis vivem ao sul.
Além de simplesmente superar essa divisão física, quando o padre Collins apoiou a ministra negra, representou o que os católicos brancos de St. Louis historicamente fizeram melhor na luta pela justiça racial : apoiar e trabalhar com seus colegas cristãos negros.

Integração pioneira
Em fevereiro de 1944, St. Louis era uma cidade legalmente segregada. Crianças pretas e brancas iam para diferentes escolas, e o incentivo para empregadores brancos como os do Sudoeste de Bell para contratar afro-americanos estava apenas começando a ganhar força.
A Universidade St. Louis permaneceu segregada. O presidente da escola, o padre Patrick Holloran e o arcebispo (mais tarde Cardeal), John J. Glennon, se opuseram firmemente à integração.
Um dos jesuítas da universidade, o padre Claude Heithaus, viu a segregação da universidade como hipócrita e injusta. Quando descobriu que celebraria a missa estudantil das 8:45 da manhã em St. Francis Xavier College Church em 11 de fevereiro de 1944, o padre Heithaus preparou uma homilia ardente denunciando o preconceito racial e pedindo a integração da universidade.
É um fato surpreendente e bastante desconcertante que, no que diz respeito à justiça para os negros, os muçulmanos e os ateus são mais cristãos do que muitos cristãos’, começa o sermão. ‘Os seguidores de Maomé e Lenin não fazem distinção de cor, mas para alguns seguidores de Cristo, a cor da pele de um homem faz toda a diferença no mundo’.
O padre Heithaus estabeleceu contrastes entre a aprovação do Papa Pio XII dos bispos negros e a desaprovação dos seus paroquianos sobre um organista negro na igreja e entre a alegria de Deus quando qualquer uma das raças recebe a comunhão e o desdém de sua comunidade ajoelhada ao lado de um afro-americano na fila de comunhão.
O padre Heithaus continuou : ‘A Universidade de St. Louis admite protestantes e judeus, mórmons e muçulmanos, budistas e brâmanes, pagãos e ateus, sem sequer olhar para a sua aparência. Você quer que batamos as nossas portas na cara dos católicos porque a sua aparência é escura ou preta?
O padre Heithaus convocou os alunos para se defender e fazer um ato de reparação pelo racismo, e um relatório de notícias daquele dia diz ‘até os bancos se levantaram’. Os alunos pediram desculpas ‘por todos os erros que os homens brancos fizeram com [Deus] às crianças pretas’ e ‘resolveram nunca mais ter qualquer parte neles, e fazer tudo em [seu] poder para evitá-los’.
O arcebispo Glennon repreendeu o padre Heithaus por sua homilia, e o padre Holloran proibiu-o de falar publicamente sobre temas de raça. Ainda assim, poucos meses depois que o padre Heithaus partilhou sua homilia, a universidade tornou-se a primeira faculdade historicamente branca em um antigo estado escravo em admitir estudantes pretos.
Dois anos depois, em 1947, o arcebispo (depois cardeal), Joseph E. Ritter, anunciou que integraria todas as escolas católicas na arquidiocese, uma causa que o padre Heithaus havia defendido silenciosamente depois de ser censurado. Quando alguns católicos brancos na diocese apelaram a integração, esperando pará-la, o Arcebispo Ritter emitiu uma carta para ser lida em voz alta em cada Missa na diocese, ameaçando excomungar qualquer católico que se opusesse a ele. As escolas foram integradas naquele ano, oito anos antes das escolas públicas do país se integrarem seguindo a decisão da Câmara de Educação do Tribunal Supremo.

St. Louis manda irmãs para Selma
Padre Collins, o jesuíta que rezou nas ruas depois do veredicto de Stockley, anunciou que um ministro afro-americano recentemente lhe disse que a marcha dos direitos civis de Selma1 para Montgomery em 1965 não teria sido tão eficaz em chamar a atenção para a discriminação dos eleitores em Alabama, se não fosse pela presença de freiras católicas.
A Irmã Anne Christopher, então Irmã de Loretto morando no centro da cidade de St. Louis, ficou horrorizada com a violência que viu na cobertura de notícias do ‘Domingo sangrento’, quando tropas estatais atacaram violentamente manifestantes pacíficos atravessando a Ponte Edmund Pettus. Quando ela ouviu o apelo do Reverendo Dr. Martin Luther King Jr. para o clero marchar de Selma para Montgomery, pediu permissão para ir. Três dias depois, subiu em um avião para Selma com um grupo de freiras de St. Louis. Antona Ebo, irmã franciscana de Maria, era a única irmã negra na delegação.
‘Descobriu-se que o hábito era o que chamava a atenção de todos, muito rapidamente, porque ninguém tinha visto as freiras fazendo nada assim antes. Eu não tinha percebido que estávamos nos envolvendo em algo histérico e histórico’, disse a irmã Ebo com uma risada. Aos 94 anos, ela permanece tão envolvida quanto pode nos esforços de direitos civis na cidade.
Embora seu impacto exato possa ser impossível de avaliar, a presença das irmãs na linha de frente em Selma chocou e chateou as pessoas, mesmo membros de suas próprias comunidades religiosas, que achavam inapropriado que freiras se envolvessem em tal ativismo.
Eu recebi muitas cartas, como tenho certeza de que todas nós fizemos, dizendo que as freiras não deveriam participar dessas coisas’, disse a irmã Anne Christopher, agora Therese Stawowy, em entrevista à Universidade Webster. ‘Eu não posso contar todas as palavras dessas cartas, mas algumas delas ainda as tenho hoje. Elas me sacudiram. Ficamos perturbadas com as cartas que recebemos e com o fato de que algumas vezes nos pediram para não falar nos eventos depois que fomos convidadas’.
Enquanto as marchas conseguiram obter o apoio à Lei de Direitos de Votação, que foi aprovada no final desse ano, a luta pela justiça racial em St. Louis continua por questões como a violência policial, o encarceramento em massa e a segregação geográfica que é um legado da discriminação habitacional.

O Novo Selma
Em setembro, no primeiro protesto depois de Jason Stockley (que frequentou a Althoff Catholic High School) ser absolvido, o ativista local Tory Russell disse à multidão : ‘St. Louis é o novo Selma. Deixe-me dizer isso novamente : St. Louis é o novo Selma
Para a comunidade católica em St. Louis, os paralelos entre sua cidade e Selma também foram evidentes em 2014. Duas semanas depois, Michael Brown, um adolescente preto desarmado, foi baleado pelo oficial de polícia branco Darren Wilson em Ferguson, Missouri, em um subúrbio do Norte de St. Louis com uma maioria de negros. Neste contexto, o arcebispo Robert Carlson decidiu restabelecer a Comissão de Direitos Humanos da Arquidiocese, o mesmo grupo que organizou a viagem das irmãs a Selma em 1965.
Hoje, a Igreja Católica está novamente em uma posição única com a possibilidade de encorajar esforços de justiça social em St. Louis. É a maior denominação religiosa na área e funcionam com aproximadamente 30 escolas onde seus membros são principalmente brancos. Todavia, após o veredicto de Stockley, a Convenção Batista Missionária do Estado de Missouri, em grande parte, negra, se juntou ao arcebispo Carlson em apoio.
O alcance deles é muito maior’, disse o Reverendo Linden Bowie, presidente da Convenção Batista, ao site National Catholic Reporter.
Em resposta ao pedido do Reverendo Bowie, a arquidiocese organizou um encontro de oração inter-religioso realizado no centro de Kiener Plaza, a poucos passos do Tribunal de Justiça antigo, onde Dred Scott lutou por sua liberdade da escravidão, pedido que foi negado em Dred Scott vs. Sandford, caso da Suprema Corte de 1857.
No encontro inter-religioso, o Padre Ron Mercier, chefe da Província Centro-Sul dos jesuítas, citou o papa Paulo VI :
Aqueles que levantaram a voz em protesto desde o veredito da última sexta-feira, lembram-nos que, para muitas pessoas nesta cidade que amamos, a justiça continua sendo uma realidade inalcançada. O pecado do racismo e a injustiça que ele gera, nos priva de toda a capacidade de estar em casa e apreciar a paz. Como os manifestantes nos lembraram, aqueles que ainda estão sobrecarregados pelo legado da escravidão conhecem de forma profunda e visceral o que é ser estrangeiros em sua própria cidade, vendo que suas vidas importam pouco. Sim, precisamos orar hoje pelo dom da paz, um presente que Deus anseia nos dar, mas também devemos ouvir o convite de Deus para construir a justiça.
Os católicos de St. Louis, liderados de forma mais visível por estruturas oficiais como a Comissão de Paz e Justiça, que foi estabelecida após Ferguson, estão trabalhando silenciosamente para alcançar a justiça.
Após o início da agitação em Ferguson, a arquidiocese se ativou nos esforços de reconciliação racial, realizando uma série de missas e encontros de oração inter-religiosos no condado do Norte e coletando doações para serviços sociais na área.
Os jesuítas continuaram seus esforços de justiça social, operando através de uma escola primária e uma paróquia no norte de St. Louis. Eles também estão tomando medidas para superar seu passado de escravidão. Em 2016, a Universidade de St. Louis renomeou um prédio com o nome de uma das pessoas escravizadas e vendidas pelos jesuítas. A universidade tornou mais fácil para os descendentes desses escravos participarem da universidade. A faculdade de direito é focada no encarceramento em massa e estabeleceu um programa de graduação associada para presos e trabalhadores prisionais. Também está planejando uma feira de carreiras para infratores da lei.
O padre Chris Collins, que trabalha na Comissão de Justiça e Paz, disse que, com algumas empresas em St. Louis que se encontram enfrentando a falta de mão-de-obra, o aumento das oportunidades de trabalho para os ex-presidiários poderia ser uma solução vantajosa para todos.
Pessoas de diferentes cores políticas podem concordar em muitas dessas coisas’, disse padre Collins. ‘Eu tenho esperança’.
Ele também vê potencial no trabalho da arquidiocese para a reconciliação racial com a polícia da cidade e do condado. Muitos dos oficiais, disse, são católicos. Ele perguntou : ‘Como a mediação dentro da comunidade católica pode desempenhar um papel na tentativa de encontrar um terreno comum para trabalhar na reparação das relações entre a comunidade afro-americana e a polícia?
Os católicos brancos de St. Louis aprenderam ao longo da história que desafiar uns aos outros e buscar um terreno comum com grupos marginalizados são as duas estratégias mais eficazes para alcançar a justiça.
O padre Heithaus, o cardeal Ritter e as irmãs desafiaram o racismo de suas comunidades, mesmo que isso significasse enfrentar o ridículo. Eles construíram pontes juntando católicos brancos e negros nas salas de aula da universidade e marchando com os líderes protestantes negros das marchas dos direitos civis no Estado de Alabama.
As divisões raciais da cidade persistem hoje. Se St. Louis é o novo Selma, então os católicos brancos sabem exatamente o que precisam fazer : Desafiar-se uns aos outros e trabalhar lado a lado com seus irmãos e irmãs pretos para alcançar a justiça e, ao fazê-lo, a paz.’

[1] Selma é uma cidade norte-americana que representa particularmente o movimento social em busca de igualdade de direitos para a população afro americana liderado pelo pastor Martin Luther King Jr., através de protestos e marchas da cidade de Selma no interior do Estado de Alabama, até a capital, a cidade Montgomery.

Fonte :


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Valor da solidariedade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A solidariedade, por ser um valor capaz de requalificar, permite reconstruir o esgarçado tecido da cidadania.
 *Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Viver a solidariedade é indispensável para possibilitar que as práticas políticas recuperem a sua inteireza. É necessária uma limpeza nos mais variados mecanismos de funcionamento da política. E de forma urgente. A solidariedade, por ser um valor capaz de requalificar, permite reconstruir o esgarçado tecido da cidadania. Por isso, em todos os momentos, em diferentes sociedades, é indispensável fazer referência, propor iniciativas e refletir sobre a solidariedade.  No coração da prática solidária está o princípio fundamental e inegociável da consideração para com o outro. O apóstolo Paulo faz essa recomendação, estabelecendo esse valor como fundamento da identidade daquele que tem fé. Explica o apóstolo: exemplar é o gesto de Deus ao oferecer à humanidade o que tem de mais precioso, seu filho Jesus, o Salvador. Assim, Deus antecipa-se no gesto de reconciliação com o ser humano, deixando a lição fundamental de que é preciso reconhecer a importância do outro. Esse ‘outro’ é você, eu, cada um de nós. Esse princípio tem força de equilíbrio, pois conduz a civilização na direção humanística que permite superar crises.

Embora muitas vezes se reconheça o valor da solidariedade, sabe-se que não é tão simples plantar e fazer florescer essa convicção nos corações. Na política, por exemplo, em vez de se investir nos gestos solidários, prevalece a crença de que avanços diversos dependem de conchavos, ideologias partidárias ou simplesmente das promessas nunca cumpridas. Contenta-se assim com ensaios de lucidez, insuficientes para atender aos urgentes anseios do povo, principalmente de quem é mais pobre. Falta, pois, na sociedade brasileira, um tecido solidário de qualidade.

Quase sempre, o que se verifica no Brasil é um discurso de autoelogio sobre certas práticas dedicadas aos outros. Em ‘alto e bom som’, há os que proclamam que a cultura latina e a brasilidade têm na solidariedade um valor inerente. Fazem referências desdenhosas a outras culturas marcadas pela objetividade, interpretando essa característica como ‘frieza’. Mas, na prática, isso serve apenas para aliviar as consciências de pessoas que não se doam ou se contentam em fazer tímidas doações a projetos sociais.

Ora, isso é bem diferente do que ensina o princípio apresentado pelo apóstolo Paulo - considerar a importância do outro. O apóstolo adverte que a liberdade, quando se torna pretexto para buscar o que satisfaz, mas não convém, provoca desastres. Incapacita a competência humana e espiritual de amar ao outro como a si mesmo. O resultado é nefasto, diz o apóstolo : ‘Se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros!’. Paulo indica o caminho a seguir : ‘Fazei-vos servos uns dos outros, pelo amor’.

Ao trilhar esse percurso e reconhecer o valor da solidariedade, colabora-se com a construção de uma cultura que contemple fortes sentidos de pertencimento, patriotismo e apurada sensibilidade humana - que se desdobra em gestos e ofertas mais generosas. Quem se faz servo apura a própria visão da realidade e consegue ouvir os clamores de quem necessita de ajuda. Por isso mesmo, urgente e prioritário neste momento em que a sociedade brasileira precisa sair da crise é reconhecer que a solidariedade é determinante nas dinâmicas sociais.  Isso não é uma simples reflexão teórica, mas indicação de uma exigência moral com força transformadora, pois possibilita o surgimento de atitudes que estão na contramão das violências que dizimam, das corrupções que sucateiam e da perda da percepção de que todos são destinatários, igualmente, de condições dignas.    

A solidariedade é, pois, princípio social e virtude moral. Vivenciá-la é investir na edificação de um contexto novo e melhor. Sem esse princípio e virtude, não se conquistam os ordenamentos sociais almejados. As relações pessoais continuarão comprometidas e em processo crescente de deterioração. E um perverso ciclo é alimentado, pois as pessoas tornam-se cada vez mais distantes das estruturas dedicadas à solidariedade. Com isso, por ignorância, são perpetuadas regras e leis que são inumanas e pesadas.

Para além de um sentimento qualquer de compaixão vaga e superficial, a solidariedade tem o valor de despertar e criar o gosto imperecível pelo bem comum. E todo cidadão para ser eterno aprendiz do valor da solidariedade tem que praticá-la, diariamente, permanentemente. Esse exercício exige considerar a importância do outro, abrir os olhos e os ouvidos para nunca ser indiferente com as dores do mundo, lutar para sair das zonas de conforto e deixar-se incomodar pelos sofrimentos da humanidade. Uma postura que requer, inclusive, a disposição para tirar do próprio bolso quantias a serem destinadas a projetos sociais e ações solidárias. Pois, a sociedade estará na direção de superar seus descompassos e a cidadania se qualificará quando prevalecer o inestimável valor da solidariedade.’


Fonte :


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Silêncio, que é um filme

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Imagem relacionada
*Artigo de Fernando Félix,
Jornalista


‘O realizador norte-americano Martin Scorsese visitou o Japão em 1989. Conheceu o romance Silêncio do escritor católico japonês Shusaku Endo, publicado em 1966. Manteve desde então – e apesar de ter produzido doze filmes entretanto – o desejo de adaptar para a grande tela a obra de Endo.

O que uniu Endo e Scorsese? As suas inquietações e os seus dilemas acerca do que é o Cristianismo, da sua inculturação e de como é assumido pelas pessoas.

Shusaku Endo morreu em 1996. Todavia, continua a ser uma referência para os cristãos japoneses. Eles constituem apenas um por cento da população. Carregam consigo uma história de perseguição, de clandestinidade e vivem em constante necessidade de diálogo cultural e inter-religioso.


Fé, medo do sofrimento e compaixão

O romance Silêncio remete-nos para os primeiros tempos da evangelização do Japão. Esta nação asiática, imperial, budista, recebeu o Evangelho pelo jesuíta espanhol São Francisco Xavier, entre 1549 e 1552, a pedido da Coroa portuguesa. Poucas décadas depois, a comunidade católica sofreu uma dura perseguição : os primeiros mártires, encabeçados por São Paulo Miki, foram crucificados em Nagasáqui em 1597.

No século XVII, as comunidades cristãs continuavam a sofrer a perseguição cruel ordenada pelos xoguns (comandantes do Exército do imperador). E chegou à Europa o rumor de que o padre Cristóvão Ferreira (representado por Liam Neeson), jesuíta português, tinha renegado a fé. Então, dois dos seus alunos foram ao Japão para verificar a veracidade dessa alarmante notícia. Uma vez lá, inseriram-se na vida dos camponeses e pescadores batizados, que viviam a fé às escondidas, para escapar às autoridades locais, que procuravam cristãos a quem obrigar a abjurar mediante suplícios atrozes e perversos.

Martin Scorsese adapta o romance de Endo para o cinema, mas não faz um filme simplesmente comercial. Silêncio é uma expressão da arte de questionar os modos de ver e ouvir, de observar o mundo. Scorsese faz um filme em que os conflitos terrenos se transferem para um campo de batalha íntimo e espiritual. Uma das surpresas é a ausência de música. A verdade faz-se ouvir pelos sons do quotidiano e nessa verdade ecoam duas vozes íntimas : a consciência e o misterioso silêncio de Deus.

Tanto no livro de Shusaku Endo como no filme de Scorsese, o Cristianismo não é uma religião superior para classes superiores. A vida dos camponeses e dos pescadores é marcada pela miséria e pela violência dos ferozes perseguidores. Os dois jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (interpretado por Andrew Garfield) e Francisco Garupe (na pele de Adam Driver), escondem-se durante o dia e exercem em segredo a sua missão sacerdotal pela noite. Então, à luz do dia, vêem a perseguição que cerca a todos, que é brutal, que exprime um ódio gratuito, mesmo quando se insiste que o Cristianismo «não foi feito para o Japão». E, à noite, observam a realidade com os olhos da fé : o martírio dos japoneses pobres e humildes batizados é participação na morte e ressurreição de Cristo.

Pode vislumbrar-se o gênio artístico de Scorsese unido ao de Endo para narrar o martírio nas suas características básicas – é cruel, desumano, horrendo –, como se pode ver logo na abertura, onde se assiste ao suplício, com água a ferver das fontes termais, dos cristãos às mãos de soldados.

Endo e Scorsese deixam um questionamento : o que há de heróico ou sublime na maneira como os cristãos japoneses são assassinados quando enfrentam o medo do sofrimento, negam a apostasia e recusam pisar a fumie (imagem de Jesus Cristo de bronze numa madeira)? Não haverá também algo heróico ou sublime naqueles que, realmente, pisam a madeira, querendo com isso salvar os cristãos dos suplícios atrozes e da morte, e intimamente, crêem praticar um ato de amor supremo?

Há pelo menos duas cenas em que isso é exposto. Uma é a agonia noturna do padre Rodrigues, que enfrenta o tremendo dilema de manter-se firme na sua fé e condenar os seus, ou apostatar, mas salvar o próximo. A outra é quando o rosto do próprio Cristo na tábua pede ao padre Rodrigues para O pisar, o convida a confiar e não ter medo : «Pisa! Pisa! Eu sei melhor do que ninguém quão cheio de dor está o teu pé. Pisa! Para ser pisoteado pelos homens Eu vim a este mundo. Para partilhar a dor dos homens carreguei a cruz

Para a magia artística do filme sublinhe-se a direção de Rodrigo Prieto na fotografia, que cria choques emocionais a partir das escolhas das luzes e das sombras, e a montagem de Thelma Schoonmaker, que dá expressividade à solidão e dor dos jesuítas.


A humanidade e a coragem dos Judas

Os dois jesuítas acabam por ser capturados depois de serem traídos por Kichijiro, um cristão que é facilmente associado ao apóstolo Judas Iscariotes. Em mais de uma ocasião, ao longo do filme, ele renega a fé e pede perdão pelas traições e recaídas. E o padre Rodrigues nunca lhe nega a absolvição na confissão, inclusive quando ele próprio apostatou e se sente indigno de exercer o sacerdócio. Desta maneira, Silêncio reconhece a natureza humana debilitada pelo pecado e frágil. Quem trai pode continuar a trair. A coragem é um dom que não se pode dar por garantido, mas que se agradece.

Scorsese não demoniza os Japoneses, pois dá-lhes a possibilidade de exporem as suas razões pela repressão do Cristianismo. O velho governador-inquisidor Inoue (desempenhado por Issei Ogata) é intencionalmente inteligente e astuto. Também não reduz a história a um choque de religiões, frisando que o conflito é igualmente cultural, de mentalidades e político.

Acerca do Cristianismo, ficam expostas duas ideias. Para muitos dos camponeses e pescadores convertidos, resume-se à promessa de um Paraíso que compensará uma vida terrena de miséria e dor. Por outro lado, não estariam os missionários apóstatas a negar a imagem do Deus ocidental que levaram, o Deus-Juiz, quando a população vivia na miséria e do que necessitava era de um Deus que os amparasse? «No início, o padre Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso. Depois, na prisão em Nagasáqui, esse Cristo começou a ser sofredor, de olhos tristes. Finalmente, quando pisa a imagem, vê um Cristo desfeito, de sofrimento», explicou o padre Adelino Ascenso, missionário no Japão durante mais de uma década, à Rádio Renascença.

Os católicos que sobreviveram à perseguição – milhares abjuraram a fé publicamente para sobreviver, mas continuaram a praticar em segredo – tiveram de ocultar-se durante 250 anos, até à chegada de missionários europeus no século XIX.’


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Fonte :

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um sorriso e um adeus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Lev Chaim,  
jornalista e colunista


Precisamos derrubar os muros e melhorar a comunicação com nossos semelhantes.


‘Entrei na bela igreja Catharijne (Holanda), perto de casa, esbaforido. Estava atrasado dez minutos e minha amiga, Bárbara Hilwig, já devia estar lá dentro. A igreja estava cheia, mas não lotada. Ao entrar, vi todas aquelas cabeças sentadas, de costas para mim. Pela nave principal, caminhei devagarinho, procurando Bárbara. No meio do caminho, bati o olho no primeiro banco, à direita e lá estava ela. Ao seu lado havia um lugar livre. Apressei o passo e lá sentei-me. ‘Fui a sua casa e não encontrei ninguém’, sussurrou Bárbara. ‘Estava dando uma volta com o Pitú (meu cão) e esqueci-me do horário! Desculpe-me!’.

Ia sempre àquela igreja protestante porque o pastor dali, Frans Willem Verbaas, fala de uma maneira estupenda e sempre tem os braços abertos para receber quem quer que seja, independentemente de sua fé ou religião. Com o tema, ‘Semana de Orações’, houve ali uma liturgia pela unidade das igrejas cristãs. O pastor convidou o padre Albert Soeterboek, da cidade de Drune, pertíssima de Heusden, e representantes da Igreja luterana, como Frederik Hilwig, marido da Bárbara, entre outros. A cerimônia teve como título ‘Sua mão, meu sorriso’.

Durante a celebração, falaram o pastor, o padre e o representante da Igreja Luterana. E durante as falas, crianças foram colocando atrás deles caixas de papelão. Na frente de cada caixa, estava um tema que pudesse provocar a desunião das igrejas e das pessoas, afastando-as uma das outras : egoísmo, ignorância, falta de tempo, maus exemplos, etc. Até que em um determinado momento, ficou claro a todos que ali estava um muro, construído de caixas. Neste momento, o pastor Frans Willem Verbaas subiu ao púlpito e falou aos presentes. 

Ele disse que estava na moda construir muros para separar pessoas. Aqui e ali, em muitos lugares. E disse que as pessoas, sem perceber, também construíam muros ao redor de seus próprios corações, isolando-se do resto da humanidade. Ai, ele acrescentou : ‘Alguns muros são necessários para demarcar certas propriedades, mas sem o objetivo de isolar os outros. Mas o que eu peço a vocês agora, é para que derrubem os muros que os isolam do coração dos outros’.

Ele contou também que quando era mais jovem, por volta do ano de 1985, ele esteve visitando uma pequena comunidade de bravos luteranos numa cidade da Alemanha Oriental, Alemanha Comunista. O muro de Berlim e a cortina de ferro ainda não tinham sido derrubados. E nesta comunidade de ‘fortes’, ele encontrou um pastor luterano jovem e muito ativo na igreja. Verbaas, curioso, perguntou ao jovem como ele havia entrado para a Comunidade Luterana daquela cidade, num país comunista, onde a religião era tolerada mas não oficialmente aceita.

A resposta do jovem pastor alemão não demorou muito : ‘Estava no exército da Alemanha Oriental e fui colocado para guardar as fronteiras entre as duas Alemanhas. Eu, na minha torre, e o outro, a cem metros de distância, o inimigo, o soldado da Alemanha Ocidental, em sua própria torre. Um dia, olhando com um binóculo, vi que ele também estava munido de um e me olhava. Desci o binóculo e mirei seu corpo e subi logo em seguida. Ele fez o mesmo. Em um determinado momento, ele acenou e eu acenei de volta. Desde então, percebi a loucura deste muro. Todos nós éramos iguais. Por que tudo aquilo? Deixei o exército e fui me juntar a essas pessoas corajosas da Comunidade Luterana, onde estou até hoje!

Antes de terminar esta pequena história que me deixou todinho arrepiado, Frans Willem Verbaas, acrescentou : ‘O último líder da Alemanha Comunista, Erich Honecker, disse que o seu país esta preparado para tudo : um ataque da OTAN, misseis dos Estados Unidos etc. Mas não estava preparado para enfrentar um grupo de pessoas religiosas’.  Logo em seguido, ele disse que a cerimonia de hoje era para ajudar as pessoas a abrirem os olhos, começar a derrubar os muros ao seu redor e melhorar a comunicação com os seus semelhantes. Enquanto ele falava tudo isto, as crianças, que haviam construído um muro de caixas, o iam desfazendo aos poucos e formando uma cruz no chão. Segundo o pastor da igreja, a cruz representava o sacrifício que Jesus fez por todos nós ao morrer ali. Mesmo não adepto de muitos ditos teológicos, fiquei arrepiado com a simplicidade da mensagem oral e simbólica.

Ai, Verbaas desceu do púlpito e junto com o padre caminharam até a pessoas com as mãos estendida e disseram : A paz de Cristo. Pela primeira vez naquela igreja protestante, as pessoas se deram a mão, saudando umas as outras com a paz de Cristo. Enquanto isto ocorria, o organista tocava a magistral abertura de Johan Sebastiaan Bach, ‘A paixão segundo Matheus’. Neste momento, percebi a grandeza do pastor protestante, de realizar esta cerimônia, ‘minha mão, seu sorriso’, nesta grande e heráldica igreja protestante de Heusden, fé professada pela maioria da população da cidade. 

Ao sair, dei a mão de novo para o pastor e amigo Frans Willem Verbaas e lhe perguntei se poderia escrever sobre a cerimônia. Ele me deu carta branca. Depois, fui ao padre e o agradeci por este belíssimo serviço, no que ele, muito simpático, agradeceu a minha presença. E aos poucos, a igreja foi ficando vazia. Naquele instante, o muro em volta do meu coração havia caído.’


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