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terça-feira, 17 de junho de 2025

A economia monástica como motor de mudança [1]

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Abadia de Keur Moussa


*Artigo de Isabelle Jonveaux

 

‘Qualquer que seja o modelo economico desenvolvido pelas comunidades, observa-se ao longo da história monástica que os mosteiros foram sempre forças de mudança social . Philibert Schmitz, historiador da Ordem beneditina, fala da «obra civilizadora» [2] dos monges da Europa. Em que medida o monaquismo atual pode desempenhar um papel de inovação e de desenvolvimento? 

1. Porque são os mosteiros lugares de inovação?

Se os mosteiros estiveram sempre no meio da história dos focos de inovação e de desenvolvimento quando isto não constituía de nenhum modo o seu primeiro objetivo, isto significa que a estrutura monástica apresenta características próprias que podem conduzir a esta dinâmica. Segundo Olivier de Sardan [3], a inovação pode definir-se como um «enxerto de técnicas, de saberes ou de modos de organização inéditos (em geral sob forma de adaptações locais a partir de concessões ou de importações) sobre técnicas, saberes e modos de organização in loco [4]. Ele sublinha também que a inovação deve ser considerada como um processo social.

Para começar, uma comunidade monástica não é um grupo econômico que tem o lucro como objetivo a obter. A economia permanece teoricamente ao serviço da subsistência da comunidade. Isto tem por consequência a possibilidade de se incorrer em risco porque o objetivo imediato da comunidade não está no resultado de excedentes de exploração ao fim do ano. A comunidade monástica é por outro lado durável; este grupo tem uma duração de vida mais elevado do que uma empresa e pode assim assumir risco ou investir em capital humano. A comunidade monástica projeta-se em um longo termo ligado à ideia de estabilidade (stabilitas loci). Além disso, este grupo está na maioria das vezes em paz social; define-se a si próprio como um grupo de pessoas que procuram Deus. A dimensão durável da comunidade torna assim possível a transmissão de experiências e de conhecimentos. Vale lembrar por exemplo os trabalhos de copistas dos monges que permitiram conservar e de transmitir durante toda a Idade Média os seus conhecimentos em medicina, agricultura, botânica, etc. Enfim, a longa história do monaquismo permite melhorar diferentes dimensões e tomar como exemplo a experiência vivida por outras comunidades ou de outras épocas :

«A notável estabilidade do monaquismo é em grande medida uma estabilidade da memória, uma continuidade da compreensão que se estende por trinta gerações ». [5]

Mesmo que a comunidade seja recente, cada mosteiro integra-se na longa tradição do monaquismo, o que constitui um modo da sua legitimação. [6] 

2. Economia e desenvolvimento na África

Nos países em vias de desenvolvimento onde o monaquismo é frequentemente uma implantação recente, as comunidades realizam um papel importante para o desenvolvimento econômico e social. Jean-Pierre Olivier de Sardan definiu o desenvolvimento como um «conjunto de processos sociais induzidos por operações voluntaristas de transformação de um meio social, empreendidas pela direção de instituições ou de atores externos a esse meio, mas procurando mobilizar esse meio» [7]. No caso do monaquismo, o desenvolvimento assume no entanto diferentes dimensões. Como já foi mencionado, inovação e desenvolvimento não são em si objetivos da vida monástica, mas podem tornar-se elementos positivos. Isto significa que o desenvolvimento é uma consequência de atividades motivadas por um objetivo monástico, ou seja, que servem o fim religioso da vida monástica. Por exemplo, os monges da Idade Média desenvolveram a força hidráulica para ganhar tempo para a oração [8].

O desenvolvimento ocasionado pelos mosteiros na África contemporânea é mais frequentemente um acessório positivo que decorre das atividades ou inovações do mosteiro. Como diz o Abade de Keur Moussa : «Nós não procuramos o desenvolvimento, ele vem por acréscimo». As comunidades de inspiração beneditina têm na sua tradição desenvolver dentro e à volta do mosteiro as condições que lhes permitam prover às necessidades da comunidade. Isto significa no contexto de uma nova fundação que os monges e monjas trabalharão por tornar as suas terras aráveis, assegurar a presença de água e conduzir ou produzir eletricidade. A abadia de Keur Moussa no Senegal adotou como divisa esta frase : «E o deserto florirá» (Isaías 35, 1), tendo com efeito tornado possível a agricultura das suas terras até então áridas e introduz novas espécies no ambiente. O emprego de assalariados locais contribui também para o desenvolvimento dando trabalho às pessoas dos arredores. Para um monge queniano do mosteiro Our Lady of Mount Kenya, trata-se da dimensão principal da sua atividade de desenvolvimento. Enfim, a formação de monges e monjas é também uma parte direta do desenvolvimento. De maneira indireta, o mosteiro participa no desenvolvimento da sua região enquanto atrai populações que vêm se instalar nas imediações para se beneficiar de um trabalho, de um dispensário ou de uma escola.

Uma outra dimensão do desenvolvimento monástico vem com efeito da resposta dos monges e monjas às exigências locais. Dado que as primeiras comunidades religiosas presentes na África eram congregações missionárias que tinham por fim desenvolver escolas, dispensários e hospitais, este mesmo tipo de demanda foi dirigido aos monges logo que se instalaram num ambiente novo. É por esta razão que os monges de Keur Moussa vindos de Solesmes trazendo com eles um modelo estritamente contemplativo e enclausurado de vida monástica, tiveram de abrir uma escola e um pequeno dispensário. Todavia, logo que lhes foi possível, confiaram a escola a leigos e o dispensário a uma Congregação apostólica de irmãs. Conforme disse um monge numa entrevista : «As mulheres que chegavam prestes a dar à luz eram assistidas pelos monges, quando essa não é de todo a missão de um monge!» As comunidades monásticas sustentam também por vezes programas sociais, por exemplo o mosteiro Our Lady of Mount Kenya participa num projeto de agricultura sobre o solo para ajudar as famílias pobres a tornarem-se autosuficientes. 

3. A economia monástica como economia alternativa

A economia monástica pode também constituir uma força de mudança no próprio interior da economia trazendo modos alternativos de vivê-la. Em contexto europeu por exemplo, os mosteiros procuram oferecer uma alternativa à abordagem capitalista e desenvolvem em certos casos reais reflexões e propõem cursos sobre este tema [9]. A irmã francesa Nicole Reille fala assim da economia das Congregações como de uma «economia profética», graças ao testemunho que ela pode prestar ao mundo através de investimentos éticos nas pessoas.

A dimensão alternativa da economia dos mosteiros africanos é observável também em ligação com o contexto específico, porque a alteridade não se constrói a não ser em relação com as normas da sociedade. Uma primeira dimensão concerne a maneira cujo trabalho é vivido e justificado na vida monástica. Dado que o trabalho poderia à primeira vista entrar em contradição com o ideal monástico, os monges e monjas utilizam diferentes formas de justificação nos relacionamentos. Por exemplo, uma jovem irmã de Karen :

«Eu pratico o trabalho com amor, não simplesmente para cumpri-lo. Faço-o com muito amor. Ao ponto de as irmãs sentirem elas próprias que o seu hábito é lavado com amor. Se fizerdes a limpeza de um espaço com amor alguém vai repará-lo e dizer : ‘Sim, isto foi feito com amor’. Importa pouco para isso saber o que aprendestes na escola, mas o que trazeis assim para a comunidade.»

Um exemplo interessante vem de Séguéya na Guiné Conackry na situação particular deste Estado comunista onde os monges contribuem dando um novo valor ao trabalho : os monges trabalham com as suas mãos, eles tentam tudo fazer para obter uma atividade lucrativa.

«A Guiné tem como particularidade não ter uma verdadeira cultura do trabalho, por causa do sistema político. As pessoas perderam a cultura do trabalho. E o fato de ver os irmãos trabalhar e lavrar a terra deu às pessoas o desejo de fazer a mesma coisa. Penso que é uma mensagem que passa.» (04/07/2016)

Uma segunda dimensão é o management humano e social desenvolvido pelas comunidades para com os seus assalariados. A dimensão social do recrutamento é um critério que prevalece por vezes sobre o desempenho econômico. Em Keur Moussa, o celeireiro explica :

«Primeiro a dimensão social. Desde o começo, teve-se esta exigência social de querer ajudar aqueles que não têm trabalho à nossa volta e que vêm pedir trabalho. Gostaríamos de fazer mais, mas os nossos meios são limitados. Ajudamos muita gente à nossa volta.» (04/07/2016)

Por outro lado, certas comunidades africanas pagam as contribuições sociais dos seus assalariados, o que não observamos sempre nas nossas sociedades.

Enfim, o desenvolvimento durável e a ecologia são assuntos que se implantam cada vez mais na agricultura biológica. No Kenya, os monges desenvolvem a energia solar e a reciclagem da água para contornar esta dificuldade esperando ligar-se à rede central. O mosteiro de Agbang (Togo), que vive também da energia solar, constitui uma fonte de eletricidade para os Peuls da selva que vêm recarregar os seus aparelhos celulares no mosteiro.

Conclusão

O que é a economia monástica? Neste ponto, podemos dizer que não existe uma economia monástica em si, mas diferentes formas de economia dos mosteiros que dependem da história política e religiosa de cada país e do presente contexto econômico e social. Todavia, observam-se certas tendências comuns no sentido que as comunidades desejam imprimir à sua atividade econômica. A forma da economia toca um papel importante para a plausibilidade da vida monástica numa sociedade porque ela constitui frequentemente um dos primeiros vetores de comunicação com o mundo. Ela influencia por outro lado a forma de vida monástica e inversamente.

A economia dos mosteiros africanos é uma economia que ainda procura frequentemente a estabilidade e reflete as especificidades do contexto socioeconômico bem como as influências do modelo do fundador. Mas é também frequente que pelas suas atividades econômicas os mosteiros possam desempenhar um papel no desenvolvimento do seu meio ambiente. Sem que seja um objetivo da vida monástica em si, observa-se, segundo as palavras de Max Weber, uma «afinidade eletiva» entre economia monástica e desenvolvimento econômico, social e cultural do ambiente no qual o mosteiro está integrado. A vida monástica pode pois ter uma influência sobre o seu ambiente local e mesmo, quando a base monástica é suficientemente densa, influenciar a própria sociedade como se pôde ver na história europeia.’ 

 

[1] Isabelle Jonveaux é socióloga, responsável por cursos na Universidade de Graz e membro do CéSor (Paris). Trabalha principalmente sobre as questões da vida monástica (economia, trabalho, ecologia, relações de gênero, disciplina do corpo, ascese), internet e religião (práticas religiosas online, jejum de internet), mas também de jejum e consumo alternativo (períodos de jejum e abstinência, sobriedade positiva...). Desenvolve atualmente um projeto de investigação sobre a vida monástica católica na África. O artigo proposto aqui é uma parte da sua intervenção no colóquio do Instituto monástico de Santo Anselmo em Roma sobre «Vida monástica e economia» (cf. Studia Anselmiana Monasticism and Economy: Rediscovering an Approach to Work and Poverty, Acts of the Fourth International Symposium, Roma, 7-10 de junho de 2016.

[2] P. Schmitz, História da ordem de São Bento, tomo II. Obra civilizadora até ao século XII, Maredsous, 1943, p. 18.

[3] Jean-Pierre Olivier de Sardan é um antropólogo francês nigeriano, atualmente professor de antropologia (diretor de estudos) na Escola de altos estudos em ciências sociais de Marselha.

[4] J.-P. Olivier de Sardan, «Antropologia e desenvolvimento. Ensaio de socio-antropologia sobre a mudança social», Marselha-Paris, 1995, http://classiques.uqac.ca/contemporains/olivier_ de_sardan_jean_pierre/anthropologie_et_developpement/anthropo_et_developpement.pdf [acesso:11-11-18].

[5] R.H. Winthrop, «Leadership and Tradition in the Regulation of Catholic Monasticism», Anthropological Quarterly 58 (1985) 30.

[6] B. Delpal, «O Silêncio dos monges. Os Trapistas no século XIX», Paris, 1998, p. 15.

[7] Olivier de Sardan, «Antropologia e desenvolvimento».

[8] M. Derwich, «A vida quotidiana dos monges e cônegos regulares na Idade Média e Tempos Modernos», Wroclaw, 1995.

[9] I. Jonveaux, O Mosteiro no trabalho, Paris, 2011.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/119

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

De que modo mudas o mundo?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Miguel Oliveira Panão,

professor

 

O que assistimos hoje com a guerra na Ucrânia fez-me pensar na série da Amazon Prime, “Os Anéis do Poder” que conta a história de fantasia vinda da mente de J.R.R. Tolkien sobre a criação dos anéis do poder e a ascensão do Senhor das Trevas Sauron ao poder. A mestria da visão de Tolkien é a de nos ajudar a perceber que não existem bons e maus no sentido binário do termo. Também Sauron, o Senhor das Trevas, deseja curar a Terra Média e trazer-lhe a paz. A diferença está no modo como o faz.

À nossa volta somos diariamente confrontados com coisas que não nos parecem bem. E quando discutimos sobre algo com alguém, a intenção de base é a de chegar à paz e curar a terra dos corações. Porém, uns pensam que só com poder e força podemos fazê-lo, caso contrário, os outros não aceitarão ou compreenderão a paz do modo como a entendemos. Outros, porém, pensam que a paz que cura faz-se na aventura que partilhamos juntos, sem saber muitas vezes por onde caminhar e como, seguindo apenas um aroma.

A pandemia e, agora, a guerra na Ucrânia, mostraram como a Humanidade está permanentemente numa aventura e que a paz assemelha-se, mais do que desejaríamos, a pausas entre conflitos. Se entre nós sentimos dificuldade em dialogar sobre as coisas difíceis, as consequências dessa mesma dificuldade ao nível político global torna as coisas difíceis ainda maiores. Mas, se soubéssemos os meandros de todas as histórias que conduziram à paz, a intuição diz-me que foram inúmeros os pequenos passos dados por pessoas simples que fizeram escolhas determinantes pelo efeito em cadeia que geraram.

Uma das mais recentes e mediáticas é a história de Greta Thunberg que, com 15 anos apenas, decidiu sentar-se em frente ao parlamento sueco em 2018 com um cartaz a dizer “Greve à escola pelo clima”, gerando uma onda de crescente sensibilidade ambiental entre jovens e adultos, sem prever que o seu pequeno gesto pudesse ter tamanho impacto.

Existem outros exemplos, mas se cada um sondar a sua história, certamente encontrará aquela pequena palavra que lhe disseram, ou disse; aquele gesto que lhe fizeram, ou fez; aquela presença que lhe proporcionaram, ou proporcionou; e que se tornou um ponto de viragem na sua história ou na história de alguém. Recordo-me de em 2019, após um período de incerteza relativa à ansiedade que sentia no corpo, e de inúmeros exames médicos que nada acusavam, ter recebido uma palavra da minha esposa que se tornou um ponto de viragem para mim.

A dimensão digital da nossa comunicação entra na nossa vida porque a consideramos útil. Porém, o isolamento digital que resulta dessa comunicação abre em nós a possibilidade de compreendermos melhor o valor que a dimensão física e relacional da vida tem ao comunicarmos entre nós. A guerra que vemos nos notíciários é uma expressão das guerras interiores que vivemos todos os dias, dentro de nós e que ninguém vê. Ciclos viciosos dos quais é muito difícil sair. No silêncio gritamos por ajuda, mas as pessoas à nossa volta estão tão entretidas a olhar para o seu ecrã e a partilhar fotos que nos tornamos invisíveis para elas. A inversão da espiral recessiva do mundo digitalizado talvez comece por sermos melhores a prestar atenção ao modo como agimos, pensamos, falamos e sentimos, sem esquecer que todo aquele que está ao nosso lado faz, pensa, fala e sente se lhe dermos espaço para isso.

Parece uma utopia querer resolver os problemas do mundo a partir do quotidiano de cada um de nós. Até podem dar-nos esperança de que por via da teoria do caos, um gesto de amor que fazemos será o suficiente para gerar um efeito em cadeia que muda o mundo sem termos essa pretensão. Mas nunca saberemos. E, talvez, signifique ser necessário aceitar que nunca saberemos o resultado dos nossos pequenos gestos. Porém, não saber não nos impede de não fazer.

O modo como trilhamos os nossos caminhos enche-se de incerteza, ainda que estejamos atentos aos sinais. O modo como escutamos pode abrir-nos a uma compreensão nova da realidade. O modo como falamos pode imprimir uma dinâmica nova à realidade que nos rodeia. O modo como agimos pode iniciar um efeito em cadeia cujo desfecho imprevisível pode nunca ser-nos comunicado, mas não importa. Pois, o modo como fazemos cada coisa é o modo como fazemos qualquer coisa. E se tudo o que fizermos for por amor, como diz São João da Cruz, «onde não existe amor, coloca amor e amor encontrarás».’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/829/de-que-modo-mudas-o-mundo/

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Pequenas mudanças, grandes diferenças

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante


‘Com a entrada de um novo ano também aparecem as resoluções para ele. É muito comum pessoas fazerem listas daquilo que pretendem realizar no ano que se inicia e, geralmente, empolgadas, planejam grandes mudanças em seu cotidiano. Emagrecer, focar mais em atividade física, começar um novo curso, aprender uma nova língua, etc., quase sempre aparecem nessas aspirações.

Nada de errado nisso. Afinal, é excelente que haja planos e planejamentos para a vida. Eles são necessários para que não se caia em certo conformismo, ou pior ainda, numa ausência de sentido, o que pode levar à depressão e a outras doenças. Do outro lado da moeda, a ideia de fazer inúmeros planos, muitas vezes inatingíveis, na ânsia de dar conta de uma sociedade que cada vez mais exige que todo seu tempo seja ‘investido’ em algo, também pode levar a uma frustração de nunca se alcançar aquilo que se planeja. Por isso é comum ouvir especialistas dizendo que o importante é ter metas tangíveis, de modo que o esforço a ser utilizado para alcançá-las não seja algo que trará prejuízo psicológico ou físico.

Algo importante de se perceber é que nessas novas resoluções geralmente está presente o fator da mudança. Esse planejamento de mudança, por sua vez, leva as pessoas a pensarem que toda modificação deve ser algo grandioso, que faça uma transformação em 180 graus na vida e que, a partir do novo ano que se inicia, uma nova pessoa totalmente diferente da que foi no ano passado nascerá. Geralmente, não percebem que, muitas vezes, as grandes mudanças desejadas começam com pequenos passos dados em direção àquilo que se almeja.

Basta imaginarmos um avião que decola com um grau de diferença daquilo que estava planejado. Num primeiro momento, parece que esse um grau não afetará muito a rota do piloto. Contudo, basta alongar um pouco mais essa linha para se perceber que tal voo chegará muito distante daquilo que se tinha em mente. Isso ser de exemplo para mostrar que grandes alterações na vida não precisam necessariamente de mudanças bruscas, mas de pequenas mudanças capazes de alterar o caminho para onde se tem ido.

Se por um lado tal constatação pode causar certo alívio, também é um convite para que se esteja atento às mudanças que são feitas ao longo da vida. Pequenas alterações podem nos levar para muito longe ou para muito perto de onde queremos chegar. Com isso, analisar e estudar a rota que se pretende tomar se torna uma tarefa importante para toda mudança que se pretende fazer, principalmente no início de uma nova jornada anual.

Claramente, é sabido que a vida não é uma linha reta e nem sempre aquilo que se estuda e planeja se concretiza, mesmo tomando todos os passos que se julgam necessários. Contudo, não fazer tal estudo e planejamento pode fazer com que o percurso torne-se mais longo, com maior gasto de energia e, não dificilmente, com uma chegada em um lugar onde não se gostaria de ir. Diante disso, não temer as mudanças, vê-las como possíveis, planejá-las e ter a consciência de que a menor delas pode trazer grandes benefícios devem ser sinal de esperança para o novo ano que se inicia.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1491775/2021/01/pequenas-mudancas-grandes-diferencas/

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Arquitetar mudanças

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Candle in the Wind | Singing the Song in My Heart
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


‘A velocidade acelerada das mudanças no mundo contemporâneo é reconhecida de modo consensual e, por vezes, há um sentimento de certa incapacidade para acompanhar as transformações, que se configuram em desafio, até mesmo para as sinapses cerebrais, com suas conexões em número maior do que o de estrelas em uma galáxia.  Essa impressionante velocidade das mudanças vem da inteligência humana. Um fenômeno que, ao ser contemplado, permite constatar admiráveis avanços da tecnologia e da ciência, nos muitos saberes, com quantidade de conquistas, nas últimas décadas, que séculos inteiros foram incapazes de alcançar. Mas, surpreende e se configura em intrincado nó à inteligência contemporânea o nível destruidor do obscurantismo reinante na atualidade pelo mundo afora. Oportuno é evocar um remédio com força terapêutica para vencer esse mal : a humildade advinda da atitude de reconhecer o limite do próprio saber.

A admissão da ignorância torna-se um princípio ético e epistemológico de grande valia para combater os riscos da pretensão humana de se saber tudo. Particularmente, cura obscurantismos comprometedores de valores inegociáveis, a exemplo dos que sustentam a democracia e os princípios ético-religiosos promotores da solidariedade, do respeito ao bem comum e à dignidade humana. Deve-se, pois, reconhecer : junto à avalanche de conquistas científicas, tecnológicas, há certa soberba, que alimenta cegueiras e torna-se poder para gerar destruição, posturas fundamentalistas, nada dialogais, e rigidez incompatível com as mudanças necessárias à humanidade. Admitir a ignorância como condição humana é remédio para essa soberba, pois guarda no seu reverso uma indispensável sabedoria : o reconhecimento de que o próprio saber é limitado e insuficiente. Esse exercício de humildade permitirá aos cidadãos perceberem-se como aprendizes e tornarem-se inventores, descobridores ou promotores de inovações na construção de uma sociedade melhor.

A condição de aprendiz não deixa a soberba cegar e enrijecer as pessoas, inviabilizando processos participativos indispensáveis. Sem essa condição, surgem os que se iludem pensando tudo poder, mas são incapazes de promover as transformações que mudariam a realidade para melhor. Revelam a própria fragilidade em discursos confusos, personalistas, pouco humanistas, misturando a defesa de valores importantes com o extremismo – cai, pois, em contradição. Dessa falta de humildade daqueles que se julgam sabedores de tudo – e tudo poder – nascem pandemias que prejudicam a qualidade dos tecidos cultural, religioso e político-econômico de uma sociedade. As pandemias, ao invés de um castigo divino – pois Deus é amor -, são fruto da soberba, das ganâncias inescrupulosas, dos privilégios excludentes. Resultam também das indiferenças em relação aos pobres e vulneráveis, da cegueira diante da Criação, passando por cima do meio ambiente com criminosas depredações.

Fala-se muito na covid-19, pois é a pandemia que igualmente torna-se ameaça para todos, mas tantas outras são ignoradas. A pandemia da fome não incomoda diariamente os que têm mesa farta. A que se relaciona ao feminicídio permanece sem a devida atenção. Igualmente, a pandemia dos extermínios de indígenas e moradores de rua é tratada com descaso por significativa parcela da sociedade que, perversamente, considera melhor liberar os espaços ocupados por essas pessoas para atender outros interesses. O mundo parou por causa de um novo vírus, mas a necessidade de mudanças não é de agora. Tornou-se mais evidente o dever-desafio de se arquitetar mudanças no jeito de conviver, trabalhar, locomover-se, cuidar e compartilhar, incidindo sobre hábitos, dinâmicas e práticas, para vencer o autoextermínio. Trata-se de exigência à inteligência humana, à moralidade, à racionalidade e ao bom senso.

O obscurantismo irá patrocinar aqueles que vão se entrincheirar na ilusão de que tudo pode ser como antes. Continuarão convictos de que a pandemia da covid-19 foi apenas uma nuvem avassaladora que passou. E a ganância permanecerá a tutelar as práticas de quem compreende a economia como forma de ganhar muito dinheiro, ter sempre mais. No fim, serão apenas capazes de custear suas urnas funerárias caras, certamente de valor bem menor do que acumularam em uma vida marcada por ilimitada ambição. Quem se apegar ao obscurantismo permanecerá irresponsável em relação ao meio ambiente, desconhecendo que tudo está interligado. Continuará a validar o extrativismo e a depredação da natureza, produzindo contrarreações do próprio planeta, a exemplo desta pandemia que bate igualmente à porta de todos.

Uma convicção precisa residir nas mentes e nos corações : inicia-se novo ciclo que exige hábitos e práticas diferentes. Todos são desafiados a arquitetar mudanças. Lamentavelmente, muitos resistirão, de modo hercúleo, por querer garantir seguranças e comodidades, mas que, na verdade, são apenas bolhas. As resistências revelam ausência de um humanismo solidário, contudo os sinais indicam que o mundo precisa se reinventar. A sociedade tem o dever e a tarefa humanística, cultural, organizacional, espiritual e política de arquitetar mudanças.



Fonte :
*Artigo na íntegra

domingo, 31 de março de 2019

Sem medo de mudar


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

MS changes
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG



Esse medo sustenta idolatrias hegemônicas com tons de perversidade, induz a percepções equivocadas da realidade. Faz perceber o outro, o diferente, como inimigo, estimulando uma dinâmica beligerante, marcada por ataques sem piedade. Agressões que se manifestam, frequentemente, na propagação de mentiras, interpretadas como verdades, nos diversos contextos onde prevalece a incapacidade para o qualificado discernimento. Ambiente propício a quem se vale da calúnia para esconder as próprias limitações, desqualificando outras pessoas. Em vez de mudar e crescer, muitos se valem da mentira e dos ataques para diminuir quem é diferente.

Constata-se, pois, que o medo da mudança é o fantasma da imaginação de quem, mesmo inconscientemente, sabe da própria incompetência para alcançar conquistas e reconhecimento. Um sentimento que aprisiona indivíduos - consequentemente, instituições e segmentos sociais - nos parâmetros da mediocridade. A solução e o grande desafio é superar esse medo. E somente a abertura para se reconfigurar é que permitirá às pessoas evoluírem, alcançarem novas intuições e desenvolverem promissores projetos.

Abrir-se para novas possibilidades não significa ‘mudar por mudar’. O que deve ser buscado é a lucidez que permite não desprezar novas respostas para os muitos problemas ainda sem adequada solução. Isso exige vencer o comodismo e a ignorância, superar os medos que ferem a capacidade para o adequado discernimento. Esse temor diante da possibilidade de mudança aprisiona, inviabiliza a adequada vivência da cidadania e da espiritualidade. Impede o descortinar de um tempo novo, o que resulta na falta de compromisso com a vida comunitária.

Assim, perdem-se tempo e oportunidades, pois continuam os investimentos em processos obsoletos, produtores de prejuízos e atrasos. E mesmo diante das evoluções nos diferentes campos do saber, na área da educação, saúde e comunicação, não faltam exemplos de situações de penúria, que já deveriam ter sido superadas. Um exemplo é o aumento assustador de epidemias com o retorno de doenças já consideradas erradicadas, resultado do descaso, da exploração irresponsável do meio ambiente, do caos que se instala na sociedade a partir dos esquemas de enriquecimento ilícitos. Esses males fazem crescer a insegurança no coração das pessoas, mesmo entre aquelas que vivem a falsa tranquilidade por terem acumulado muitos bens.

Tudo isso, aliado à crescente violência, à falta de respeito ao semelhante e ao meio ambiente, no fim, contribui para o desvanecimento da alegria de viver. E o progresso científico experimentado na atualidade não é suficiente para colocar o mundo nos trilhos da paz e emoldurar as sociedades nos parâmetros do desenvolvimento integral. Consequentemente, a economia da exclusão, a idolatria do dinheiro e a desigualdade social prevalecem, impedindo que o mundo se torne mais justo, solidário e fraterno.

Há, pois, a urgência de se superar o medo das mudanças. E o tempo da Quaresma é oportunidade para, corajosamente, se enfrentar qualquer receio de viver uma transformação pessoal. Quando se fala sobre a necessidade de reformas estruturais e conjunturais na sociedade há de se admitir que o ponto de partida é reconfigurar o mais recôndito da alma e da consciência de cada indivíduo. E uma fecunda experiência espiritual oferece a cada pessoa a oportunidade para se renovar.

Da maestria do coração de Jesus nasce o convite central para operar mudanças na interioridade humana, que reúne muitas aptidões, dons do Criador, mas se torna fragilizada pelo pecado. O remédio para não ter medo de mudar é acolher, sem justificativas e delongas, o convite para uma autêntica conversão. Decisão que exige humildade para reconhecer e superar os próprios limites e as escolhas equivocadas. Um passo necessário para experimentar a alegria de ser bom e de fazer sempre o bem, justamente por não ter medo de mudar.’


Fonte :

domingo, 25 de novembro de 2018

Ventos de mudança para o catolicismo?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja


‘O último sínodo para os bispos, que foi dedicado aos jovens, sinalizou o quanto a Igreja Católica na era Francisco assume uma postura diferente diante do homem moderno. Dizer que o atual pontificado não traz nenhuma novidade demonstra um total desconhecimento em relação ao magistério contemporâneo. Desde João XXIII, nenhum outro pontífice havia abalado as estruturas da cúria romana - no bom sentido do termo - da maneira que o atual tem feito. E aqui não se trata somente de uma mudança do ponto de vista organizacional, mas no tocante à natureza desse organismo que, há quase um milênio, assume a tarefa de auxiliar o papa no governo da Igreja.

Até o século XI, não existia propriamente uma cúria, mas uma rede de colaboradores do romano pontífice dotado de plenitudo potestatis, ou seja, que reunia na mesma pessoa as funções de legislar, julgar e governar. Desse período em diante, a cúria passou a ser um órgão de centralização administrativa e jurídica, dividida em departamentos, tribunais e comissões. A mudança que Francisco promove nessa estrutura, não é só para ampliar sua representatividade internacional - algo iniciado por Paulo VI - mas de transformá-la em um instrumento de unificação e de serviço para o restante da Igreja Católica, deixando de lado um pouco do espírito autorreferencial que a caracterizou durante séculos. E é por isso que, em 2019, como divulgamos na semana passada, se espera a oficialização de uma transformação que, sorrateiramente, já se nota : Paolo Ruffini, atual secretário para a comunicação vaticana, é o primeiro leigo da história a ocupar o cargo de presidente de um conselho pontifício. Além disso, é de se esperar que o próximo ‘prefeito’ para a Congregação para os leigos, vida e família seja um leigo ou uma leiga, o que não é factível até o momento, porque, pela regra promulgada por João Paulo II, apenas um cardeal pode presidir uma congregação. A nova constituição sobre a cúria romana poderá flexibilizar esse item, permitindo, dessa forma, que não somente os prelados exerçam a autoridade suprema nesses dicastérios.

João Paulo II e Bento XVI, apesar das boas intenções, foram papas que acabaram sendo absorvidos pela estrutura. E é por isso que se intuía, às vésperas do conclave de 2013, que um papa ‘não curial’ poderia fazer a diferença e seria necessário para os tempos de hoje. Em um passado não muito distante, mais precisamente na década de 60, foram as resistências impostas pela cúria que impediram Paulo VI de levar adiante o espírito revolucionário de João XXIII, o papa bom; o mesmo que, corajosamente, em meio ao advento do feminismo, disse que as mulheres ‘estão no mesmo nível dos homens’, destacando a complementaridade entre homem e mulher.

Pela primeira vez na história, um evento eclesial organizado pelo Vaticano reitera que as mulheres devem, sim, participar ativamente das decisões da Igreja : e em todas as instâncias (uma novidade em absoluto!). Apesar de o assunto já ter sido tratado em outras ocasiões pelo Papa Francisco, é a primeira vez que o episcopado do mundo inteiro, representado pelos padres sinodais, em outubro deste ano, apresentou a questão sem reservas - algo que, até um tempo atrás, era impensável. E em meio a esses ventos de novidade, a comissão instituída por Francisco para debater a possibilidade do diaconato feminino ganha corpo. Uma das vozes católicas mais sensíveis à questão feminina, o cardeal alemão Reinhard Marx, disse que já passou da hora de discutir seriamente o assunto.

 O que esperar do ano que vem? Teremos Sínodo sobre a Amazônia, o lançamento da nova constituição apostólica de reforma da cúria romana e visitas apostólicas internacionais a países jamais visitados que poderão definir os rumos da Igreja daqui para frente. Se até agora todos se surpreenderam com as mudanças, é hora de se preparar para um ano rico em debates, no qual o catolicismo se deparará com seus maiores tabus e demonstrará, a partir disso, que tipo de diálogo pretende manter ou inaugurar com a sociedade contemporânea.’


Fonte :

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Advento de mudanças

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A flexibilidade para viver transformações é uma urgência e o Natal aponta a mudança que o ser humano precisa buscar. 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


 ‘Admitir a urgência de mudanças é um dos maiores desafios existenciais. Reconhecer a necessidade de promover transformações exige percorrer um longo caminho. É superar obstáculos que incluem o apego a garantias e confortos e a resistência ao novo. Diante das dificuldades, a tendência é resistir às mudanças nos processos existenciais, sociopolíticos e culturais, causando uma cadeia de prejuízos à sociedade. O ser humano é constantemente desafiado a compreender que as mudanças e as conquistas de novas etapas são uma exigência da vida.
Nesse horizonte, a celebração do Natal é oportunidade para assumir o desafio de encontrar respostas novas, o que exige flexibilidade. Resiste-se a mudanças porque falta a clarividência para enxergar um percurso diferente, capaz de dar rumo novo à vida, aos muitos processos que constituem responsabilidades pessoais e profissionais. O conforto conquistado, quando emoldurado por mediocridades, cega a competência para perceber a hora de mudar. As consequências são sempre tristes : vidas naufragam e as oportunidades para qualificar a sociedade são perdidas. Tudo porque uma pessoa ou segmento social acredita estar preso a uma situação em que as mudanças não são possíveis. Percebe-se, assim, que o vetor mais preponderante na resistência às mudanças é a mentalidade.
Posturas pouco cidadãs emolduram atitudes mesquinhas. Atitudes que revelam uma visão obscurecida, impedindo o ‘pensar grande’, prejudicam modos de agir que poderiam atender aos anseios da realidade social, política, cultural e religiosa. Crescem os equívocos nas escolhas. Agravam-se o fenômeno das considerações aprisionadas no enrijecimento e a visão distorcida do mundo. A tendência é a repetição de esquemas falidos que provocam colapsos institucionais e existenciais. Com isso, são desperdiçadas riquezas e possibilidades, substituídas pela mediocridade que contamina a convivência cidadã. Compreende-se, assim, a razão de uma nação rica, com potencial para ser uma economia forte, estar ferida por cenários de exclusão social e desigualdades que alimentam a violência.
A flexibilidade para viver transformações é uma urgência e o Natal - acontecimento de proporções incalculáveis – aponta a mudança que o ser humano precisa buscar, de modo engajado, como prática existencial. A encarnação do Verbo de Deus, Jesus Cristo, é a mais perfeita indicação de que a humanidade só avança quando se abre às reformulações necessárias. O Mestre ensina cada pessoa a compreender-se como sujeito de mudanças, capaz de alcançar um estágio de desenvolvimento que somente o ser humano, no conjunto de toda a criação de Deus, pode alcançar. Essa lição é revelada na encarnação do Verbo, assumindo a condição humana, igual em tudo, exceto no pecado. E, se mudar o ser humano, muda o mundo, a vida, a história.
 O Natal é a vinda do Salvador que fecunda transformações em todos, para que, assim, se tornem autores de uma nova história, capazes de qualificar a sociedade, promovendo e respeitando a dignidade humana. Celebrar o Natal, além das festas, gastos, enfeites e barulhos é, sobretudo, a oportunidade para assumir, na própria vida, novos propósitos, priorizando o compromisso de cultivar a solidariedade e a fraternidade – um advento de urgentes e inadiáveis mudanças.’

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Falências e reações

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Dom. Walmor em peregrinação dos moradores de rua ao Santuário Nossa Senhora da Piedade
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


A passagem de 2015 para 2016, com a contagem dos dias do novo ano civil, incide diretamente nos propósitos pessoais e nas possíveis reações que buscam novos funcionamentos, transformações nas relações, nos hábitos e na governança, em diferentes segmentos da sociedade. Considerando o legado desolador deixado pelo ano que passou, é hora de efetivar mudanças. Particularmente neste terceiro milênio, os horizontes da democracia e dos admiráveis avanços científicos e tecnológicos contracenam com os rios de lama da corrupção, dos desvarios no mundo da política, da submissão de poderes a interesses partidários e cartoriais, dos abomináveis desastres ambientais e humanitários. Para transformar esses cenários desoladores, não bastam as mudanças em propósitos e hábitos pessoais. A renovação das consciências é minimamente presumível para que seja superado o descaso com que se costuma tratar a vida e as coisas na sociedade brasileira.

Se não houver mudança de conduta, haverá o comprometimento do bem e da justiça. Os mais pobres e indefesos sempre pagam o preço mais alto. Bem no início desta contagem do ano novo de 2016, em meio ao tratamento dos problemas que continuam gerando suas consequências e preços a pagar, é urgente considerar que a crise das crises - a crise motora de todas essas outras em curso - é a de caráter antropológico. Não diz respeito apenas a funcionamentos comuns e nem mesmo se resolverá com mudanças de nomes ou substituição de legendas partidárias. A crise, quando de caráter antropológico, é algo mais sério e profundo. Exige novos entendimentos e grande investimento na configuração mais consistente do tecido cultural.

Assim, não basta resolver o caos perpetuado na sede dos poderes. Lá estão urgências que precisam de novas e velozes reconfigurações. Mas é necessária uma revolução cultural na sociedade brasileira, a partir de análises, assessorias especializadas, engajamentos mais efetivos dos centros de pesquisa, formação e educação, como universidades e escolas, com a participação decisiva e insubstituível dos formadores de opinião, diversos meios de comunicação, não podendo ficar de fora os produtores, instâncias e segmentos culturais. A revolução cultural almejada não é um movimento político partidário e nem se reduz a formas e dinâmicas de governo. Trata-se de investir e conquistar entendimentos novos sobre a própria realidade histórico-cultural, promovendo clarividências.  Todos precisam compreender melhor a sua missão e vocação para efetivar, a partir de riquezas próprias, por vezes desprezadas, desconhecidas e maltratadas, novo conjunto de hábitos. 

São urgentes novas posturas políticas, ousadia em empreendimentos e no tratamento das prioridades dos segmentos do povo para constituir um substrato cultural com consistência e força para poder debelar descompassos.  Desse modo, poderão ser consolidadas dinâmicas saudáveis do viver cotidiano, que promovem o desenvolvimento sustentável, equilíbrio na gestão e governanças inteligentes. O processo de enfrentamento da grande crise antropológica parece não poder ser tratado senão a partir de ações nos muitos contextos regionais do Brasil. No horizonte do país com dimensões continentais, precisam ser feitas análises e verificações no tecido cultural de cada região. A gigante realidade cultural brasileira precisa de resgates pontuais e incidentes nos seus substratos. No conjunto da crise antropológico-cultural estão os rasgões na diversidade que configura a unidade do povo.

A cultura é que sustenta a sociedade na conquista de progressos, na consolidação da inteligência indispensável para tratar os anseios do povo, particularmente as prioridades de quem é mais pobre, com oferta de educação, saúde, lazer e meios para fortalecer valores indispensáveis na composição do que é a nação brasileira. Os líderes governamentais, educacionais, políticos, culturais e religiosos são desafiados a olhar o conjunto de sua realidade sociocultural e definir, com sabedoria, os investimentos prioritários, parcerias que façam aumentar os tradicionais patrimônios - culturais, religiosos e educacionais - que têm força para contribuir com as transformações capazes de dar ao país novo rumo.

As reformulações mais profundas não virão simplesmente das intenções de planos governamentais. É hora de tratar - de modo técnico, científico e educativamente - os substratos que alavancam ou esvaziam a cultura de cada região. Trata-se de, a partir da reconfiguração dos contextos locais, desencadear operação mais revolucionária no conjunto da cultura brasileira. Muitos são os itens que precisam ser elencados para análise e tratamento. Entre eles está a consciência de ‘pertença’ ao povo. Urge nesse caso, especialmente, quando uma região é enriquecida por muitos e diferentes traços culturais, a superação de um tipo de deboche - superficial e ridículo - que parece colocar de fora das próprias fronteiras o que é a riqueza do seu território.

Chama a atenção quando uma região se deixa tratar apenas como destino extrativista e desrespeita valiosos substratos da própria cultura. Uma visão distorcida, que considera importante e interessante apenas o que está e o que se edifica fora do próprio território. Isso acaba por sustentar dinâmicas que vão habituando o conjunto da população a não tratar adequadamente seu patrimônio e a não mais investir em empreendimentos com força para fazer avançar a sua história. Nesse caminho, despreza-se o potencial turístico local, desconsiderando seus valores culturais. Abre-se mão das riquezas regionais.

Líderes de diversas áreas devem investir e apoiar projetos capazes de valorizar equipamentos ambientais e culturais, legados da história e da natureza, com força de projeção internacional. Dos governantes e políticos locais, é esperado que busquem, inteligentemente, no cenário nacional, caminhos para melhorar a infraestrutura de sua região, a partir do diálogo e do respeito aos outros. Assim é possível fazer, por exemplo, da malha rodoviária de seu território um verdadeiro jardim, e não cenários de abomináveis desastres fatais. Dos educadores e produtores da cultura, são esperados mais diálogo e cooperação efetiva, para fortalecer redes educativas, mecanismos que valorizam as tradições, riqueza inigualável. Dos líderes religiosos, são demandadas mais inventividade e abnegação para preservar o patrimônio da fé. Do menos ao mais influente socialmente, pede-se o diálogo que leva à cooperação mútua, alimentada por valores já existentes nas práticas familiares e religiosas.

A ladainha do que é necessário reconfigurar no substrato cultural é grande, pode ser acrescida com novos itens por todos. Conta agora compreender a crise antropológica e reagir com ardor para aperfeiçoar recursos, dar velocidade a projetos, priorizar as necessidades dos pobres. É hora de uma revolução cultural, tratando sabiamente as incontestáveis falências para, assim, iniciar reações indispensáveis.’


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