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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Que é um oblato secular?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘A palavra oblato, em quaisquer modalidades que apareça no decorrer da história monástica, vem do latim oblatus e significa ‘oferecido’ ou ‘ofertado’. É secular, se vive no mundo, ou regular, se mora no mosteiro.

Escreve a propósito, Dom Filipe da Silva, OSB, Abade do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro (RJ), que ‘o vocábulo oblação aparece 63 vezes na Sagrada Escritura. Expressões sinônimas, como oferenda (19), oferta (98), entrega (13), sacrifício (247), totalizam 440 vezes. Esta grande incidência revela que a mesma teve uma presença viva na história sagrada, atingindo seu ponto alto na [oferta] realizada por Jesus’ (Oblação : oferta a Deus e aos irmãos Oblação : oferta a Deus e aos irmãos, 2012, p. 92).

Sentido

A explicação oferecida por Dom Filipe sobre o assunto é importante e merece ser aqui resumida, pois, a nosso ver, expressa bem o sentido bíblico-teológico da oblação. Com efeito, começa demonstrando que, já no Antigo Testamento, eram oferecidos ao Senhor animais, frutos ou bens da terra com a intenção de louvá-Lo, agradecer-Lhe ou pedir-Lhe perdão pelos pecados cometidos.

Nesses sacrifícios, destaca-se o uso do sangue de animais derramados em locais apropriados, especialmente nos casos de pedidos de perdão ou de expiação pelos pecados do homem que, não podendo derramar seu próprio sangue – Deus a ninguém permite tirar a própria vida ou a de outrem –, fazia sua oblação pelo sangue de um bicho a fim de demonstrar arrependimento e, desse modo, unir-se, novamente, ao Senhor. No entanto, tais sacrifícios eram precários, imperfeitos e, por isso mesmo, incapazes de tirar o ser humano do pecado (cf. Am 5,21-27). Afinal, como poderia o sangue de animais irracionais, inferiores ao ser humano e inconscientes do pecado, obter a pureza da consciência humana?

Sacrifício de Cristo

É por essa razão que Deus, na ‘plenitude dos tempos’ (Gl 4,4), enviou seu Filho para que oferecesse o seu próprio corpo e sangue em nome de toda a humanidade a fim de redimi-la do pecado e abrir-lhe as portas do céu. Nesse sacrifício já não são mais seres irracionais as ofertas, mas o próprio Cordeiro sem defeitos que se oferece, ou seja, o Filho mesmo de Deus, Jesus Cristo (cf. 1Pd 1,18-19).

Pode-se dizer, todavia, que o sacrifício de Cristo na Cruz foi o coroamento de suas oblações anteriores em uma vida toda ofertada ao Pai pela salvação do mundo (o nascimento em Belém, a fuga para o Egito, o trabalho em Nazaré, a pregação, os milagres etc.) a fim de reparar pela obediência a desobediência de Adão (ver : Estêvão Bettencourt, OSB, Curso de Iniciação Teológica. Rio de Janeiro : Mater Ecclesiae, 2013, p. 152-158).

Oração

Mais : dentre as oblações de Nosso Senhor destaca-se a oração, pois é nesses momentos que aparece o homem unido ao Pai a fim de nutrir-se das forças d’Ele e, assim, oferecer-se aos irmãos. Os Evangelhos nos atestam o quanto Jesus rezava (cf. 6,12; 9,28; 22,41-44), mesmo de madrugada (cf. Mc 1,35; 6,46; Lc 5,16), assim como ensinou os próprios discípulos a rezarem (cf. Lc 11,1) e recomendou o ideal da oração contínua (cf. Lc 18,1) e também recolhida em nossa profundidade interior, onde se dá o verdadeiro encontro com Deus em favor dos irmãos (cf. Mt 6,6), conforme Ele mesmo nos oferece o exemplo.

Portanto, o (a) oblato(a) imita a Cristo que se doou ao Pai por nós. É ele o modelo primeiro de oferta a Deus e aos irmãos e deve, na oblação, imitá-Lo, não deixando que nada, absolutamente nada, se anteponha ao amor de Cristo (cf. Regra de S. Bento 58,7; 4,21) para com o próximo.

O (a) oblato(a) – que a grande maioria dos mosteiros aceita – é, portanto, chamado a ser essa testemunha viva de Cristo no contexto em que está inserido(a), pela oração, pelo exemplo e pela palavra.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/10/13/que-e-um-oblato-secular/

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Natal no Cantinho da Terceira Idade

Por Vera Maria Ataíde Martins Stella (Ir. Julia, Obl. OSB)




O grupo de Oblatos do Mosteiro de São Bento de São Paulo, por iniciativa de seu Diretor Espiritual, Dom Lourenço Palata Viola e com o auxílio de seu assistente, Dom Mateus Malta, empenhou-se em arrecadar donativos para uma instituição muito carente que acolhe idosos, o ‘Cantinho da Terceira Idade’ (em Parelheiros – São Paulo).

Sem dúvida, essa atitude tornou o grupo mais unido e digno de testemunhar a sua fé, não apenas por palavras, mas por ações concretas que vão muito além do espírito de Natal, pela caridade e misericórdia que o Papa Francisco sempre nos recomenda.

No ano da Misericórdia, façamos dessa ação uma constante no nosso grupo e assim nos tornarmos verdadeiramente cristãos e oblatos com espírito beneditino. 


quinta-feira, 2 de abril de 2015

quarta-feira, 25 de julho de 2012

OBLATOS : Entre o Céu e a Terra, Cidadãos do Oitavo Dia (Capítulo 3 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB


São Mauro : primeiro discípulo de São Bento e primeiro oblato


5 – Escuta e estabilidade que se traduz em serviço
            ‘A estabilidade vai se traduzir em missão, que o Estatuto dos Oblatos coloca também como critério do chamado à oblação. Esta missão pode ser compreendida como serviço, bem delineada no documento do episcopado norte-americano do ano de 2002 (14). Alvo de uma confiança única, os cristãos são colaboradores de Deus em sua obra salvadora, redentora e santificadora, como já dizia São Paulo : Quer vivam quer morram é para o Senhor (cf. Rm 14, 8). Generosos, cheios do zelo bom agem a partir do amor e do senso de responsabilidade. ... O zelo bom, que separa dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna. Exerçam, portanto, os monges este zelo com amor ferventíssimo (cf. RB 72, 1-3).
            São inúmeras as formas de serviço, de acordo com a vocação e as circunstâncias. A base será sempre o servir-se mutuamente na caridade (cf. RB 35,6). E ainda : Ponham em ação castamente a caridade fraterna (RB 72,8). Servos da Igreja, nela procuram carregar os fardos uns dos outros : Tolerem pacientissimamente suas fraquezas, quer do corpo quer do caráter (cf. RB 72,3). Desafios e dificuldades transformam-se em ocasiões de superação e alegria, como diz Paulo : “ALEGRAI-VOS!” (cf. 2Cor 7,4). A experiência pessoal de um Deus rico em misericórdia faz brotar a alegria e a esperança de ouvir um dia : Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino!
            A Virgem Maria ensina com seu exemplo o sentido do discipulado e serviço, como pede também São Bento : Mostre os preceitos divinos por suas ações (cf. RB 2, 12-13). Temos em Maria todos os elementos essenciais do discipulado e do serviço cristãos, a saber, chamado, dom, esposta generosa, criativa e prudente. Maria compreendeu o chamado a ser SERVA, no serviço e fidelidade. Como Mãe de Deus, sua missão traduziu-se no serviço materno a Jesus Cristo, desde a infância até a vida adulta e à morte na cruz. Como Mãe da Igreja, o serviço materno para com aqueles que dela se achegam como filhos (15) .
            Como realizar esta missão? O Espírito responde com o capítulo 2 do livro dos Gênesis : nosso chamado é um chamado a sermos bons servos da oficina humano-divina que nos foi confiada, o JARDIM a ser cultivado, utilizando mentes, corações e mãos. Diz São Pedro : Todos vós, conforme o dom que cada um recebeu, consagrai-vos ao serviço uns dos outros, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus (1Pd 4,10). Podemos elencar algumas características :
1.   RECEBER COM GRATIDÃO OS DONS DE DEUS : Glorificam aquele que neles opera dizendo com o profeta : “Não a nós, Senhor, não a nós, mas a vosso nome dai glória” (cf. Pról. 30).
2.  CULTIVÁ-LOS COM RESPONSABILIDADE : Se alguém deixar as coisas do mosteiro sujas ou as tratar negligentemente seja repreendido (cf. RB 32,4). Ou a responsabilidade para com os irmãos e irmãs : não negligencie ou faça pouco caso da salvação das almas a si confiadas (...) saiba que aquele que recebeu almas a dirigir, deve preparar-se para prestar contas (cf. RB 2,11.17).
3.  PARTILHÁ-LOS COM AMOR : A partilha dos bens, a exemplo  da primeira comunidade de Jerusalém : Seja tudo comum a todos (cf. RB 33 e 34). Ou como : o bom servo do Evangelho que distribuiu o trigo a seus conservos no devido tempo (cf. RB 64,21).          
4.  DEVOLVÊ-LOS MULTIPLICADOS AO SENHOR : Visão positiva da Regra Beneditina.    

6 – Um “Cantus Firmus” – conclusão que abre
            Ao chegar ao final destas considerações, noto que há um tema que perpassa nossa reflexão, como um cantus firmus que sustenta a arquitetura sonora de nossos passos em direção ao Reino. É o desejo da vida eterna, a dimensão escatológica, colocada em destaque pela Constituição Dogmática Lumen Gentium no capítulo VII : Ouçamos o texto conciliar : A prometida restauração que esperamos, começou já em Cristo, foi impulsionada com a vinda do Espírito Santo, e continua por meio dele na Igreja – que nos faz descobrir na fé o sentido da própria vida temporal – à medida que vamos realizando, com esperança nos bens futuros, a obra que o Pai nos confiou no mundo, e vamos operando a nossa salvação (cf. Fl 2,12). Dom Jean-Pierre Longeat OSB, Abade de Ligugé(16), observa ser esta perspectiva  escatológica a meta que concentra a atenção de monges e monjas e que pode ser vista como excentricidade, em um mundo marcado pela sombra da urgência e a atração do sucesso. Ter a vida eterna como meta, diz Dom Longeat, pode desconcertar a muitos, embora seja uma dimensão intrínseca a nossa vida batismal. Esta vida eterna é a chegada do Reino de Deus, que no Pai-nosso pedimos que venha várias vezes ao dia, pelo menos três vezes, segundo nossos antigos pais. Nesta expectativa o coração se dilata ao corrermos pelos caminhos dos mandamentos de Deus, com inenarrável doçura de amor – RB Pról. 49 – enquanto nos ocupamos de nossas tarefas, daquilo que deve ser feito aqui e agora na construção deste reino. Na bela expressão de Dom Jean-Pierre, somos pessoas do “Oitavo Dia”. Este é o dia que está ao mesmo tempo além e dentro da história.
            O oblato, movido pelo desejo de buscar a Deus, na escuta fiel e diária de sua palavra, com a vida pautada pelo ethos monástico da fé e da liturgia, testemunhará por sua estabilidade, que é possível viver no mundo sem ser do mundo. Ter um pé na terra e outro no céu. Que é possível continuar correndo para manter o precário equilíbrio de tal situação. Nesta corrida, continuará a ser discípulo na escola do serviço do Senhor, pronto a seguir Jesus a qualquer preço. Totalmente entregue em oferta a Deus e aos irmãos, segue o itinerário que a Regra e a tradição lhe apresentam, certo de CHEGAR (cf. RB 73,9), à meta desejada, à vida que não passa, e ver desde já o que olhos não viram e ouvidos não ouviram, e que Deus preparou para aqueles que o amam (cf. RB 4,77). Assim seja!’
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(14) – Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL NORTE-AMERICANA, Stewardship, a Disciple’s Response, Cap. V, (2002)
(15) – Cf. LG VIII e Encíclica de SS. JOÃO PAULO II, “Redemptoris Mater”, 46, citados em id.
(16) – LONGEAT OSB, Jean-Pierre, “The Monastic Charism in the life of the Church”, in AIM English Language Bulletin, 97 (2009) 39-41.Cf.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

OBLATOS : Entre o Céu e a Terra, Cidadãos do Oitavo Dia (Capítulo 2 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB


São Mauro : primeiro discípulo de São Bento e primeiro oblato


3 – Oblatos à escuta, celebra e vive sua fé
            Procuramos penetrar no sentido do desejo de Deus e sua busca. Procuremos agora compreender como este cristão específico, que escolhe viver a graça batismal guiado pelo Evangelho através da ótica da Regra Beneditina, será marcado por algumas disposições básicas para dar à Igreja, que chama todos a ser discípulos e missionários, sua contribuição específica.
            Afirmar que o oblato é um cristão, como consta no Estatuto (10), faz eco a Santo Agostinho que gostava de dizer : “Pra vós sou bispo, convosco, sou cristão”. Também faz eco ao monaquismo de São Basílio, no século IV, que partia do mesmo princípio : o monge é um cristão. Apenas e tudo. Seu primeiro mestre, o Bispo Eustate de Sebaste, a quem a família de Basílio era fiel, não conseguia manter o movimento monástico nascente em um caminho de equilíbrio. Diante dos desvios que aconteceram na Capadócia, Basílio prefere não usar a palavra “monachus”. Chama suas comunidades de fraternidades, reunidas em torno da escuta da Palavra. Regra para ele é a Sagrada Escritura, sobretudo o Evangelho, linha seguida por todos os Pais da Vida Monástica. Bento tem São Basílio na maior conta e o indica no capítulo 73 da Regra como uma das doutrinas que nos fazem chegar por caminho reto a nosso criador (cf. RB 73, 4-5). Como Basílio, aponta a Sagrada Escritura como norma retíssima da vida humana (RB 73,3). Pede que o monge, “tomando por guia o Evangelho”, procure trilhar os seus caminhos. Assim, em questão de vocabulário, distancia-se de Basílio, mas não em questão de conteúdos. Também para Nosso Pai, o monge é acima de tudo, um cristão. Todo e qualquer capítulo da Regra de São Bento tem como fundamento a Cristo e ao Evangelho, seja citando-o explicitamente, seja como pano de fundo, seja através da indicação de atitudes evangélicas. O “nada absolutamente anteponham a Cristo, que nos conduza juntos para a vida eterna” (RB 72, 11-12) é uma realidade palpável ao longo de toda a Regra.  
            A espiritualidade beneditina é batismal, cristocêntrica. Seu chão é a Sagrada Escritura. O recente Sínodo da Palavra oferece-nos trilhas belíssimas de aprofundamento da realidade viva da Palavra, que não é um livro, mas uma pessoa, um rosto, Jesus Cristo. É o que podemos deduzir da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini. As intervenções dos padres sinodais versaram dominantemente sobre cinco aspectos : fundamentos doutrinais, hermenêuticos, ou seja, de interpretação da Sagrada Escritura, aspectos pastorais, espirituais, aqui a Lectio Divina, e éticos. Temas dominantes, a Homilia, a Lectio Divina, o Testemunho. E se Deus fala, o que é retomado com insistência, uma voz do plenário levanta-se e aponta ser Deus, eminentemente, um Deus que escuta em especial aos que não têm voz, o pobre, o aflito, a viúva. Um Deus que escuta seu povo, como Jesus também ouvirá. Deixemos falar a Exortação : “Mestra da escuta, a esposa de Cristo repete, com fé, também hoje : “Falai, Senhor, que a vossa Igreja Vos escuta”. E aqui é retomada a Encíclica Dei Verbum, que dá uma definição dinâmica da vida da Igreja: “São palavras com as quais o Concílio indica um aspecto qualificante da Igreja: esta é uma comunidade que escuta e anuncia a Palavra de Deus” (VD 51). Continha a Exortação, citando o Santo Padre Bento XVI : “Temos aqui uma advertência que cada cristão deve acolher e aplicar a si mesmo : só quem se coloca primeiro à escuta da Palavra é que pode depois tornar-se seu anunciador”.
            Fácil perceber aqui o profetismo de São Bento, enquanto eco antecipado a esta proposição. Faria eco tanto à escuta quando ao anúncio. Estamos mais acostumados com o aspecto da escuta, por ser a palavra que abre a Regra e nela constituir-se como um fio condutor. Somos convidados a escutar a Deus que nos fala no hóspede, no pobre, no peregrino, no abade, no enfermo, no irmão que cometeu alguma falta. Atitude contínua, desenvolvida pacientemente no debruçar-se diário sobre a Palavra da Escritura, atitude de “entrega” à leitura em determinados momentos do dia (cf. RB 48; 49,4). Lembremos ainda o Prólogo que personifica a Palavra de Deus como aquela pessoa que nos acorda cada dia. Ainda que São Bento não estabeleça normas quanto a um anúncio formalmente compreendido, chama a atenção para a relação entre o “receber e executar” (cf. RB Pról. 1), para a necessidade da coerência, quando pede que se “profira a verdade de coração e de boaca” (RB 4,28), e pede que se “entregue como resposta uma boa palavra, pois a palavra está acima da melhor dádiva” (RB 31, 13-14). O capítulo 66, dos Porteiros do Mosteiro, sobre a relação mosteiro-mundo, é todo marcado pela escuta e resposta, com qualidades especiais de prontidão, maturidade, presença ao outro, temor de Deus, caridade, sabedoria. Pequeno compêndio de missão pelo ser da pessoa já trabalhada pela palavra, como o ancião maduro, que falará por todo o conjunto performativo de sua palavra e expressão não verbal.
            Se algo marca nossa espiritualidade é a importância da Palavra de Deus em nosso itinerário. Desde Antão, jovem rico que fez a virada deste encontro evangélico e o transformou em um encontro feliz, com sequência positiva e de muito fruto. A história monástica é uma continuação no tempo da história da salvação na vida de cada um de nós. Dom Donato Ogliari (11) comenta quanto o impressionou ter o Abade Primaz chamado a atenção de todos os presentes na Conferência Monástica Italiana de que o futuro do monaquismo depende em grande parte da redescoberta do papel central da Lectio Divina pessoal e comunitária, digamos também aqui, familiar e profissional.
            Marca profunda da espiritualidade beneditina é também a Sagrada Liturgia. Trata-se de um “ethos litúrgico”(12), que nos interpela. Como vivemos a liturgia? Como rito apenas? Como Opus? Ou como lugar teologal da proclamação da Palavra que nos constitui no ser? Esta a forma com que a coloca a Exortação Verbum Domini em sua segunda parte, Verbum in Ecclesia. O parágrafo sobre a sacramentalidade da palavra é claro quanto à força performativa do anúncio da palavra na liturgia. Nela a palavra realiza o que significa, opera, age em nosso ser, faz-nos entrar no mistério pascal que trabalha em nós. Mais do que cerimônias, é nosso respirar, que transforma o tempo em tempo litúrgico. A vida celebrada transforma-se em uma peregrinação animada pela palavra. Os mistérios celebrados, os salmos rezados, encarnam-se em nossa humanidade, de modo que cada instante de nossa vida é contemplado, nenhum instante fica fora do mistério da salvação. HOJE, AGORA, é a hora. Note-se que o desejo nos movia para a vida eterna, mas esta tensão escatológica é equilibrada pela gravidade do tempo presente, todo perpassado pela presença de Deus (cf. RB Pról.10.44; cap. 19). Diz-nos a Exortação : “Daqui se compreende, que, na origem da sacramentalidade da Palavra de Deus, esteja precisamente o mistério da encarnação : O Verbo fez-se carne (Jo 1,14), a realidade do mistério revelado oferece-se a nós na carne do Filho”. E o oblato deseja ser oferta a Deus e aos irmãos pela oblação. Continua o texto : “A Palavra de Deus torna-se perceptível à fé através do ‘sinal’ de palavras e gestos humanos. A fé reconhece o Verbo de Deus, acolhendo os gestos e as palavras com que ele mesmo se nos apresenta” (VD 56).


4 – Estabilidade versus Instabilidade
            Outra característica espiritual beneditina é a estabilidade, constitutiva da profissão monástica. Em recente estudo, Madre Cristiana Piccardi OCSO, matriarca do mundo monástico contemporâneo (13), discorre sobre seus vários aspectos, contrapondo-a à instabilidade da sociedade atual. Como conservar e desenvolver a estabilidade, o amadurecimento da pessoa, a duração dos relacionamentos, a perseverança, garantias do domínio da profissão e da arte? Madre Cristiana, depois de interrogar-se por que Bento deseja a estabilidade para seus monges, fala da importância do estar na cela dada pelos pais do deserto, como da perseverança na solidão. Ao percorrer a história da estabilidade, nota Madre Cristiana como o mudar de lugar em nada diminuirá os combates a serem enfrentados e que estarão em nós mesmos. Bento compartilha da doutrina dos padres de Lérins, entre estes, de Cesário de Arles, seu contemporâneo, mas vive em contexto muito diverso. Estar em plena península itálica devastada pelas invasões bárbaras, significa enfrentar uma mudança de época, contexto que já vimos ser semelhante ao nosso e que determinará sua compreensão quanto ao mode de viver a estabilidade.
            Madre Cristiana distingue diversos níveis da estabilidade, o nível humano ou psicológico, o espiritual, o carismático, aqui entendido como patrístico, e, finalmente entra na dimensão esponsal da estabilidade. Destaco aqui o nível espiritual com três aspectos a saber : a luz, o tempo e a dor. A luz é a luz da fé batismal que cresce no seguimento de Cristo e que nos fixa em sua vontade, em um lugar estabelecido por seu amor, em total fidelidade a seu desígnio eterno. Esta luz-fé nos fortalece diante das tentações, impede-nos de vaguear, como vagabundos espirituais, giróvagos da vida, ajuda a conservar-nos centrados em nossa meta, sem buscar paliativos compensadores. Quando falta a luz-fé, pode-se cair com facilidade nas dúvidas, cansaço físico e espiritual, rotina, falta de luz, do infinito em nossa pequenez, somos revestidos de misericórdia e selados no amor.
            Madre Cristiana assinala a importância do tempo como possibilidade de intervenção de Deus, assim experimentado, o tempo torna-se história de salvação, onde se dá a aliança e a realização da promessa. Já abordamos acima. Por fim, encontramos o terceiro nível espiritual da estabilidade, a dor, traduzida em paciência, capacidade de suportar, carregar o cotidiano de nossas vidas com suas surpresas, desafios, na alegria do quarto grau da humildade: “Mas superamos tudo por causa daquele que nos amor” (cf. RB 7,39; Rm 8,37), na certeza de que, partilhando pela “paciência dos sofrimentos de Cristo, mereceremos ser coerdeiros de seu reino” (cf. RB Pról. 50).
            Ao desenvolvermos esta virtude da estabilidade, ofereceremos ao mundo atual a força para vencer a fragmentação do coração que lhe é característica, missão do oblato enquanto oferta aos irmãos. A vivência da estabilidade abrirá para nós e para a humanidade o eterno movimento de amor, do que nunca muda – citação de Dante na Divina Comédia – a perene estabilidade trinitária em eterno movimento de amor.’
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(10) – Cf. Estatuto - Cap. 1, art. 1
(11) – Id.
(12) – Cf. GIACOMELI, OSBCAM, Gianni, Conferência à Assembleia da CIMBRA, Vinhedo (2009) pro manuscrito.
(13) – Cf. PICCARDI OCSO, Cristina, “Estabilidad-Perseverancia em La dimensión esponsal de la vocación Monástica : respuesta al hombre hoy” in Cuadernos Monasticos 173 (2010) 187-224

terça-feira, 26 de junho de 2012

OBLATOS : Entre o Céu e a Terra, Cidadãos do Oitavo Dia (Capítulo 1 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)   


São Mauro : primeiro discípulo de São Bento e primeiro oblato


Este artigo pertence à palestra do III ENOB ( Encontro Nacional dos Oblatos Seculares da Congregação Beneditina do Brasil ), proferido pela Madre Abadessa Vera Lúcia Parreiras Horta, OSB, monja beneditina do Mosteiro do Salvador em Salvador (BA)(www.mosteirodosalvador.org.br ).
  
O evento, que ocorre a cada quatro anos, teve como tema 'Oblação, oferta a Deus e aos irmãos' e foi realizado de 25 a 30 de outubro de 2011, no Centro de Treinamento de Líderes, na praia de Itapuã.

            'Fenômeno da Igreja de nosso tempo é a participação de leigos na espiritualidade das Ordens e Congregações. Estes leigos ampliam a inspiração original de homens e mulheres de Deus, fundadores das diversas famílias de consagrados. Riqueza, na pobreza hoje experimentada pela diminuição do número de vocações aos mosteiros e congregações históricas, os leigos trazem novo vigor às comunidades às quais estão vinculados. Por outro lado, no contato com as comunidades que os acolhem, aprofundam e alimentam a fé que os ajuda a enfrentar o cotidiano da sociedade pós-moderna secularizada.   


1 – Oblatos em uma mudança de época
É neste contexto atual que Deus fala. Ele sempre fala em termos de presente, no indicativo. Interessante, Johanna Domek OSB, em um de seus estudos sobre as perguntas na RB (1), assinala que a primeira pergunta a nós dirigida na Regra Beneditina é : “E que diz?” (RB Pról. 12). Pouco adiante, Bento pergunta : “Que há de mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz do Senhor a convidar-nos?”(RB Pról. 19). A que nos convida esta voz aqui e agora concretamente? Em que contexto estas perguntas nos encontram, seja a nível pessoal, seja a nível mundial?
A Conferência de Aparecida registrou com força : “Vivemos uma mudança de época e seu nível mais profundo é o cultural. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus.” (cf. DA 44) (2). Neste mesmo ano de 2007, na alocução à Conferência Monástica Italiana, o Abade de Noci, Donato Ogliari OSB (3), nota a definição dada pelo sociólogo Z. Bauman à sociedade atual, a de ser uma sociedade líquida”, onde tudo se dissolve. Valores e significados mudam velozmente e desajustam contextos de vida até agora bem definidos. Em seu discurso inaugural ao V CELAM, o Santo Padre Bento XVI afirma : “Só quem reconhece a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano” (cf. DI 3) (4). E o documento introduz o que será uma constante referência : “por essa razão, os cristãos precisam recomeçar a partir de Cristo, a partir da contemplação de quem os revelou em seu mistério a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seus sentido” (cf. DA 41).
Enquanto escrevo esta introdução, uma nova crise econômica mundial aparece no horizonte, sinal da instabilidade em que nos encontramos. Em vários pontos do globo a natureza grita como “em dores de parto”, porque os filhos desta geração a exploram sem levar em consideração as leis naturais. No entanto, o clamor que sobe das regiões mais atingidas não parece suficiente para que os representantes das grandes potências tenham a coragem de abraçar medidas concretas. No Brasil, vive-se a contradição de sermos um país emergente, contando entre as futuras potências mundiais, onde tantos padecem de fome. A corrupção, a violência armada, a invasão das drogas, a tentativa de impor uma terceira opção sexual, a educação de pouca qualidade, são alguns dos fatores que minam a força da juventude. Em tudo isto ressoa a voz de Bento : "E que diz?"

            A mudança de época que é a nossa, tem muitos pontos de semelhança com a vivida por Nosso Pai São Bento. O livro dos Diálogos no-lo apresenta inúmeras vezes "sentado à porta" do mosteiro, onde a realidade de seu mundo bate das mais variadas formas. O "estar sentado" é termo técnico que indica a posição do discípulo, daquele que escuta. A escuta, mais do que palavra inicial da Regra Beneditina, é uma atitude constante a ser desenvolvida e cultivada. Podemos nos perguntar : Que impacto nossa realidade tem sobre nós, discípulos na escola legada por São Bento? No contexto atual do mundo, qual a palavra que escutamos com maior insistência? O que e a quem não escutamos? O que você, mergulhado nesta realidade secular, diria a todos com quem divide o dom da existência e que aguardam para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus? (cf. Rm 8,21). Que nos diz Deus hoje? (cf. RB Pról. 10-12).

Todos temos uma especial competência profissional e espiritual, confiada, não só para nós ou para um pequeno grupo, mas para influenciar em uma dimentsão mais ampla. Já o documento Partir de Cristo (5), ao falar da comunhão com os leigos reforça a dimensão eclesial dos diversos carismas de vida consagrada como "suscitados pelo Espírito para o bem de todos". Assim devem estar recolocados no próprio centro da Igreja, para o bem de todo o povo de Deus. Já o sabemos e experimentamos.

A todos urge escutar, e escutar bem, correr, para que as trevas da morte não nos envolvam; correr e agir agora de forma que nos aproveite para sempre (RB Pról. 13-44). Dedicar estes dias à reflexão e à partilha é, com certeza, testemunho da atitude de busca. Importante será reunir a experiência concreta com a tradição espiritual que é a nossa, a fim de que a tradição possa continuar a ser o que seu nome indica : entrega de vida de geração em geração, processo constitutivo da própria Igreja de Cristo, aquele que é a Traditio do Pai. Processo também antropológico, cadeia ininterrupta, que edifica a humanidade em sua história, valores, dignidade, hoje desafiada, como ainda coloca o Documento de Aparecida : "...devemos admitir que esta preciosa tradição começa a diluir-se...esse fenômeno talvez explique um dos fatos mais desconcertantes e originais que vivemos no presente. Nossas tradições culturais já não se transmitem de uma geração à outra com a mesma fluidez que no passado" (cf. DA 39). E o texto aponta com força para o núcleo mais vulnerável e mais profundo de cada cultura, a saber, a experiência religiosa. Este é o contexto do oblato de hoje.

2 - Marcados pelo desejo sincero de procurar a Deus

No capítulo IV do Estatuto dos Oblatos, recentemente aprovado ad experimentum(6), vemos o que se pede do candidato à oblação. Há seis requisitos, dos quais realço o seguinte : desejo sincero e autêntico de procurar a Deus; vocação à espiritualidade beneditina; disposição de vincular-se à comunidade dos oblatos, na atenção para com a missão da comunidade monástica. Certamente muitos destes aspectos já foram abordados a esta altura do congresso. Mas vale sempre repetir, pois cada repetição evidencia a importância do enunciado e traz algum prisma novo.   
   
O primeiro dos critérios fala do desejo de procurar a Deus. Mola mestra da busca de Deus, o desejo aparece na Regra de São Bento doze vezes, da quais, duas citações relacionam-se com a vida eterna. A primeira está no capítulo dos Instrumentos das Boas Obras (RB 4,46), onde também é citada a "cobiça espiritual" e o conjunto dos  versículos em que este instrumento se encontra acena com força para a dimensão escatológica (cf. vv. 44-48). Ele reaparece no capítulo da quaresma (cf. RB 49,7) relacionado com a alegria do desejo espiritual que impulsiona o monge para a Páscoa. Esta espera será preparada por um intenso trabalho de conversão dos desejos bem conhecidos pelos chamados teóricos da vida monástica, especialmente, Evágrio e Cassiano. Bento os conhece e os menciona ao longo de seu texto. Indica continuamente como objetivo da regra a emenda dos vícios já descritos por seus antecessores (cf. RB Pról. 36,47). As outras menções ao desejo, enquanto vício, podem ser resumidas na pessoa dos sarabaítas, para quem a satisfação dos desejos é lei. Encontramos aqui o máximo da perversão do desejo (cf. RB 1,8). Vejam-se ainda as menções aos desejos da carne, especialmente no primeiro grau da humildade (RB 4,59;  7,12; 7,23; 7,24; 7,31). Descritos antes ainda por São Paulo na Carta aos Gálatas, recorda-nos o chamado à liberdade, que pela caridade coloca-nos a serviço uns dos outros.      

Este desejo que move os cenobitas, “que não obedecendo aos próprios desejos e prazeres (...) desejam que um abade lhes presida” (RB 5,12). Paulo convida-nos a deixar-nos conduzir pelo espírito e assim, não satisfazer aos desejos da carne. O Apóstolo que Bento mais cita em sua Regra, por excelência, e que nos oferece a lista dos frutos do espírito, dentre eles, amor, alegria e paz (cf. Gl 5, 13-24). No curso da história da espiritualidade, outros grandes mestres retomarão a força do desejo, agora de forma positiva, sendo que ainda no século VI, Gregório Magno desenvolverá uma verdadeira teologia do desejo. Ao definir a atitude do jovem Bento em Subiaco como aquele cujo desejo era o de agradar somente a Deus, Gregório coloca Bento na mesma linha, também encontrada e por ele evidenciada em uma mulher, Maria Madalena. Na homilia sobre os Evangelhos, São Gergório diz que “a eficácia das boas obras está na perseverança”. Nota como “os desejos fossem aumentando com a espera e fizessem com que chegasse a encontrar (...) pois os desejos santos crescem com a demora, mas, se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos(7). Ambos são assim colocados na corrente da tradição espiritual provada pela experiência.

O desejo é uma categoria do querer, um desejo humano, que ao dirigir-se para Deus, apenas responde ao próprio desejo de Deus que o antecede, como bem expressou o autor Sebastian Moore, citado por William Barry SJ : “O toque criador de Deus que nos deseja no ser, desperta em nós um desejo de ‘algo indizível’, isto é, do Mistério que chamamos Deus(8). Para cada pessoa haverá uma percepção inicial deste desejo de Deus por si, o que chamamos de vocação, experiência fundante, ponto capital da história pessoal de salvação que cada um descobrirá e guardará como a pérola preciosa. Será seu norte, sua bússola contínua, a pedra de toque de sua vida. Uma das mais belas representações plásticas do toque de Deus nos é dada por Michelangelo, nas duas mãos, do Criador e de sua Criatura, no teto da Capela Sistina, no Vaticano.

Todo cristão, diria até, todo e qualquer ser humano, será responsável por perceber em seu ser este toque de Deus que o constitui no ser e abre o diálogo que terá a duração de uma vida inteira. As circunstâncias serão as mais variadas como o são as da História da Salvação e de seus muitos personagens. Veja-se também a História da Igreja, a imensa fileira de homens e mulheres de Deus, dos que, conhecidos ou não, marcam a história com valores evangélicos. Quanto mais sensíveis nos tornarmos à palavra de Deus pronunciada em nosso íntimo, mais perceberemos seus traços, pegadas, nas pessoas e no contexto em que fomos chamados a viver, mesmo caóticos. Tudo se torna revelação para nós, tudo poderá ser decodificado, seja em nossa vida pessoal, seja no que acontece ao nosso redor. Foi no caos do Calvário que o Cristo Jesus disse sua definitiva palavra salvadora. Foi lá que seu desejo de fazer a vontade do Pai se cumpriu. Há muitos Calvários em nosso mundo, como dizia Claudel : “A madeira da qual foi feita a cruz, jamais faltará(9).'

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(1) – DOMEK OSB, Johanna, Conferência, Salvador (2011) pro manuscrito.
(2) – Documento de Aparecida, V CELAM (2007), sempre citado como DA.
(3) – Cf. OGLIARI OSB, Donato, “Además de sobrevivir, cual será el futuro de la presencia monástica em occidente?” in cuadernos Monascitos 177 (2011) 191-199.
(4) – Discurso Inaugural do V CELAM, Papa Beneto XVI.
(5) – Documento promulgado pela Sagrada Congregação para Religiosos e Institutos seculares, 2002.
(6) – Cf. ESTATUTO DOS OBLATOS, Decreto do 58º Capítulo Geral da Congregação Beneditina do Brasil, Rio de Janeiro (2011).
(7) – Cf. Liturgia das Horas Romana, Memória de Santa Maria Madalena, 22 de julho, II    Noturno.
(8) – Cf. BARRY, William SJ, “Allowing the creature to deal with the Creator” – pag. 23
(9) – CLAUDEL, Paul – citação livre



Fonte :
Oblação, Oferta a Deus e aos Irmãos – Conferências do III ENOB
(Encontro Nacional dos Oblatos da Congregação Beneditina do Brasil)
Edições Subiaco – 2012
Editado e impresso pelas  monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora – MG - Brasil


domingo, 11 de dezembro de 2011

A interioridade de hoje. Um valor em crise?

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)

                                                                                                              
Apresentado no III ENOB - Encontro Nacional dos Oblatos Seculares da Congregação Beneditina do Brasil,
em outubro de 2011, na Cidade do Salvador, Bahia, por Dom Filipe da Silva,
então Abade do Mosteiro de Olinda - Pernambuco (http://www.saobento.org).

Introdução

Recente notícia divulgada no meio virtual fez a seguinte projeção: no mais tardar, em cinco décadas, o mundo, globalmente considerado, chegará quase que completamente no ateísmo ou ao indiferentismo religioso.

Existe algum equívoco nesta informação. São fatos atuais um crescimento do Islamismo e um novo olhar para o Budismo; um inegável amento dos evangélicos; um vivo interesse por exercícios de concentração e filosofias das mais variadas, em troca da religião tradicional; triplicou o turismo religioso, etc.

 Como quer que seja, a notícia provoca um questionamento. Será que o homem do nosso tempo está abdicando do necessário cuidado da vida interior através da Religião?  Logo hoje, onde mais do que outrora, ele preocupa-se com sua aparência e sua alimentação saudável, com o meio ambiente e a ecologia? Por que está renunciando ao cuidado da alma e da vida interior?  

Na verdade, a flutuação na procura religiosa hoje e o crescente indiferentismo, como decorrência da maneira subjetiva de como nosso tempo se relaciona com o sagrado, aponta ainda para outra realidade. Há uma grande inquietação no interior do homem que tem dentro de si um vazio do tamanho de Deus-vazio cada vez mais preenchido por muitas pessoas, coisas, entretenimento e cada vez menos Deus!

Estará em  crise a interioridade?  Sim,  a vida espiritual passa por uma crise, inclusive na vida da Igreja e na vida religiosa consagrada por estar sendo cultivada em perspectiva mais humana e natural do que sobrenatural.

Ademais, a vida interior que foi sinônimo de vida espiritual, hoje tende a ser vista ou vivida de modo mais exterior, para fora.  Assim como o universo, depois da explosão inicial, nós também estamos em fase de expansão e de afastamento do centro.

Estamos constantemente de saída para o exterior, visível e o múltiplo através  das cinco portas que são os nossos sentidos. Esta saída pode ser pelas exigências mesmas da vida pós-moderna, a causa básica da crise espiritual que vive o homem de hoje.

Daí a necessidade de, sob o olhar de Deus e assistidos pelo Espírito Santo – vida espiritual, significa vida animada pelo Espírito – retornarmos ao silêncio e ao recolhimento, para assim chegarmos ao secreto  do coração. É preciso, no dizer de Santo Agostinho, voltar ao coração: “Voltai ao coração, reentrai em vosso coração! Para onde quereis ir distantes de vós mesmos?  Por que vos colocais em estradas desertas?  Deixai este caminho que vos conduz fora do rumo, voltai  ao Senhor! Primeiro entra em teu coração, tu que te tornastes estranho a ti mesmo por tanto vaguear, porque aí se encontra a imagem de Deus”. (In Ioh.Ev. 18,10).   
     
Como se vê, Santo Agostinho fala de uma vida fora de nós. É através do cultivo da interioridade que voltaremos ao centro da vida cristã, a Pessoa de Jesus Cristo – cristão vem de Cristo – ou nunca sairemos dele. Só no exterior,  em estradas desertas e fora de rumo, corremos  o perigo  mostrado por Jesus:  Com efeito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele se perder ou arruinar a si mesmo? (Lc. 9,25).

Nas linhas seguintes refletiremos sobre a interioridade hoje. Após a apreciação de alguns breves aspectos do nosso tempo e do tempo após o Concílio do Vaticano II, olharemos para o exercício da mesma a partir de Jesus, da Tradição e dos Santos.


 Nosso Tempo

O mundo atual apresenta várias características novas, sobretudo depois da II  Grande Guerra (1914), que desde então passaram a influenciar e a alterar sobremaneira a vida e as relações humanas em geral.

Proféticas as palavras do Papa Bento XV (1914 – 1922)  ao então Abade Primaz da nossa Ordem Beneditina Dom  Fidelis Von Strotzingen, quando do início da II Guerra Mundial: “Com a guerra que acaba  de iniciar-se  está começando um tempo novo.  O mundo em que nascemos está por terminar. Virá novo e total reacerto político, econômico, filosófico; uma ruptura análoga à da época de São Bento, quando da ruína do mundo antigo nasceu a Idade Média Cristã.”  (Cf. Benedictina 1,1947,5).

O Papa estava certo, pois o reacerto aconteceu. Diz o Documento de Aparecida que a mudança pela qual passa o mundo é mais profunda do que possa parecer, está atingindo mesmo o âmago da atual civilização. Afirma que nesta “mudança de época e de civilização, se dissolvem a concepção integral do ser humano, sua relação com Deus e com o mundo. Está em curso a gestação de uma nova civilização, com características novas, que comportam aspectos positivos e também outros aspectos  que desafiam os vários campos da vida (n. 63 s).

Além do racionalismo do ceticismo, do ateísmo, do subjetivismo e do agora crescente indiferentismo, são percebidas as marcas do novo tempo. O imediatismo, que fragiliza a capacidade da sociedade em esperar p desenrolar natural da vida e dos acontecimentos – tudo tem que ser logo!  A globalização, processo centrado no econômico que afeta o mundo todo, no qual aparece o domínio da ciência e da tecnologia, criando aspirações nem sempre necessárias e incentivando o consumismo.  A abundância da informação cada vez mais ao alcance de todos, sobretudo pela internet. Esta, nem sempre confiável, pode prejudicar a capacidade de reflexão e o espírito crítico; cresceu a informação, não a formação.

É notório que tal contexto vem influenciando os vários domínios da nossa civilização, também o âmbito religioso, sobretudo na procura espiritual e na relação com o sagrado.  É fato concreto no âmbito vocacional: os  jovens que procuram os seminários e as casas religiosas hoje, chegam com sinais deste novo tempo, sinais que precisam passar por uma conversão, a fim de   que  sejam vividos com fruto na nova vida.


O tempo Pós-Conciliar

Sabemos que ganhou vida e caminho a idéia Conciliar de uma Igreja para o mundo.  Este princípio, direta ou indiretamente, ocasionou uma série de situações, boas e delicadas, que ainda hoje oferecem desafios ao caminhar da Igreja.

Tal princípio de uma Igreja para o mundo fez que, às vezes, o ideal antigo de “fuga do mundo” fosse substituído pelo ideal de “fuga para o mundo”.

Outro aspecto foi priorizar em demasia a urgência pelo social. Claro que tal preocupação é  um valor positivo do nosso tempo, mas se não for reequilibrado, pode acentuar a projeção para o exterior e para a despersonalização do homem. Não podemos esquecer de que o homem interior e o interior do homem têm necessidade de libertação e alimento espiritual, sem os quais ele pode perecer e sucumbir.

Há ainda um fato muito sutil. O Papel da interioridade cristã tem sido assumido pela Psicologia e pela Psicanálise. Não podemos negar que elas são importantes e por vezes necessárias como ferramentas de apoio à vida religiosa. Contudo, se limitar a vida da alma ao inconsciente do homem e à sua subjetividade, prescindindo de sua íntima ligação com Deus, elas poderão ocasionar mais confusão do que solução para o interior.

Por fim, continua viva a procura por filosofia religiosa e métodos de meditação orientais com o objetivo de chegar ao fundo da alma, levando ao que chamam de introversão.  Não fica claro se este fundo da alma pertence à realidade de Deus ou à do Eu, e assim o conteúdo da interioridade cristã fica reduzido a uma espécie de técnica de concentração e meditação, mais do que a um encontro com Cristo vivo no coração.


Refletindo

O acima exposto leva-nos a constatação de que os acontecimentos depois da II Grande Guerra e do Concílio Vaticano II, influenciaram no caminho e no exercício da espiritualidade, levando o homem a encontrar mais a si mesmo do que a Deus.

O que fazer? É urgente voltar a falar de interioridade, redescobrir seu gosto, retomá-la a partir da Palavra de Deus e da Tradição, e à luz, reencontrar o elemento vital que o ocorrer dos anos foi abolindo.  A nossa vida e o nosso tempo, a vida da Igreja e a religiosa em geral, têm necessidade de uma primavera espiritual que nos leve a uma nova floração na vida interior.

Fácil constatar que vivemos numa civilização toda projetada para o exterior, para fora! O homem envia suas sondas até a periferia do sistema solar e ignora aquilo que está em seu próprio coração. Hoje, não se consegue viver, trabalhar, estudar, caminhar, (rezar?),  sem ruído de vozes ou de música ao redor – há uma espécie de medo do silêncio que leva ao atordoamento.

Vale lembrar que a Filosofia propaga a necessidade de cultivo da interioridade. Platão e seu discípulo Plotino falam do valor do recolhimento. O primeiro convida-nos a recolher-nos em nós mesmos, concentrar-nos afastando-nos da dispersão Fo mundo e do nosso próprio corpo (Fédon, 67 c; 83 a). O segundo, Plotino, tomando e desenvolvendo o programa do mestre, fala no Tratado sobre o Bem e o Uno,  de um “entrar silenciosamente no isolamento e num estado que já não conhece perturbações, entrar no interior, nos íntimos recônditos de si mesmo” (Enéadas, IX,9,9) .  Que sutis intuições da interioridade saídas da pena de dois pagãos!


Jesus : nosso modelo de vida interior!

Contudo, não é a Filosofia grega ou a de qualquer tempo, que nos apresenta o caminho da interioridade ideal, mas, sim, o próprio Jesus. Foi justamente seu desejo renovar a religiosidade judaica, muitas vezes encerrada em ritualismos e legalismos, centrando-a num relacionamento íntimo e vital com Deus.

Jesus, antes de sair ao encontro de todos e de tudo, se recolhia para ficar com o Pai. Impressiona o quanto Ele rezava (Lc 1,49; 2,19; 2,51; 3,21; 6,12; 9;28; 22,41;-44); recolhia-se para rezar, inclusive de madrugada (Mc 1,35;6,466; Lc 5,16); como  também ensinou a rezar (Lc 11,1), e ainda recomendou o ideal da oração contínua (Lc 18,1).

Homem de vida profundamente interior, Jesus não se cansa de chamar de volta para o segredo do coração, lugar onde se opera o verdadeiro contato com Deus e com sua vontade, contato do qual depende o valor de qualquer ação: “ Quando orardes entra no teu quarto e, fechando a porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6,6).  Percebe-se o quanto Ele mesmo cultivava esta realidade para manter-se unido ao Pai.


Jesus, a Tradição e os Santos

A TRADIÇÃO, refletia em muitos Padres e Santos da nossa Igreja, soube beber na fonte apresentada por Jesus. Ela, a Tradição, acentuou com extraordinária lucidez, que reentrando em si mesmo o homem encontra Deus e não um deus genérico e impessoal, mas o Deus revelado em Cristo. Não encontra o espírito, mas o Espírito Santo. 

Esta última revelação é a profunda e decisiva, pois  sem a ação do Espírito em nós, qualquer procura espiritual ou vivência interior, certamente levará o homem ao encontro de si mesmo, e não ao Deus que o criou. Encontrará um deus por ele criado para preencher suas necessidades religiosas pessoais. Isto é muito sério para a vida espiritual!

Não se pode construir e exercitar uma vida interior dialogando com um deus criado por nós. Cedo ou tarde o equívoco  será traduzido em desânimo, falsas piedades, ativismo espiritual, sacerdócio estéril, abandonados.  Ora, como é possível obter respostas ou consolações para as inquietações do coração e da alma, de um deus que criamos?

Nesta perspectiva, os Padres e os Santos têm muito a nos ensinar.

SANTO AMBROSIO, ao comentar o texto de Mt 6,6, onde Jesus convida a entrar no próprio quarto e fechar as portas para rezar ao Pai, disse:  Este quarto não é só o quarto cercado de paredes; é também  o quarto que está em ti mesmo, no qual se fecham os teus pensamentos e no qual habitam os teus afetos” (De Caim et Abel, 19).

SANTO AGOSTINHO, por sua vez, exorta num texto já mencionado: “Na interioridade do homem habita Cristo (In Ioh. Ev. 1810).  Ora, esse pensamento não vem de Plotino, mas de São Paulo, que tinha falado de Cristo que habita pela fé em nossos corações (cf. Ef  3,17).  Quando chegamos ao centro, ao coração, encontramos não um ponto, não uma unidade impessoal, mas um “tu”:  Jesus Cristo! Da interioridade pagã à cristã o salto é infinito. O homem, voltando a si mesmo, não encontra só a si mesmo, o seu eu, mas encontra o Outro por excelência,  Deus, razão de sua existência.

NOSSO PAI SÃO BENTO,  fugiu da exterioridade e se refugiou na gruta de Subiaco para aí habitar consigo mesmo sob o olhar de Deus.  A partir do seu encontro pessoal com o Senhor, surgiram seus mosteiros como grutas espalhadas pelo mundo apontando para o caminho da atenção a Deus. A vida monástica não tem outro fim, a não ser dar atenção a Deus, nada antepondo ao amor de Cristo!

Ele chama de  “Arte Espiritual” o seu programa de vida s monástica, ou seja, arte de crescimento no Espírito. Esta arte recorre a instrumentos múltiplos, enunciados no decorrer do capítulo 4º, instrumento que hão de ser aplicado “incessantemente, dia e noite, e devolvidos no dia do juízo” (RB 4,75).  Por conseguinte, nosso pai designa seu discípulo como operário perito em arte espiritual, experimentado na vida interior.  

Sua Regra é um convite à vida interior (Prol; 4,20; 4,55; 4,56; 19; 20; 52).  Impressiona no cap. 48, sobre o trabalho manual cotidiano, ele mencionar sete vezes (versículos 1.4.10.13.14.17.22) a necessidade da leitura espiritual, a Lectio Divina, como meio de interiorizar a Palavra de Deus e cultivar a vida espiritual.

Ao mesmo tempo em que a nossa civilização suspeita da Igreja e da religião institucionalizada, talvez não muito dos mosteiros. Existe ainda certa confiança em que mosteiro se  pode descobrir e contemplar o mistério de Deus. Esta confiança aumenta em nós filhos e filhas de São Bento, a responsabilidade de fazermos de nossos mosteiros lugares de vida interior, espaço onde Deus e seu Filho Jesus Cristo possam ser percebidos em cada um de nós, em nossos rostos, em nossas vidas, no nosso te algumas orações e voltamos todas as noites para dormir. Deve ser um lugar de ressurreição onde nos ajudamos a nos fazer novos”.  (Timothy Radcliffe).   

Ao enviar seus frades pelo mundo,  SÃO FRANCISCO DE ASSIS assim falava: “Nós levamos sempre conosco um eremitério para onde quer que vamos;  e toda a vez que o quisermos podemos, como eremitas, recolher-nos nesse eremitério. O irmão corpo é o eremitério e a alma o eremita que ali vive para suplicar a Deus e meditar (Leg. Perug. FF 1,636).  Mostra-nos deste modo, a antiga idéia da cela interior que cada um traz consigo mesmo, na qual é sempre possível retirar-se em pensamento para reatar o contato vivo com a Verdade que habita em nós.

Duas Carmelitas falam com muita propriedade deste encontro com Deus no interior. No seu Castelo interior, um dos melhores frutos da doutrina cristã sobre a interioridade, SANTA TERESA D’AVILA concebe a alma como um castelo de sete andares. Estes são os graus de consciência pelos  quais temos de passar, através da introspecção, até chegarmos ao centro, onde se dá a plenitude do encontro com o Amado da alma.
Foi o que aconteceu com Santo Agostinho: “Tu estavas dentro de mim e eu fora de ti, e te procurava aqui em baixo, atirando-me infame sobre essas formas de beleza que são tuas criaturas” (Conf., X, 27). Quantos deveriam repetir essa amarga confissão “Tu estavas dentro de mim, mas eu estava fora”, prisioneiro do “Castelo  Exterior”,  onde é possível, e hoje constataremos que sim,  alguém  fechar-se nele,  fechar-se fora de casa e de si mesmo, incapaz de entrar, refém da exterioridade.

A bem–aventurada ELISABETE DA TRINDADE revela com estas palavras de excepcional simplicidade seu encontro com o Senhor:  “Encontrei o paraíso na terra, porque o paraíso é Deus e Deus está no meu coração. Deus em mim e eu nele” (Lettera 107, a madame de Sourdon).     

Após a cerimônia da consagração da Igreja de Montecassino: “Hoje estamos vivendo num mundo que parece tomado por uma febre que se infiltra até no santuário e na solidão. As pessoas não conseguem recolher-se. Hoje a excitação, o barulho, a ansiedade, a exterioridade, a multidão, ameaçam a interioridade do homem; falta-lhe o silêncio, a ordem a oração, a paz, falta-lhe ele mesmo.  São Banto volte para ajudar-nos a recuperar a vida pessoal, da qual hoje temos desejo, e que o progresso da vida moderna  frustra enquanto o torna consciente” .  Não é demais lembrar que o hoje do Papa tem quase 50 anos!

Consideração Final

A interioridade é o caminho para uma vida cristã autêntica. A história do filho pródigo (Lc 15,17)   ilustra como é importante entrar em si mesmo. Reviu sua vida, preparou as palavras que haveria de dizer e pôs-se a caminho rumo à casa paterna. Sua conversão realizou-se antes de ele se levantar, no momento em que  “ entrou em si mesmo”.  A conversão exterior foi precedida pela interior e recebeu desta o seu valor. Quanta fecundidade neste   entrar  em si mesmo!

Para que a interioridade seja realidade em nossa jornada precisamos mais do que recolhimento, introspecção, concentração.  É necessário deixar-nos guiar pelos dons do Espírito Santo.  Estes passaram a habitar nossas almas a partir do nosso Batismo, dons plenificados no Sacramento da Confirmação, em vista da nossa santificação.

Portadores, pois, do Espírito Santo e seus dons, que ajudam em nosso crescimento e progresso espiritual, somos convidados a viver segundo o Espírito que habita em nós (cor 12,3b-7. 12-13).   Conhecemos os seus frutos: “amor, alegria, paz, longanimidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio”  (Gl 5,22-26), frutos que brotam da árvore da vida interior, quando nutrida pelo mesmo Espírito.

Deixemo-lo guiar nossa vivência interior, para assim conduzir nossa santificação, ocasionar os momentos de adoração a Deus e possibilitar o crescimento de Jesus dentro de nós. Foi este o desejo de João Batista:  É preciso que Ele cresça e eu diminua” (Jo  3,30).

Busquemos a Deus não por necessidades emocionais, desencontros existenciais, falta de opções ou porque Ele é importante para nossas vidas.  Procuremos a Deus e o adoremos unicamente em atenção a Ele  (Sl 94).  O importante não é que em Deus seja válido para nós, mas que  em Deus encontremos a revelação de tudo o que é verdadeiramente valioso, o norte da nossa existência.  Temos a constante necessidade de criar em nossas vidas espaços vazios para Ele e o mistério de sua presença - o cultivo da interioridade, pela ação do Espírito Santo em nós, é o  melhor caminho!



Fonte : 
*Dom Filipe da Silva, OSB, então Abade do Mosteiro de São Bento de Olinda, PE, desde agosto de 2006.

Matéria também publicada pela Revista Beneditina – Julho-Setembro 2011 - editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais