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sexta-feira, 20 de maio de 2022

A des-figuração do humano e a figuração do mal, no contexto da guerra

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Crianças atingidas pelo horror da guerra

*Artigo de Paulo Leandro Nogueira dos Santos


‘Há mais de cinquenta dias, o mundo acompanha, pelas mídias sociais, o horror da guerra na Ucrânia. Parece, mas, absurdamente, não é um cenário de filme de guerra : destruição, dor, morte, abuso, violência, fuga, fome, doença, massacre e tantas outras atrocidades que podem acontecer em um país e na vida das pessoas. Ou seja, ‘é um massacre sem sentido, no qual estragos e atrocidades se repetem todos os dias’, afirmou o Papa Francisco.

A decisão horrenda e atroz de invadir um país, uma nação, seja por qual motivo for – domínio, poder, economia, política –, e submeter o ser humano a uma realidade de violência e desumanização é repugnante, perversa e inaceitável, em qualquer cenário político. É importante lembrar que a guerra também está ocorrendo em aproximadamente dezessete países no mundo, porém os holofotes midiáticos se voltaram apenas para a Ucrânia. No território onde há guerras, também há massacres, há vidas de inocentes ceifadas.

O tema da guerra foi e é pensado ao longo da história por distintos autores. Carl Von Clausewitz, no tratado Sobre a Guerra (Vom Kriege), define a guerra como ‘um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade’, e o seu constitutivo em uma tríade : a violência, o ódio e a animosidade. A célebre definição clausewitziana de que ‘A guerra é a continuação da política por outros meios’ faz pensar que os meios pelos quais se fazem guerra, infelizmente, justificam um exercício violento do poder político de uma nação sobre outra. Carl Schmitt, em O conceito do político, trata de um operador da guerra : a eleição de um inimigo a ser eliminado.   

Podemos até ter a ilusão de que a instrumentalização da violência é uma ação necessária para mudar ou conquistar alguma realidade para o melhor. Contudo, não será para o bem. Hannah Arendt já nos alerta que ‘a prática da violência, como toda ação, muda o mundo, mas a mudança mais provável é para um mundo mais violento’.

Outro operador da guerra é conceito de banalização do mal, desenvolvido por Arendt.  ‘o mal nos é apresentado em personagens relativamente medíocres, que nesse sentido são ‘banais’ : são meros burocratas delinquentes, como afirma o teólogo Karl-Josef Kuschel; enfim, é o mal se apresentando por detrás da máscara de ‘pessoa do bem’ ou da guerra em vista de um ‘bem’. A banalização do mal significa a execução não questionada de um comando que vem de cima para baixo. Burocratas são aqueles que servem às formas violentas de poder, sem questioná-las, sem assumir as responsabilidades, porque só são executores. E, nesse sentido, só se faz guerra com um aparato burocrático, que banaliza a vida, à medida que não se tem responsabilidade.

Na teologia clássica, Santo Agostinho conceituava o mal como ausência do bem, isto é, aquilo que não tem substância própria. Porém, com as experiências do século XX que atentam contra a humanidade, Kuschel sinaliza para o retorno da questão teológica e antropológica : ‘questão da teodiceia : como pode o bom Deus Criador permitir o mal? E a antropodiceia : como é que as boas criaturas de Deus podem perpetrar crimes como esses?

Kuschel, ainda, apresenta-nos algumas questões para refletirmos : ‘desde os tempos de Jó, a teologia enfrenta a questão de duas faces : primeiro, como conciliar a existência do mal com a fé numa Criação boa e num Criador justo? Segundo, o que há no ser humano que o capacita a sempre voltar a cometer crimes de lesa-humanidade?’.

Se, nas religiões, o mal é um problema teológico insolúvel, a guerra é uma expressão política e social do mistério do mal, cuja finalidade é a morte, a aniquilação da existência humana. Pensar a guerra à luz do mal é voltar o nosso olhar para o ser humano, como coautor e vítima de maldade. Coautor, por causa do mau uso do livre-arbítrio. Vítima, porque o mal praticado o desfigura como pessoa. Então, vale a pergunta : como o ser humano se ‘configura’ e ‘des-configura’, no contexto de guerra?

Bem, primeiro vale considerar o quão paradoxal é, pois, de um lado, temos a pessoa enquanto promotora da paz, e, do outro, é aquela que também promove a guerra. Aqui podem-se conceber duas situações : a primeira, o humano ‘des-figurado’ da sua dignidade divina e humana; e a segunda, a ‘figuração’ do mal personificada na ação humana.

Na narrativa bíblica da criação, em Gênesis 1,26-27, ‘Deus disse : Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança… E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou.’ Ela revela que a dignidade humana se encontra também no pertencimento e na semelhança ao seu Criador, pois o homem e a mulher foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Ora, a pessoa carrega na essência do seu ser o humano e o divino, ou seja, traz em si a divindade do Criador. O humano, mesmo com a fragilidade ou limitação da própria condição, possui uma característica que transcende a realidade.

No contexto de guerra, a centralidade, a defesa e a promoção da vida humana são desconsideradas, banalizadas, no sentido de mascaramento de bem, e, por vezes, eliminadas do objetivo maior. O maior bem é o ser humano, é a pessoa. A dor, a fome, o sofrimento, o ser forçado a deixar sua casa, terra, cultura, país, separar-se da família, ser violentado e abusado na sua humanidade e dignidade significam que o humano está ‘desfigurado’ em sua realidade original, naquilo que ele é em si.

Em Isaías 52,14, na passagem do servo sofredor, diz-se : ‘tão desfigurado estava o seu aspecto como homem, nem parecia ser humano.’ É essa condição que o ambiente da guerra impõe ao ser humano. Nem parece mais humano. Perdeu tudo. Perdeu toda a sua dignidade : a vida e o sentido. Ficamos estarrecidos ao olhar o rosto das crianças, dos idosos e das famílias transpassados pela dor e pelo sofrimento, e, com isso, estamos diante da ‘des-figuração’ do humano e do divino. Pessoas fugindo do país, outras se escondendo nos porões ou nos destroços, nas ruínas da guerra, em busca angustiante de salvar a própria vida. Estamos diante do humano que sofre dolorosamente, com pavor e angústia, no horto das Oliveiras da guerra. Jesus também sofre nos rostos dos corpos atingidos pelos ataques bélicos. Encontramos nos refugiados e migrantes, que fogem das bombas, o Cristo ‘des-figurado’ e crucificado.

Em um discurso, no estádio de Moscou, o presidente da Rússia justificou a invasão à Ucrânia, parafraseando o texto de João 15,13 : ‘não existe amor maior do que dar a própria vida pelos verdadeiros amigos’. Mas, a realidade da guerra nos mostra totalmente o contrário : desamor, atentado contra a vida, o outro é inimigo e que precisa ser derrotado, combatido, o desejo de dominar e controlar um povo. Enfim, é mais um que usa a bíblia para tentar justificar o injustificável, além de deturpar o real sentido bíblico. O dar a vida no sentido evangélico está em prol da vida e do bem maior, e jamais a favor da morte, da divisão, do sofrimento e da violência. É uma atitude nobre, de entrega a uma causa e um projeto maior que busca a salvação do outro, que tenta restabelecer ou devolver a dignidade do próximo. Isso é amor. É doar a própria vida para salvar o irmão, o amigo.

O outro aspecto que podemos relacionar é a ‘figuração’ do mal sob a ação humana. A etimologia da palavra diabo (diabollos), tradução grega da palavra hebraica Satã, significa o que separa, nega, opõe-se, acusa, aquele que engana. O teólogo Joseph Ratzinger já dizia que o diabo é a negação da pessoa, é a despersonalização, é o mal que deixa a pessoa sem identidade humana, sem rosto. Quando a ação da pessoa se direciona para a divisão, a discórdia, a mentira, a opressão, a desintegração, estamos diante do diabo, do mal personificado na ação de pessoas. Portanto, o fato de aquela figura do nosso imaginário, do demônio de chifre, horrendo, príncipe do inferno, está presente no mundo da guerra, transvertido de outra forma, concretizado a partir da ação do homem ou da mulher que atenta contra a vida, divide, desintegra o outro, oprime, mata e transforma a vida do humano em um inferno.

Existe um inferno maior do que o contexto da guerra, no qual crianças, mulheres, idosos, famílias passam pelos piores sofrimentos experimentados na vida e pelas piores dores que possam sentir? Pode até existir, contudo, na nossa realidade humana atual, este é o maior.

Alberto Caieiro, pseudônimo de Fernando Pessoa, adverte-nos para a transformação que a guerra opera : ‘A guerra, como tudo humano, quer alterar. Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito. E alterar depressa. Mas a guerra inflige a morte.

A guerra altera a vida, a rotina, a cultura, os sonhos, os projetos, o bem viver e o bem-estar, o emocional, o psicológico de uma pessoa, e, por consequência, de um povo. É uma vida aterrorizante, pois, como diz o poeta ucraniano Serhiv Zhadan : ‘nunca mais veremos rostos familiares. Somos refugiados. Vamos correr a noite toda.’

É, nesse contexto de guerra, que o humano é ‘des-figurado’, porque encontramos duas realidades como consequência de uma ação que marcará eternamente a vida humana e a história de um povo, de uma nação.

Percorremos um caminho em que a guerra foi abordada e conceituada por algumas personalidades intelectuais importantes. Passamos pelo retorno de questões, as quais a Teologia é desafiada a repensar, a partir da experiência do século XX, até o momento atual, e olhar o humano na perspectiva existencial, olhando para o jogo da palavra ‘des-figuração’ do humano e ‘figuração’ do mal. Queremos finalizar desafiando vocês, leitor e leitora, a se interrogarem : o que a guerra lhe faz pensar? Qual é o seu olhar para o ser humano?’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1578835/2022/05/a-des-figuracao-do-humano-e-a-figuracao-do-mal-no-contexto-da-guerra/

domingo, 21 de fevereiro de 2021

O perigo de se flertar com o mal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘Se pensarmos bem, o conceito de tolerância é um conceito extremamente vago e geralmente utilizado com um viés ideológico em demasia problemático. Se observarmos, por exemplo, o discurso de Martin Luther King, (quem quiser pode baixar o discurso e ler online) em hora nenhuma ele menciona que deveria haver tolerância quanto ao racismo. Em hora nenhuma ele propõe um ‘diálogo’ para resolver os problemas, pois ele sabia que em determinadas situações o diálogo não é mais possível. Ele sabia que o discurso da ‘tolerância’ conduz não, raras vezes, exatamente ao oposto do que ele se propõe. É por isso que precisamos sempre deixar claro a nossa posição, é preciso ser firme contra os discursos de ódio, contra os discursos que ferem a dignidade do sujeito, quer ele seja um discurso religioso, moral, institucional, etc. Não podemos jamais permitir que esses discursos encontrem eco entre nós. Para isso não há diálogo, pois a mínima abertura, nesse caso, pode abrir as portas para o que há de pior em nós.

É exatamente neste sentido que qualquer discurso de ódio que vem seguido da fala ‘foi brincadeira’, ou ‘não quis dizer isso’ deve ser imediatamente interditado. Não deve haver espaço entre nós para que tais discursos de ódio sejam minimizados, pois sob a fala do ‘humor’ e da ‘brincadeira’ se revela uma face cruel do sujeito.

É sabido de todos nós que ninguém nasce odiando ninguém, ninguém nasce com preconceito com ninguém, mas isso é sempre ensinado por uma cultura que tem determinados valores. Valores estes que nunca são ‘eternos’, mas sempre criados socialmente para cumprir demandas específicas no desenvolvimento de cada comunidade humana. É neste sentido que qualquer discurso em nome de ‘valores eternos’ não raramente costuma cair em discursos de ódio contra os semelhantes, ou contra aqueles que não compartilham de tais valores.

É interessante notar que o discurso de ódio também é construído socialmente e vai encontrando eco à medida que é propagado, de tal forma que entre nós, em pleno mundo contemporâneo, eles se tornaram a tônica até mesmo entre os cristãos que supostamente deveriam ser os primeiros a irem contra tais discursos.  Um movimento interessante que se percebe é que se começa apenas flertando com o ódio; isto é, começa-se com a pura negligência em relação às questões estruturais que envolvem a situação do outro, que acaba sendo responsabilizado sem levar em consideração toda a estrutura que o assola; obviamente que a estrutura que envolve o sujeito de forma alguma o determinará de maneira última, mas qualquer análise do comportamento do sujeito que não leve em conta o seu meio não passa de pura análise ideológica.

Em um segundo momento, quando o sujeito assusta, já está tomado pelo ódio de uma forma tal que surgem os discursos de ‘penas mais duras para bandidos’, ‘bandido bom é bandido morto’, ‘tem que matar esses judeus todos’. Assim como esse discurso não nasceu do nada, ele também não cresce do nada. De alguma forma esse discurso alimenta em grande medida um desejo do próprio sujeito, há uma espécie de identificação violenta nesse indivíduo que vê que bandido bom é bandido morto, há uma identificação violenta desse sujeito com o discurso de ódio que ele propaga. Se quisermos podemos até mesmo utilizar as palavras bíblicas de que ‘a boca fala do que tá cheio o coração’. Quando alguém corrobora um discurso violento, um discurso em que despreza o outro, que pede a morte do outro, um discurso em que torna a causa alheia uma causa não digna o que se percebe é que esse sujeito de fato pensa assim, no entanto ele não se vê pensando assim; ele pensa que de fato está corroborando uma causa justa. Como aquela criança que realmente acredita que há soluções simples para causas complexas. Na realidade, o que se pede é a morte do diferente, a morte daquele por quem se tem preconceito, por quem o sujeito julga ser menos humano que a si próprio de forma que pode ser tratado apenas como um animal.

Flertar com o mal é sempre perigoso, ainda mais porque (como já dizia o mito bíblico) ele nunca chega para o sujeito com sua face má, mas travestido de promessas de segurança. Essa é a mesma tentação do jardim do Éden. A tentação de que por meio de uma ação simples, por meio de uma ação infantilizada, por meio de uma escolha do mais fácil será possível ter um poder maior, uma visão melhor das coisas, um mundo melhor, etc. É por isso que se flerta com o mal. A promessa de segurança que o discurso violento traz se mostra para o sujeito uma solução última devido ao ‘caos do jardim’. ‘É certo que não morrereis’ é ao mesmo tempo a promessa e a crença desse sujeito propagador do discurso de ódio. Ele acredita que ele estará isento do ódio propagado socialmente, ele acredita infantilmente que os odiadores saberão diferenciar o ‘cidadão de bem’ do ‘bandido’; eles acreditam infantilmente que há uma linha divisória nítida entre eles, quando na realidade não há linha nenhuma que os separa. É neste sentido que nunca se deve aceitar os discursos de ódio sob pena de que a banalização do mal seja a tônica. Tal banalização do mal nunca deve ser a tônica de nenhuma sociedade, pois a partir do momento que ela se torna a tônica estamos à beira do colapso civilizacional.

Uma tática conhecida do nazismo foi transformar todos os judeus em bandidos, em animais, para que a partir da desumanização deles a população não visse que estavam atacando aos seus semelhantes, mas sim a uma espécie menor, a um ‘não-humano’, que por isso ‘merecia’ ser tratado de forma desumanizada. E na maioria das vezes não eram pessoas ‘ignorantes’, não eram pessoas ‘iletradas’, ‘alienadas’, etc. Vários oficiais da SS possuíam diplomas de curso superior, possuíam doutorados em suas áreas, mas mesmo assim aderiram ao discurso propagado de Hitler na desumanização dos judeus, dos gays, etc. O discurso de ódio é construído socialmente assim como qualquer outro discurso, e se aproveita dos momentos de agitação política para se propagar. Este é o mesmo movimento que culminou no holocausto, mas que alguns entre nós insistem em não enxergar a semelhança. É exatamente neste sentido que temos que admitir que não é uma questão de ignorância do sujeito, mas sim de uma identificação do sujeito com tal discurso, de forma que ele ‘de fato’ pensa assim. E isso talvez seja o que mais assusta, ainda mais quando vindo de pessoas que supostamente deveriam propagar o amor ensinado por Jesus, aquele bandido segundo Roma; aquele presidiário, etc. É por isso que nunca devemos aceitar e nem tolerar os discursos de ódio. Devemos sim lutar contra eles e impedir, no que depender de nós, que eles se propaguem.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1497661/2021/02/o-perigo-de-se-flertar-com-o-mal/

domingo, 27 de agosto de 2017

Crônica : A lição da tamareira, pagar o mal com o bem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Amigas e amigos, pagar o mal com o bem é sempre um desafio.  Se o desafio não for superado, o mal vai-se multiplicando e ocupando o lugar que está reservado para o bem.  Sobre o assunto já fomos advertidos pelo missionário Paulo : ‘Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens.’ (Rom.12.17).

Por causa de meu trabalho que exige viajar de Dubai no Golfo Pérsico para Fujiarah, no Mar de Omã, preciso atravessar uma região de deserto e uma cadeia de montanhas em cujos vales existem alguns oásis com tamareiras. Muitas delas são centenárias e, apesar da idade, continuam produzindo frutas que ficam presas em cachos lá no alto.

Antes da introdução de tecnologias modernas, só havia duas maneiras de conseguir tâmaras. Uma forma era subindo no tronco da árvore. Contudo, essa apresentava dificuldades porque o tronco é liso, sem galhos para apoiar os pés e as mãos. Uma vez lá no alto, ainda era necessário separar as frutas maduras das verdes. Realizada a colheita, o problema era como descer carregando as tâmaras.

O modo mais usado e mais fácil era jogar pedras, tentando atingir o cacho, esperando que com o impacto, as frutinhas se desprendessem dele para, depois, serem recolhidas do chão.

O uso de pedras jogadas contra a árvore é que me chamou a atenção. A lição está na árvore. Sendo atingida pelas pedras ela devolve o que tem de melhor, a doce e cobiçada tâmara.

Ser como a tamareira, retribuir o mal com o bem, é um desafio.

De fato, o mundo é rico em pessoas apedrejadas que pagam o mal com o bem e são felizes. Embora excluídas, classificadas como bregas e carolas, continuam semeando o amor, a melhor das sementes.

 É assim que vivenciam as palavras do Mestre : ‘Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo, sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.’ (Mt 5.44-45).’


Fonte :


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Vencer o mal pelo bem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte

‘O crescente processo de desumanização que atinge a sociedade contemporânea é assustador. Tem origem diversa - da violência à indiferença, da corrupção ao conformismo com situações aviltantes da dignidade humana. Debelar o avanço desta desumanização deve ser preocupação cidadã. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, adverte sobre o risco de atingirmos níveis irreversíveis deste processo. Por isso mesmo, não se pode simplesmente constatar, lamentar ou defender-se de maneira egoísta e mesquinha de suas consequências. Ora, se o medo e o desespero tomam conta do coração das pessoas, compromete-se, gravemente, a vivência da fraternidade. Com isso, a humanidade se distancia do compromisso com a solidariedade, eficaz remédio para redesenhar os cenários de injustiça que escravizam tantas pessoas.

Para mudar essa realidade, são importantes as complexas estratégias no âmbito da segurança pública, dos reajustes de funcionamentos e em outros tipos variados de dinâmicas, pois o descontrole, gradativamente, toma conta de tudo. No entanto, embora fundamentais, essas estratégias não são suficientes. Estatísticas diversas comprovam que a sociedade convive com um excesso de incivilidades, consequência do processo de desumanização. Processo alimentado pelo desejo sem limites de apossar-se das coisas e pela busca irracional do prazer. São impulsos que viciam e impedem as grandes conquistas. As maiores vitórias, para serem alcançadas, requerem sacrifício ou esforço maior. Muitas vezes, exigem que se reparta e se ofereça o tempo e as próprias posses para quem não os têm.

As instituições religiosas, educacionais, particularmente a família, os ambientes variados de trabalho, também os de entretenimento e lazer, precisam readotar princípios simples, com força educativa e incidente na vida de cada pessoa. Somente assim é possível estabelecer um contraponto à desumanização que faz multiplicar a violência. Entre esses princípios está um de grande alcance e significativa força educativa : Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem, exortação de São Paulo na Carta aos Romanos. A adoção séria deste princípio, incidindo nos contextos comuns da vida, poderá transformar as relações entre as pessoas. Só o bem derrota o mal, em uma longa batalha que inclui o apreço pela fraternidade, em lugar das guerras; adoção de atitudes simples e generosas, em vez de mesquinharias e fofocas.

O bem como princípio é vetor determinante na promoção da paz. Nesse horizonte, é necessário redobrar a atenção e analisar as tragédias provocadas pelo mal, que se alastra com muita facilidade. Suas raízes precisam ser conhecidas e extirpadas. Nesta tarefa, fundamental é refletir sobre a liberdade humana, que é um bem, mas, não raramente, torna-se porta de entrada para o mal que dizima vidas, destrói projetos e prejudica as relações. A experiência maravilhosa da liberdade não pode ser pautada apenas pelos critérios e interesses políticos ou sociais. É preciso incluir aportes de caráter espiritual para não assorear a fonte indispensável da ética, que inspira condutas orientadas pelo bem.

Há uma gramática da lei moral que encanta o coração para viver de modo amoroso e, consequentemente, convencer-se de que é necessário vencer o mal pelo bem. Essa gramática da lei moral é o amor único, capaz de iluminar para além da inteligência, de encontrar motivos maiores que os oferecidos pela razão e de conseguir ver além dos limites e estreitezas do humano. Capacita todos para enxergar a dignidade fascinante de cada pessoa, merecedora de todo respeito, deferência e cuidado.

Investir mais na aprendizagem da gramática da lei moral é urgente. Trata-se de experimentar o amor fraterno e solidário, edificando em cada pessoa uma interioridade que a torne sensível aos mais pobres, comprometida com o bem dos sofredores e a promoção da justiça. Não basta, pois, a sofisticação de aparatos externos que, por si só, são insuficientes para mudar quadros trágicos mundo afora, incluindo aqueles aos quais estamos inseridos. Os cenários que afligem serão redesenhados com a gramática da lei moral, com a força do amor, na medida em que for aprendido e vivenciado o princípio de que se deve sempre vencer o mal pelo bem.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http ://www.cnbb.org.br/outros/dom-walmor-oliveira-de-azevedo/15779-vencer-o-mal-pelo-bem

domingo, 4 de maio de 2014

O bem e o mal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


‘A questão do bem e do mal não é mera formulação de uma mente humana pouco ocupada, mas, ao contrário, é uma realidade viva que se apresenta a cada um de nós desde as primeiras páginas da Sagrada Escritura e em tantos outros documentos históricos dos primórdios das diversas civilizações.

A título de definição precisa, à luz da Filosofia, constatamos que pode ser chamado de bem ‘tudo o que possui um valor moral ou físico positivo, constituindo o objeto ou fim da ação humana’. Para Aristóteles, o bem ‘é aquilo a que todos os seres aspiram’; ‘O bem é desejável quando ele interessa a um indivíduo isolado, mas seu caráter é mais belo e mais divino quando se aplica a um povo e a Estados inteiros’. ‘Tanto para os antigos quanto para os escolásticos, o bem designa, em última instância, o Ser que possui a perfeição absoluta : Deus’ (...) ‘Enquanto conceito normativo fundamental na ordem ética, o bem designa aquilo que é conforme ao ideal e às normas da moral’ (H. Japiassú; D. Marcondes. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: JZE, 1999).

O mal, por sua vez, designa ‘em um sentido geral, tudo o que é negativo, nocivo ou prejudicial a alguém’. ‘Podemos considerar o mal em um sentido metafísico, físico ou moral. O mal metafísico consiste na simples imperfeição, o mal físico no sofrimento, e o mal moral no pecado’ (Leibniz)’ (idem). Contra a tese maniqueísta – segundo a qual há dois princípios coeternos, um bom e um mal que têm existência em si mesmos – a filosofia e a teologia cristãs se levantaram, especialmente com Santo Agostinho, século V, que fora maniqueísta, para dizer que o mal não existe em um sentido absoluto, mas apenas como imperfeição, limitação de um ser. Desse modo, a escuridão não tem existência própria, ela só pode surgir na falta da luz.

Isso posto, voltemo-nos para a Sagrada Escritura, cujas primeiras páginas deixam claro, na linguagem própria dos primeiros capítulos do Gênesis, que Deus criou o mundo material – reino mineral, vegetal e animal irracional – e espiritual, os anjos do céu, por meio de sua palavra (dabar) e viu que ‘tudo era bom’ (por ex. Gn 1,10). Fez, em seguida, o ser humano para um lugar especial, pois ele sintetiza, em si, o mundo material e espiritual, uma vez que tem a alma dada diretamente por Deus. Ao contemplar o homem, feito à sua imagem e semelhança, dentre os seres criados, o Senhor viu que ‘tudo era muito bom’ (cf. Gn 1,31).

Neste universo criado, reina uma ordem e harmonia própria a refletirem a sabedoria do seu Autor que tudo criou por amor para dar-Lhe glória e louvor : as criaturas irracionais pelo simples fato de existirem e realizarem a função para a qual foram feitas e nós, criaturas racionais, para glorificarmos a Deus por nossos atos, mas, especialmente, por meio da oração pessoal e comunitária. Neste último modo de rezar está a Santa Missa, culto por excelência ao Pai celestial.

No entanto, à diferença das criaturas irracionais, que seguem as rígidas leis impostas pela própria natureza, as criaturas racionais têm a liberdade de escolha e, por isso, podem optar pelo bem ou contra ele, praticando o mal. Tal foi o que se deu quando Deus colocou os anjos à prova : parte deles permaneceu fiel, mas outros se rebelaram por soberba e foram, por isso, expulsos do céu. São os anjos maus ou demônios, cuja existência não é mera construção literária, mas realidade teológica, conforme atesta a Escritura e a Tradição da Igreja (Catecismo da Igreja Católica n. 391-395).

Por esses dados, já se vê que há uma opção entre o bem e o mal, entre anjos e demônios, entre a geração da mulher e da serpente, como se lê em Gênesis 3,15. Aí, o Senhor disse à serpente ‘Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar’. A nota ‘j’ da Bíblia de Jerusalém explica que ‘o texto hebraico, anunciando uma hostilidade entre a raça da serpente e a da mulher, opõe o homem ao Diabo e à sua ‘raça’ e deixa entrever a vitória final do homem: é um primeiro anúncio da salvação, o ‘Proto-Evangelho’. A tradução grega, começando a última frase por um pronome masculino, atribui essa vitória não à linhagem da mulher em geral, mas a um dos filhos da mulher. Assim, fica esboçada a interpretação messiânica que muitos Padres [=Pais da Igreja nos primeiros setes séculos] explicitarão. Com o Messias fica implicada sua Mãe, e a interpretação mariológica da tradução latina ipsa conteret tornou-se tradicional na Igreja’.

Se a vitória por excelência sobre o diabo, maior interessado no mal, cabe ao Senhor Jesus, o Filho unigênito de Deus, nós que, pela graça do Batismo nos tornamos filhos no Filho (Gl 4,5), também participamos dessa luta e dessa vitória. É São Luis Maria Grignion de Montfort quem assevera que ‘uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até o fim : a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio’ (Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 32ª ed. Vozes : Petrópolis, 2003, n. 52). E mais : continua o Santo do século XVIII a dizer que essa inimizade se arrasta entre as duas gerações daí advinda, a do bem e a do mal, ao escrever que ‘Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio’ (n. 54).

Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do ‘mundo’ (pois é a mesma coisa) – continua São Luis – sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacó, figurando os réprobos e os predestinados. Mas a humildade de Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo’ (idem).

Como prova do que diz São Luis, o Pe. Paschoal Rangel explica, em seu livro Maria, Maria... Ladainha : invocações e metáforas feitas para louvar. Belo Horizonte : O Lutador, 1991, p. 83-84, duas das muitas importantes intercessões de Nossa Senhora em favor da Igreja : a primeira se deu em 1571, com o Papa Pio V. Forças ameaçavam tomar a Europa para subjugá-la. O Papa recorreu ao auxílio da Santíssima Vigem e a derrota dos invasores veio de imediato. Pio V incluiu, então, na Ladainha de Nossa Senhora a invocação : Auxilium christianorum, ora pro nobis (Auxílio dos cristãos, rogai por nós); a segunda foi em 1816, com o Papa Pio VII. Este fora encarcerado por Napoleão e recorreu à Mãe de Deus a fim de encontrar forças para resistir resoluto ao adversário. Demorou um pouco, mas Napoleão perdeu o trono e o Papa voltou a Roma entre aplausos do povo. Em gratidão à Virgem Maria, o Pontífice instituiu a festa de Nossa Senhora Auxiliadora, o Auxilium christianorum, para o dia 24 de maio.

Voltemos à Sagrada Escritura que, dando sequência à opção entre o bem e o mal, mostra como foi por insídia do diabo que o pecado e a morte entraram no mundo, por isso o Senhor Jesus, vida por excelência (Jo 14,6), veio até nós para derrotar o pecado, a morte e o demônio com seu sacrifício de cruz.

Sim, toda vida e obra de Cristo é redentora – redenção é a recuperação de um objeto precioso mediante pagamento, o que supõe um regime de escravidão a ser superado – que pode ser entendida em dois aspectos : a redenção físico-mística ou, como enfatizavam os antigos teólogos orientais, a redenção por contato. Ela significa que desde a Sua conceição no seio materno de Maria, passando pela sua comparação identificadora com objetos diversos (pão, luz, porta, videira, cordeiro etc.), seu batismo, pregação, milagres etc., está em curso o processo de redenção do mundo. Tudo o que tem contato com o homem é transfigurado para uma realidade nova, a realidade recriada por Cristo.

Contudo, é na morte e ressurreição do Senhor que a redenção propiciatória se dá. É nesses eventos que se manifesta o imenso amor puramente benevolente de Deus por nós (cf. Jo 4,10; 2Cor 5,18), cujo Filho se entrega, como sacerdote, altar e cordeiro em expiação (cf. 1Jo 2,2) para derrotar o pecado, a morte e o diabo, realidades reinantes neste mundo até àquela hora.

Se a carne foi o instrumento com o qual o velho homem, Adão, pecou, a carne do novo homem, Cristo, trouxe-nos a salvação. Isso é a recapitulação (usar o mesmo instrumento do mal para o bem, cf. Rm 8,3). Desse modo, o ser humano pecador torna-se, no sacrifício de Cristo, ser humano redimido e, por isso, aberto à graça de Deus.

O demônio foi despojado de seu poder (cf. Jo 12,31; Cl 2,13-15), embora, desde o início, ele quisesse dominar o Senhor Jesus tentando-O diretamente (cf. Mt 4,1-11; Lc 22,3.53) ou instigando os homens contra Cristo (cf. Jo 13,2; 1Cor 2,8). Todas as suas tentativas, diretas ou indiretas, foram, no entanto, frustradas, pois o Senhor Jesus é igual a nós em tudo, menos no pecado. Sua carne humana escondia a Divindade capaz de enfrentar e derrotar todo mal.

A morte também foi derrotada, pois Cristo, inocente como era, nada devia à morte (cf. Jo 12,31; 14,30), por isso ela não pôde detê-lo no cárcere, como tinha feito até aquele momento com os demais homens. Ao contrário, sua aparente derrota imposta ao Senhor serviu-Lhe de ponte para a Sua grandiosa vitória na Ressurreição corporal, centro da mensagem cristã (1Cor 15,14). Assim se dá até hoje, os homens e mulheres continuam, sem exceção, a morrer, mas essa aparente dominação serve de passagem para a vida definitiva em Deus. No dia da consumação final, será a morte totalmente destruída (cf. 1Cor 15,16), embora já esteja derrotada desde a morte e ressurreição do Senhor Jesus.

Daí cantarmos jubilosos no Ofício de Vésperas do Domingo de Páscoa, fazendo referência ao Senhor Jesus : ‘Ó vítima verdadeira, do inferno a porta abris, livrais o povo escravo, dais vida ao infeliz. Da morte o Cristo volta, a vida é seu troféu, o inferno traz cativo, a todos abre o céu’.

Eis como se entende que, apesar de tantos males que assolam a humanidade, especialmente o mal moral causado pelo próprio ser humano, devemos viver, conscientemente, a nossa fé. Fé no Deus vivo e verdadeiro que passa pela cruz, aparentemente derrotado, mas não fica nela. Ressuscita como primícias dos que morreram, ou seja, como modelo ou exemplar do que também acontecerá conosco após as peripécias deste mundo, conforme nos estimula o Salmo 24,14 : ‘Espera no Senhor e tem coragem! Espera no Senhor’!

Confiantes, pois, em Deus que tudo fez por nós, batalhemos e acreditemos que a vida sempre terá a última palavra, pois sabemos que o bem sempre vence o mal, pela força redentora da cruz gloriosa do Senhor Jesus!’
  

Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/o-bem-e-o-mal