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domingo, 21 de fevereiro de 2021

O perigo de se flertar com o mal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘Se pensarmos bem, o conceito de tolerância é um conceito extremamente vago e geralmente utilizado com um viés ideológico em demasia problemático. Se observarmos, por exemplo, o discurso de Martin Luther King, (quem quiser pode baixar o discurso e ler online) em hora nenhuma ele menciona que deveria haver tolerância quanto ao racismo. Em hora nenhuma ele propõe um ‘diálogo’ para resolver os problemas, pois ele sabia que em determinadas situações o diálogo não é mais possível. Ele sabia que o discurso da ‘tolerância’ conduz não, raras vezes, exatamente ao oposto do que ele se propõe. É por isso que precisamos sempre deixar claro a nossa posição, é preciso ser firme contra os discursos de ódio, contra os discursos que ferem a dignidade do sujeito, quer ele seja um discurso religioso, moral, institucional, etc. Não podemos jamais permitir que esses discursos encontrem eco entre nós. Para isso não há diálogo, pois a mínima abertura, nesse caso, pode abrir as portas para o que há de pior em nós.

É exatamente neste sentido que qualquer discurso de ódio que vem seguido da fala ‘foi brincadeira’, ou ‘não quis dizer isso’ deve ser imediatamente interditado. Não deve haver espaço entre nós para que tais discursos de ódio sejam minimizados, pois sob a fala do ‘humor’ e da ‘brincadeira’ se revela uma face cruel do sujeito.

É sabido de todos nós que ninguém nasce odiando ninguém, ninguém nasce com preconceito com ninguém, mas isso é sempre ensinado por uma cultura que tem determinados valores. Valores estes que nunca são ‘eternos’, mas sempre criados socialmente para cumprir demandas específicas no desenvolvimento de cada comunidade humana. É neste sentido que qualquer discurso em nome de ‘valores eternos’ não raramente costuma cair em discursos de ódio contra os semelhantes, ou contra aqueles que não compartilham de tais valores.

É interessante notar que o discurso de ódio também é construído socialmente e vai encontrando eco à medida que é propagado, de tal forma que entre nós, em pleno mundo contemporâneo, eles se tornaram a tônica até mesmo entre os cristãos que supostamente deveriam ser os primeiros a irem contra tais discursos.  Um movimento interessante que se percebe é que se começa apenas flertando com o ódio; isto é, começa-se com a pura negligência em relação às questões estruturais que envolvem a situação do outro, que acaba sendo responsabilizado sem levar em consideração toda a estrutura que o assola; obviamente que a estrutura que envolve o sujeito de forma alguma o determinará de maneira última, mas qualquer análise do comportamento do sujeito que não leve em conta o seu meio não passa de pura análise ideológica.

Em um segundo momento, quando o sujeito assusta, já está tomado pelo ódio de uma forma tal que surgem os discursos de ‘penas mais duras para bandidos’, ‘bandido bom é bandido morto’, ‘tem que matar esses judeus todos’. Assim como esse discurso não nasceu do nada, ele também não cresce do nada. De alguma forma esse discurso alimenta em grande medida um desejo do próprio sujeito, há uma espécie de identificação violenta nesse indivíduo que vê que bandido bom é bandido morto, há uma identificação violenta desse sujeito com o discurso de ódio que ele propaga. Se quisermos podemos até mesmo utilizar as palavras bíblicas de que ‘a boca fala do que tá cheio o coração’. Quando alguém corrobora um discurso violento, um discurso em que despreza o outro, que pede a morte do outro, um discurso em que torna a causa alheia uma causa não digna o que se percebe é que esse sujeito de fato pensa assim, no entanto ele não se vê pensando assim; ele pensa que de fato está corroborando uma causa justa. Como aquela criança que realmente acredita que há soluções simples para causas complexas. Na realidade, o que se pede é a morte do diferente, a morte daquele por quem se tem preconceito, por quem o sujeito julga ser menos humano que a si próprio de forma que pode ser tratado apenas como um animal.

Flertar com o mal é sempre perigoso, ainda mais porque (como já dizia o mito bíblico) ele nunca chega para o sujeito com sua face má, mas travestido de promessas de segurança. Essa é a mesma tentação do jardim do Éden. A tentação de que por meio de uma ação simples, por meio de uma ação infantilizada, por meio de uma escolha do mais fácil será possível ter um poder maior, uma visão melhor das coisas, um mundo melhor, etc. É por isso que se flerta com o mal. A promessa de segurança que o discurso violento traz se mostra para o sujeito uma solução última devido ao ‘caos do jardim’. ‘É certo que não morrereis’ é ao mesmo tempo a promessa e a crença desse sujeito propagador do discurso de ódio. Ele acredita que ele estará isento do ódio propagado socialmente, ele acredita infantilmente que os odiadores saberão diferenciar o ‘cidadão de bem’ do ‘bandido’; eles acreditam infantilmente que há uma linha divisória nítida entre eles, quando na realidade não há linha nenhuma que os separa. É neste sentido que nunca se deve aceitar os discursos de ódio sob pena de que a banalização do mal seja a tônica. Tal banalização do mal nunca deve ser a tônica de nenhuma sociedade, pois a partir do momento que ela se torna a tônica estamos à beira do colapso civilizacional.

Uma tática conhecida do nazismo foi transformar todos os judeus em bandidos, em animais, para que a partir da desumanização deles a população não visse que estavam atacando aos seus semelhantes, mas sim a uma espécie menor, a um ‘não-humano’, que por isso ‘merecia’ ser tratado de forma desumanizada. E na maioria das vezes não eram pessoas ‘ignorantes’, não eram pessoas ‘iletradas’, ‘alienadas’, etc. Vários oficiais da SS possuíam diplomas de curso superior, possuíam doutorados em suas áreas, mas mesmo assim aderiram ao discurso propagado de Hitler na desumanização dos judeus, dos gays, etc. O discurso de ódio é construído socialmente assim como qualquer outro discurso, e se aproveita dos momentos de agitação política para se propagar. Este é o mesmo movimento que culminou no holocausto, mas que alguns entre nós insistem em não enxergar a semelhança. É exatamente neste sentido que temos que admitir que não é uma questão de ignorância do sujeito, mas sim de uma identificação do sujeito com tal discurso, de forma que ele ‘de fato’ pensa assim. E isso talvez seja o que mais assusta, ainda mais quando vindo de pessoas que supostamente deveriam propagar o amor ensinado por Jesus, aquele bandido segundo Roma; aquele presidiário, etc. É por isso que nunca devemos aceitar e nem tolerar os discursos de ódio. Devemos sim lutar contra eles e impedir, no que depender de nós, que eles se propaguem.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1497661/2021/02/o-perigo-de-se-flertar-com-o-mal/

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A outra face dos cristãos perseguidos


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Fernando Félix,
Jornalista


 Testemunhas valentes

Se a perseguição dos Fulani e de outros grupos radicais, como o Boko Haram ou os ex-rebeldes Seleka na Nigéria, na República Centro-Africana e no Níger, ou pelo al-Shabaab no Quénia e na Somália, é um dos maiores problemas para os cristãos na região, o amor de Deus semeado pelos discípulos de Jesus Cristo, sobretudo nas crianças, está a cultivar uma geração de pessoas capazes de testemunhar e transmitir o Evangelho a outras gerações. Os mais novos aprenderam, na prática, que a graça e a compaixão de Deus contrastam com os atos de ignorância, arrogância e terrorismo praticados por extremistas religiosos e grupos interessados nos recursos naturais.

O testemunho heróico dos cristãos africanos acontece mesmo nos países onde os ataques contra as comunidades cristãs são realizados pelo próprio Estado, nomeadamente Argélia, Egito, Eritreia, Líbia, Sudão e Mauritânia. Nestes casos, há uma institucionalização da intolerância, com leis e discursos de ódio contra as religiões que não são as do Estado. O proselitismo, as conversões, a presença de evangelizadores estrangeiros, por exemplo, são proibidos e perseguidos, havendo casos punidos com pena de morte.

Alicerçados na fé

Qaraqosh foi a última cidade de maioria cristã no Iraque a cair nas mãos do autoproclamado Estado Islâmico (EI), em 2014. Como fez em outras localidades, desde que surgiu em 2003, o EI quis subordinar os residentes. A maioria fugiu. Houve assassínios e prática de escravatura ou violência sexual contra as mulheres. Na altura, muitos prognosticaram que não haveria futuro para os cristãos do país. Os números parecem dar razão aos pessimistas : antes de 2003, havia cerca de milhão e meio de cristãos no Iraque, hoje, são perto de 300 mil.

Todavia, em Junho de 2018, os extremistas islâmicos foram expulsos de Qaraqosh e os antigos habitantes cristãos começaram a regressar à cidade. O padre George Jahola, da Igreja Católica Síria, responsável pela paróquia, orgulha-se do modo como a comunidade cristã está a reconstruir-se e a alicerçar o futuro do Cristianismo no Iraque. «Uma das primeiras coisas que me pediram, ainda antes de pensarmos na reconstrução das casas, foi que celebrasse uma missa na igreja completamente danificada, por dentro e por fora», lembrou o padre ao jornal digital Observador. Numa cidade ainda sem escolas nem outros serviços públicos, são as Igrejas cristãs (ortodoxas e católicas) que asseguram essas tarefas.

Em Qaraqosh, como em muitas localidades iraquianas e na vizinha Síria, o objetivo dos jihadistas de eliminar o Cristianismo não foi conseguido. Porque o Cristianismo tem raízes naqueles territórios. No que é hoje o Iraque aconteceram vários episódios bíblicos.

Resistência, diálogo e serviço

Na Ásia, continente onde nasceram as grandes religiões, o Cristianismo continua a ser obstruído e perseguido. Nos países onde os cristãos são minoritários, o ateísmo do Estado (na China e Coreia do Norte) ou a religião que é maioritária e, habitualmente, religião do Estado – seja Islã, Hinduísmo ou Budismo – proíbem qualquer proselitismo que não seja praticado por eles, e os que se convertem sofrem pressões para abandonar a nova religião, são discriminados, presos por blasfêmia ou apostasia e, no extremo, são mortos.

Os 141 milhões de católicos que vivem nos 48 países asiáticos dão testemunho do Evangelho por meio de uma convivência alicerçada no diálogo, na compreensão mútua e na recusa de práticas violentas como retaliação ou afirmação.

São duas as principais causas da perseguição aos cristãos americanos. Por um lado, o conceito que se tem de secularismo e laicidade dos Estados, que tem promovido uma verdadeira teofobia, isto é, rejeição absoluta de tudo o que tem que ver com Deus e a religião. Neste ambiente, os cristãos aprendem a ser fermento. Por outro lado, a lógica da corrupção e do capitalismo selvagem é intolerante para com os cristãos que defendem os direitos dos pobres e do meio ambiente, mas estes mantêm-se firmes.

A Europa assemelha-se à América na teofobia. Todavia, a intolerância religiosa vira-se para os imigrantes e refugiados muçulmanos que estão a chegar ao seu território. Gerou-se uma cultura de suspeição e desconfiança, que quer impedir novas vagas de migrantes.

Os cristãos europeus são chamados a ter um coração inquieto, que não se deixe acomodar, mas que procure fazer algo pela defesa da dignidade de cada pessoa e da concórdia entre os povos e religiões.’


Fonte :  

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Da intolerância ao diálogo: desafios para um Cristianismo atual

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 O Cristianismo é desafiado a passar de uma postura de tolerância para uma postura que seja dialógica.
*Artigo de Fabrício Veliq,
teólogo protestante


Durante muito tempo, o Cristianismo teve uma atitude de intolerância para com as outras religiões. Essa marca registrada em sua história pode ser percebida, principalmente, no período da Idade Média, em que houve grande perseguição a todos e todas que não confessassem aquilo que se entendia, à época, como sendo a doutrina cristã. De religião intolerada o Cristianismo passou a ser religião intolerante, de perseguida, passou a ser perseguidora, afastando-se assim, em muitas situações, de seu início como movimento perseguido.

Na Idade Moderna, esse caráter intolerante também se manifestou com os movimentos contra o desenvolvimento científico e contra as diversas descobertas feitas e que seguiam na contramão daquilo que se entendia, naquele tempo, a respeito da vida e da ordem do mundo. As condenações de Giordano Bruno, Galileu e tantos outros mostram o caráter intolerante da postura assumida por uma Igreja que ainda se via como a única detentora da verdade e que, por isso, não via a necessidade de ouvir vozes que lhe eram divergentes.

Da intolerância, principalmente a partir do século XX, o Cristianismo passa para uma postura tolerante no que tange à questão da ciência e das outras religiões. Com relação às outras religiões, podemos considerar um marco nesse percurso o Concílio Vaticano II, que em um dos documentos afirma a validade das outras religiões, ao dizer que nelas há ‘sementes do Verbo’. Ainda que não seja uma abordagem humilde, não podemos negar que se trata de um olhar mais tolerante com a existência e caminhar das outras religiões.

Um dos sentidos de tolerância é ‘suportar com indulgência, aceitar’. Neste sentido, a postura de tolerância se mostra de alguma forma arredia, de maneira que o que é dito de fato é : ‘tudo bem, não concordo muito com isso que você faz, mas deixo isso passar para conviver melhor com você’. Levando isso para as outras religiões, seria como se o Cristianismo dissesse : ‘Tudo bem que vocês estejam no caminho errado, somente tateando a verdade. Como somos bons, deixamos isso passar e ensinaremos para vocês a respeito do verdadeiro caminho’. Este tipo de atitude, todavia, afasta-se muito de uma postura que tem em Cristo um exemplo de conduta, esvaziamento e humildade, e que tem, na Trindade, um modelo para a comunidade, modelo este que é aberto e dialogal.

Neste sentido, o Cristianismo é, ainda hoje, desafiado a passar de uma postura de tolerância para uma postura que seja dialógica, havendo entre estes dois termos bem simples, grande diferença e grande abismo que os separam.

Uma postura dialógica no diálogo inter-religioso implica abertura ao que é diferente e o reconhecimento dessa outra religião como tendo a mesma dignidade que o Cristianismo supõe ter, tanto para ensinar, quanto para aprender.

Somente assim será possível pensar uma religião cristã que consiga fazer essa passagem da intolerância para o diálogo, algo imprescindível dentro do mundo em que vivemos e que, ao mesmo tempo, manifesta a própria realidade de Deus que é amor, ou seja, um Deus que sempre está disposto a dialogar com todos e todas que chegam até ele. Esses passos, no entanto, não são simples de se dar e exige muita disposição por parte de todo/a aquele/a que se diz cristão/ã. Estaríamos nós, cristãos/ãs de hoje, dispostos/as a esse esforço?


Fonte :

domingo, 20 de agosto de 2017

O mundo em contorções

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

As Cruzadas em terras do Oriente Médio, há muito foram sepultadas, contudo ergueram-se das trevas os exércitos do Estado Islâmico.
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Mais uma vez me faço a antiquíssima pergunta : ‘o que veio primeiro : o ovo ou a galinha?’ Explicando : o mundo está em dolorosas e assustadoras contorções, ou são apenas os noticiários que se multiplicam numa escala geométrica, desnudando assustadoramente essa condição que sempre existiu, mas estava semioculta pela insuficiência dos meios de divulgação? Ou, quem sabe, o que existia era bem menos e menor do que assistimos agora, e por isso não nos causava preocupações como hoje?

Vejamos : a política internacional estava aparentemente calma, os Estados Unidos e Cuba pareciam começar a se entender e a andar de mãos dadas, e de repente os americanos do norte cometeram o desatino de colocar na presidência um excêntrico multimilionário que nunca exerceu um cargo público. E, dizem as más línguas, com a ajuda do serviço secreto soviético. Com isso a relação com Cuba foi para o espaço, mesmo sendo este país um forte aliado dos russos. Dá para entender? Para complicar, a Coreia do Norte, liderada por um estranho e irritadiço filhote de papai, ameaça soltar atômicos fogos de artifício sobre as cabeças de japoneses, coreanos do sul, com sobra suficiente para os americanos do norte. Como Cuba e Coreia do Norte são aliados dos chineses e russos, o mundo fica sob a ameaça de destruição total. E mais : por quatro vezes e meia seguidas! Afinal essa é a possibilidade que eles alardeiam, com base no tamanho do arsenal nuclear que possuem. Pergunto : não bastaria destruí-lo todinho, uma vez só? Como, e para prenunciar a impossível reprise do apocalipse nuclear por tantas vezes?

As Cruzadas em terras do Oriente Médio, há muito foram sepultadas, contudo ergueram-se das trevas os exércitos do Estado Islâmico e as maiores barbáries explodiram nas TVs, nos jornais, nas redes sociais. Seus tentáculos se espalham pelo mundo, destroçando prédios, mutilando pessoas, usando corpos fragmentados de adultos e crianças para, em nome de um deus só existente em mentes doentias, tentar impor suas ideias – se é que as têm.

Deixando o noticiário internacional, volto meu olhar estarrecido para a outrora gentil pátria brasileira. Assisto então, com engulhos, o desfile de insanidades pela mídia noticiosa nacional, com escandalosa repercussão internacional. São revoltas nas penitenciárias, com detentos massacrando, decapitando, adubando com sangue o terreno que irá parir novas e maiores violências; as cracolândias nas médias e grandes cidades, onde verdadeiros zumbis desfilam dia e noite sua desgraça e sua rejeição social; a estupidez dos assaltos a mão armada contra pessoas indefesas, que são agredidas e até assassinadas por terem ousado carregar ‘apenas’ um celular obsoleto ou ter seus bolsos vazios, mesmo sendo isso a consequência do desemprego que castiga milhões de brasileiros. Estupros, patri e matricídios, toda essa indigesta e sanguinolenta salada enriquece matérias jornalísticas e bandeiras eleitorais nunca cumpridas.

Disputando o espaço midiático, talvez para contrabalançar as notícias catastróficas, desfilam pelas colunas sociais mulheres ricamente adornadas, homens sorridentes falando dos novos carros de super luxo, de seus helicópteros e jatinhos executivos, que lhes permitem ficar muito acima e bem mais distantes do comum dos mortais. E o que dizer dos rapazes e moças nessas mesmas colunas – certamente custeados pelos orgulhosos papais – exibindo as caríssimas roupas de grife, muitas delas verdadeiramente ridículas?

Lembrei-me do saudoso Millor Fernandes, que sob o pseudônimo de Vão Gogo pontificou, em formatação atualizada : ‘Quando a gente começa a pensar que os humanos ficaram inteligentes, vem um modista e estraga tudo…’ Quase todos absolutamente alienados do lado obscuro de nosso país, onde falta habitação, comida e roupas descentes, e sobretudo empregos com salários suficientes para proporcionar sobrevivência digna. Parece até que são dois mundos distintos, cada um num sistema planetário totalmente isolado do outro. Para defende-los, alguns se dizem ‘otimistas’ e seguem rigorosamente a cartilha do famoso Joãozinho Trinta, falecido em 2011, e que defendia a riqueza dos carros alegóricos do carnaval carioca e paulista, filosofando : ‘Quem gosta de pobreza é intelectual’.

Discordo, pois quem tem cérebro pensante não gosta de pobreza, apenas a denuncia por não se deixar alienar pelas cores douradas dos três dias de carnaval. Afinal, sua consciência crítica lhe recorda sempre que tudo vai se acabar na quarta-feira de cinzas, exceto o desemprego, a fome e a miséria...

E para encerrar esse triste desfile, surgem em destaque os ilustres políticos, certos juristas e alguns empresários, antes unidos numa relação espúria, mas agora trocando acusações e delações premiadas. Os três grupos, com as calças nas mãos e saudosos de suas mansões, serviçais e limusines, jatinhos e helicópteros, tudo sendo trocado, por golpes do azar – ou será da justiça? – por cubículos gradeados, latrinas devassadas e banhos coletivos de água fria. Isso sem falar das cabeças raspadas – ou quase – recordando-os dos seus cabelereiros (ou melhor será dizer ‘coiffeurs’, para respeitar seus pedigrees?), quase sempre regiamente remunerados com as verbas públicas de representação oficial, ou através dos famigerados cartões corporativos, cujos gastos são secretos porque afirmam ser questão de segurança nacional. E ignorando os federais, os promotores e juízes que ainda teimam em ser honestos, muitos continuam insistindo em criar leis para enriquece-los ainda mais, defendendo a farra dos aumentos de seus já polpudos salários, tripudiando os desempregados e os funcionários com salários congelados e pagamento atrasado, muitos sobrevivendo da caridade alheia.

O mundo está em contorções, como a história diz que esteve no ocaso do império romano, nas corrompidas Sodoma, Gomorra, Pompéia, e tantos outros exemplos lapidares.’


Fonte :

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Vidas ameaçadas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Paulo Aido,
Jornalista, contribui com a Fundação AIS


Em muitos lugares da Nigéria, os cristãos são uma comunidade ameaçada. Além do terrorismo islamita do Boko Haram, que tem trazido a morte e a destruição ao Norte do país, há ainda muito ódio e intolerância à solta.


‘Tudo aconteceu no dia 22 de Agosto. Foram raras as notícias que correram mundo sobre este episódio de invulgar violência. Porém, ali em Talata Mafara, no Estado de Zamfara, na Nigéria Setentrional, ninguém consegue esconder o horror dos gritos daquelas oito pessoas, todas da mesma família, queimadas vivas em sua casa por causa de uma falsa acusação de blasfêmia. Horas antes, um rapaz, jovem estudante do ensino politécnico, foi acusado por um colega, muçulmano, de ter injuriado o profeta Maomé numa discussão. Bastou isso para que tudo se precipitasse de forma dramática. A discussão entre os dois degenerou num tumulto que envolveu quase toda a escola.


Fugir para a morte

Pressentindo o perigo, o jovem estudante fugiu, correndo para sua casa. Julgando estar a salvo, não imaginou, nem por um instante, que estava, isso sim, a condenar à morte toda a sua família. Num instante, a multidão deixou a escola e correu para junto da casa do estudante universitário, deitando fogo à habitação. Os que presenciaram o ataque não conseguem esconder o horror dos gritos dos que estavam a ser queimados vivos. As autoridades, como acontece tantas vezes na Nigéria, chegaram tarde demais. A Igreja depressa condenou mais este episódio de extrema violência contra a comunidade cristã, acusando as forças da ordem de serem «incapazes de perseguir e prender quem ataca os cristãos».


Medo entre os cristãos

Como se não bastasse a violência terrorista da responsabilidade do Boko Haram no Norte da Nigéria, onde este grupo islamita pretende instaurar um califado, os cristãos nigerianos têm também de conviver com a complacência criminosa das autoridades, que não garantem a ordem e segurança das populações. O ataque criminoso que vitimou oito pessoas da mesma família em Talata Mafara demonstra bem como é pouco valiosa a vida dos cristãos em certas regiões da Nigéria. Recentemente, D. Charles Hammawa, bispo na Diocese de Jalingo, reconheceu, em declarações à Fundação AIS, que há «definitivamente, muito medo de perseguição entre os cristãos, o que faz com que alguns comprometam ou escondam a sua fé». Por isso mesmo, acrescenta este prelado, todos «aqueles que permanecem inabaláveis merecem o nosso apoio incondicional». Imagine-se, agora, a coragem que é preciso ter para os cristãos que vivem em Talata Mafara continuarem a assumir publicamente a sua fé depois do público assassínio de uma família, queimada viva em sua casa.’
  

Fonte :


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Mossul, o mais difícil vem depois

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A segunda maior cidade do Iraque deixará de fazer parte do Califado Islâmico.
*Artigo de José Couto Nogueira,
Jornalista


‘A batalha pela cidade iraquiana de Mossul, controlada pelo Califado Islâmico (Daesh) decorre há vários dias, com as forças do ISIS a defender a cidade contra uma coligação de trinta forças diferentes e por em certos casos antagônicas. O desfecho parece inevitável; vai demorar semanas, mas a segunda maior cidade do Iraque deixará de fazer parte do Califado Islâmico.

Está sendo dura, a batalha, mas o mais difícil virá a seguir; o braço de ferro pelo domínio da cidade.

Mossul é segunda maior cidade do Iraque fica ao Norte de Bagdade, perto da fronteira com a região curda. Sunita, foi a primeira cidade importante ocupada pelo ISIS, em Junho de 2014, e foi lá que se auto proclamou o Califado Islâmico.

Como o ISIS é sunita, na altura a população da cidade aderiu ao movimento, pois receava a descriminação do Governo shiita de Bagdade. Nestes dois anos, a violência do ISIS fez com que uma parte fugisse, mas não se sabe como os habitantes que ainda permanecem reagirá à chegada das tropas iraquianas, apoiadas por milícias shiitas. Além disso, os curdos também reivindicam Mossul, argumentando que foram eles que travaram a expansão do Daesh quando o exército iraquiano bateu em retirada. Portanto já temos aqui três forças a reivindicar a cidade : sunitas, shiitas e curdos.

Estas forças são apoiadas, mais ou menos abertamente, pelos países da região.

Os turcos, que até 1918 dominavam toda a península da Arábia, insistem em ter um papel na refrega, contra a vontade dos iraquianos, que consideram sua presença uma invasão. Mas Haider al-Abadi, o primeiro ministro iraquiano, neste contesto não tem forças para os empurrar de volta para a Turquia.

O Irão, shiita, tem atacado o Daesh, mas não gosta dos iraquianos, com quem teve uma guerra brutal ente 1980 e 1988. A Arábia Saudita – que muitos analistas consideram tratar-se do verdadeiro Califado Islâmico, pelo seu radicalismo religioso – diz-se que tem apoiado o Daesh, embora não abertamente, uma vez que é aliada dos Estados Unidos, que são contra o ISIS

A Síria é evidentemente contra o ISIS, que ocupa uma parte do país – a capital do Califado, Raqqa, é em território sírio - mas neste momento não está em situação de atacar o ISIS, a braços com a guerra civil entre-portas que envolve várias facções.

A estes países da região há que acrescentar os americanos e os russos, ambos contra o Califado, mas com prioridades diferentes no teatro de guerra.

Os Estados Unidos basicamente são contra o ISIS e também contra o Governo sírio de Bashar al-Assad, e a favor dos insurgentes sírios (os chamados ‘movimentos islâmicos moderados’), dos curdos e dos iraquianos. Continuam a querer a saída de Al-Assad, mas a agressividade do ISIS e a dificuldade em distinguir os diversos grupos ‘islâmicos moderados’ levou a escolher como inimigo principal o Daesh.

Os russos, ao contrário, são aliados de Bashar al-Assad e, embora digam que querem destruir o Daesh, de fato tem atuado mais contra os insurgentes sírios ‘moderados’ que ameaçam o regime do sanguinário ditador.

Difícil de entender todas estas amizades e inimizades? Sem dúvida. Os próprios beligerantes por vezes parece que não entendem e mudam de adversário preferencial conforme a evolução do conflito.

Voltando a Mossul. Houve uma ofensiva iraquiana na primavera, que não conseguiu desenvolver-se. Os Peshmerga, famosos guerrilheiros curdos, têm vindo a aproximar-se de Mossul lentamente, conquistando cidades dentro da sua região. Desta vez a ofensiva, que demorou meses a coordenar e tem, supostamente, 80 mil homens, é constituída por forças do governo de Bagdade, milícias xiitas (Unidades de Mobilização Popular), milícias de tribos sunitas, milícias iranianas, milícias do Hezbollah, Peshmerga curdos, forças fiéis ao antigo governador de Mossul, e turcos. Pelo ar e como conselheiros no terreno estão os americanos, ingleses e iranianos. Há ainda que considerar os guerrilheiros do PKK (curdos da Turquia) e das Unidades de Proteção Popular (sírias), bem como milícias Yazidis.

Uma questão que com certeza não interessa muito a nenhuma destas forças, mas que está a assustar as organizações humanitárias internacionais, é os perigos que corre a população civil de Mussul, calculada entre um milhão e um milhão e meio de pessoas.

Afirmou o coordenador da ONU para os Direitos Humanos : ‘não acusem os civis de Mossul de pertencerem ao ISIS, e que não haja execuções sumárias, nem de civis nem de membros do Califado Islâmico’. Os que ainda permanecem na cidade, em parte porque querem, em parte porque o ISIS não os deixa sair, apanhados no fogo cruzado, são potenciais vítimas de franco-atiradores ou podem ser utilizados como escudos-humanos. A ONG Save the Children calcula que há 500 mil crianças entre eles.

Há muito mais em jogo nesta batalha do que a tomada da cidade. Joga-se o futuro do Iraque como um país unido, com as fronteiras tradicionais. Está em causa o Governo de Bagdad, que poderá não resistir a uma derrota ou a uma vitória pouco nítida. A autonomia dos curdos e yazidis também depende do terreno que conseguirem conquistar, para negociações posteriores sobre o seu estatuto. É a primeira vez que os Peshmerga curdos e os soldados iraquianos, inimigos desde sempre, estão do mesmo lado numa batalha.

Moqtada al Sadr, o clérigo xiita que liderou o exército de Mahdi no combate à ocupação norte-americana, (ainda não tínhamos falado neste...) disse que a batalha de Mossul é uma guerra entre o governo de Bagdad e os terroristas, e que o Iraque deve recusar o apoio turco em nome da soberania iraquiana; o Presidente turco, Erdogan, atirou que ‘está fora de questão a Turquia ficar fora da ‘operação Mossul’’ acrescentando que o pais estará na operação militar e na mesa de negociações; o parlamento iraquiano já votou uma moção em que considera a presença turca como ‘ocupação’ e violação de soberania.

O antigo governador de Mossul, acusado de ser o responsável pela queda de Mossul às mãos do ISIS também tem a sua milícia pessoal, que é apoiada pela Turquia e também quer ter uma palavra a dizer à mesa dos vitoriosos.

Calcula-se entre 30 mil e 80 mil atacantes a Mossul, mas é impossível saber o número certo, dada a diversidade das forças e a desconfiança mútua. Quanto ao ISIL, avalia-se que terá entre quatro a oito mil combatentes. Não se sabe como será possível distinguir entre combatentes e civis, ou entre os combatentes dos diversos grupos. Certamente que alguns aproveitarão para abater outros atacantes no meio da confusão, e entre os defensores há oportunidades para ajustes de contas.

Finalmente, os europeus, que não têm nenhum papel numa região que é estrategicamente essencial para a Europa, também se pronunciaram sobre a tomada de Mossul, pela voz do Comissário da Segurança, Julian King :

O retomar [do controle] do reduto do Califado no norte do Iraque, Mossul, pode levar a um regresso à Europa de combatentes violentos do ISIS’.

Com todos estes interesses em jogo, o mais provável é que depois da tomada de Mossul se realizem as tais conversações à volta de uma mesa em que, logo para começar, se discutirá quem terá direito a sentar-se. E enquanto se briga à mesa, com certeza se brigará nas ruas, casa a casa, para ocupar espaço vital, proteger pessoas desta ou daquela facção e liquidar famílias da outra e aqueloutra, por ódio e por contas antigas, nunca saldadas.

Não é exagero dizer que Mossul e Alepo, a outra cidade mártir, devem ser os piores lugares do planeta nos próximos meses.’
  

Fonte :


quarta-feira, 30 de março de 2016

Paquistão : as madrassas e os “cristãos das catacumbas”

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 lahore Cristiani-Pakistan

‘No domingo da Ressurreição, o Paquistão mergulhou de novo nas profundezas do ódio e da morte. Em Lahore, na região central do país, um suicida se explodiu em um parque repleto de famílias que celebravam com alegria.

O saldo (infelizmente) provisório é de 72 vítimas, incluindo 30 crianças, e pelo menos 340 feridos. A maioria pertence à comunidade cristã do Paquistão, 4% de uma população de preponderância muçulmana e que é alvo, pela enésima vez, de ataques atrozes.

A chacina alimentou um clima de tensão e de alarme. Em conversa com Zenit, quem fala desse clima é o professor Shahid Mobeen, que leciona Pensamento e Religião Islâmica na Pontifícia Universidade Lateranense e é fundador da Associação de Paquistaneses Cristãos na Itália.

Após o ataque, as minorias religiosas ficaram apavoradas. É difícil sair de casa’, explica ele, com base nos contínuos testemunhos que recebe por telefone de seu país. Mobeen conta que sua irmã estava em Lahore no domingo. Com ela e outros membros da família ‘está tudo bem’, porque tinham ficado em casa com outros parentes.

Parece que retornaram os tempos das catacumbas para os cristãos do país asiático. ‘Muitos pais estão evitando mandar os filhos para a escola e muitos também evitam os locais de maior aglomeração’.

Era o caso, no domingo, do parque infantil de Gulshan-e-Iqbal, onde muitas famílias cristãs comemoravam a tarde de Páscoa depois de terem participado das celebrações religiosas.

O ataque foi reivindicado pelos jihadistas do grupo Jamatul Ahrar, ligado ao principal grupo do Taliban paquistanês (Tehrik e Taleban Pakistan – TTP). Pode ser uma mostra de força do Taliban diante do Estado Islâmico (EI), que busca apoio entre as franjas mais extremistas do islã no Paquistão. Mobeen recorda que, ‘recentemente, foi desbaratado um grupo que pretendia criar uma filial do EI no Paquistão. Existem campos de treinamento onde os mujaheddin são recrutados pelo EI para cometer ataques não só no Paquistão, mas também no exterior’.

Muitos analistas interpretam o ataque em Lahore como um sinal enviado ao governo, que tem se mostrado disposto a alterar a lei antiblasfêmia introduzida em 1986 e que vem gerando muitas injustiças (e vítimas) entre os cristãos. Além de condenar à pena de morte quem ‘insulta’ a religião islâmica, essa lei tem sido usada muitas vezes como pretexto para indiciar, aprisionar e até linchar sem prova alguma os assim chamados ‘infiéis’.

Eu não acho que seja um sinal desse tipo’, objeta Mobeen. Ele acredita que, com este ataque, o grupo TTP ‘quis registrar a sua presença em Lahore para o primeiro-ministro Nawaz Sharif’, que é da cidade. O professor recorda ainda que o Talibã ‘já atacou várias outras áreas do país, como as que fazem fronteira com o Afeganistão e as do Sul’.

A demonstração de instabilidade do Paquistão ameaça a visita do papa Francisco, que recebeu o convite do governo de Islamabad faz algumas semanas. De acordo com Mobeen, a presença do papa no Paquistão se torna agora uma quimera, porque o ataque ‘mostrou todas as falhas de segurança das autoridades’ – autoridades, aliás, que, apesar dos discursos, parecem impotentes diante do crescimento do fundamentalismo islâmico, atribuído por Mobeen ao papel das madrassas, escolas corânicas que, ao longo dos anos e graças a abundante financiamento do exterior, têm corroído lentamente a educação pública no país.

Mobeen observa que os pais, ‘muitas vezes, sem contarem com escolas do Estado, são obrigados a enviar seus filhos às madrassas’, onde as crianças podem acabar doutrinadas para a jihad. Especialmente quando essas instituições são zonas francas do islamismo mais radical, livres de qualquer monitoramento.

De 40 mil madrassas no território nacional, as registradas pelo Estado e que seguem um mínimo do currículo não chegam a 8.000’, diz Mobeen. Isto significa que ‘cerca de 32 mil madrassas, frequentadas por centenas de milhares de crianças, são potenciais promotoras da ‘guerra santa’ contra o Ocidente, contra a democracia e contra as instituições’.

Para mudar a situação, Mobeen pede ao governo paquistanês que reative o Ministério Federal das Minorias, porque ‘nós, cristãos, não somos dhimmi (indivíduos não-muçulmanos) a ser protegidos, mas sim co-fundadores do Paquistão com pleno direito de cidadania’. A paz não passa pela proteção de uma minoria, mas pelo reconhecimento da igualdade de oportunidades.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

'Os terroristas não têm religião'

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A lua crescente, símbolo islâmico

‘Os ataques em Paris alimentaram de novo o fantasma do chamado ‘choque de civilizações’ e a tentação de identificar o islã com o fundamentalismo e o terrorismo. Diante disso, muitos imãs e fiéis muçulmanos de todo o mundo condenaram as ações dos militantes do Estado Islâmico, observando que esses comportamentos estão longe dos preceitos da sua religião.

Uma das mais veementes manifestações veio de Ahmed Al-Tayeb, imã da mesquita de Al-Azhar, no Cairo, uma das mais altas autoridades do islã sunita : ‘Nós condenamos com força este ataque hediondo e absurdo perpetrado em nome da religião. É hora de o mundo inteiro se unir contra o terrorismo’.

Palavras duras vieram também de Hocine Drouiche, imã de Nimes e vice-presidente do Conselho de Imames da França : ‘Condenamos fortemente esses ataques criminosos. O islã é a religião da fraternidade, da abertura, do respeito. Os muçulmanos vivem com dignidade na França, na Itália, na Grã-Bretanha e em todas as nações europeias. Este ataque não pode ser feito em nome do islã, que significa vida e esperança e não ódio e morte. Hoje não é só a França que é atacada e atingida, mas toda a humanidade. Todos os muçulmanos são convidados a condenar esses ataques com manifestações e declarações, para não deixar o islã refém de ignorantes e extremistas. A maioria dos muçulmanos é tolerante e aberta. Uma minoria de extremistas não pode interromper e arruinar a nossa convivência e fraternidade’.

A condenação mais forte veio de Shuja Shafi, secretário geral do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha : ‘Meus pensamentos e minhas orações estão com as famílias das vítimas e dos feridos e com todos os franceses, nossos vizinhos. Este ataque foi reivindicado por um grupo autodenominado Estado Islâmico. Não há nada de islâmico nessas pessoas. As suas ações são o mal e se situam fora dos limites estabelecidos pela nossa fé’.

Queremos mostrar a nossa solidariedade a todos os franceses’, disse o presidente da União das Comunidades Islâmicas da Itália, Izzedin Elzir, em entrevista ao canal TV2000. ‘Esses ataques terroristas não são ataques contra os franceses, mas contra toda a humanidade. É um momento de raiva, dor e condenação total, sem rodeios, sem ‘se’ e sem ‘mas’. Estamos abertos ao diálogo com todos. Queremos deixar claro que o extremismo e o terrorismo não fazem parte do islã. Este é o papel da comunidade islâmica’.

Para Sami Salem, imã da mesquita da Via Magliana, em Roma, ‘isto não é islã, mas terrorismo. Chegou o momento de unir forças para enfrentar este monstro. É crucial explicar antes de mais que no islã não há nenhum apelo à violência nem se contempla a possibilidade de matar o próximo. Muçulmanos e cristãos têm raízes comuns. Estes são atos que nada têm a ver com a religião, que é explorada por pessoas que fazem interpretações erradas e fanáticos das escrituras sagradas’.

Nas redes sociais, milhares de muçulmanos de todo o mundo têm escrito contra a violência em Paris e compartilhado a hashtag #NotInMyName. Muitos citaram uma passagem do alcorão : ‘Matar um homem inocente é como matar a humanidade inteira’.

Há medo de que os ataques atinjam também o diálogo intercultural e alimente a intolerância religiosa, o racismo e o populismo.

Os terroristas não têm religião’ é um dos slogans mais frequentemente no Twitter. ‘Eu sou imã britânico e condeno estes ataques bárbaros. Rezo a Deus por todas as vítimas e pelas suas famílias’, escreveu Mansur Ahmad Clarke. ‘Atenção : antes de culpar os muçulmanos ou o islã pelos crimes em Paris, lembrem-se de que o Estado Islâmico já matou mais de 100 mil muçulmanos nos últimos dois anos’, escreveu um usuário chamado Ahmed.

As palavras de condenação também vêm de líderes de países muçulmanos. ‘Estes ataques são uma violação de todas as éticas, morais e religiões’, disse o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel Al-Jubeir.

O rei Abdallah, da Jordânia, expressou ‘profundo pesar e tristeza’ e sua solidariedade com a França. ‘Estes ataques não curvarão a vontade dos países que amam a liberdade’, disse o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi. O presidente iraniano, Hassan Rohani, definiu os ataques como ‘crimes contra a humanidade’.’  


Fonte :


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Mártir da superstição

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


 A beatificação de Benedict Daswa será eficaz se gerar um debate mais aberto e alargado sobre a questão da cura/medicina tradicional e transmitir claramente a mensagem libertadora do Evangelho.


‘A África do Sul acaba de beatificar o seu primeiro filho, Benedict Daswa. A cerimonia ocorreu no dia 13 de Setembro em Tshitanine, uma aldeia na província de Limpopo já próxima da fronteira com o Zimbabué e pertencente à diocese de Tzaneen, cujo bispo é João Rodrigues, um sul-africano de origem portuguesa.

Tshimangadzo Samuel Benedict Daswa era professor primário e pai de oito filhos, que viveu santamente : era um trabalhador diligente, um bom pai de família, um educador dinâmico, um leigo ativo, um catequista comprometido, um líder comunitário, um desportista, um homem atento aos pobres e de profunda espiritualidade e oração. Morreu como um mártir porque foi brutalmente assassinado pela sua oposição à prática da feitiçaria. Tinha 43 anos.

O seu martírio ocorreu da seguinte maneira : em Novembro de 1989, houve uma série de tempestades severas naquela região, fenomenos que não eram considerados naturais. A sua aldeia foi afetada em Janeiro de 1990. Os anciãos decidiram recorrer à magia de um feiticeiro. Cada residente teria de pagar cinco rands para que os ritos de «proteção» da aldeia fossem efetuados. Benedict recusou-se a pagar a taxa exigida, explicando que não lhe era permitido pela sua fé. No dia 2 de Fevereiro, foi emboscado pelos jovens e homens da aldeia, que primeiro o tentaram lapidar, e depois lhe fraturaram o crânio e lhe queimaram a cabeça com água a ferver. As suas últimas palavras foram : «Senhor, nas tuas mãos entrego o meu espírito

Daswa, que se tinha convertido ao Cristianismo em 1963, com 17 anos, por meio de um amigo que encontrara em Joanesburgo, revela ainda uma atitude de grande liberdade em relação a outros costumes tradicionais, como a sua igualmente malvista colaboração nos trabalhos domésticos, geralmente reservados às mulheres, como lavar as fraldas das crianças no riacho mais próximo ou ir buscar água para a família. Porém, o que está na origem do seu martírio é claramente a sua oposição à feitiçaria. E é nesta prática que o Cristianismo encontra, porventura, o maior obstáculo ao grande desafio que representa a inculturação em África.

A superstição não é de maneira nenhuma exclusiva da África. Aliás, mesmo na Europa, é mais prevalente do que sabemos e do que estaremos preparados para admitir. Mas parece que a crença em bruxas e no seu poder está mais profundamente arreigado na alma africana. Os feiticeiros são consultados não só para a cura de doenças, mas também para a remoção de maldições ou para ter sorte nos amores, nos negócios e noutros empreendimentos. O grande problema é quando a sua consulta tem por finalidade causar mal a alguém e, deste modo, violar os seus direitos, a mais elementar justiça e sobretudo a dignidade humana. Segundo as notícias, não é raro matar crianças indefesas, como os albinos, para extrair partes e órgãos depois usados na preparação de pós (muti) com «propriedades curativas e/ou protetoras».

O Cristianismo, apesar do seu crescimento exponencial no continente, com a sua mensagem de um Deus-amor que é pai/mãe parece ainda não ter contribuído significativamente para debelar o medo causado pela crença no mundo sobrenatural dos espíritos. A beatificação de Benedict Daswa será eficaz se gerar um debate mais aberto e alargado sobre a questão da cura/medicina tradicional, transmitir claramente a mensagem libertadora do Evangelho e contribuir para dissipar o temor instintivo associado à relação com os espíritos.’


Fonte :