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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Há luzes e sombras na liberdade religiosa nos EUA, dizem bispos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Giovanni Zavatta


‘Luzes e sombras, medidas encorajadoras apoiadas por decisões da Suprema Corte, mas também questões críticas preocupantes, como o aumento contínuo da polarização e da violência política: o relatório sobre o estado da liberdade religiosa nos Estados Unidos, publicado em 17 de fevereiro pelo Comitê competente da Conferência Episcopal Católica, alterna avaliações favoráveis ​​e decididamente negativas.

O documento resume os desdobramentos (até 2025) de questões nacionais e políticas federais que impactam a liberdade religiosa, incluindo o papel da fé na vida pública do país e os desafios e oportunidades atuais. Esses desenvolvimentos, enfatiza o relatório, estão ocorrendo enquanto os Estados Unidos se preparam para celebrar o 250º aniversário da Declaração de Independência em 4 de julho : um momento oportuno para refletir sobre como esses ideais e valores cristãos moldaram a cultura americana.

A este respeito, os bispos decidiram consagrar a nação ao Sagrado Coração de Jesus no final da Assembleia Plenária do episcopado em junho (provavelmente no dia 12, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus).

Aumento da violência política e da polarização 

O relatório identifica seis áreas de fundamental importância: violência política e antirreligiosa; condições injustas em subsídios federais e falta de prestação de contas do governo; acesso aos Sacramentos para detidos pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) e fiscalização da imigração em locais de culto; liberdade de escolha escolar e crédito tributário federal para bolsas de estudo; revogação de disposições que impedem organizações religiosas de participar de programas governamentais; e maior combate à ideologia de gênero.

O arcebispo Alexander King Sample, de Portland, Oregon, presidente do Comitê para a Liberdade Religiosa, resume os principais pontos no prefácio. Talvez o mais preocupante seja o aumento contínuo da violência política. A polarização há muito lamentada pelos bispos parece estar resultando em ataques graves. E o sentimento e a retórica antissemitas dentro das instituições tradicionais parecem estar em ascensão.

Além disso, o arcebispo Sample observa que ‘a abordagem agressiva do governo na aplicação das leis de imigração gerou preocupações sobre a frequência à igreja, reduzindo a participação nas Missas e levando alguns bispos a isentar os fiéis da observância do domingo’.

Entre outras coisas, o Departamento de Segurança Interna revogou as diretrizes que exigiam que, na ausência de circunstâncias excepcionais, os agentes de imigração obtivessem aprovação da sede da agência antes de realizar verificações em ou perto de áreas protegidas, como hospitais, escolas e igrejas. ‘Grande parte da nossa vida nacional é marcada por inimizade e conflito’, comenta o prelado com amargura, referindo-se a ‘ataques e represálias’ que também tiveram como alvo representantes católicos e a atentados a bomba e tiroteios que interromperam algumas cerimônias religiosas.

Não faltam desenvolvimentos favoráveis

A Conferência Episcopal destaca prontamente os desenvolvimentos positivos. No primeiro ano de seu segundo mandato, o presidente Donald Trump criou uma Comissão sobre Liberdade Religiosa e, posteriormente, emitiu uma ordem executiva exigindo que as agências federais revogassem os regulamentos que impedem as organizações religiosas de participar plenamente de programas que visam o bem comum.

O Congresso também aprovou um projeto de lei que, ‘embora deficiente em muitos aspectos’, inclui uma disposição que pode abrir caminho para uma expansão significativa da escolha escolar.

O relatório também cita várias decisões da Suprema Corte que receberam o apoio da Igreja Católica, como a que reconhece o direito dos pais de isentar seus filhos de programas de escolas públicas sobre identidade de gênero e sexualidade quando estes entram em conflito com as crenças religiosas da família, ou a que se recusou a estabelecer pessoas transgênero como uma categoria ‘igualmente protegida’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-02/estados-unidos-bispos-liberdade-religiosa-luzes-sombras.html

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

O perigo de se flertar com o mal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘Se pensarmos bem, o conceito de tolerância é um conceito extremamente vago e geralmente utilizado com um viés ideológico em demasia problemático. Se observarmos, por exemplo, o discurso de Martin Luther King, (quem quiser pode baixar o discurso e ler online) em hora nenhuma ele menciona que deveria haver tolerância quanto ao racismo. Em hora nenhuma ele propõe um ‘diálogo’ para resolver os problemas, pois ele sabia que em determinadas situações o diálogo não é mais possível. Ele sabia que o discurso da ‘tolerância’ conduz não, raras vezes, exatamente ao oposto do que ele se propõe. É por isso que precisamos sempre deixar claro a nossa posição, é preciso ser firme contra os discursos de ódio, contra os discursos que ferem a dignidade do sujeito, quer ele seja um discurso religioso, moral, institucional, etc. Não podemos jamais permitir que esses discursos encontrem eco entre nós. Para isso não há diálogo, pois a mínima abertura, nesse caso, pode abrir as portas para o que há de pior em nós.

É exatamente neste sentido que qualquer discurso de ódio que vem seguido da fala ‘foi brincadeira’, ou ‘não quis dizer isso’ deve ser imediatamente interditado. Não deve haver espaço entre nós para que tais discursos de ódio sejam minimizados, pois sob a fala do ‘humor’ e da ‘brincadeira’ se revela uma face cruel do sujeito.

É sabido de todos nós que ninguém nasce odiando ninguém, ninguém nasce com preconceito com ninguém, mas isso é sempre ensinado por uma cultura que tem determinados valores. Valores estes que nunca são ‘eternos’, mas sempre criados socialmente para cumprir demandas específicas no desenvolvimento de cada comunidade humana. É neste sentido que qualquer discurso em nome de ‘valores eternos’ não raramente costuma cair em discursos de ódio contra os semelhantes, ou contra aqueles que não compartilham de tais valores.

É interessante notar que o discurso de ódio também é construído socialmente e vai encontrando eco à medida que é propagado, de tal forma que entre nós, em pleno mundo contemporâneo, eles se tornaram a tônica até mesmo entre os cristãos que supostamente deveriam ser os primeiros a irem contra tais discursos.  Um movimento interessante que se percebe é que se começa apenas flertando com o ódio; isto é, começa-se com a pura negligência em relação às questões estruturais que envolvem a situação do outro, que acaba sendo responsabilizado sem levar em consideração toda a estrutura que o assola; obviamente que a estrutura que envolve o sujeito de forma alguma o determinará de maneira última, mas qualquer análise do comportamento do sujeito que não leve em conta o seu meio não passa de pura análise ideológica.

Em um segundo momento, quando o sujeito assusta, já está tomado pelo ódio de uma forma tal que surgem os discursos de ‘penas mais duras para bandidos’, ‘bandido bom é bandido morto’, ‘tem que matar esses judeus todos’. Assim como esse discurso não nasceu do nada, ele também não cresce do nada. De alguma forma esse discurso alimenta em grande medida um desejo do próprio sujeito, há uma espécie de identificação violenta nesse indivíduo que vê que bandido bom é bandido morto, há uma identificação violenta desse sujeito com o discurso de ódio que ele propaga. Se quisermos podemos até mesmo utilizar as palavras bíblicas de que ‘a boca fala do que tá cheio o coração’. Quando alguém corrobora um discurso violento, um discurso em que despreza o outro, que pede a morte do outro, um discurso em que torna a causa alheia uma causa não digna o que se percebe é que esse sujeito de fato pensa assim, no entanto ele não se vê pensando assim; ele pensa que de fato está corroborando uma causa justa. Como aquela criança que realmente acredita que há soluções simples para causas complexas. Na realidade, o que se pede é a morte do diferente, a morte daquele por quem se tem preconceito, por quem o sujeito julga ser menos humano que a si próprio de forma que pode ser tratado apenas como um animal.

Flertar com o mal é sempre perigoso, ainda mais porque (como já dizia o mito bíblico) ele nunca chega para o sujeito com sua face má, mas travestido de promessas de segurança. Essa é a mesma tentação do jardim do Éden. A tentação de que por meio de uma ação simples, por meio de uma ação infantilizada, por meio de uma escolha do mais fácil será possível ter um poder maior, uma visão melhor das coisas, um mundo melhor, etc. É por isso que se flerta com o mal. A promessa de segurança que o discurso violento traz se mostra para o sujeito uma solução última devido ao ‘caos do jardim’. ‘É certo que não morrereis’ é ao mesmo tempo a promessa e a crença desse sujeito propagador do discurso de ódio. Ele acredita que ele estará isento do ódio propagado socialmente, ele acredita infantilmente que os odiadores saberão diferenciar o ‘cidadão de bem’ do ‘bandido’; eles acreditam infantilmente que há uma linha divisória nítida entre eles, quando na realidade não há linha nenhuma que os separa. É neste sentido que nunca se deve aceitar os discursos de ódio sob pena de que a banalização do mal seja a tônica. Tal banalização do mal nunca deve ser a tônica de nenhuma sociedade, pois a partir do momento que ela se torna a tônica estamos à beira do colapso civilizacional.

Uma tática conhecida do nazismo foi transformar todos os judeus em bandidos, em animais, para que a partir da desumanização deles a população não visse que estavam atacando aos seus semelhantes, mas sim a uma espécie menor, a um ‘não-humano’, que por isso ‘merecia’ ser tratado de forma desumanizada. E na maioria das vezes não eram pessoas ‘ignorantes’, não eram pessoas ‘iletradas’, ‘alienadas’, etc. Vários oficiais da SS possuíam diplomas de curso superior, possuíam doutorados em suas áreas, mas mesmo assim aderiram ao discurso propagado de Hitler na desumanização dos judeus, dos gays, etc. O discurso de ódio é construído socialmente assim como qualquer outro discurso, e se aproveita dos momentos de agitação política para se propagar. Este é o mesmo movimento que culminou no holocausto, mas que alguns entre nós insistem em não enxergar a semelhança. É exatamente neste sentido que temos que admitir que não é uma questão de ignorância do sujeito, mas sim de uma identificação do sujeito com tal discurso, de forma que ele ‘de fato’ pensa assim. E isso talvez seja o que mais assusta, ainda mais quando vindo de pessoas que supostamente deveriam propagar o amor ensinado por Jesus, aquele bandido segundo Roma; aquele presidiário, etc. É por isso que nunca devemos aceitar e nem tolerar os discursos de ódio. Devemos sim lutar contra eles e impedir, no que depender de nós, que eles se propaguem.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1497661/2021/02/o-perigo-de-se-flertar-com-o-mal/