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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Há luzes e sombras na liberdade religiosa nos EUA, dizem bispos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Giovanni Zavatta


‘Luzes e sombras, medidas encorajadoras apoiadas por decisões da Suprema Corte, mas também questões críticas preocupantes, como o aumento contínuo da polarização e da violência política: o relatório sobre o estado da liberdade religiosa nos Estados Unidos, publicado em 17 de fevereiro pelo Comitê competente da Conferência Episcopal Católica, alterna avaliações favoráveis ​​e decididamente negativas.

O documento resume os desdobramentos (até 2025) de questões nacionais e políticas federais que impactam a liberdade religiosa, incluindo o papel da fé na vida pública do país e os desafios e oportunidades atuais. Esses desenvolvimentos, enfatiza o relatório, estão ocorrendo enquanto os Estados Unidos se preparam para celebrar o 250º aniversário da Declaração de Independência em 4 de julho : um momento oportuno para refletir sobre como esses ideais e valores cristãos moldaram a cultura americana.

A este respeito, os bispos decidiram consagrar a nação ao Sagrado Coração de Jesus no final da Assembleia Plenária do episcopado em junho (provavelmente no dia 12, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus).

Aumento da violência política e da polarização 

O relatório identifica seis áreas de fundamental importância: violência política e antirreligiosa; condições injustas em subsídios federais e falta de prestação de contas do governo; acesso aos Sacramentos para detidos pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) e fiscalização da imigração em locais de culto; liberdade de escolha escolar e crédito tributário federal para bolsas de estudo; revogação de disposições que impedem organizações religiosas de participar de programas governamentais; e maior combate à ideologia de gênero.

O arcebispo Alexander King Sample, de Portland, Oregon, presidente do Comitê para a Liberdade Religiosa, resume os principais pontos no prefácio. Talvez o mais preocupante seja o aumento contínuo da violência política. A polarização há muito lamentada pelos bispos parece estar resultando em ataques graves. E o sentimento e a retórica antissemitas dentro das instituições tradicionais parecem estar em ascensão.

Além disso, o arcebispo Sample observa que ‘a abordagem agressiva do governo na aplicação das leis de imigração gerou preocupações sobre a frequência à igreja, reduzindo a participação nas Missas e levando alguns bispos a isentar os fiéis da observância do domingo’.

Entre outras coisas, o Departamento de Segurança Interna revogou as diretrizes que exigiam que, na ausência de circunstâncias excepcionais, os agentes de imigração obtivessem aprovação da sede da agência antes de realizar verificações em ou perto de áreas protegidas, como hospitais, escolas e igrejas. ‘Grande parte da nossa vida nacional é marcada por inimizade e conflito’, comenta o prelado com amargura, referindo-se a ‘ataques e represálias’ que também tiveram como alvo representantes católicos e a atentados a bomba e tiroteios que interromperam algumas cerimônias religiosas.

Não faltam desenvolvimentos favoráveis

A Conferência Episcopal destaca prontamente os desenvolvimentos positivos. No primeiro ano de seu segundo mandato, o presidente Donald Trump criou uma Comissão sobre Liberdade Religiosa e, posteriormente, emitiu uma ordem executiva exigindo que as agências federais revogassem os regulamentos que impedem as organizações religiosas de participar plenamente de programas que visam o bem comum.

O Congresso também aprovou um projeto de lei que, ‘embora deficiente em muitos aspectos’, inclui uma disposição que pode abrir caminho para uma expansão significativa da escolha escolar.

O relatório também cita várias decisões da Suprema Corte que receberam o apoio da Igreja Católica, como a que reconhece o direito dos pais de isentar seus filhos de programas de escolas públicas sobre identidade de gênero e sexualidade quando estes entram em conflito com as crenças religiosas da família, ou a que se recusou a estabelecer pessoas transgênero como uma categoria ‘igualmente protegida’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-02/estados-unidos-bispos-liberdade-religiosa-luzes-sombras.html

 

domingo, 21 de maio de 2023

De trincheiras a pontes

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Rita Figueiras


‘No âmbito do LVII Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco refere na mensagem anual que vivemos um período da História marcado por polarizações. Estes antagonismos, outrora evidentes apenas na política e em períodos eleitorais, estão a galgar o cenário político e a impregnar-se na vida quotidiana.

O problema não está na existência de antagonismos na sociedade : as divergências sempre foram salutares e estruturadoras da vida democrática, pelo que este regime político nunca pretendeu extinguir o conflito. A cultura democrática sempre se caracterizou pela capacidade de transformar inimigos em adversários legítimos, garantindo a todos o direito de defenderem as suas ideias. Este «pluralismo agonístico» manifesta-se, assim, através da aceitação e complementaridade entre propostas distintas, bem como na capacidade de integrar os embates políticos entre grupos com opiniões divergentes. Contudo, nos últimos anos, parece ser cada vez mais difícil enquadrar a crescente animosidade social nos princípios democráticos, assistindo-se a uma reversão destes valores.

O crescimento da polarização afetiva é uma das consequências. Esta caracteriza-se pelo rancor e intolerância exacerbados em relação aos adversários, perspectivando-os como inimigos com os quais não se consegue conviver e se deseja eliminar. Deste modo, os valores democráticos parecem, por si só, incapazes de conter as emoções negativas florescentes, bem como manter a palavra, a escuta e o debate como formas de gerir conflitos sociais. Estas transformações ajudam a explicar porque é que o espaço social está a tornar-se uma esfera de ressentimento, raiva e intolerância.

O ecossistema de comunicação atual potencia este tipo de sentimentos ao alimentar laços negativos entre as pessoas. As tão famosas bolhas digitais, movidas a animosidade, fomentam uma retórica fragmentária e produzem câmaras de eco. Isto quer dizer que promovem a constituição de grupos que pensam de forma semelhante, enquanto paulatinamente instigam a radicalização das suas ideias e, principalmente, a intolerância contra todos os que não são exatamente iguais a si.

Estes desenvolvimentos políticos, sociais e digitais estão a desestabilizar profundamente as sociedades e a contaminar as relações pessoais sem que, na maioria das vezes, as pessoas tenham a noção de como é que elas são transformadas por estes processos. Neste ambiente, a prática da escuta, do diálogo e do consenso não são promovidos, antes pelo contrário : este contexto cultiva a incivilidade e a desumanização. Todavia, se queremos algo diferente, precisamos de agir de modo diferente. Recuperar práticas saudáveis de comunicar não resolve os problemas profundos das nossas sociedades, mas, ainda que não sejam uma via suficiente, são, claramente, uma via necessária : uma comunicação cordial, aberta e acolhedora é uma componente estruturante do que se chama cimento social e este é imprescindível para transformarmos trincheiras em pontes.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/960/de-trincheiras-a-pontes/

domingo, 1 de agosto de 2021

O magistério de Francisco e a questão racial

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Manoel Godoy, SJ

 

‘Por tudo o que o papa Francisco faz e fala, podemos considerá-lo um aliado importante na luta contra o racismo. Essa perspectiva precisa ser enquadrada num campo maior, não somente nas falas diretas contra o racismo. Ele vem insistindo na cultura do ‘encuentro y cercania’. Com esta cultura, crê Francisco que teremos condições de entabular diálogos construtivos rumo a uma sociedade mais fraterna.

Na sua mais recente encíclica, o papa Francisco fez uma análise da conjuntura mundial onde ele destaca elementos que dificultam essa cultura. No primeiro capítulo, sob o nome de ‘Sombras de um Mundo Fechado’ ele elenca os principais sinais dos tempos, que configuram um cenário sombrio contrário à fraternidade. O papa constata que a conjuntura histórica vem dando passos à atrás, contrários o que se sonhou de um mundo globalizado e fraterno. Esperava-se um mundo mais integrado, superando conflitos antigos e criando base para um mundo onde o diálogo marcaria o concerto entre as nações, porém, o que se vê é o ressurgimento de nacionalismos fechados, exasperados, ressentidos e agressivos. Neste cenário, o descarte de seres humanos, a obsessão de cortar custos trabalhistas, a globalização sem rumo humano, a pandemia, a cruel exploração dos migrantes e o racismo são as constantes.

Francisco chama a atenção para a perda da consciência histórica. Diz : uma maneira eficaz de dissolver a consciência histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os percursos de integração é esvaziar de sentido ou manipular grandes palavras, tais como democracia, liberdade, justiça, unidade. Critica a falta de um projeto que alcance a todos e não somente a alguns privilegiados. Vê como grande ameaça à fraternidade e à amizade social o mecanismo político em voga de exasperar, exacerbar e polarizar. Tal política suscita um clima de todos contra todos, onde o vencer é sinônimo de destruir. Hoje, um projeto com grandes objetivos para o desenvolvimento de toda a humanidade soa como um delírio. Lembra do projeto do cuidado da casa comum e do desinteresse por ele da parte dos poderosos do mundo.

Alerta também para a cultura e política do descarte mundial, onde não só os alimentos ou os bens supérfluos são objetos de descarte, mas muitas vezes os próprios seres humanos. Nesse mundo dominado por interesses econômicos, aumentou a riqueza, mas não a equidade e assim nascem novas formas de pobrezas. E nessa perspectiva, denuncia que os direitos humanos não são suficientemente universais.

Importante constatação do papa Francisco também de que a solidão, os medos e a insegurança de tantas pessoas que se sentem abandonadas pelo sistema, fazem com que se crie um terreno fértil para o crime organizado. Este se apresenta como protetor dos esquecidos, cria uma rede que gera dependências de todo o tipo e fomenta uma sociedade marcada pela violência sistêmica. Na verdade, multiplicam-se cruelmente situações de violência em muitas regiões do mundo, a ponto de assumir os contornos daquele se poderia chamar uma terceira guerra mundial em pedaços. Nosso mundo avança em uma dicotomia sem sentido, pretendendo garantir a estabilidade e a paz com base em uma falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança.

Sobre a pandemia da covid-19, o papa diz que por algum tempo ela fez perceber que todos estamos no mesmo barco; que temos um destino comum; que ninguém se salva sozinho. A corrida para um mundo onde o eixo é o mercado e onde tudo deve estar submetido aos seus ditames, de repente, com a pandemia teve um pequeno freio. Num parágrafo extremamente metafórico, Francisco descreve essa situação da seguinte maneira : alimentamo-nos com sonhos de esplendor e grandeza, e acabamos por comer distração, fechamento e solidão; empanturramo-nos de conexões e perdemos o gosto da fraternidade. Buscamos o resultado rápido e seguro, e nos encontramos oprimidos pela impaciência e a ansiedade. Prisioneiros da virtualidade, perdemos o gosto e o sabor da realidade. A pandemia poderia fazer-nos repensar nosso estilo de vida, nossas relações, a organização de nossas sociedades e, sobretudo, o sentido de nossa existência. Francisco retoma um conceito tão caro a ele e já desenvolvido na Laudato Sí – tudo está interligado. Crê que ele se aplique bem nessa realidade pandêmica.

Um outro tema muito caro ao papa Francisco é a realidade da migração. Defende o direito dos migrantes de serem tratados fraternalmente, pois são pessoas dotadas de dignidade intrínseca de toda e qualquer pessoa. Critica o desenvolvimento de uma mentalidade xenófoba e lamenta que entre os que praticam esse sentimento haja pessoas que se dizem cristãs. Retoma sua afirmação de que as migrações constituirão uma pedra angular do futuro e do mundo. Por isso, é urgente superar sentimentos racistas e buscar uma convivência integrada entre todos os povos, não deixando que o medo nos prive do desejo e da capacidade de encontrar o outro.

E diretamente sobre o racismo, ele afirma : ‘O descarte do ser humano, que hoje se alastra, exprime-se de variadas maneiras como, por exemplo, na obsessão por reduzir os custos laborais sem se dar conta das graves consequências que provoca, pois, o desemprego daí resultante tem como efeito direto alargar as fronteiras da pobreza. Além disso, o descarte assume formas abjetas, que julgávamos já superadas, como o racismo que se dissimula, mas não cessa de reaparecer. De novo nos envergonham as expressões de racismo, demonstrando assim que os supostos avanços da sociedade não são assim tão reais nem estão garantidos duma vez por todas.

E em outro momento, afirma : ‘Existem periferias que estão próximas de nós, no centro duma cidade ou na própria família. Também há um aspecto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial : a capacidade diária de alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim. Por outro lado, cada irmã ou cada irmão que sofre, abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um forasteiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país. Pode ser um cidadão com todos os documentos em ordem, mas fazem-no sentir como um estrangeiro na sua própria terra. O racismo é um vírus que muda facilmente e, em vez de desaparecer, dissimula-se, mas está sempre à espreita.

E quando de sua ida a Lampedusa, onde chegam os navios vindos da África, trazendo fugitivos de regime de fome e de tortura de alguns países daquele continente, o papa Francisco denunciou a globalização da indiferença que nos tirou a capacidade de chorar. Afirmou : a cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão : estas são bonitas, mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, e dizemos não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!.

E por ocasião dos protestos contra o assassinato de George Floyd, nos EUA, disse : ‘queridos amigos, não podemos tolerar nem fechar os olhos para qualquer tipo de racismo ou de exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana.’ E quando da celebração do Dia Internacional para a eliminação da discriminação racial, o papa em um tuíte enfatiza que o racismo é um vírus que se transforma facilmente e, em vez de desaparecer, se esconde, mas está sempre à espreita. As manifestações de racismo renovam em nós a vergonha, demonstrando que os progressos da sociedade não estão assegurados de uma vez por todas.

Considerando que o papa Francisco, na época Cardeal Jorge Bergoglio, coordenava a equipe de redação das conclusões de Aparecida, podemos assumir a perspectiva da Quinta Conferência neste texto em que destacamos a questão do racismo e o papa Francisco. ‘A Igreja denuncia a prática da discriminação e do racismo em suas diferentes expressões, pois ofende no mais profundo a dignidade humana criada a ‘imagem e semelhança de Deus’. Preocupa-nos que poucos afro-americanos cheguem à educação superior, sem a qual se torna mais difícil seu acesso às esferas de decisão na sociedade. Em sua missão de advogada da justiça e dos pobres a Igreja se faz solidária aos afro-americanos nas reivindicações pela defesa de seus territórios, na afirmação de seus direitos, na cidadania, nos projetos próprios de desenvolvimento e consciência de negritude. A Igreja apoia o diálogo entre cultura negra e fé cristã e suas lutas pela justiça social, e incentiva a participação ativa dos afro-americanos nas ações pastorais de nossas Igrejas e do Celam. A Igreja com sua pregação, vida sacramental e pastoral precisará ajudar para que as feridas culturais injustamente sofridas na história dos afro-americanos, não absorvam, nem paralisem a partir do seu interior, o dinamismo de sua personalidade humana, de sua identidade étnica, de sua memória cultural, de seu desenvolvimento social nos novos cenários que se apresentam’ (533).

Por tudo isso, podemos considerar o papa Francisco em um grande aliado na luta pela superação do racismo e de todas as desigualdades e preconceitos que marcam a sociedade atual.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1530447/2021/07/o-magisterio-de-francisco-e-a-questao-racial/

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Por trás das fake news

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)       


 Livro 'Os mercadores da dúvida', de Naomi Oreskes e Erik Conway
Livro 'Os mercadores da dúvida',
de Naomi Oreskes e Erik Conway

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras
credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Fake news. Com o advento das redes sociais, o termo se tornou amplamente difundido. Em alguns casos, chega até a ser mal empregado. Quem é escravo de ideologias, sobretudo no Brasil, transforma qualquer ataque a seu messias político numa ‘perseguição da grande mídia’. Claro, todo e qualquer meio de comunicação possui sua linha editorial, e por mais que o uso de determinadas linguagens pareça forçado, o preocupante é que, hoje, mitos não podem mais ser questionados. E num lugar onde a mídia não questiona, a democracia está com seus dias contados.

Cristalizaram determinadas figuras dentro de uma bolha de santidade, e quando nos deparamos com os ‘políticos que estão no mercado’, vemos o quanto o brasileiro médio carece de referências. Qualquer ‘louco da última hora’ se apropria do status de libertador hoje em dia. Mas a verdade mesmo é que jamais nos libertaremos de nada enquanto continuarmos canonizando a ignorância de todos os lados.

E não se trata de criar uma ‘elite cultural brasileira’, incentivando a ascensão de figuras soberbas e ‘iluminadas’ que surgem das prateleiras empoeiradas de uma biblioteca repleta de livros viciados. Mais do que nunca, é necessário incentivar o debate e vencer essa polarização insuportável, a qual impulsiona, ao invés disso, a formação de uma ‘elite cultural da imbecilidade’. Sem dúvida, gritos, pancadões, palavrões, jargões da lacração e todos os superlativos de um grupo treinado para eliminar todo discurso que se opõe, não salvará o Brasil de absolutamente nada. Pelo contrário : o conduzirá cada vez mais para o buraco.

E o que vemos por aí é um fenômeno novo que não pode ser comparado ao messianismo de Canudos ou aos populismos do século passado, mas colhe desses movimentos alguns elementos. Os especialistas já falam de um neopopulismo, caracterizado por uma ‘doutrina de ideias’ que se desenvolve independente do espectro político no qual se estrutura. Em 2013, o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov também falava de um novo messianismo caracterizado pela ‘promoção de guerras humanitárias’.

O ‘vamos salvar o Brasil de...’ virou slogan de várias propagandas eleitorais, transformando o diferente, o outro, não simplesmente num adversário político, mas em alguém que precisa, em outras palavras, ser atacado na sua dignidade, escorraçado, eliminado e até agredido. O pior de tudo é justificar essa ações com as prerrogativas do ‘homem de bem’ e do ‘bom cristão’, o que é completamente contraditório.

Sim, o buraco das fake news está muito mais embaixo. São ideologias populares que manipulam discursos e, ainda por cima, os financiam. Falo de quem fatura muito com o pânico, com os negacionismos e com essa ‘guerra fria’ católica. O livro ‘Os mercadores da dúvida’, dos historiadores Naomi Oreskes e Erik Conway, que já citei em outros artigos, é profético. Os especialistas mostram como cientistas influentes emprestaram sua visibilidade para contestar a ciência a partir de acordos milionários com políticos, empresários e lobistas. O mais chocante é que há religiosos que têm vendido a alma dessa forma, não somente por causa de suas convicções particulares, mas porque os ‘ismos’ do tempo presente se tornaram rentáveis. É mais que fake News; é fazer vista grossa para a incoerência.’



Fonte :
*Artigo na íntegra

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Tesouro em vaso de barro

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Ã‚ A inteligente referência à imagem simbólica do vaso de barro, que guarda o tesouro da fé, é um recurso com força pedagógica, usado pelo apóstolo Paulo, em sua missão desenvolvida em contextos urbanos semelhantes aos atuais.
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘O tesouro da fé, com sua força sustentadora, é indispensável alicerce para a humanidade, ainda que as assimilações das práticas religiosas e políticas tenham desvirtuado a vivência da fé. Assim, o que deveria ser uma rica experiência se distanciou da essência da verdade e do amor, próprios desse tesouro, causando prejuízos e perda de credibilidade.

O retorno às fontes da fé, à sua vivência testemunhal, longe das perigosas divisões e tendências ideológicas, comprova a retomada de um caminho iluminado capaz de qualificar a condição existencial de cada pessoa e, consequentemente, a sua cidadania, conduzindo a humanidade na direção do amor e da verdade.

 A inteligente referência à imagem simbólica do vaso de barro, que guarda o tesouro da fé, é um recurso com força pedagógica, usado pelo apóstolo Paulo, em sua missão desenvolvida em contextos urbanos semelhantes aos atuais. Um tempo marcado pelas polarizações e arriscada relativização de valores e princípios. A exemplo do que se assiste hoje, grupos e segmentos se digladiavam, provocando preocupante distanciamento do tesouro da fé.

Os argumentos ideológicos na defesa da fé se aproximam, pelos extremos, da conduta daqueles que a instrumentalizam por interesses político-partidários. Conduzem ao caos, acelerando o enfraquecimento das relações entre os que creem. Incapacitam ou impedem que a força da fé reoriente os caminhos da humanidade na direção do amor de Deus. Nesse horizonte, lamentavelmente, os cristãos gastam muito tempo com disputas a partir de suas diferenças. Deixam-se engolir por dinâmicas hegemônicas, de caráter partidário, acentuando ainda mais os distanciamentos.

É fato que as disputas crescentes e as resistências multiplicadas não contribuem para a construção de um novo tempo, e retardam a recepção do que é genuíno da fé, pela Palavra de Deus, com a força própria da tradição. Assim, pode-se perceber que o ponto de partida das divisões não é a autenticidade da fé, mas a disputa a partir de lugares que evidenciam queda de braço entre ideologias de matizes diferentes. O contexto revela um confronto que não encontrará a solução do entendimento e do fortalecimento, a exemplo do que requer a construção de uma sociedade assentada nas dinâmicas do desenvolvimento integral - com crescimento sustentável e relações cidadãs em parâmetros civilizatórios que permitam o diálogo.

Vale pensar o próprio constitutivo da fé a partir da escuta que impulsiona ao indispensável diálogo, capaz de fazer das diferenças a riqueza e a consequente força criativa de reconstrução. Mas, ao contrário, fala-se muito sem escutar integralmente o outro e a si mesmo. Discurso autodestrutivo que se configura por descompassos, rigidez, acusações.

É fundamental ter presente o discernimento de que a palavra do cristão, inspirada pelo Espírito Santo, deve ser edificante, incluir a correção, a crítica necessária e, sobretudo, o compartilhamento de nova compreensão, de entendimentos que construam e desenvolvam novas condutas à luz dos valores do Evangelho. O cristão é morada do Espírito Santo, logo, o que diz e o que faz há de ser movido por esse mesmo Espírito. Na contramão dessa direção e dessas dinâmicas, já não é Deus quem age.

Por isso mesmo, a cidadania civil precisa da qualificada cidadania cristã. Algo que se constrói na vivência da fé e tem seu ponto de partida no retorno à fonte dessa mesma fé. Mas dos assoreamentos dessa fonte, vêm o risco das disputas figadais sem solução, empurrando indivíduos ao contexto de criminalização por falta de respeito à inviolável dignidade de toda pessoa. O momento cultural e sociopolítico, como também religioso, indica a importância de assimilação e práticas que, cotidianamente, devolvam as pessoas à necessária conexão com a força transformadora da fé, recebendo desse tesouro uma sabedoria com claridade própria para entendimentos, correções e alinhamentos em busca do bem e da verdade.

Urge a purificação dos interesses partidários hegemônicos, com a transparência de propósitos e a estrita fidelidade aos valores cristãos inegociáveis, para o retorno à fonte inesgotável da fé e, assim, beber de sua água com toda a humildade. A luz da fé é a única que possibilita enxergar o invisível e tem em si as propriedades para fazer de cada cristão uma força de amor nesta configurada crise, abrindo o ciclo de contribuições que só o evangelho pode oferecer, em diálogos construtivos, entendimentos na busca da verdade e da fraternidade solidária.’


Fonte :