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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

É mentira que cada um tenha a “sua verdade”: a Verdade não é relativa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 PONTIUS PILATE, CHRIST


‘O bispo da diocese norte-americana de Phoenix, dom Thomas Olmsted, escreveu um artigo em que fala do conceito da Verdade, que Cristo identificou consigo próprio : ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida’.

‘Os homens e as mulheres têm fome insaciável da verdade; almejam respostas e sentido na vida. Nós fomos criados para a verdade porque fomos feitos à imagem de Deus. Pela nossa própria natureza como pessoas humanas, somos ordenados à verdade, temos fome de verdade e temos a obrigação moral de buscá-la’.

Ele retoma a definição apresentada por São Tomás de Aquino em sua obra máxima, a Suma Teológica :

‘A verdade é a conformidade do intelecto à realidade, seja do mundo físico, seja do mundo espiritual’.

Esta definição afirma a existência de uma realidade objetiva e não subjetiva : ‘ela existe independentemente do nosso conhecimento ou opinião’.

Este conceito objetivo encontra resistências ferozes em muita gente da nossa época : as pessoas ‘têm dificuldades para aceitar um conceito elementar de verdade’ porque preferem considerá-la como suposta ‘construção social’, como algo subjetivo, que cada um pode moldar ao seu bel-prazer e conveniência.

‘Reclamar a verdade absoluta, aquela em que todos devem crer e que todos devem seguir, é considerado por muitos como algo imoral, porque seria impôr a própria crença aos outros. Aos poucos, a verdade é catalogada como intolerância e preconceito contra o pensar dos outros.’ 

‘Houve tempos em que as pessoas mantinham um conjunto compartilhado de crenças em Deus e naquilo que Deus ensina e espera. Numa cultura pluralista, o Direito Natural era a base essencial para se construírem pontos em comum. Na sociedade contemporânea, o Direito Natural se reduz em geral a um não fator, o que implica um passo atrás na realidade, um passo atrás no mundo criado por Deus, uma retirar-se para dentro da mente de cada um, o que leva a perder por completo o contato com a realidade. É o que acontece quando nos distanciamos da realidade e buscamos a verdade em nossa própria mente em vez de buscá-la na criação e na revelação de Deus’.

A consequência dessa relativização da verdade já era exposta por São Paulo em sua Carta aos Romanos, na qual ele critica os homens que, ‘pela sua injustiça, mantêm a verdade refém (…) Substituíram a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo às criaturas em vez do Criador, que é bendito eternamente’.

O bispo continua, contundente :

‘Esta confusa noção da realidade chamada relativismo está no coração da crise que ameaça a cultura hoje. O relativismo muda o foco da realidade para o sujeito individual. E, dado que as pessoas têm percepções diferentes, a verdade é vista como relativa. Isto, porém, só pode levar a uma ‘ditadura’ de opiniões, porque quando não podemos apoiar-nos na realidade e na razão para provar o nosso argumento, ficamos discutindo e lutando pelo poder, o que resulta em caos e até mesmo em violência’.

A plena Verdade é o próprio Cristo.

‘O próprio Jesus é a Verdade, uma Verdade que vem de fora do mundo, mas que dá sentido ao mundo; uma Verdade absoluta e imutável. Quanto mais buscarmos a Verdade e quanto mais rápido nos conformarmos à Sua Santa Vontade, seja ela manifestada nas leis imutáveis da natureza, seja ela revelada na Sagrada Escritura, mais rapidamente encontraremos o significado, a felicidade e a realização para as quais fomos criados. Portanto, quanto mais conhecermos o Senhor, mais conheceremos a Verdade; porque a Verdade não é simplesmente um conjunto de fatos, mas um relacionamento pessoal com Deus. Diferente do relativismo, que constrói a sua casa na areia das opiniões subjetivas, Cristo nos chama a edificar a nossa vida sobre a rocha que é Ele. A Verdade tem o seu próprio poder, um poder que nenhum mal vencerá. Jesus encarna a esperança do triunfo final da verdade’.’


Fonte :

terça-feira, 10 de setembro de 2019

O problema da ditadura do relativismo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Prof. Felipe Aquino



O Papa Emérito Bento XVI usou essa expressão para explicar o regime filosófico que se deseja impor no mundo. Há duas formas de ditadura : das armas e da cultura. Essa última é muito pior, porque dura muito mais tempo. A expressão relativismo mostra a ideia central, isto é, a ausência da verdade absoluta, renascimento de uma ideologia antiga. É uma ditadura, porque deseja proibir você de sustentar o contrário. Tudo passa a ser, então, relativo, exceto o próprio relativismo, que é um absurdo.

Ora, se tudo é relativo e não existe a verdade objetiva, então, a própria afirmação ‘tudo é relativo’ ou ‘não existe verdade absoluta’ também não podem ser tidas como verdadeiras. Além do relativismo ser um grave erro, que destrói as bases da civilização, o pior de tudo é não admitir que alguém dele discorde. Essa triste mentalidade, na verdade, é uma lógica muito esperta e maldosa daqueles que desejam eliminar a religião. Se a liberdade é absoluta para pensar no que eu quero, então, todas as afirmações são igualmente aceitas, e você joga tudo no mesmo saco, mentiras e verdades.

A incoerência se nota quando se percebe que os defensores da verdade absoluta são perseguidos e caluniados; ora, então ‘a liberdade não é tão absoluta nem a verdade tão relativa’, como disse o amigo advogado Rafael Vitola. E ele afirma, com razão, que ‘o que está por trás disso não é o amor à liberdade, mas o ódio à verdade. Sob a capa de uma liberdade absoluta – que, aliás, seria imoral –, esconde-se a mais terrível das tiranias. Na realidade, nem os que propugnam a verdade relativa nela acreditam. Pensam, no fundo, que ela é absoluta – pois negam a liberdade a seus opositores. Sua agravante é a hipocrisia. E a hipocrisia – atroz e autoritária – é sua arma principal’.

O relativismo está na moda?

É a luta do bem contra o mal; a luta da verdade contra a mentira, da luz contra as trevas. Na homilia que o então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa emérito Bento XVI, pronunciou na Missa ‘Pro Eligendo Pontífice’, celebrada no dia 18 de abril de 2005, às vésperas de sua eleição como Papa, ele disse :

‘Quantos ventos de doutrina conhecemos nestas últimas décadas, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento. A pequena barca do pensamento de muitos cristãos, com frequência, fica agitada pelas ondas, levadas de um extremo a outro: do marxismo ao liberalismo, até o libertinismo; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo etc. A cada dia, nascem novas seitas e se realiza o que diz São Paulo sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir no erro (cf. Efésios 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é etiquetado com frequência como fundamentalismo.

Enquanto que o relativismo, ou seja, o deixar-se levar «guiados por qualquer vento de doutrina», parece ser a única atitude que está na moda. Vai-se construindo uma ‘ditadura do relativismo’, que não reconhece nada como definitivo e que só deixa como última medida o próprio eu e suas vontades’.

Nós temos outra medida : o Filho de Deus, o verdadeiro homem. Ele é a medida do verdadeiro humanismo. «Adulta» não é uma fé que segue as ondas da moda e da última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente arraigada na amizade com Cristo. Essa amizade nos abre a tudo o que é bom e nos dá a medida para discernir entre o verdadeiro e o falso, entre o engano e a verdade’.

Bento XVI e João Paulo II

Em outra ocasião, na visita à Polônia, na Praça da Vitória (Pilsudski) de Varsóvia, a mesma onde, em 1979, João Paulo II exaltou os seus compatriotas, encorajando-os a vencer o governo comunista, o Papa emérito Bento XVI convidou os 300 mil fiéis que participaram da Eucaristia, a ‘não cair na tentação do relativismo ou da interpretação subjetiva e seletiva da Sagrada Escritura’, denunciando a tentativa da parte de ‘pessoas ou ambientes falsificarem a Palavra de Deus e retirar do Evangelho as verdades’ segundo eles, ‘demasiado incômodas para o homem moderno’.

O Papa anterior, João Paulo II, foi à Polônia para combater o comunismo. Bento XVI voltou lá para combater o ‘relativismo religioso’ e a ‘ditadura do relativismo’, as novas bases do secularismo. Para esse relativismo, que nega que possa haver uma verdade absoluta e permanente, ficando por conta de cada um definir a ‘sua’ verdade e aquilo que lhe parece ser o seu bem, ‘a pessoa se torna a medida de todas as coisas’, como dizia o filósofo grego Protágoras.

Evidentemente, a Igreja rejeita isso, porque há verdades que são permanentes. As verdades da fé e da moral cristã são perenes, porque foram dadas por Deus. Cristo afirmou solenemente : ‘Eu sou a Verdade’ (Jo 14,6); ‘a verdade vos libertará’ (Jo 8,32); e Ele disse a Pilatos que veio ao mundo exatamente ‘para dar testemunho da verdade’ (Jo 18,37). São Paulo disse que ‘Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade’ (1Tm 2,4), e que ‘a Igreja é a coluna e o fundamento da verdade’ (1Tm 3,15).

O dicionário da Verdade

Ora, se negarmos que existe a verdade objetiva e perene, o Cristianismo fica destruído desde a sua raiz. O Evangelho é o dicionário da Verdade. Segundo o relativismo, no campo moral não existe ‘o bem a fazer e o mal a evitar’, pois o bem e o mal são relativos. Isso destrói completamente a moral católica que moldou o Ocidente e a nossa civilização. Ele ignora a lei natural, que é a lei de Deus colocada na consciência de todo ser humano, desde que ele dispõe do uso da razão.

Por causa do relativismo moral, os governantes propõem leis contra a Lei Natural que Deus colocou no coração de todos os homens. Dessa forma, a palavra do legislador humano vai superando a do Legislador Divino, que é a mesma para todos os homens. Quem não estiver dentro do ‘politicamente correto’ é anulado, desprezado, zombado com cinismo e perseguido.

O relativismo derruba as normas morais válidas para todos os homens. Ele é ateu, ele vê, na religião e na moral católicas, um obstáculo e um adversário, pois Deus é visto como um escravizador do homem e a moral católica destinada a tornar o homem infeliz. O relativismo atual coloca a ciência como uma deusa que vai resolver todos os problemas do homem; e que está acima da moral e da religião, mas se esquece de dizer que o homem nunca foi tão infeliz como hoje; nunca houve tantos suicídios, nunca se usou tanto antidepressivo e remédio para os nervos; nunca se viu tanta decadência moral, destruição da família e da sociedade.

Uma nova ‘teologia liberal’

O relativismo é embalado também pelo ceticismo e utilitarismo, que só aceita o que pode ajudar a viver num bem-estar hedonista aqui e agora. Há uma aversão ao sacrifício e à renúncia. Infelizmente, esse perigoso relativismo religioso, que tudo destrói, penetrou sorrateiramente também na Igreja, especialmente nos seminários e na teologia. Isso levou o Papa João Paulo II a alertar os bispos na Encíclica Veritatis Spendor, de 1992, sobre o perigo desse relativismo que anula a moral católica. No centro da ‘crise’, o Papa viu uma grave ‘contestação ao patrimônio moral da Igreja’.

Ele diz : ‘Não se trata de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática do patrimônio moral. Rejeita-se, assim, a doutrina tradicional sobre a lei natural, sobre a universalidade e a permanente validade dos seus preceitos; consideram-se simplesmente inaceitáveis alguns ensinamentos morais da Igreja’ (n. 4).

E chama a atenção para o fato grave de que ‘a discordância entre a resposta tradicional da Igreja e algumas posições teológicas está acontecendo mesmo nos Seminários e Faculdades eclesiásticas’. (idem) No centro da ‘crise moral’ enfatizada pelo Pontífice, ele revela qual é a sua causa – o homem quer ocupar o lugar de Deus : ‘A Revelação ensina que não pertence ao homem o poder de decidir o bem e o mal, mas somente a Deus’ (Gen 2,16-17). Não é lícito que cada cristão queira fazer a fé e a moral segundo o ‘seu’ próprio juízo do bem e do mal.

É por causa desse relativismo moral que encontramos, vez ou outra, religiosos e sacerdotes que aceitam o divórcio, o aborto, a pílula do dia seguinte, o casamento de homossexuais, a ordenação de mulheres, a eutanásia, a inseminação artificial, a manipulação de embriões, o feminismo e outros erros que o Magistério da Igreja condena explicitamente.

Esse mesmo relativismo é a razão que move os contestadores do Papa, do Vaticano, dos Bispos e da hierarquia da Igreja, como se tivessem usurpado o poder sagrado, e não recebido do próprio Cristo pelo sacramento da Ordem. Esse relativismo fez surgir na Igreja uma ‘teologia liberal’ de Rudolf Bultman, que por sua vez alimentou uma teologia ‘da libertação’, uma teologia ‘feminista’, e agora falam já de uma ‘teologia gay’.


Fonte :

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Tesouro em vaso de barro

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Ã‚ A inteligente referência à imagem simbólica do vaso de barro, que guarda o tesouro da fé, é um recurso com força pedagógica, usado pelo apóstolo Paulo, em sua missão desenvolvida em contextos urbanos semelhantes aos atuais.
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘O tesouro da fé, com sua força sustentadora, é indispensável alicerce para a humanidade, ainda que as assimilações das práticas religiosas e políticas tenham desvirtuado a vivência da fé. Assim, o que deveria ser uma rica experiência se distanciou da essência da verdade e do amor, próprios desse tesouro, causando prejuízos e perda de credibilidade.

O retorno às fontes da fé, à sua vivência testemunhal, longe das perigosas divisões e tendências ideológicas, comprova a retomada de um caminho iluminado capaz de qualificar a condição existencial de cada pessoa e, consequentemente, a sua cidadania, conduzindo a humanidade na direção do amor e da verdade.

 A inteligente referência à imagem simbólica do vaso de barro, que guarda o tesouro da fé, é um recurso com força pedagógica, usado pelo apóstolo Paulo, em sua missão desenvolvida em contextos urbanos semelhantes aos atuais. Um tempo marcado pelas polarizações e arriscada relativização de valores e princípios. A exemplo do que se assiste hoje, grupos e segmentos se digladiavam, provocando preocupante distanciamento do tesouro da fé.

Os argumentos ideológicos na defesa da fé se aproximam, pelos extremos, da conduta daqueles que a instrumentalizam por interesses político-partidários. Conduzem ao caos, acelerando o enfraquecimento das relações entre os que creem. Incapacitam ou impedem que a força da fé reoriente os caminhos da humanidade na direção do amor de Deus. Nesse horizonte, lamentavelmente, os cristãos gastam muito tempo com disputas a partir de suas diferenças. Deixam-se engolir por dinâmicas hegemônicas, de caráter partidário, acentuando ainda mais os distanciamentos.

É fato que as disputas crescentes e as resistências multiplicadas não contribuem para a construção de um novo tempo, e retardam a recepção do que é genuíno da fé, pela Palavra de Deus, com a força própria da tradição. Assim, pode-se perceber que o ponto de partida das divisões não é a autenticidade da fé, mas a disputa a partir de lugares que evidenciam queda de braço entre ideologias de matizes diferentes. O contexto revela um confronto que não encontrará a solução do entendimento e do fortalecimento, a exemplo do que requer a construção de uma sociedade assentada nas dinâmicas do desenvolvimento integral - com crescimento sustentável e relações cidadãs em parâmetros civilizatórios que permitam o diálogo.

Vale pensar o próprio constitutivo da fé a partir da escuta que impulsiona ao indispensável diálogo, capaz de fazer das diferenças a riqueza e a consequente força criativa de reconstrução. Mas, ao contrário, fala-se muito sem escutar integralmente o outro e a si mesmo. Discurso autodestrutivo que se configura por descompassos, rigidez, acusações.

É fundamental ter presente o discernimento de que a palavra do cristão, inspirada pelo Espírito Santo, deve ser edificante, incluir a correção, a crítica necessária e, sobretudo, o compartilhamento de nova compreensão, de entendimentos que construam e desenvolvam novas condutas à luz dos valores do Evangelho. O cristão é morada do Espírito Santo, logo, o que diz e o que faz há de ser movido por esse mesmo Espírito. Na contramão dessa direção e dessas dinâmicas, já não é Deus quem age.

Por isso mesmo, a cidadania civil precisa da qualificada cidadania cristã. Algo que se constrói na vivência da fé e tem seu ponto de partida no retorno à fonte dessa mesma fé. Mas dos assoreamentos dessa fonte, vêm o risco das disputas figadais sem solução, empurrando indivíduos ao contexto de criminalização por falta de respeito à inviolável dignidade de toda pessoa. O momento cultural e sociopolítico, como também religioso, indica a importância de assimilação e práticas que, cotidianamente, devolvam as pessoas à necessária conexão com a força transformadora da fé, recebendo desse tesouro uma sabedoria com claridade própria para entendimentos, correções e alinhamentos em busca do bem e da verdade.

Urge a purificação dos interesses partidários hegemônicos, com a transparência de propósitos e a estrita fidelidade aos valores cristãos inegociáveis, para o retorno à fonte inesgotável da fé e, assim, beber de sua água com toda a humildade. A luz da fé é a única que possibilita enxergar o invisível e tem em si as propriedades para fazer de cada cristão uma força de amor nesta configurada crise, abrindo o ciclo de contribuições que só o evangelho pode oferecer, em diálogos construtivos, entendimentos na busca da verdade e da fraternidade solidária.’


Fonte :