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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Delírios e lições

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

  Achar-se a única referência ou a exclusiva fonte para se alcançar soluções é não se perceber como aprendiz

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

 

‘A pandemia da Covid-19 expõe, ao mesmo tempo, delírios e lições. Os delírios tornam-se evidentes nos descompassos sociais, a exemplo do descaso com os pobres, ou a partir das inabilidades dos representantes do povo. Situações que pedem mudanças, a partir do aprendizado de muitas lições. Esse aprendizado requer renovação de mentalidades, de práticas e de estilos de vida. Um reconhecimento dos equívocos em determinadas escolhas que incidem não apenas no mundo da política, mas também no campo da cultura e, lamentavelmente, até mesmo na esfera religiosa. Diante da necessidade de se aprender muitas lições, oportuno é lembrar-se de que a eficácia na aprendizagem depende de um importante aspecto : as pessoas, indistintamente, assumirem a condição de discípulos, uma nuance compartilhada por Jesus, em sua maestria.

Ensina muito e bem quem se coloca na condição de aprendiz. Essa condição permite o compartilhamento de convicções e experiências. E a atitude de compartilhar é vetor de mudanças, caminho para alcançar metas capazes de responder ao clamor do povo sofrido. Por isso, precisam estar matriculados na condição de aprendizes, prioritariamente, os que sufragam seus nomes em eleições, pois é lastimável constatar o despreparo de representantes do povo no exercício de suas funções. Falta substrato humanístico e há indiferença em relação à meta de se edificar uma sociedade solidária. Quando se analisa o conjunto de situações da atualidade, avaliando o desempenho de líderes de diferentes lugares do mundo, chega-se facilmente a uma conclusão : mudanças são necessárias. Percebe-se que a humanidade está aprisionada em entendimentos equivocados. E a qualidade de entendimentos é importante termômetro para avaliar a condição de uma civilização.

Essa qualidade depende dos processos educativos responsáveis pela formação do ser humano. Por isso mesmo, é preocupante quando um país convive com o sucateamento do campo educacional, confiando-o a mãos inábeis, a agentes pouco lúcidos. A consequência desse mal é a desconsideração e o desperdício da capacidade humana para promover o desenvolvimento integral da sociedade. Urgente é, pois, investir educativamente no desenvolvimento de entendimentos adequados, de pessoas capazes de conduzir a sociedade a partir de valores que sustentam a vida, promovendo relações sociais, políticas e culturais justas. Esses processos educativos qualificados exigem uma condição fundamental : cada pessoa se coloque na condição de aprendiz.

Ninguém pode acreditar que tudo sabe, particularmente no mundo contemporâneo, caracterizado também pela velocidade das mudanças e por suas muitas complexidades. Perceber-se, permanentemente, como aprendiz é também caminho para vencer delírios, que se propagam especialmente neste tempo de pandemia, afetando mentes, vidas e corações. Há os que se acham onipotentes. Outros se tornam vítimas do medo. E muitos se apegam a convicções equivocadas, que podem levar a graves enfraquecimentos institucionais, a partir de extremismos, por exemplo.

Achar-se a única referência ou a exclusiva fonte para se alcançar soluções é não se perceber como aprendiz. Isso leva a equívocos nos diferentes campos da vida, inclusive em contextos institucionais.  Trata-se de uma postura que deve, urgentemente, ser substituída pela humildade. Somente assim é possível seguir um percurso que vai possibilitar diálogos e, consequentemente, permitir encontrar a solução mais eficaz para diferentes desafios. Reconhecer-se aprendiz, sempre e de modo humilde, é uma atitude indispensável para ajudar a recompor os tecidos socioculturais, político e religioso da civilização contemporânea, sanando delírios, enquanto são aprendidas novas lições.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/artigo/8942/2020/07/delirios-e-licoes/


domingo, 13 de outubro de 2019

Passamos a vida à espera. De quê?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Marta Arrais,
cronista


Passamos a vida (e o tempo) à espera. À espera que a sorte mude. À espera que o vento não seja tão frio. À espera que nos devolvam a chamada. À espera que se lembrem que existimos. À espera que nos atendam num balcão, numa fila, numa loja. À espera do amor-para-sempre. À espera da oportunidade que nos mude a vida. À espera do momento certo para começar a fazer tudo como deve ser. À espera que nos peçam desculpas. À espera que nos perdoem. À espera do Verão. Dos dias de sol e do calor a tostar a pele. À espera que a maré desça para não perdermos o pé. À espera que o país fique melhor. À espera que se acabem os dias tristes. À espera que se acabem as dívidas (as financeiras e as outras). À espera que nos apreciem, apenas, por aquilo que somos e não por aquilo que podemos oferecer. À espera no trânsito que não anda. À espera do verde que não cai. À espera da felicidade que os romances mais bonitos nos prometeram. À espera do jantar, no restaurante. À espera que o arroz fique no ponto. À espera que se acabe a fome nos lugares mais sujos e mais recônditos do mundo. À espera. De tudo. De todos. De tanto.

No entanto, enquanto esperamos, podemos aprender lições valiosas : a lição (duríssima) da paciência. A lição da humildade de quem sabe estar no seu lugar e esperar pela sua vez. A lição de deixar acontecer cada coisa na janela do seu tempo. A lição de valorizar o futuro que espreita de mansinho e que não se impõe.

Precisamos muito de aprender a esperar melhor. Com mais alegria. Com mais paciência. Com mais coragem. Ninguém gosta de esperar. É sempre tarde para quem está à espera. E é sempre difícil deixar que o tempo passe sem nos aborrecermos com ele. E com a sua velocidade-tartaruga.

Aprende a esperar, mas aprende, também, o momento certo para deixar de o fazer. Quem decide esperar para sempre deixa de estar à espera e passa a ser refém de uma promessa que pode não se cumprir.

Aprende a esperar. Aprende a esquecer. Aprende a colocar ponto final e a fazer parágrafo.

Estás à espera de quê?


Fonte :

domingo, 3 de junho de 2018

Lições, Brasil


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Os acontecimentos da vida, que é uma escola, são lições. Por isso, é muito comum ouvir o dito popular ‘vivendo e aprendendo’. As lições são muitas e o desafio maior é aprendê-las. Só as aprende quem se coloca no lugar de aprendiz. Há quem se arvora em mestre dos outros e perde a capacidade para aprender, pois acredita que já sabe de tudo. Aprende mais quem está disposto a escutar. A incompetência para o aprendizado atinge seu patamar avassalador quando incide no tecido cultural da sociedade, revelando um fenômeno : muitos se julgam na condição de ensinar, e acreditam que não precisam mais aprender.

Consequentemente, há o travamento das dinâmicas que promovem as evoluções na compreensão. Falta lucidez para a solução dos problemas e a sociedade permanece ameaçada pelos extremismos. Nesse contexto, convive-se ainda com desmandos e corrupção. Falta vergonha aos que se permitem usufruir de privilégios, que alimentam exclusões e discriminações. Eis a névoa que confunde as feições e paira sobre a sociedade brasileira, obscurecendo a verdade e tornando a mentira a protagonista da história. Tudo vale para defender interesses particulares, até mesmo ações inconsequentes.

Não deveria ser assim, pois a sociedade brasileira, em seus mais de cinco séculos de história, já deveria ter assimilado muitas lições. Mas a incapacidade para aprender pode explicar o desenvolvimento pífio do país. Se as lições da história fossem aprendidas, a classe política brasileira poderia, agora, ajudar o Brasil a sair do caos dos desencontros e aproveitar melhor as oportunidades deste tempo, valendo-se das riquezas ambientais e culturais da nação. Ao invés disso, vê-se um pavoroso ‘bate-cabeça’ entre os que ocupam os lugares de lideranças sem serem líderes. A consequência é a disseminação de um jeito de ser que contamina também os espaços políticos. A demagogia torna-se a tônica principal, contracenando com a desconfiança e os ataques mútuos.

Os posicionamentos polarizados, quando se transformam em hostilidades, ferem visceralmente o andamento da vida do povo, enfraquecem as indispensáveis alianças, obscurecem os diálogos e instalam o caos. Há uma completa perda do sentido de limite. A insistência nos equívocos e as miopias que impedem enxergar as soluções agravam os problemas e multiplicam os pesos sobre os ombros de todos. Assim, o cidadão se distancia das lições que o possibilitariam ajudar na construção de um país melhor. Passa-se a enxergar apenas a própria causa, a considerar como único e intocável o discurso que se defende. O resultado é a gravíssima perda da sensibilidade para se abrir a uma inadiável dinâmica de conversão, capaz de inspirar atitudes com força de mudanças.

Sem os aprendizados necessários, contenta-se apenas com o conforto institucional do lugar ocupado e seus privilégios – a incapacidade para se colocar no lugar do outro, a quem se deveria servir e ajudar. Para mudar essa postura, devem-se habilitar os olhos para enxergar além dos próprios interesses e comodidades. Admitir que o exercício qualificado da cidadania não pode conviver com os conchavos, os privilégios e a busca por vantagens a partir da corrupção.

A sociedade brasileira clama precisada de um novo ciclo de aprendizagens das muitas lições que estão inseridas em sua história. As instituições e segmentos da sociedade carecem de gestos corajosos para aprender, por meio do diálogo, a cuidar do bem comum a todo custo. A transformação do país, para conseguir sair dos limites perigosos a que chegou, exige de todos um gesto de conversão, bem concreto. É preciso modificar funcionamentos para recuperar a credibilidade perdida, importante para o urgente processo de mudança : um tempo novo para o aprendizado das lições, Brasil!’


Fonte :

domingo, 27 de agosto de 2017

Crônica : A lição da tamareira, pagar o mal com o bem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Amigas e amigos, pagar o mal com o bem é sempre um desafio.  Se o desafio não for superado, o mal vai-se multiplicando e ocupando o lugar que está reservado para o bem.  Sobre o assunto já fomos advertidos pelo missionário Paulo : ‘Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens.’ (Rom.12.17).

Por causa de meu trabalho que exige viajar de Dubai no Golfo Pérsico para Fujiarah, no Mar de Omã, preciso atravessar uma região de deserto e uma cadeia de montanhas em cujos vales existem alguns oásis com tamareiras. Muitas delas são centenárias e, apesar da idade, continuam produzindo frutas que ficam presas em cachos lá no alto.

Antes da introdução de tecnologias modernas, só havia duas maneiras de conseguir tâmaras. Uma forma era subindo no tronco da árvore. Contudo, essa apresentava dificuldades porque o tronco é liso, sem galhos para apoiar os pés e as mãos. Uma vez lá no alto, ainda era necessário separar as frutas maduras das verdes. Realizada a colheita, o problema era como descer carregando as tâmaras.

O modo mais usado e mais fácil era jogar pedras, tentando atingir o cacho, esperando que com o impacto, as frutinhas se desprendessem dele para, depois, serem recolhidas do chão.

O uso de pedras jogadas contra a árvore é que me chamou a atenção. A lição está na árvore. Sendo atingida pelas pedras ela devolve o que tem de melhor, a doce e cobiçada tâmara.

Ser como a tamareira, retribuir o mal com o bem, é um desafio.

De fato, o mundo é rico em pessoas apedrejadas que pagam o mal com o bem e são felizes. Embora excluídas, classificadas como bregas e carolas, continuam semeando o amor, a melhor das sementes.

 É assim que vivenciam as palavras do Mestre : ‘Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo, sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.’ (Mt 5.44-45).’


Fonte :


terça-feira, 15 de setembro de 2015

Tragédia Migrante

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Demétrio Valentini,
Bispo de Jales


‘A impressionante onda de migrantes, tentando entrar na Europa, está mostrando o seu lado trágico, e a complexidade de suas causas.

A situação tomou proporções assustadoras nestas últimas semanas, quando multidões humanas, fugindo sobretudo da guerra na Síria, começaram a forçar as fronteiras dos países da Europa Oriental, em demanda da Europa Ocidental.

O sonho da maioria é entrar nos países mais ricos da Europa, na esperança de lá encontrar sua sobrevivência, que nos seus países de origem está ameaçada.

Ao mesmo tempo, continua o fluxo dos que se aventuram a atravessar o mar Mediterrâneo, provenientes dos países pobres do norte da África, como a Líbia, a Tunísia, a Argélia, o Marrocos.

São muitos os ângulos que podem ser tomados como referência para entender esta complexa situação e esta tragédia humana.

Uma primeira constatação volta a mostrar sua evidência : é insustentável manter desigualdades tão gritantes entre os países.  Com a globalização, todos os países se tornaram próximos. O mundo precisa se dar conta que, ou fazemos a globalização da solidariedade, ou transformamos o mundo em cenário permanente de guerra.

Outra constatação intriga agora a consciência coletiva da Europa. Durante séculos, os países europeus, no regime do colonialismo, submeteram os países africanos à dominação política e à exploração de suas riquezas naturais. Depois os abandonaram à própria sorte.

Agora todos se dão conta que teria sido muito melhor buscar em conjunto um desenvolvimento sustentável de todos os países africanos. Se assim tivesse sido feito, não estaria agora a Europa com o pesadelo de perder suas riquezas.

Outra constatação é necessário fazer, referente ao Oriente Médio. O Ocidente sempre apoiou os regimes ditatoriais daquela complexa região. Agora se colhem os frutos amargos. Não existem lideranças que possam administrar a complexa realidade daquela região do mundo. As estruturas estatais são precárias, e o vazio político permite o surgimento de aberrações inesperadas, que tomam forma de ‘Estado Islâmico’ ou de outras ditaduras que precisam ser sustentadas pela ameaça constante à liberdade e à segurança.

Por sua vez, a rica Europa começa a se dar conta que seus povos estão perdendo vitalidade. São populações que vão envelhecendo, sem ânimo para se renovarem. De acordo com projeções deduzidas de dados objetivos, se continuar esta tendência de envelhecimento e de cansaço vital, a Europa precisará, não só abrir as portas para que venham os migrantes, mas ir ao seu encontro, suplicando que tragam sua energia vital, que sustente os empreendimentos econômicos, e garanta a renovação da população.

Na dinâmica atual, em quarenta anos a população da Alemanha baixará dos 81 milhões atuais, para 70 milhões de habitantes. Talvez seja esta previsão que está levando o governo alemão a estar mais disposto a acolher até quinhentos mil migrantes por ano.

A história mostra que os migrantes são portadores de vida nova. De 1890 a 1910, os Estados Unidos receberam 17 milhões de migrantes. O país não seria o que é hoje, sem a expressiva colaboração dos migrantes, em sua grande maioria europeus. Eles querem viver.

Eles podem ser bem vindos, se entendermos as lições da história.


Fonte :
* Artigo na íntegra http://www.news.va/pt/news/artigo-tragedia-migrante