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quinta-feira, 15 de julho de 2021

Aprendiz da missão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Francisco Machado,

Missionário Comboniano


‘Como missionário comboniano se há algo que a minha experiência de vida por terras africanas me tem ensinado é que a missão não é uma questão de matemática, mas sim de fé e de amor e doação, pois somente o amor de tudo é capaz.

A minha vida marcada pela paixão por Jesus Cristo mostra claramente e com toda a evidência que os nossos projetos preconcebidos e estabelecidos contam pouco, dificultam, e até desfiguram a beleza do nosso testemunho. A missão caracteriza-se essencialmente por uma clara predisposição ao encontro com os outros.

Sim, a maior parte da minha vida de missionário comboniano tem sido em África, mais precisamente no Gana : um país muito belo e cheio de encantos e de possibilidades; cheio de boa gente que sonha e luta pela conquista de um mundo no qual todos contam.

Missão na África

Nasci em Brito, Guimarães, entrei no seminário ainda muito jovem e fui ordenado sacerdote em Agosto de 1990. Quatro anos depois, já me encontrava em terras africanas, no Togo. Iniciei a minha atividade missionária com o estudo da língua e cultura ewe, que é uma das muitas línguas locais que encontramos nestas zonas.

Fui enviado para uma aldeia do interior. Ao princípio, parecia-me que não tinha nada e que estava privado de todas as coisas boas e belas que tinha deixado no meu país. Pouco a pouco, porém, fui-me dando conta de que, na verdade, tinha tudo o que verdadeiramente precisava e que, mais do que nunca, me sentia livre para estar atento e disponível aos outros nas suas necessidades.

No ano seguinte, fui enviado para o Gana, mas trabalhando com o mesmo povo Ewe. Foi uma experiência maravilhosa de primeira evangelização onde a disponibilidade e abertura era o meu diapasão de vida e, na verdade, o único necessário e importante. A missão ensinava-me que o essencial era procurar ser uma presença amiga e disponível no meio desse povo que sofria e procurava uma vida mais digna, mais humana e mais cheia de sentido.

Sim, sinto que me tenho doado ao povo que me acolheu e me tenho aplicado no estudo da sua língua e costumes para melhor poder compreender os seus anseios e participar nos seus sofrimentos. Porque me acolheram como ‘homem de Deus’, procuro ser mais e mais mensageiro da vida e do amor.

É verdade que a falta de experiência e de conhecimento da cultura nos leva a cair em disparates. No entanto, no meu serviço missionário, eu procuro escutar este povo maravilhoso e sofredor. Creio que é aqui que se encontra o segredo do anúncio jovial, claro e audacioso da Boa Nova de Jesus que nós chamamos primeira evangelização. Ou seja, eu tento aproximar-me da gente sem complexos nem preconceitos e conversar com eles : sejam eles jovens, crianças e idosos, homens e mulheres, saudáveis e doentes. Falamos da vida e, juntos, tentamos compreender a importância do amor de Deus Pai e Criador de toda a humanidade.

Promover as vocações

Neste momento, encontro-me a trabalhar em Acra, capital do Gana. Como formador e promotor vocacional, diálogo com os jovens e tento ajudá-los a questionarem-se sobre a aventura maravilhosa e digna de ser vivida que é a vocação missionária e comboniana.

Tento ajudar os jovens a descobrirem que amar verdadeiramente é não ter medo de dar a vida sobretudo pelos mais pobres e abandonados e a não ter medo de deixar tudo por Jesus. Acompanho vários jovens que procuraram os Missionários Combonianos e mostraram o seu desejo em responder ao apelo de Jesus : «Vem e segue-me.»

Neste momento, estou a ajudar a construir um seminário para os seminaristas combonianos no Gana. Como não tínhamos lugar para acolher estes jovens na sua formação intelectual e espiritual, com a ajuda preciosa de vários amigos portugueses, especialmente o padre Manuel Brito, sacerdote diocesano de Esposende, estamos a concluir a construção de um seminário.

Vejo que missão é, antes de tudo, aprender a ser discípulo de Jesus Cristo na escuta às necessidades e anseios do povo no meio do qual trabalhamos para o ajudar não naquilo que nós pensamos e programamos, mas sim naquilo que o povo necessita e anseia.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/actualidade/6/551/aprendiz-da-missao/

domingo, 13 de setembro de 2020

Bem viver e bem-querer

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

 

‘Os maiores desafios deste tempo emolduram o Setembro Amarelo com rostos sem luz e sorrisos opacos, pois a vida está ainda mais ameaçada. Sentimentos e emoções se embaraçam diante do peso que recai sobre a humanidade. Não há sinais promissores de que a civilização contemporânea avançou na aprendizagem sobre os cuidados com a vida. É preciso, assim, progredir na ciranda do bem viver e do bem-querer – os trilhos sobre os quais a vida transcorre, de estação em estação, até chegar ao seu destino final. Uma viagem que exige o domínio da arte de cuidar, a partir do reconhecimento de que a vida é dom e responsabilidades.

Viver é inscrever-se em um contínuo caminho de lições, conforme bem assevera o ditado popular ‘vivendo e aprendendo’. Essa constatação ainda se confirma quando pessoas mais vividas manifestam surpresa diante de um acontecimento e dizem : ‘pensei já ter visto de tudo’.  A vida é dom de riqueza inesgotável e, por isso mesmo, sempre apresenta novas lições. Todos são aprendizes, desafiados a superar muitas provas. Sejam oferecidas as condições para que cada pessoa possa superá-las. Para os cristãos, o Evangelho de Jesus Cristo é referência fundamental que leva a aprendizados condizentes com o dom de viver.  A gramática do Evangelho da Vida congrega princípios e metas, códigos e experiências, lições e ensinamentos, partindo sempre da cláusula pétrea : o dom da vida é inviolável, merece cuidados e todas as condições para se desabrochar. Nesse sentido, o Evangelho ensina que o bem-querer, traduzido em gestos de amor ao próximo, é indissociável do bem viver.

Importante considerar também que o dom inviolável da vida, para ser protegido, exige constante reflexão sobre as emoções e as dores carregadas no coração humano. São essas emoções e dores que sustentam a vida de cada um. Por isso, saber reconhecer e lidar com os próprios sentimentos é uma importante forma de sabedoria, uma ciência sobre o viver. Distanciar-se da reflexão sobre os próprios sentimentos muito contribui para não se enxergar sentido na vida. E são terrificantes, embora não raramente distantes da luz midiática, as estatísticas dos que desistem de viver, com preocupante aumento de vítimas entre jovens – o futuro de uma humanidade que precisa renovar-se para não se declinar. Muita gente está sem forças para continuar vivendo, e ajudar na edificação de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Consequentemente, as estatísticas sobre o suicídio podem revelar número de mortes semelhante ao de pandemias.

Dentre as renovações urgentes está a necessidade de se superar desigualdades sociais que representam graves ameaças à vida humana. A opacidade amarela deste mês de setembro alerta que a vida, embora seja dom precioso, é constantemente ameaçada.  São, pois, muito necessárias políticas públicas com força e velocidade para debelar os processos que levam à destruição das vidas. O comprometimento da qualidade do bem-querer tem forte incidência sobre o bem viver. E o adoecimento planetário ambiental contracena com o adoecimento emocional humano. É preciso sublinhar a responsabilidade de se investir nos sentimentos que modulam a vida, com iniciativas que qualifiquem a dimensão emocional da humanidade, especialmente a partir da contribuição da espiritualidade. Isso permite cultivar o equilíbrio assentado em valores humanistas que possibilitem redimensionar critérios, juízos e escolhas.

Corajosamente cada pessoa deve dedicar atenção aos sentimentos, buscando o diálogo, com disposição para escutar e oferecer afeto. Famílias sejam mais atentas e aconchegantes. Escolas tornem-se mais interativas, inspirando nos alunos a sensação de pertencimento. Igrejas busquem ser cada vez mais sensíveis às dores humanas, garantindo a espiritualidade e as palavras que devolvam esperança. Todos se dediquem a edificar uma sociedade que seja livre das indiferenças, sem idolatrias e hegemonias mesquinhas, aprendendo lições como esta, partilhada por Cora Coralina : ‘Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.’ Eis a compreensão necessária : alcançar pela força do bem-querer o necessário bem viver.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/artigo/9029/2020/09/bem-viver-e-bem-querer/


sexta-feira, 31 de julho de 2020

O dom de ser feliz com pouco

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 A pandemia pode ser tempo de aprender a valorizar o que realmente importa

A pandemia pode ser tempo de aprender a valorizar o que realmente importa

*Artigo de Pilar Jericó

  

‘O meio do ano é um bom momento para refletir e construir planos para o semestre que se inicia. Especialmente depois de termos vivido meses tão atípicos como os últimos. A crise econômica nos levará a perder parte do nosso poder aquisitivo, e teremos que aprender a viver com menos. Entretanto, sabemos que qualquer crise também pode ser uma oportunidade se mudarmos nossa maneira de contemplá-la.

Temos a ocasião perfeita para rever prioridades, desempoeirar sonhos que ficaram no papel e, sobretudo, aprender a valorizar o que realmente importa. Muitas vezes nos apegamos a coisas que, no fundo, só ocupam espaço, mas que não nos fazem felizes. Uma crise é um bom momento para nos desfazermos de tudo aquilo que não contribui para nós e para nos centrarmos no realmente importante. Temos uma valiosa pista em O Pequeno Príncipe, a maravilhosa obra de Antoine de Saint-Exupéry : ‘O essencial é invisível aos olhos’. Aproveite este mês para refletir sobre as coisas essenciais em nossa vida, treinar o desapego, que tanto nos custa, e confrontar o próximo semestre com mais força e maior determinação. Estas são algumas ideias práticas.

Comecemos com algo simples : revisar os armários e jogar fora tudo o que não nos sirva. Qualquer mudança começa com um pequeno passo. Neste caso, os armários são quase sempre os típicos espaços onde acumulamos tudo o que já não usamos ou não queremos. Revisar e eliminar as peças que não vestimos mais é um começo que nos oferece serenidade e dá espaço para treinar o que mais nos custa : o desapego. Além disso, se doarmos aquilo de que nos desprendemos, teremos uma dupla satisfação. Não podemos nos abrir a novas oportunidades se carregarmos uma mochila pesada. Se quisermos aprender algo novo, temos que saber dizer não ao que já não nos serve mais.

Outro exercício prático é fazer uma lista dos momentos mais felizes que vivemos e identificar o que tinham em comum. Muito possivelmente não estavam relacionados com o dinheiro, e sim com aspectos intangíveis : a amizade, a família, o contato com a natureza, a possibilidade de viver experiências novas… Quando as pessoas precisam aprender a viver com menos, devem se centrar no imaterial, naquilo que está ao nosso alcance sem que seja preciso comprar : cultivar a amizade, viver experiências em nossa própria cidade, aprender coisas novas ou cuidar dos pais se tivermos tido que voltar para a casa deles.

Muita gente vive presa em gaiolas de ouro. É verdade que no meio de uma crise, tomar decisões profissionais se torna mais vertiginoso que em outras épocas. Entretanto, vale a pena reconhecer qual é a gaiola de ouro onde estamos presos e que nos impede de alcançar a felicidade. Pode ser um trabalho, o sucesso, uma indenização, uma relação sentimental, uma casa… Talvez as gaiolas de ouro sejam as mais difíceis de se desapegar, mas também são as mais libertadoras. Uma vez que nos desfazemos delas, encontraremos o caminho livre. Agora que a crise econômica e sanitária causada pelo coronavírus deixou muitas seguranças de perna para o ar, é uma boa oportunidade para identificar o que nos mantém presos.

Para identificar o essencial de nossas vidas e nos centrar nisso, o autor norte-americano Stephen Covey propõe um exercício prático em seu emblemático Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Entre as primeiras dinâmicas do livro, sugere escrevermos a carta que gostaríamos que fosse lida em nosso funeral. Soa um tanto lúgubre, mas nos ajuda a tomar uma perspectiva de como queremos ser recordados e a que devemos dedicar nossa atenção. Queremos ser recordados como o mais rico ou como a pessoa que mais ajudou os outros? Talvez, em nossa carta, voltemos a nos centrar no essencial, naquilo que é invisível aos olhos, mas que realmente nos permite ser felizes.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/fato-em-foco/613/2020/07/o-dom-de-ser-feliz-com-pouco/


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Delírios e lições

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

  Achar-se a única referência ou a exclusiva fonte para se alcançar soluções é não se perceber como aprendiz

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

 

‘A pandemia da Covid-19 expõe, ao mesmo tempo, delírios e lições. Os delírios tornam-se evidentes nos descompassos sociais, a exemplo do descaso com os pobres, ou a partir das inabilidades dos representantes do povo. Situações que pedem mudanças, a partir do aprendizado de muitas lições. Esse aprendizado requer renovação de mentalidades, de práticas e de estilos de vida. Um reconhecimento dos equívocos em determinadas escolhas que incidem não apenas no mundo da política, mas também no campo da cultura e, lamentavelmente, até mesmo na esfera religiosa. Diante da necessidade de se aprender muitas lições, oportuno é lembrar-se de que a eficácia na aprendizagem depende de um importante aspecto : as pessoas, indistintamente, assumirem a condição de discípulos, uma nuance compartilhada por Jesus, em sua maestria.

Ensina muito e bem quem se coloca na condição de aprendiz. Essa condição permite o compartilhamento de convicções e experiências. E a atitude de compartilhar é vetor de mudanças, caminho para alcançar metas capazes de responder ao clamor do povo sofrido. Por isso, precisam estar matriculados na condição de aprendizes, prioritariamente, os que sufragam seus nomes em eleições, pois é lastimável constatar o despreparo de representantes do povo no exercício de suas funções. Falta substrato humanístico e há indiferença em relação à meta de se edificar uma sociedade solidária. Quando se analisa o conjunto de situações da atualidade, avaliando o desempenho de líderes de diferentes lugares do mundo, chega-se facilmente a uma conclusão : mudanças são necessárias. Percebe-se que a humanidade está aprisionada em entendimentos equivocados. E a qualidade de entendimentos é importante termômetro para avaliar a condição de uma civilização.

Essa qualidade depende dos processos educativos responsáveis pela formação do ser humano. Por isso mesmo, é preocupante quando um país convive com o sucateamento do campo educacional, confiando-o a mãos inábeis, a agentes pouco lúcidos. A consequência desse mal é a desconsideração e o desperdício da capacidade humana para promover o desenvolvimento integral da sociedade. Urgente é, pois, investir educativamente no desenvolvimento de entendimentos adequados, de pessoas capazes de conduzir a sociedade a partir de valores que sustentam a vida, promovendo relações sociais, políticas e culturais justas. Esses processos educativos qualificados exigem uma condição fundamental : cada pessoa se coloque na condição de aprendiz.

Ninguém pode acreditar que tudo sabe, particularmente no mundo contemporâneo, caracterizado também pela velocidade das mudanças e por suas muitas complexidades. Perceber-se, permanentemente, como aprendiz é também caminho para vencer delírios, que se propagam especialmente neste tempo de pandemia, afetando mentes, vidas e corações. Há os que se acham onipotentes. Outros se tornam vítimas do medo. E muitos se apegam a convicções equivocadas, que podem levar a graves enfraquecimentos institucionais, a partir de extremismos, por exemplo.

Achar-se a única referência ou a exclusiva fonte para se alcançar soluções é não se perceber como aprendiz. Isso leva a equívocos nos diferentes campos da vida, inclusive em contextos institucionais.  Trata-se de uma postura que deve, urgentemente, ser substituída pela humildade. Somente assim é possível seguir um percurso que vai possibilitar diálogos e, consequentemente, permitir encontrar a solução mais eficaz para diferentes desafios. Reconhecer-se aprendiz, sempre e de modo humilde, é uma atitude indispensável para ajudar a recompor os tecidos socioculturais, político e religioso da civilização contemporânea, sanando delírios, enquanto são aprendidas novas lições.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/artigo/8942/2020/07/delirios-e-licoes/


sexta-feira, 31 de maio de 2019

Mística dos jardins monásticos se adapta aos novos tempos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Paz e tranquilidade no mosteiro beneditino Quarr Abbey na Ilha de Wight na Grã-Bretanha.
Paz e tranquilidade no mosteiro beneditino Quarr Abbey,
na Ilha de Wight na Grã-Bretanha

*Artigo de Paula Boyer,
colunista da La Croix International
Tradução : Ramón Lara


‘Desde a Idade Média, os monges criaram jardins em harmonia com seu ideal de vida. Agora, eles estão se abrindo para práticas ecológicas.

De onde vêm os jardins monásticos? ‘Tudo vem da Regra de São Bento [de Núrsia]’, diz Frei Thierry Barbeau da Abadia Beneditina de Solesmes (Sarthe).

De acordo com esta regra, um monastério deve, tanto quanto possível, ter água, um moinho, um jardim e oficinas, como diz a regra : ‘Seja, porém, o mosteiro, se possível, construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos ofícios, se exerçam dentro dele, para que não haja necessidade de os monges vaguearem fora, porque, de nenhum modo convém às suas almas’ (Capítulo 66).

A ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual’, observa o capítulo 48.

O jardim é propício para este trabalho manual.

Ao fazer isso, o monge tem que lidar com realidades naturais que não domina’, diz Barbeau. Cultivar plantas requer muita atenção e humildade. É preciso aceitar as leis da natureza, aprender a respeitar os ritmos naturais, inclusive nos irmãos. É um tipo de ecologia da alma’.

O jardim monástico é também um espaço de vida contemplativa, um local de relaxamento e recreação, de descanso para a alma e o corpo. Entre os beneditinos, o jardim é o espaço que permite o encontro dos irmãos durante a recreação.

É diferente para os cartuxos, aqueles eremitas religiosos que, de acordo com a regra de São Bruno, vivem essencialmente na solidão, cada um tendo um pequeno jardim ligado à sua cela.

Por que o jardim monástico medieval foi estruturado?

Na Idade Média, Deus estava no centro de tudo, e coisas como as plantas eram apreciadas pelo seu conteúdo simbólico. O jardim monástico é, portanto, acima de tudo, o do pátio do claustro (ou pequeno prado).

O claustro é um lugar de silêncio geralmente reservado para a leitura, a meditação e a oração solitária’, diz Barbeau. ‘Seu jardim, simples e modesto, com um design sóbrio e sem muita ornamentação, não deixa de recordar o alto significado simbólico que também está ligado a este lugar intimista – o Paraíso ou a Virgem (Hortus conclusus, jardim fechado, atribuição dada a Maria e que se refere a Ct 4,12) – onde a água de uma fonte ou um manancial flui’.

Naquela época, existiam outros jardins no recinto do mosteiro : uma horta, um pomar, um jardim de ervas, um jardim de flores destinadas a embelezar os altares e, de acordo com a região, um vinhedo para o vinho de missa. Cada uma dessas especialidades fica em espaços adjacentes ao edifício do serviço ao qual está ligado : a cozinha, a enfermaria, a igreja.

É pelo menos assim que esses jardins aparecem no referido Plano de São Galo, que apresenta um modelo ideal para um mosteiro construído na primeira metade do século 11, na época da reforma monástica defendida por São Bento de Aniane’ como Barbeau explica.

De maneira ainda mais precisa, esse plano também indica as plantas a cultivar.

Como os jardins monásticos evoluíram?

A organização sugerida no plano de São Galo dificilmente sofreu alguma modificação até o século XVII. Necessidades domésticas são movidas para o fundo e os espaços verdes, especialmente os dos grandes mosteiros que foram reconstruídos, são planejados de acordo com novos critérios.

Lotes cada vez maiores são transformados em jardins de ‘prazer’ que mapeiam as perspectivas e se abrem para a paisagem circundante, como as do Le Nôtre.

Uma certa sobriedade permanece, apesar de tudo, já que os jardins monásticos continuam a ser lugares de meditação e relaxamento para os monges. No entanto, esses espaços perdem um pouco de sua especificidade seguindo a evolução geral da arte dos jardins. Isso também está relacionado à mudança na vida monástica, mais aberta ao mundo exterior.

Quais são as características dos jardins modernos?

Com a crise das vocações, as mãos, as habilidades e o dinheiro são muitas vezes escassos. As comunidades, que cada dia ficavam menores, tendiam a sacrificar a horta e só mantinham um ou alguns jardins de lazer, onde ainda reina a ordem e a harmonia querida dos discípulos de São Bento, como na Abadia de Solesmes (Sarthe), e que são propícios para caminhar e para a meditação.

No entanto, há cerca de 10 anos, os mosteiros, particularmente aqueles que mantiveram um jardim ‘utilitário’, adotaram práticas mais ecológicas para fornecer alimentos naturais, conservar a natureza e cuidar da Criação, que é um presente de Deus.
Em 2015, a encíclica Laudato Si confirmou essas escolhas e acelerou o movimento. Atualmente, existe um verdadeiro entusiasmo pelos tratamentos naturais, pela agricultura biológica e até pela permacultura, esta ‘cultura de permanência’ mais baseada no ecossistema local, porque é muito mais econômica em energia e trabalho e respeita os seres humanos e as suas relações mútuas.

Quinze anos atrás, a preocupação pela natureza já fazia parte da nossa vida; o irmão encarregado da horta fizera estágios, nomeadamente em Lanza del Vasto’, diz o padre David, um abade em En Calcat (Tarn), que enfatiza ‘o gosto muito forte pelo cuidado do solo entre os jovens monges’. Ele se alegra com o fato desta escolha os obrigar a criar ‘ligações muito fortes’ com outros mosteiros e com leigos competentes.

Ainda temos muitas adaptações a serem feitas e muito espaço para cobrir’, acrescenta. ‘É toda a vida monástica que precisa ser repensada à luz da ecologia integral’.

Na Abadia de Ligugé, em Vienne, o padre Joseph-Marie, tesoureiro e chefe da horta, e Jacques Longchamps, um visitante regular, optaram há dois anos muito pragmaticamente por uma mudança gradual para a permacultura ‘porque nada mais estava crescendo na horta, que era orgânica, mas cujo solo estava completamente exausto’.

Entretanto, sem dúvida alguma, foram as irmãs ortodoxas do Mosteiro de Solan (Gard) – que cultivam uma vinha, um pomar, uma horta e uma floresta -  quem primeiro adotou, em 1992, a abordagem mais radical. Deve ser dito que elas são aconselhados por Pierre Rabhi, agricultor, escritor e filósofo francês de origem argelina. Sua abordagem espiritual é incorporada na prática das freiras, na qual é a natureza quem comanda.’


Fonte :

domingo, 3 de junho de 2018

Lições, Brasil


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Os acontecimentos da vida, que é uma escola, são lições. Por isso, é muito comum ouvir o dito popular ‘vivendo e aprendendo’. As lições são muitas e o desafio maior é aprendê-las. Só as aprende quem se coloca no lugar de aprendiz. Há quem se arvora em mestre dos outros e perde a capacidade para aprender, pois acredita que já sabe de tudo. Aprende mais quem está disposto a escutar. A incompetência para o aprendizado atinge seu patamar avassalador quando incide no tecido cultural da sociedade, revelando um fenômeno : muitos se julgam na condição de ensinar, e acreditam que não precisam mais aprender.

Consequentemente, há o travamento das dinâmicas que promovem as evoluções na compreensão. Falta lucidez para a solução dos problemas e a sociedade permanece ameaçada pelos extremismos. Nesse contexto, convive-se ainda com desmandos e corrupção. Falta vergonha aos que se permitem usufruir de privilégios, que alimentam exclusões e discriminações. Eis a névoa que confunde as feições e paira sobre a sociedade brasileira, obscurecendo a verdade e tornando a mentira a protagonista da história. Tudo vale para defender interesses particulares, até mesmo ações inconsequentes.

Não deveria ser assim, pois a sociedade brasileira, em seus mais de cinco séculos de história, já deveria ter assimilado muitas lições. Mas a incapacidade para aprender pode explicar o desenvolvimento pífio do país. Se as lições da história fossem aprendidas, a classe política brasileira poderia, agora, ajudar o Brasil a sair do caos dos desencontros e aproveitar melhor as oportunidades deste tempo, valendo-se das riquezas ambientais e culturais da nação. Ao invés disso, vê-se um pavoroso ‘bate-cabeça’ entre os que ocupam os lugares de lideranças sem serem líderes. A consequência é a disseminação de um jeito de ser que contamina também os espaços políticos. A demagogia torna-se a tônica principal, contracenando com a desconfiança e os ataques mútuos.

Os posicionamentos polarizados, quando se transformam em hostilidades, ferem visceralmente o andamento da vida do povo, enfraquecem as indispensáveis alianças, obscurecem os diálogos e instalam o caos. Há uma completa perda do sentido de limite. A insistência nos equívocos e as miopias que impedem enxergar as soluções agravam os problemas e multiplicam os pesos sobre os ombros de todos. Assim, o cidadão se distancia das lições que o possibilitariam ajudar na construção de um país melhor. Passa-se a enxergar apenas a própria causa, a considerar como único e intocável o discurso que se defende. O resultado é a gravíssima perda da sensibilidade para se abrir a uma inadiável dinâmica de conversão, capaz de inspirar atitudes com força de mudanças.

Sem os aprendizados necessários, contenta-se apenas com o conforto institucional do lugar ocupado e seus privilégios – a incapacidade para se colocar no lugar do outro, a quem se deveria servir e ajudar. Para mudar essa postura, devem-se habilitar os olhos para enxergar além dos próprios interesses e comodidades. Admitir que o exercício qualificado da cidadania não pode conviver com os conchavos, os privilégios e a busca por vantagens a partir da corrupção.

A sociedade brasileira clama precisada de um novo ciclo de aprendizagens das muitas lições que estão inseridas em sua história. As instituições e segmentos da sociedade carecem de gestos corajosos para aprender, por meio do diálogo, a cuidar do bem comum a todo custo. A transformação do país, para conseguir sair dos limites perigosos a que chegou, exige de todos um gesto de conversão, bem concreto. É preciso modificar funcionamentos para recuperar a credibilidade perdida, importante para o urgente processo de mudança : um tempo novo para o aprendizado das lições, Brasil!’


Fonte :