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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Francisco de Assis ensina: quem reza, serve!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Frei Augusto Luiz Gabriel, ofm


‘A oração sempre ocupou lugar central na vida cristã, não apenas como devoção, mas como fonte que sustenta e inspira todas as escolhas e ações do discípulo. Desde os antigos mestres espirituais, passando pela experiência de Santo Afonso de Ligório, aprendemos que rezar é reconhecer que ‘sem mim nada podeis fazer’ e pedir o dom do Espírito para viver segundo o Evangelho. São Francisco de Assis é testemunha luminosa dessa verdade : sua profunda vida de oração, feita de silêncio, louvor, escuta e entrega, tornou-se ação concreta, serviço humilde, cuidado dos pequenos e reconstrução da vida dos que sofrem. Por isso, a oração cristã não permanece apenas na interioridade; ela abre o coração, purifica a intenção e conduz ao compromisso real com o Reino de Deus.

Orar é elevar a mente e o coração a Deus, confiando inteiramente na sua graça. Não se trata de um gesto isolado de devoção, mas da fonte que orienta toda ação cristã. Desde os antigos mestres, como Hugo de São Vítor, e conforme a tradição bíblica do Livro da Sabedoria, entende-se que a oração é o caminho pelo qual se recebe a sabedoria e o Espírito : ‘Invoquei o Senhor, e veio a mim o espírito da sabedoria.’ Hugo recorda que, sem o auxílio divino, a iniciativa humana é insuficiente. A oração, portanto, é o acesso à filiação divina e nos torna capazes de pedir e viver o dom do Espírito. Santo Afonso reforça essa verdade a partir do mandato de Cristo : ‘Sem mim nada podeis fazer’. A oração não é um adorno religioso, mas a respiração da vida cristã. Quem reza com sinceridade e constância pede, antes de tudo, o dom do Espírito, e desse encontro nascem a fé, a esperança e a caridade autênticas.

A oração genuína, porém, não se limita ao interior : ela transforma e encaminha para o serviço. Enzo Bianchi e a tradição litúrgica lembram que a liturgia é ‘parusia antecipada’, sinal do Reino que já vem ao encontro do povo. O ministro, o celebrante e todo cristão só podem comunicar aquilo que carregam no coração : ‘Se você não estiver evangelizado, não poderá evangelizar; se a Palavra não mora em você, não poderá comunicá-la à assembleia.’ São Carlos Borromeu aconselhava os ministros : ‘Se você administra os sacramentos, medite no que está fazendo. Se celebra a missa, medite no que está oferecendo. Se recita os salmos, medite a quem e do que está falando.’ A regra é clara : a liturgia molda o coração para a caridade; a oração prepara e orienta a ação sacramental e pastoral. Orar e celebrar é preparar-se para servir e levar à vida aquilo que a Palavra e os sacramentos suscitam.

A vida de São Francisco de Assis ilumina essa união inseparável entre contemplação e serviço. Seu Cântico das Criaturas, sua oração diante do crucifixo e sua intimidade com Deus revelam uma espiritualidade que transforma tudo em compaixão e prática solidária. Na prece diante do crucifixo — ‘Altíssimo, glorioso Deus, ilumina as trevas do meu coração. Dá-me fé reta, esperança certa e caridade perfeita. Dá-me, Senhor, senso e discernimento para que eu cumpra o teu santo e verdadeiro mandamento’ — Francisco mostra a prioridade da vida cristã : pedir a graça para viver o Evangelho. Ele viu a criação como ‘um grande coro de onde brota contínua oração’ e fez da atenção aos pobres a consequência necessária dessa experiência contemplativa. Para ele, a oração que não gera partilha não é conforme ao Evangelho : a verdadeira espiritualidade conduz ao encontro dos pequenos, ao cuidado dos leprosos, à partilha do alimento, à presença junto aos marginalizados. A caridade é o fruto visível da alma que reza.

Praticar a fé significa, portanto, transformar a contemplação em gestos cotidianos : cultivar a Palavra, estudá-la, meditá-la, deixá-la moldar o coração; buscar a reconciliação com Deus e com os irmãos; ajudar os necessitados com partilha e presença; oferecer escuta; promover a comunhão. A Eucaristia, centro da vida cristã, recorda esse movimento : alimentar-se do Corpo do Senhor é assumir a responsabilidade de levar alimento e dignidade aos famintos. A espiritualidade franciscana sublinha que solidariedade é prática de amor : viver a destinação universal dos bens, a fraternidade e a partilha como escolhas diárias. ‘O que eu tenho, eu dou’ resume a decisão de não viver para si, mas para quem precisa.

Há, portanto, um caminho claro : a oração nos dá o Espírito; o Espírito fecunda a fé; a fé se traduz em obras de amor. Tal percurso exige humildade — ser sinal pobre de Cristo — e coerência litúrgica : a celebração não é espetáculo, mas gesto formativo que converte. Quem preside, canta ou reza os ofícios deve fazê-lo com atenção e reverência, consciente de que a liturgia possui força evangelizadora quando é vivida em adoração. Ao mesmo tempo, a prática cristã é profética : uma espiritualidade que não promove transformação social nem se compromete com a justiça permanece mutilada. A fé que salva é a que humaniza, denuncia injustiças, reconstrói e liberta.

Concluímos com o mesmo espírito de Francisco, que inspirou gerações : oração e ação são duas faces da mesma vocação. Como escreveu o Poverello pouco antes de morrer : ‘Irmãos, até agora pouco ou nada fizemos; vamos recomeçar!’ Recomeçar na oração, que desarma o ego e prepara o coração; recomeçar na caridade, que torna crível a Palavra de Deus. Orar e praticar é viver a fé como caminho de amor — nas pequenas ações, nas decisões corajosas, na partilha cotidiana — até que o mundo reconheça, em nós, o rosto misericordioso de Deus.

Paz e Bem!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/francisco-de-assis-ensina-quem-reza-serve.html

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O que é e o que significa o TAU?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Corrado Paolucci



‘Você já se perguntou qual é o significado daquela cruz, em forma de ‘T’, que geralmente é usada pelos franciscanos? Com a ajuda do portal San Francesco Patrono d’Italia, buscamos entender exatamente do que se trata. 

Antiga origem

O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e é usado com valor simbólico, seja no Antigo Testamento, onde se fala já no livro de Ezequiel : ‘O Senhor disse: passa em meio à cidade, em meio a Jerusalém e marca um Tau na fronte dos homens que suspiram e choram…’ (Ez 9,4). O Tau é o sinal que, colocado na fronte dos povos de Israel, os salvou do extermínio. 

Foi adotado pelos primeiros cristãos por dois motivos.

1.    Como última letra do alfabeto hebraico, era uma profecia do último dia e tinha a mesma função da letra grega Omega, como aparece no Apocalipse : ‘Eu sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente da fonte da água viva. Eu sou o Alfa e o Omega, o primeiro e o último, o princípio e o fim’ (Ap 21,6; 22,13).

2.   Os cristãos adotaram o Tau porque a sua forma parecia ser a cruz, sobre a qual Cristo foi imolado para salvar o mundo.

O que não é?

O Tau não é um amuleto mágico.
Não é um fetiche, nem menos um brinquedo qualquer. 
Não é um amuleto de boa sorte de possuir apenas porque ‘traz o bem’. 

É sinal do que?

É o sinal concreto de uma devoção cristã, mas sobretudo um sinal de vida no seguimento do Cristo pobre e crucificado.
É o sinal de reconhecimento do cristão, ou seja, do filho de Deus, do filho que escapou do perigo, aquele que foi salvo.
É um sinal de potente proteção contra o mal (Ez 9,6). 
É um sinal querido por Deus para mim, é um privilégio divino (Ap 9,4; Ap 7,1-4; Ap 14,1).
É o sinal dos redimidos do Senhor, dos sem mancha, daqueles que confiam Nele, daqueles que se reconhecem filhos amados e que sabem que são preciosos para Deus (Ez 9,6).
É símbolo da dignidade dos filhos de Deus, porque é a Cruz de Cristo. 
É um sinal que me lembra que preciso ser, também eu, forte nas provações, pronto a obedecer o Pai e dócil na submissão, como foi Jesus diante da vontade do Pai.

São Francisco e a cruz

São Francisco de Assis, pela semelhança que o Tau tem com a cruz, tinha-o como muito importante, tanto que este ocupou um lugar relevante na sua vida como também nos gestos. Nele, o velho sinal profético se atualiza, retoma a força salvadora e exprime a bem-aventurança da pobreza, elemento substancial da forma de vida franciscana.

O Tau era um sinal querido por Francisco, sinal revelador de uma convicção espiritual profunda que somente na cruz de Cristo está a salvação de cada homem.

Assim, o Tau, que tem uma sólida tradição bíblico-cristã, foi acolhido por São Francisco no seu valor espiritual, e o Santo de Assis tomou posse de maneira tão intensa e total, até se tornar, ele mesmo, por meio dos estigmas em sua carne, aquele Tau vivo que tanto ele contemplou, desenhado, mas sobretudo amado. 

Porque na madeira?

A madeira é um material muito pobre e simples, e os filhos de Deus são chamados a viver de maneira simples e em pobreza de espírito (Mt 5,3). A madeira é um material que se trabalha facilmente e que o cristão batizado precisa se deixar modelar na vida de todos os dias, da Palavra de Deus, ser voluntário do Seu Evangelho.’


Fonte :

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Francisco, o aventureiro da paz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Geovane Saraiva, 
Pároco de Santo Afonso de Fortaleza, CE, 
e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


‘O dia de São Francisco, em 4 de outubro, mantém-nos viva toda uma simbologia, na constante busca da paz tão sonhada, dentro da Igreja e da sociedade como um todo. Que as humildes e confiantes súplicas de todas as pessoas de boa vontade, no dadivoso exemplo oferecido ao mundo pelo poverello de Assis, cheguem aos céus, numa clamorosa inspiração de gratidão fervorosa, no sentido de que todas as armas, sobretudo as armas do ódio e do rancor, armazenadas no coração das pessoas, transformem-se em instrumentos daquela paz proclamada pelo Santo de Assis.

No tempo em que São Francisco viveu (1182-1226), era fácil encontrar pessoas armadas, num constante estado de guerra, pelas armas conduzidas na cintura, preparadas para o que desse e viesse. Nosso mundo de hoje, 800 anos distante do vivido pelo trovador de Assis, também não foge à regra, com as pessoas de todas as classes sociais, começando pelo interior, encontrando-se bastante armadas. A paz anunciada com a própria vida por Francisco de Assis se transformará em uma nova realidade, à medida que houver disposição e sensibilidade, diante do grito dos sofredores, da poluição ambiental e do gemido da terra, sofrida e dominada pela exploração, quando a violência, o egoísmo e a vingança abrirem lugar ao amor e à ternura proclamados pelo pobrezinho de Assis.

Diante do legado de um mundo solidário e de paz, maior herança de Francisco de Assis, como seria maravilhoso colocar nossas forças e talentos acima dos interesses pessoais e particulares, andando na direção daquela sua mesma loucura : a de salvar o mundo. Loucura essa, traduzida em sinais de ternura e esperança, tendo presentes as grandes questões, nas quais estamos inseridos, no mesmo espírito do aventureiro que marcou a história da humanidade, vendo-o não só como trovador do Deus-Amor, mas como persistente conquistador e grande lâmpada a iluminar o mundo.

Fixemos na mente e no coração sua comovedora ternura, a ponto de, compungidos, repetirmos que ‘o amor não é amado’. Aqui a bela e concreta imagem que vem à nossa mente : a de configurar-se com o Cristo crucificado, confundindo-se : ‘Não sei se eras Francisco ou se Cristo eras’, sensibilizando-nos e encantando mentes e corações. Assim seja!’


Fonte :

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Francisco de Assis - Uma vida sob o signo da travessia pascal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Francisco assume a morte, com uma intensidade tal, a ponto de desarmá-la.
 *Artigo de Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM,
doutor em Teologia Sistemática
pela Pontificia Università Antonianum, Roma.
  
‘Celebramos, hoje, em comunhão com a Igreja universal, a festa de São Francisco, o Poverello de Assis. A pluralidade das narrativas acerca da conversão de Francisco nos remete à peculiaridade de sua experiência e, portanto, à singularidade de sua pessoa. Quanto mais intensa, de fato, uma experiência, tanto mais ela fomenta uma variedade incontida de expressões. Surpreende-nos, todavia, o Poverello, ao eleger, no ocaso de sua vida, o abraço solidário e acolhedor do leproso como experiência crucial de sua conversão.

No imaginário judeu-cristão, a lepra ocupa bem mais do que outras doenças uma posição de relevo. No Primeiro e no Segundo Testamentos descortinam-se, diante de nossos olhos, variadas cenas envolvendo pessoas acometidas por esta doença. A lepra que acomete Naamã, o Sírio, é a mesma que atinge tantas pessoas que Jesus encontra no curso de seu ministério público. Lepra que corrói a carne e desfigura as feições, tornando-se estigma da exclusão e da morte.

Como é sabido, o tempo de Francisco é caracterizado por profundas e significativas mudanças e noto, portanto, como um período de grande instabilidade. A causar esta situação de instabilidade não são apenas as contínuas guerras; são também as doenças antigas e novas ocasionadas pelo fluxo contínuo de pessoas. O emergente comércio que vai se impondo graças ao progressivo esfacelamento do feudalismo provoca um significativo movimento migratório. E com ele, além das tão apreciadas especiarias, infestam a Europa, entre outros, ratos com suas pulgas hospedeiras dos germes da Peste Negra. Também as Cruzadas contribuem para o crescimento do fenômeno da migração. Os gloriosos cruzados partem para o Oriente investidos de uma incumbência messiânica : defender os lugares santos e, assim, propagarem a Cristandade. No entanto, por onde passam, espalham lepra, sífilis e outras doenças.

Em um estudo acurado sobre o surto de lepra na Idade Média, a pesquisadora e sanitarista estadunidense Jeanette Farrell, no seu A assustadora história das pestes e epidemias, lembra que, enquanto para os judeus a lepra implicava em impureza ritual, para os cristãos, ela se torna o estigma do pecado e da morte que pesa com gravidade sobre os ombros de seu portador. A tal propósito, ela menciona alguns exemplos que testemunham a existência de um ritual religioso de morte social destinado aos acometidos por esta enfermidade, ainda que não tivessem ainda morrido de fato. Segundo esse mesmo ritual, os leprosos eram queimados ou, em certos casos, enterrados vivos. Tais fatos se davam freqüentemente durante os reinados de Henrique II da Inglaterra (1154-1189), Filipe V da França (1285-1314) e de Eduardo I da Inglaterra (1272-1327).

 Como se pode ver, no tempo de Francisco, além de ser vítima do sofrimento físico e moral, o leproso encarna a expressão cabal do pecado e, portanto, da condenação divina. Por esta razão, a atitude de acolhida e de solidariedade que Francisco assume para com ele deve ser interpretada não apenas como expressão de sua compaixão humanitária. Ela encarna uma distinta maneira de se relacionar com o excluído e, conseqüentemente, com o mal e sua estigmatização religiosa, mediante o pecado.

Em seu Testamento, Francisco não deixa dúvidas de que o encontro com o leproso constitui uma autêntica ruptura em sua vida. E esta ruptura foi radical a ponto de assinalar de maneira indelével sua vida a partir de então. Esta experiência crucial é por ele mesmo descrita como ‘aquilo que parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo’ (Testamento, 3a). O que nos deixa, contudo, perplexos não é tanto que ele tenha abraçado o leproso e, mediante este gesto, se solidarizado com o pecador e o excluído, quando praticamente todos ostentavam razões, pretensamente legítimas, para justificar o rechaço e a exclusão.

O que mais chama a atenção é que, abraçando o leproso, ele se sente testemunha de um visceral processo de transformação : o que antes lhe parecia amargo, lhe se converte em doçura de alma e de corpo. Aqui se encontra propriamente o âmago da experiência de Francisco que a torna um evento singular : a ousadia de abraçar a morte, disposto a acordar nela as mais genuínas sementes de vida. Ou ainda, abraçar a expressão personificada da exclusão e do pecado como único caminho possível de salvação. Pois assim como a autêntica vida só pode brotar de uma generosa aceitação da morte, assim também só o pecado acolhido com amor pode transmutar-se em salvação. E esta experiência se torna decisiva, uma vez que ele mesmo atesta : ‘e, depois, demorei só um pouco, e abandonei o mundo’ (Testamento, 3b).

 Para nós que manifestamos tamanha habilidade em dissecar as realidades, individuando-as uma a uma, para depois separá-las chegando ao paroxismo de contrapô-las, esta lição se nos revela demasiadamente indigesta, posto ser paradoxal e absurda. Julgamos que morte e vida se encontram nos extremos de nossa existência a ponto de não se tocarem senão no derradeiro e inevitável instante. Qual impostora, a morte estaria sempre à espreita, para seqüestrar de maneira sorrateira, embora agressiva, nossa vida. Por esta razão é que buscamos construir nossa vida numa distância cada vez maior de toda e qualquer sombra de morte. Julgamos que a vida só pode vicejar desde que se afugente sempre mais a morte, esta figura assustadora com seus inúmeros e ameaçadores tentáculos.

O mesmo se diga com respeito à relação entre salvação e pecado. Quanto mais longe do pecado, mais próximo da salvação. Donde a compreensão de salvação como uma espécie de condição paradisíaca, ou de uma pureza asséptica e isenta de toda e qualquer contaminação, legitimadora de tantas ideologias discriminatórias. Pois, imbuídos, muitas vezes, da necessidade de se ter que fugir do pecado, nós nos surpreendemos justificando as mais sutis exclusões daqueles que julgamos acometidos pelo pecado e, portanto, disseminadores do mesmo.

Abraçando a instabilidade de seu tempo até suas últimas conseqüências, Francisco alcança uma peculiar intensidade em sua relação para com cada pessoa, cada criatura e cada instante de vida. E a motivação e força suficientes para não soçobrar em meio a esta árdua travessia, Francisco busca-as numa inserção cada vez profunda no mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo. Deixando-se inspirar pelo Espírito do Senhor Ressuscitado, Francisco persegue até o fim os passos de Jesus, estreitando cada vez mais seus laços de comunhão e de solidariedade para com Ele, numa fidelidade inaudita à vontade do Pai.

Segundo a expressão do apóstolo, ‘Cristo resgatou-nos da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós’ (Gl 3,13). A salvação que Jesus nos procurou mediante o mistério de sua vida, paixão, morte e ressurreição não se resume a alguma coisa que Ele nos tenha trazido de fora de nossa existência conturbada e assinalada pelo pecado. Ele viveu em tudo nossa condição, reconstituindo os fios da trama de nossa existência, a partir de suas fibras mais íntimas, reconciliando-nos mediante uma eficácia sem precedentes, porque inusitada. Sorvendo até a última gota nossa existência intrinsecamente contraditória e ambígua, Ele a sanou eficazmente, por amor e com amor, transformando o veneno de nossa perversidade em antídoto contra o pecado.

É essa a razão pela qual o Apocalipse, que é um autêntico grito de esperança em meio a situações de perseguição e de morte, atribui a Cristo um dos títulos mais significativos do inteiro corpo literário do Segundo Testamento : ‘o Vivente’. Cristo não morre mais, porque a morte não representa mais ameaça alguma Àquele que a assumiu com amor, virando-a pelo avesso, para dela poder extrair vida e vida plena para todos. De fato, só emergindo, de forma paradoxal, dos escombros mais ameaçadores da morte é que a vida pode se considerar como tal.
Seguindo, portanto, as pegadas de Cristo para permanecer em comunhão com Ele, Francisco assume a morte, com uma intensidade tal, a ponto de desarmá-la. Ele alcança esta proeza – transformar o que antes lhe parecia amargo em autêntica doçura de alma e de corpo – graças a seu amor singelo e puro, autêntico e solidário, como o de Cristo. A peculiar ousadia com que o Poverello opera esta autêntica reconversão da morte em vida e do pecado em graça é, sem sombra de dúvida, a marca distintiva de seu processo de conversão e, ao fim e ao cabo, o diferencial de sua singularíssima experiência.’


Fonte :


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O gesto do pobrezinho de Assis

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A Palavra de Deus ao entrar no coração do ser humano, quer a conversão deste.
*Artigo de Padre Geovane Saraiva,
Pároco de Santo Afonso e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


‘Quando o cristão percebe, à luz da palavra de Deus, que está envolvido com a misteriosa presença divina, acorda para uma consciência responsável e um ardor missionário. A Palavra de Deus, que é dom e graça, ao entrar no coração do ser humano, quer não só sensibilizá-lo, mas a conversão deste, na busca da solidariedade e da vivência da justiça, diante da dor e do sofrimento, exigindo daquele que se dispõe a seguir a Jesus de Nazaré um esforço constante de renovação da face da terra, num desejo de superação dos sinais de iniquidade tão presente no mundo.

Como é maravilhoso notar nas pessoas uma fé viva, lúcida e consequente! Nunca é demais repetir o atraente desafio no exemplo de São Francisco de Assis, no seu louco, apaixonado e ardoroso amor, totalmente voltado para Deus e suas criaturas. Vivemos na Igreja o momento dos festejos do Pobrezinho de Assis, o qual nos favorece a meditar na radical entrega do Filho de Deus. São dias abençoados, os quais faz-nos compreender em profundidade o célebre gesto de Francisco de Assis, voltar atrás, descer do cavalo e beijar o leproso, dizendo-nos do desafio de desmontar do cavalo, que é a nossa pouca solidariedade, orgulho, intransigência e intolerância.

Aquela voz indizível que inspirou Francisco de Assis, de ir restaurar a Igreja, a vemos muito nítida no Papa Francisco, nas suas generosas atitudes de humildade, sem esquecer da sua palavra profética, sempre causando impacto com uma boa notícia. A capela de São Damião, a Igreja Porciúncula e a Igreja de São Pedro, restauradas pelo grande Santo de Assis, representam a Igreja inteira e a própria humanidade, que, à luz da palavra de Deus, precisa mais do que nunca ser restaurada e renovada.

A indiferença, diante do clamor do mundo e da própria Igreja de Jesus Cristo em busca de socorro, é tarefa dos cristãos e de todas as pessoas de boa vontade. O mundo ficaria encantado e edificado com um gesto promissor de arauto da paz por muitos irmãos, ao dizer não a tudo que degrada, bem como a busca do poder, do ter e do prazer, quando percebemos uma acentuada tendência de se retornar ao luxo e à glória do mundo, mesmo dentro da Igreja. É nesse sentido que o Papa Francisco, não só surpreende, mas impressiona e causa admiração, pela simplicidade e proximidade com as pessoas e intimidade com o clamor do planeta.’


Fonte :

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

800 anos do Perdão de Assis

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Louvemos ao Senhor que fez nascer São Francisco, que revolucionou, com sua ordem, a Igreja.

*Artigo de Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


‘Iniciamos o mês vocacional – Agosto – com o eco da grande JMJ da misericórdia de Cracóvia e com a comemoração do oitavo centenário do perdão de Assis, a assim chamada indulgência da Porciúncula que contará com a visita do Papa Francisco nesta semana.

Uma feliz providência : um centenário de concessão da misericórdia no ano do jubileu extraordinário da misericórdia com dois homens que levam o nome de Francisco. Com textos consultados na rede mundial de computadores e de domínio público reflitamos sobre este importante momento.

Francisco nasceu em Assis, na Úmbria (Itália) em 1182. Jovem orgulhoso, vaidoso e rico, que se tornou o mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos. Com 24 anos, renunciou a toda riqueza para desposar a ‘Senhora Pobreza’. Levará consigo para sempre essa missão evangelizadora e entusiasmada de servir a Cristo nos irmãos, em especial nos mais pobres.

Aconteceu que Francisco foi para a guerra como cavaleiro, mas doente ouviu e obedeceu a voz do Patrão que lhe dizia : ‘Francisco, a quem é melhor servir, ao amo ou ao criado?’. Ele respondeu que ao amo. ‘Porque, então, transformas o amo em criado?’, replicou a voz. No início de sua conversão viveu como eremita e na solidão, quando recebeu a ordem do Senhor na igrejinha de São Damião : ‘Vai restaurar minha igreja, que está em ruínas’. Partindo em missão de paz e bem, seguiu com perfeita alegria o Cristo pobre, casto e obediente.

Nessa época, no campo de Assis havia também uma antiga ermida abandonada dedicada a de Nossa Senhora no local chamado Porciúncula (de pequena porção). Este foi um dos lugares prediletos de Francisco e dos seus companheiros. Sim, companheiros, pois na Primavera do ano de 1200 já não estava só; tinham-se unido a ele alguns jovens que pediam também esmola, trabalhavam no campo, pregavam, visitavam e consolavam os doentes. A partir daí, Francisco dedica-se a viagens missionárias : Roma, Chipre, Egito, Síria… Peregrinando até aos Lugares Santos dentro da expansão da Ordem. O trabalho na terra santa dos freis franciscanos até hoje é um belo sinal de dedicação às terras e locais por onde Jesus passou.

Em 1223, foi a Roma e obteve a aprovação mais solene da Regra, como ato culminante da sua vida. Na última etapa de sua vida, recebeu no Monte Alverne os estigmas de Cristo, em 1224. Já enfraquecido por tanta penitência e cego por chorar pelo ‘amor que não é amado’, São Francisco de Assis, na igreja de São Damião, encontra-se rodeado pelos seus filhos espirituais e assim, recita ao mundo o cântico das criaturas. São Francisco de Assis, retira-se então para a Porciúncula, onde morre deitado nas humildes cinzas a 3 de outubro de 1226. Passados dois anos incompletos, a 16 de julho de 1228, o Pobrezinho de Assis era canonizado por Gregório IX.

A hodierna e majestosa Basílica de Santa Maria dos Anjos abriga no seu interior a pequena Capela da Porciúncula, local onde Francisco confirmou a sua vocação numa noite do ano 1216. O nome de Santa Maria dos Anjos provém da tradição de que, naquela pequena Capela, que foi construída por quatro peregrinos que retornavam da Terra Santa, era venerado um fragmento do túmulo da Virgem Maria, e que sempre se ouvia no local o canto dos anjos. Foi também nesta pequena Capela, que recebeu o nome de Porciúncula, isto é, pequena porção, que São Francisco recebeu a indulgência do ‘Perdão de Assis’. Conta-se a história desse momento místico da vida de São Francisco : estava certa noite em sua cela, rezando pela conversão dos pecadores, quando um anjo convidou a dirigir-se à Capela da Porciúncula. Lá chegando, encontrou-a toda iluminada e no meio de um coro de anjos estava a Virgem Maria ao lado de seu Divino Jesus.

Jesus, dirigindo-se a Francisco, disse-lhe : ‘Em recompensa ao teu zelo pela conversão dos pecadores, pede-me o que quiseres’. Francisco pediu-lhe então a indulgência Plenária para todos aqueles que tendo confessado e comungado, visitassem aquela pequena igrejinha. São Francisco, meio que assustado com seu atrevimento, suplicou a intercessão da Virgem Maria. O pedido teria que ser aprovado pelo Papa, Francisco com a face no chão. Adorou o seu Senhor. No dia seguinte, Francisco foi ao encontro do Santo Padre; este, porém, lhe concedeu a graça apenas um dia no ano, ou seja a cada 02 de Agosto. Nesta data, denominada ‘Perdão de Assis’, é enorme a afluência de fiéis à Basílica da Porciúncula e a Igreja celebra a Festa de Nossa Senhora dos Anjos.

Esta festa é uma das mais importantes, ainda hoje, da família franciscana, pois foi estendida, mais tarde, pelo Papa Sisto IV, a todas as igrejas do orbe.  Então, somos todos beneficiados pelo ‘Perdão de Assis’ ou ‘Dia do Perdão’, para tanto, devemos fazer uma boa confissão, participar da Eucaristia, e, entrando na igreja franciscana, rezar pelo Santo Padre, o Papa. Louvemos ao Senhor que fez nascer São Francisco, que revolucionou, com sua ordem, a Igreja, sem precisar abandoná-la ou fundar outra. No mês das vocações, vamos lembrar o despojamento, a coragem, a simplicidade, o amor e a pobreza do Santo de Assis.

Encerramos este artigo rezando a oração de Nossa Senhora dos Anjos : ‘Augusta Rainha dos céus e soberana Senhora dos Anjos, Que recebeste de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, Nós vos pedimos humildemente : Enviai as legiões celestes para que, sob Vossas ordens persigam os demônios; Combatam-nos em toda a parte, reprimam a sua audácia e os precipitem no abismo. Quem é como Deus? Santos, anjos e arcanjos protegei-nos, defendei-nos! Ó boa e terna Mãe, vós sereis sempre O nosso amor e a nossa esperança! Ó divina mãe, enviai os vossos anjos, Para que nos defendam e afastem de nós O cruel inimigo! Assim seja!’ (Papa Leão XIII).’


Fonte :
* Artigo na íntegra


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

São Francisco de Assis

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



Nasceu em Assis (Itália), no ano 1182. Depois de uma juventude leviana, converteu-se a Cristo, renunciou a todos os bens paternos e entregou-se inteiramente a Deus. Abraçou a pobreza para seguir mais perfeitamente o exemplo de Cristo, e pregava a todos o amor de Deus. Formou os seus companheiros com normas excelentes, inspiradas no Evangelho, que foram aprovadas pela Sé Apostólica. Fundou também uma Ordem de religiosas (Clarissas) e uma Ordem de Penitentes Seculares; e promoveu a pregação da fé entre os infiéis. Morreu em 1226.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Francisco de Assis :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Da Carta a todos os fiéis, de São Francisco de Assis
(Opuscula, edit. Quarachi 1949,87-94)        (Séc.XIII)

Devemos ser simples, humildes e puros
O Pai Altíssimo anunciou a vinda do céu do tão digno, tão santo e glorioso Verbo do Pai, através de seu santo, Gabriel, à santa e gloriosa Virgem Maria, em cujo seio recebeu a verdadeira carne de nossa humanidade e fragilidade. Ele quis, no entanto, sendo incomparavelmente mais rico, escolher a pobreza junto com a sua santíssima mãe. Nas vésperas de sua paixão, celebrou a Páscoa com os discípulos. Depois, orou ao Pai dizendo : Pai, se for possível, afaste-se de mim este cálice (Mt 26,39).

Pôs, contudo, sua vontade na vontade do Pai. E a vontade do Pai era que seu Filho bendito e glorioso, dado a nós e nascido para nós, se oferecesse em sacrifício e vítima no altar da cruz, pelo seu próprio sangue. Sacrifício não para si, por quem tudo foi feito, mas por nossos pecados, deixando-nos o exemplo para lhe seguirmos as pegadas (cf. 1Pd 2,21). E quer que todos nos salvemos por ele e o acolhamos com coração puro e corpo casto.

Ó como são felizes e benditos aqueles que amam o Senhor e fazem o que o mesmo Senhor diz no evangelho : Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e ao próximo como a ti mesmo! (Lc 10,27). Amemos, portanto, a Deus e adoremo-lo com coração puro e mente pura porque, acima de tudo, disto está ele à procura e diz : Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade (Jo 4,23). É necessário que todos que o adoram, o adorem no espírito da verdade. E dia e noite elevemos para ele louvores e orações, dizendo : Pai nosso que estás nos céus (Mt 6,9); porque é preciso orar sempre e não desfalecer (cf. Lc 18,1).

Além disto, produzamos dignos frutos de penitência (cf. Mt 3,8). E amemos os próximos como a nós mesmos. Tenhamos caridade e humildade e façamos esmolas, já que estas lavam as almas das nódoas dos pecados. Os homens perdem tudo o que deixam neste mundo. Levam consigo somente a paga da caridade e as esmolas que fizeram: delas receberão do Senhor o prêmio e a justa recompensa.

Não nos convém sermos sábios e prudentes segundo a carne, mas temos antes de ser simples, humildes e puros. Jamais desejemos ficar acima dos outros, mas prefiramos ser servos e submissos a toda criatura humana, por causa de Deus. Sobre todos os que assim agirem e perseverarem até o fim repousará o Espírito do Senhor e fará neles sua casa e mansão. Serão filhos do Pai celeste, pois fazem suas obras, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas IV’, 1345, 1346