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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

A força da Fé

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem.’(Hb 11,1)

‘Ter fé é ir com medo.’(Edith Stein)

 

‘A fé é o pilar central da vida cristã, uma resposta do coração e da alma ao chamado divino que Deus dirige a cada pessoa humana. Nas Sagradas Escrituras, encontramos o convite de Cristo para que entreguemos nossa confiança no Pai que nunca nos abandona. Jesus nos lembra que ‘Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte : ‘Passa daqui para lá’, e ele há de passar’ (Mt 17,20). Entretanto, para que essa fé seja autêntica e floresça é necessário que ela tenha uma atitude concreta e ao amor, pois ‘a fé sem obras é morta’ (Tg 2,26).

A fé cristã, então, não é passiva : ela exige ação. As obras representam a materialização do amor de Deus em nossas vidas, um reflexo de seu cuidado e retenção. Jesus, em sua vida pública, exemplificou esse compromisso : Ele curou, alimentou e confortou aqueles que encontrou em seu caminho, deixando-nos um legado de misericórdia e compaixão. Em cada gesto de caridade, Jesus mostrou que o amor é uma linguagem universal e que exige um comprometimento real com o chão da vida. Como nos ensina São João, ‘Se alguém disser : ‘Eu amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, é mentiroso’ (1Jo 4,20).

O amor cristão é, antes de tudo, um amor que se faz, que vai ao encontro do outro com generosidade. Em cada ato de caridade, Deus nos convida a seguirmos o exemplo de Cristo, que, sendo o Filho de Deus, ‘não veio para ser servido, mas para servir’ (Mt 20,28). Inspirados pelo exemplo de Jesus somos chamados a manifestarmos a nossa fé por meio do amor ao próximo, criando laços de solidariedade, fraternidade e cuidado, sobretudo com os mais necessitados.

Dentre as muitas cenas e imagens que temos de Cristo, convém recordarmos aquela na qual Ele é apresentado como o ‘bom pastor’, aquele que conhece e cuida de suas ovelhas com profundo amor e zelo.

A vida de Cristo nos ensina que a verdadeira fé não é uma mera adesão às doutrinas, mas um caminho de transformação interior que se reflete na nossa maneira de ser e de agir. Quando nos aproximamos dele, sentimos o impulso de sermos melhores, de amarmos mais, de estendermos a mão a quem sofre. Essa dinâmica entre fé e obras é uma expressão concreta do mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22,37-39).

A fé cristã, em sua essência, é uma vivência encarnada, que não se limita ao âmbito individual. Como corpo místico de Cristo, a Igreja é chamada a agir no mundo, inspirando-se em seus ensinamentos para transformar a sociedade à luz do Evangelho.

Nossos dias, muitas vezes marcados pela pressa e pelo individualismo, desafiam-nos a redescobrirmos o valor da fé vivida em comunidade e traduzida em gestos concretos de fraternidade. É nesse contexto que a mensagem de Cristo ‘Amai-vos uns aos outros como eu vos amei’ (Jo 15,12) se torna uma luz que guia nossos passos. Nossa fé só ganha sentido pleno quando se transforma em obras de amor, pois é por meio do amor que Deus se manifesta no mundo.

Que possamos, como cristãos, seguir o exemplo de Cristo, integrando fé, obras e amor em nossa caminhada. Que nossa fé seja o fundamento de nossas ações, nosso amor seja a marca da presença de Deus em nós e que, unidos como Igreja, possamos construir um mundo mais justo e fraterno, onde o amor de Deus possa ser reconhecido em cada gesto de compaixão e solidariedade. Assim, cumpriremos nossa missão de sermos, à imagem de Cristo, instrumentos do amor de Deus no mundo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-forca-da-fe.html

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Vozes e irrelevâncias

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


‘Não se está apenas vivendo uma época de mudanças, mas uma grande e radical mudança de época. Essa expressão, resultado de análises filosófico-antropológicas dedicadas à contemporaneidade, faz referência às revoluções sem precedentes que estão reconfigurando a humanidade. No contexto das aceleradas e profundas transformações, pensa-se que as muitas narrativas capazes de dar sentido ao mundo ruíram, e ainda não teria surgido nenhuma outra para ocupar as lacunas existentes. Muitas perguntas permanecem sem respostas, mesmo com tantas vozes que se consideram autoridades no esclarecimento de interpelações. Não raramente, essas vozes promovem uma dissonância que atormenta, atrasa processos, gera confusões, alimentando relativizações que desconsideram memórias, valores e princípios imprescindíveis. O resultado é uma verdadeira babel, com prejuízos aos entendimentos necessários para que cada pessoa exerça o seu papel na sociedade. Essa dissonância, com vozes que instigam polarizações e fundamentalismos, prejudica também o estado de espírito – a condição emocional de grupos e indivíduos, alimentando desequilíbrios e descompassos.

O coro ruidoso, promovido por pessoas e grupos, é desafinado não por uma falta de referenciais teóricos, ou pela escassez de análises relevantes. A dissonância de vozes vem, especialmente, da ausência de compreensão mínima sobre o que significa viver e conviver na Casa Comum, ou da desconsideração sobre a urgência de se efetivar uma economia guiada pelos parâmetros da sustentabilidade, salubridade e solidariedade. Sem solucionar essas carências, torna-se impossível mudar cenários de exclusão social que são atestados de incompetência para uma sociedade com tantos avanços tecnológicos e científicos. Obviamente, a civilização contemporânea, em comparação a outras fases da história humana, conta com muito mais oportunidades, mas precisa capacitar-se para aproveitá-las bem. É necessário investir para que o humanismo fundamente as vozes deste tempo. Mais que isso : torne-se também força capaz de configurar nova etapa na história da humanidade.

Ante as aceleradas transformações sociais contemporâneas, muitos experimentam sensação de impotência neste contexto que aparenta ser caótico. Esse sentimento pode ser o sinal de que se está no caminho certo, pois a realidade é, de fato, muito complexa. Não é possível a apenas uma pessoa compreendê-la ou gerenciá-la plenamente.  Reconhecer que se sabe muito menos do que se pensa saber é um passo com incidência existencial forte. Para alcançar essa compreensão, deve-se considerar a importância de muitos elementos que não podem ser negociados ou rifados, pois são antídotos para obscurantismos. Não se deve abrir mão, por exemplo, da memória histórica de instituições, frequentemente desconsideradas nos dias atuais por quem se perde na avalanche de mudanças.

Sem reconhecer a memória, muitos acreditam, ingenuamente, que estão ‘inventando a roda’, mesmo que essa ‘roda’ já exista – o necessário é a inteligência para fazê-la girar. Além disso, ao desconsiderar a memória, paga-se um preço alto com a perda do sentido que alimenta a vida. Convive-se com a arbitrariedade da iconoclastia que demole tudo e enfraquece o tecido existencial com superficialidades, a partir da ilusão de que se está construindo algo novo. Nesse mesmo caminho de desconsideração da memória, há um impulso inconsequente, por vezes alimentado por interesses ideológicos, oportunistas, cegos e até mesquinhos. Esse impulso leva muitos a prescindir de instituições com capacidade para ser voz forte na superação das dissonâncias que prejudicam a sociedade.

As instituições estão sendo enfraquecidas ou atingidas por um subjetivismo que alimenta nas pessoas a ilusão de que suas próprias vozes são as mais lúcidas. Indivíduos passam a acreditar que suas perspectivas podem substituir vozes institucionais – que também necessitam, permanentemente, de afinação, para continuarem proféticas e gerarem interpelações transformadoras. Quando a irracionalidade permite que sejam enfraquecidos contextos institucionais há graves consequências : democracias perdem força, desempenhos profissionais e cidadãos tornam-se inadequados e cada vez mais se acentua a dissonância entre as muitas vozes, conduzindo instituições religiosas, educacionais, políticas, governamentais e tantas outras ao universo das irrelevâncias.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/artigo/9052/2020/09/vozes-e-irrelevancias/ 

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Falta-nos ser leves!


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


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*Artigo de Marta Arrais,
cronista


‘Parece-me que a leveza está, como tantas outras coisas, em vias de extinção. Falta-nos a capacidade de deixar cair o que nos pesa. O que nos deixa de sobrolho franzido e o que nos faz engelhar a testa. Temos a tendência para ir procurar a pior versão de cada um, de cada acontecimento, de cada dia.

Falta-nos a leveza de não querer saber para onde vamos a seguir. Falta-nos a humildade do sorriso que não tem medo do que pode estar guardado atrás desta ou daquela porta. Falta-nos a coragem para não estar à defesa e para não estar, permanentemente, em estado de guerra eminente.

Parece-me que a leveza está magra de não se usar. Estamos todos gordos de pessimismo, de corrupção, de maledicência e de notícias tenebrosas. Deixamos a leveza de lado e esquecemo-nos de lhe dar de comer e de beber. Fomos, e somos, cada vez mais ingratos. Pedimos que os dias sejam mais leves, mas damos-lhes o peso da última vez. Pedimos que as pessoas sejam brandas, mas não abrandamos na forma como teimamos em passar por cima seja de quem for. Pedimos que seja Verão, mas há lama de chuvas antigas a fazer-nos envelhecer por dentro.

Falta-nos ser leves. Leves como quem quer ser feito de voos e não de aterragens.
Leves como quem é feito de nuvens brancas que nunca ficam.
Leves como quem se deixa atravessar pela brisa que o mar quer trazer.
Leves como a espuma que fica depois das ondas.
Leves como quem não tem medo do que já passou, do que há e do que há-de vir.’


Fonte :

sexta-feira, 16 de março de 2018

Todos baterão no peito


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Sem a necessária revisão interior, permanecem os passivos e atrasos.
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Bater no peito é um gesto simbólico, forte. É a demonstração de uma consciência iluminada para a necessidade inadiável de conversão e mudança no contexto atual, com suas lacunas e crises de todos os tipos. Sabe-se que não se avança sem inovações na tecnologia, nos funcionamentos das instituições, na adoção de novas estratégias capazes de alcançar soluções para os desafios contemporâneos. Tudo isso é importante. Mas, acima de tudo, é preciso promover transformações no jeito de ser de cada cidadão, para que famílias, comunidades, instituições, toda a sociedade, sejam constituídas por pessoas qualificadas.  Assim, fica claro que a conversão e a mudança podem ser os pilares insubstituíveis para que as consciências tornem-se a força capaz de dar novo rumo à humanidade. Eis o maior desafio existencial e ético-moral.  

Sem a necessária revisão interior, permanecem os passivos e atrasos. São perdidos valores culturais e religiosos. Habitua-se a conviver com a incompetência humanístico-existencial nos mais diversos ambientes. Os indivíduos se tornam espectros, sem força para desencadear necessárias transformações. Contentam-se a realizar um ‘voo cego’, sem rumos, desprovido de clarividência.  Quando não se revisa a própria consciência, a tendência é agir com certa permissividade na defesa de interesses espúrios, revelando mesquinhez.  O resultado é uma sociedade moralmente desarticulada, com segmentos e instituições que servem como ancoradouro dos medíocres. O ser humano perde a capacidade e a sensibilidade para reconhecer o inestimável valor do semelhante - a expressão do que é nobre e grandioso na promoção do bem.

As muitas dificuldades enfrentadas atualmente podem ser, em grande parte, resultado do que é produzido nas mentes daqueles que não adotam o gesto ritual, com força de tocar a consciência, de bater no próprio peito. Esse gesto simbólico significa reconhecer, humildemente, as próprias limitações. É o primeiro passo para se viver processos de requalificação. Hoje, bate-se no peito como sinal de várias outras coisas : para se gabar do pouco que se fez, para a autopromoção, para justificar o que é da própria conveniência, para querer apresentar-se como melhor do que o outro, para tentar conquistar admiração, enaltecendo o que julga possuir em termos de qualidades. Perde-se, assim, a oportunidade de se exercitar na indispensável tarefa de reconhecer os próprios limites. Com isso, corremos o risco de acentuar formas perigosas de individualismo.

Progressivamente, as pessoas tornam-se menos habilitadas para o necessário embate de ideias e perspectivas, dinâmica fundamental para a revisão das próprias convicções e, consequentemente, para o amadurecimento. Sem abertura para mudança, indivíduos se agarram a critérios que produzem juízos equivocados. Na contramão de processos de conversão, vê-se o aumento de posturas enrijecidas, pela manutenção de reações e considerações cristalizadas, levando a humanidade a conviver com tantas situações cruéis : preconceitos, ódios, indiferenças.  São alimentadas disputas e tornam-se cada vez mais distantes as possibilidades de reconciliação. Essas situações revelam mediocridades humanísticas e espirituais.

E o tempo precioso da Quaresma, delicadeza de Deus para com o seu Povo, é a oportunidade para resgatar o nobre sentido de bater no peito como experiência existencial-penitencial, investimento para corrigir a própria conduta, compreendendo-se como instrumento para promover convivências saudáveis. Ao bater no próprio peito, reconhecendo limitações, com abertura para evoluir, cada pessoa torna-se agente no processo de qualificação do tecido social, humanístico, religioso e cultural no mundo contemporâneo. Pode oferecer, assim, contribuição para edificar uma civilização fraterna e solidária, capaz de superar os variados tipos de violência.

O gesto de bater no peito, com humildade e altruísmo, exige vencer qualquer postura narcísica. Ao invés disso, o olhar deve dirigir-se para a pessoa capaz de transformar o coração de todos : Jesus Cristo, contemplando o seu caminho redentor de paixão, morte e ressurreição.  Bater no peito, com a abertura para reconhecer as próprias limitações, cultivando a disponibilidade para evoluir, é exercício que ilumina consciências. Caminho indispensável para o surgimento de líderes capazes de cumprir a missão que assumiram, cidadãos que prezam e têm gosto pela solidariedade fraterna, gente que reconhece e valoriza os bens históricos, culturais e ecológicos.

Bater no peito, sem medo e até por gosto terapêutico, examinar a própria consciência, reconhecer erros e mediocridades, um esforço da razão e, acima de tudo, com abertura para a graça de Deus, com o olhar fixo n’Ele, o Cristo. Aí está o exercício transformador que qualifica a interioridade humana para alcançar novos propósitos, a alegria de sair da própria prisão existencial para fazer-se instrumento do amor e da verdade, edificando um tempo novo, o tempo de Deus!’


Fonte :

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Francisco de Assis - Uma vida sob o signo da travessia pascal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Francisco assume a morte, com uma intensidade tal, a ponto de desarmá-la.
 *Artigo de Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM,
doutor em Teologia Sistemática
pela Pontificia Università Antonianum, Roma.
  
‘Celebramos, hoje, em comunhão com a Igreja universal, a festa de São Francisco, o Poverello de Assis. A pluralidade das narrativas acerca da conversão de Francisco nos remete à peculiaridade de sua experiência e, portanto, à singularidade de sua pessoa. Quanto mais intensa, de fato, uma experiência, tanto mais ela fomenta uma variedade incontida de expressões. Surpreende-nos, todavia, o Poverello, ao eleger, no ocaso de sua vida, o abraço solidário e acolhedor do leproso como experiência crucial de sua conversão.

No imaginário judeu-cristão, a lepra ocupa bem mais do que outras doenças uma posição de relevo. No Primeiro e no Segundo Testamentos descortinam-se, diante de nossos olhos, variadas cenas envolvendo pessoas acometidas por esta doença. A lepra que acomete Naamã, o Sírio, é a mesma que atinge tantas pessoas que Jesus encontra no curso de seu ministério público. Lepra que corrói a carne e desfigura as feições, tornando-se estigma da exclusão e da morte.

Como é sabido, o tempo de Francisco é caracterizado por profundas e significativas mudanças e noto, portanto, como um período de grande instabilidade. A causar esta situação de instabilidade não são apenas as contínuas guerras; são também as doenças antigas e novas ocasionadas pelo fluxo contínuo de pessoas. O emergente comércio que vai se impondo graças ao progressivo esfacelamento do feudalismo provoca um significativo movimento migratório. E com ele, além das tão apreciadas especiarias, infestam a Europa, entre outros, ratos com suas pulgas hospedeiras dos germes da Peste Negra. Também as Cruzadas contribuem para o crescimento do fenômeno da migração. Os gloriosos cruzados partem para o Oriente investidos de uma incumbência messiânica : defender os lugares santos e, assim, propagarem a Cristandade. No entanto, por onde passam, espalham lepra, sífilis e outras doenças.

Em um estudo acurado sobre o surto de lepra na Idade Média, a pesquisadora e sanitarista estadunidense Jeanette Farrell, no seu A assustadora história das pestes e epidemias, lembra que, enquanto para os judeus a lepra implicava em impureza ritual, para os cristãos, ela se torna o estigma do pecado e da morte que pesa com gravidade sobre os ombros de seu portador. A tal propósito, ela menciona alguns exemplos que testemunham a existência de um ritual religioso de morte social destinado aos acometidos por esta enfermidade, ainda que não tivessem ainda morrido de fato. Segundo esse mesmo ritual, os leprosos eram queimados ou, em certos casos, enterrados vivos. Tais fatos se davam freqüentemente durante os reinados de Henrique II da Inglaterra (1154-1189), Filipe V da França (1285-1314) e de Eduardo I da Inglaterra (1272-1327).

 Como se pode ver, no tempo de Francisco, além de ser vítima do sofrimento físico e moral, o leproso encarna a expressão cabal do pecado e, portanto, da condenação divina. Por esta razão, a atitude de acolhida e de solidariedade que Francisco assume para com ele deve ser interpretada não apenas como expressão de sua compaixão humanitária. Ela encarna uma distinta maneira de se relacionar com o excluído e, conseqüentemente, com o mal e sua estigmatização religiosa, mediante o pecado.

Em seu Testamento, Francisco não deixa dúvidas de que o encontro com o leproso constitui uma autêntica ruptura em sua vida. E esta ruptura foi radical a ponto de assinalar de maneira indelével sua vida a partir de então. Esta experiência crucial é por ele mesmo descrita como ‘aquilo que parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo’ (Testamento, 3a). O que nos deixa, contudo, perplexos não é tanto que ele tenha abraçado o leproso e, mediante este gesto, se solidarizado com o pecador e o excluído, quando praticamente todos ostentavam razões, pretensamente legítimas, para justificar o rechaço e a exclusão.

O que mais chama a atenção é que, abraçando o leproso, ele se sente testemunha de um visceral processo de transformação : o que antes lhe parecia amargo, lhe se converte em doçura de alma e de corpo. Aqui se encontra propriamente o âmago da experiência de Francisco que a torna um evento singular : a ousadia de abraçar a morte, disposto a acordar nela as mais genuínas sementes de vida. Ou ainda, abraçar a expressão personificada da exclusão e do pecado como único caminho possível de salvação. Pois assim como a autêntica vida só pode brotar de uma generosa aceitação da morte, assim também só o pecado acolhido com amor pode transmutar-se em salvação. E esta experiência se torna decisiva, uma vez que ele mesmo atesta : ‘e, depois, demorei só um pouco, e abandonei o mundo’ (Testamento, 3b).

 Para nós que manifestamos tamanha habilidade em dissecar as realidades, individuando-as uma a uma, para depois separá-las chegando ao paroxismo de contrapô-las, esta lição se nos revela demasiadamente indigesta, posto ser paradoxal e absurda. Julgamos que morte e vida se encontram nos extremos de nossa existência a ponto de não se tocarem senão no derradeiro e inevitável instante. Qual impostora, a morte estaria sempre à espreita, para seqüestrar de maneira sorrateira, embora agressiva, nossa vida. Por esta razão é que buscamos construir nossa vida numa distância cada vez maior de toda e qualquer sombra de morte. Julgamos que a vida só pode vicejar desde que se afugente sempre mais a morte, esta figura assustadora com seus inúmeros e ameaçadores tentáculos.

O mesmo se diga com respeito à relação entre salvação e pecado. Quanto mais longe do pecado, mais próximo da salvação. Donde a compreensão de salvação como uma espécie de condição paradisíaca, ou de uma pureza asséptica e isenta de toda e qualquer contaminação, legitimadora de tantas ideologias discriminatórias. Pois, imbuídos, muitas vezes, da necessidade de se ter que fugir do pecado, nós nos surpreendemos justificando as mais sutis exclusões daqueles que julgamos acometidos pelo pecado e, portanto, disseminadores do mesmo.

Abraçando a instabilidade de seu tempo até suas últimas conseqüências, Francisco alcança uma peculiar intensidade em sua relação para com cada pessoa, cada criatura e cada instante de vida. E a motivação e força suficientes para não soçobrar em meio a esta árdua travessia, Francisco busca-as numa inserção cada vez profunda no mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo. Deixando-se inspirar pelo Espírito do Senhor Ressuscitado, Francisco persegue até o fim os passos de Jesus, estreitando cada vez mais seus laços de comunhão e de solidariedade para com Ele, numa fidelidade inaudita à vontade do Pai.

Segundo a expressão do apóstolo, ‘Cristo resgatou-nos da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós’ (Gl 3,13). A salvação que Jesus nos procurou mediante o mistério de sua vida, paixão, morte e ressurreição não se resume a alguma coisa que Ele nos tenha trazido de fora de nossa existência conturbada e assinalada pelo pecado. Ele viveu em tudo nossa condição, reconstituindo os fios da trama de nossa existência, a partir de suas fibras mais íntimas, reconciliando-nos mediante uma eficácia sem precedentes, porque inusitada. Sorvendo até a última gota nossa existência intrinsecamente contraditória e ambígua, Ele a sanou eficazmente, por amor e com amor, transformando o veneno de nossa perversidade em antídoto contra o pecado.

É essa a razão pela qual o Apocalipse, que é um autêntico grito de esperança em meio a situações de perseguição e de morte, atribui a Cristo um dos títulos mais significativos do inteiro corpo literário do Segundo Testamento : ‘o Vivente’. Cristo não morre mais, porque a morte não representa mais ameaça alguma Àquele que a assumiu com amor, virando-a pelo avesso, para dela poder extrair vida e vida plena para todos. De fato, só emergindo, de forma paradoxal, dos escombros mais ameaçadores da morte é que a vida pode se considerar como tal.
Seguindo, portanto, as pegadas de Cristo para permanecer em comunhão com Ele, Francisco assume a morte, com uma intensidade tal, a ponto de desarmá-la. Ele alcança esta proeza – transformar o que antes lhe parecia amargo em autêntica doçura de alma e de corpo – graças a seu amor singelo e puro, autêntico e solidário, como o de Cristo. A peculiar ousadia com que o Poverello opera esta autêntica reconversão da morte em vida e do pecado em graça é, sem sombra de dúvida, a marca distintiva de seu processo de conversão e, ao fim e ao cabo, o diferencial de sua singularíssima experiência.’


Fonte :