Mostrando postagens com marcador servir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador servir. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Francisco de Assis ensina: quem reza, serve!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Frei Augusto Luiz Gabriel, ofm


‘A oração sempre ocupou lugar central na vida cristã, não apenas como devoção, mas como fonte que sustenta e inspira todas as escolhas e ações do discípulo. Desde os antigos mestres espirituais, passando pela experiência de Santo Afonso de Ligório, aprendemos que rezar é reconhecer que ‘sem mim nada podeis fazer’ e pedir o dom do Espírito para viver segundo o Evangelho. São Francisco de Assis é testemunha luminosa dessa verdade : sua profunda vida de oração, feita de silêncio, louvor, escuta e entrega, tornou-se ação concreta, serviço humilde, cuidado dos pequenos e reconstrução da vida dos que sofrem. Por isso, a oração cristã não permanece apenas na interioridade; ela abre o coração, purifica a intenção e conduz ao compromisso real com o Reino de Deus.

Orar é elevar a mente e o coração a Deus, confiando inteiramente na sua graça. Não se trata de um gesto isolado de devoção, mas da fonte que orienta toda ação cristã. Desde os antigos mestres, como Hugo de São Vítor, e conforme a tradição bíblica do Livro da Sabedoria, entende-se que a oração é o caminho pelo qual se recebe a sabedoria e o Espírito : ‘Invoquei o Senhor, e veio a mim o espírito da sabedoria.’ Hugo recorda que, sem o auxílio divino, a iniciativa humana é insuficiente. A oração, portanto, é o acesso à filiação divina e nos torna capazes de pedir e viver o dom do Espírito. Santo Afonso reforça essa verdade a partir do mandato de Cristo : ‘Sem mim nada podeis fazer’. A oração não é um adorno religioso, mas a respiração da vida cristã. Quem reza com sinceridade e constância pede, antes de tudo, o dom do Espírito, e desse encontro nascem a fé, a esperança e a caridade autênticas.

A oração genuína, porém, não se limita ao interior : ela transforma e encaminha para o serviço. Enzo Bianchi e a tradição litúrgica lembram que a liturgia é ‘parusia antecipada’, sinal do Reino que já vem ao encontro do povo. O ministro, o celebrante e todo cristão só podem comunicar aquilo que carregam no coração : ‘Se você não estiver evangelizado, não poderá evangelizar; se a Palavra não mora em você, não poderá comunicá-la à assembleia.’ São Carlos Borromeu aconselhava os ministros : ‘Se você administra os sacramentos, medite no que está fazendo. Se celebra a missa, medite no que está oferecendo. Se recita os salmos, medite a quem e do que está falando.’ A regra é clara : a liturgia molda o coração para a caridade; a oração prepara e orienta a ação sacramental e pastoral. Orar e celebrar é preparar-se para servir e levar à vida aquilo que a Palavra e os sacramentos suscitam.

A vida de São Francisco de Assis ilumina essa união inseparável entre contemplação e serviço. Seu Cântico das Criaturas, sua oração diante do crucifixo e sua intimidade com Deus revelam uma espiritualidade que transforma tudo em compaixão e prática solidária. Na prece diante do crucifixo — ‘Altíssimo, glorioso Deus, ilumina as trevas do meu coração. Dá-me fé reta, esperança certa e caridade perfeita. Dá-me, Senhor, senso e discernimento para que eu cumpra o teu santo e verdadeiro mandamento’ — Francisco mostra a prioridade da vida cristã : pedir a graça para viver o Evangelho. Ele viu a criação como ‘um grande coro de onde brota contínua oração’ e fez da atenção aos pobres a consequência necessária dessa experiência contemplativa. Para ele, a oração que não gera partilha não é conforme ao Evangelho : a verdadeira espiritualidade conduz ao encontro dos pequenos, ao cuidado dos leprosos, à partilha do alimento, à presença junto aos marginalizados. A caridade é o fruto visível da alma que reza.

Praticar a fé significa, portanto, transformar a contemplação em gestos cotidianos : cultivar a Palavra, estudá-la, meditá-la, deixá-la moldar o coração; buscar a reconciliação com Deus e com os irmãos; ajudar os necessitados com partilha e presença; oferecer escuta; promover a comunhão. A Eucaristia, centro da vida cristã, recorda esse movimento : alimentar-se do Corpo do Senhor é assumir a responsabilidade de levar alimento e dignidade aos famintos. A espiritualidade franciscana sublinha que solidariedade é prática de amor : viver a destinação universal dos bens, a fraternidade e a partilha como escolhas diárias. ‘O que eu tenho, eu dou’ resume a decisão de não viver para si, mas para quem precisa.

Há, portanto, um caminho claro : a oração nos dá o Espírito; o Espírito fecunda a fé; a fé se traduz em obras de amor. Tal percurso exige humildade — ser sinal pobre de Cristo — e coerência litúrgica : a celebração não é espetáculo, mas gesto formativo que converte. Quem preside, canta ou reza os ofícios deve fazê-lo com atenção e reverência, consciente de que a liturgia possui força evangelizadora quando é vivida em adoração. Ao mesmo tempo, a prática cristã é profética : uma espiritualidade que não promove transformação social nem se compromete com a justiça permanece mutilada. A fé que salva é a que humaniza, denuncia injustiças, reconstrói e liberta.

Concluímos com o mesmo espírito de Francisco, que inspirou gerações : oração e ação são duas faces da mesma vocação. Como escreveu o Poverello pouco antes de morrer : ‘Irmãos, até agora pouco ou nada fizemos; vamos recomeçar!’ Recomeçar na oração, que desarma o ego e prepara o coração; recomeçar na caridade, que torna crível a Palavra de Deus. Orar e praticar é viver a fé como caminho de amor — nas pequenas ações, nas decisões corajosas, na partilha cotidiana — até que o mundo reconheça, em nós, o rosto misericordioso de Deus.

Paz e Bem!

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/francisco-de-assis-ensina-quem-reza-serve.html

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Missionárias Combonianas celebram 150 anos de missão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Maria do Carmo Bogo,

Missionária Comboniana

 

‘A história das Missionárias Combonianas começou a partir da intuição profética de Daniel Comboni, um missionário com uma grande paixão por Cristo e pela África. Ele percebeu a urgência de integrar mulheres consagradas na missão evangelizadora da Igreja, considerando que a sua presença «constitui um elemento essencial e indispensável para a difusão da fé na África Central».

O sonho de Comboni de ter um instituto feminino dedicado exclusivamente à missão além-fronteiras iniciou-se, em Verona, Itália, em 1872, onde nasceu e se desenvolveu o Instituto feminino chamado inicialmente Pie Madri della Nigrizia (Piedosas Mães da África).

Em 1877, na sua sétima viagem à África, Comboni levou consigo as suas primeiras cinco missionárias. Elas caminharam ao lado dos africanos, por lugares desconhecidos, inóspitos e incertos, sendo testemunhas fiéis a Cristo no meio de muitas provas.

Como pretendia o fundador, as Missionárias Combonianas são mulheres apaixonadas por Jesus Cristo, sempre no caminho da missão, irmãs e companheiras de viagem dos mais pequenos e vulneráveis. Hoje, unidas por este único ideal, formam uma família exclusivamente missionária, com irmãs provenientes de 33 nações, que trabalham em 30 países de quatro continentes. 

Celebrar um ano jubilar

As Missionárias Combonianas estão a celebrar 150 anos (1872-2022) de missão percorridos pelos caminhos da África, que nunca abandonaram, embora tenham alargado os horizontes da missão à América, Ásia e Europa – sobretudo no campo das migrações.

Celebram um ano de Jubileu, sabendo que é um tempo para sincronizar a vida pessoal e comunitária ao ritmo divino. Um tempo de suspensão e receptividade permitindo que a «terra» pessoal e comunitária se possa regenerar para acolher novas sementeiras do Reino de Deus, entre os povos, onde são chamadas a viver o carisma recebido.

O chamamento à vida, ou seja, à vocação, continua a ser, antes de mais, encontro, sedução e coragem libertada de toda a ilusão, pronta a assumir as contradições e as complexidades do percurso.

O Papa Francisco lembra que o descanso é o ampliar do olhar que nos leva a reconhecer os direitos do próximo; que o descanso nos encoraja a cuidar de nós mesmos, da Natureza e dos pobres; a descobrir a ação de Deus na alma, mas também capacitando-nos a tomar decisões concretas para irmos ao encontro de quem precisa da nossa ajuda (cf. Laudato Si’, 237 e 233).

Inspira a vida dessas mulheres consagradas a experiência concreta do fundador : foi depois da paragem forçada em Roma, após o fracasso da primeira viagem à África que Daniel Comboni escreveu o Plano, apresentando novas intuições e novas estratégias missionárias.

É bom este tempo de vigia, que não se vê, porque vai para lá do visível inventando caminhos novos. A Terra contém o ritmo do Seu Criador. Aquele mesmo ritmo que, no início da Criação, alterna ação e contemplação quando «Deus disse», «Deus fez», «Deus viu» que tudo era bom.

Todos estamos convidados a viver com as Missionárias Combonianas este ano jubilar, prestando ouvidos à voz de Deus, que nos convida a confiar na Sua Providência ao longo dos nossos percursos, por vezes cansativos e difíceis de decifrar, por causa do nevoeiro que encurta o nosso horizonte. Aceitemos o descanso que se nos oferece, com tal delicadeza e amor : «Vinde até mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e dar-vos-ei descanso» (Mt 11,28).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/659/missionarias-combonianas-celebram-150-anos-de-missao/

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Missão é ir e voltar

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Fernando Domingues,

Missionário Comboniano

 

‘Os dois discípulos de Emaús (Lucas, 24) são conhecidos como aqueles que partiram de Jerusalém desiludidos e tristes com a morte de Jesus, que os tinha entusiasmado por algum tempo com o seu novo projeto de vida, e que viveram momentos de misteriosa esperança enquanto caminhavam e conversavam com Ele, sem saberem que ressuscitara nessa mesma manhã. Reconheceram-no só à noitinha quando Ele se sentou com eles à mesa e partiu o pão, como fizera na última ceia, alguns dias antes. Diz-nos o texto que logo decidiram regressar a Jerusalém. Mas é bom notar que o verbo usado por São Lucas – que escrevia em grego – não diz bem «regressar» no sentido de «voltar para trás», o que indica é que fizeram uma «grande mudança de rumo» : já não estão a ir embora, fugindo de uma experiência triste. Eles agora avançam ao encontro dos amigos que ficaram em Jerusalém, cheios de alegria com a novidade que têm para contar.

A experiência daqueles dois discípulos é a que fazemos muitos de nós, missionários, ao regressarmos ao nosso país para refazer as forças ou para assumir um serviço missionário aqui, por algum tempo. Não voltamos atrás; continuamos o caminho da nossa vida tomando um novo rumo para enriquecermos os irmãos com as descobertas que fomos fazendo. De fato, o Jesus que caminha conosco, muitas vezes incógnito nos momentos de escuridão e incerteza, e que acabamos por descobrir sentado à mesa conosco quanto «repartimos o pão» com as novas comunidades que vamos iniciando, esse Jesus tem um rosto cheio de novidade. É o mesmo que já conhecíamos antes da partida e, ao mesmo tempo tem toda uma série de traços novos que a missão nos ensinou a descobrir no seu rosto. Ele será agora o «Irmão mais velho» que reúne a família toda, o «Primogênito» que abre o túnel da vida a muitos irmãos e irmãs que vêm a seguir, o «Mestre» que inicia os «mais novos» a uma nova maneira de viver, o «Deus-conosco» que anima os nossos dias com o seu Espírito e transforma as nossas eucaristias na festa que nos faz dançar de alegria.

O missionário que regressa vem com um alforge cheio de tesouros para partilhar, e o melhor de todos é esse Jesus que encontrou a caminho de terras longínquas, e que viu sentado à sua mesa em outras eucaristias, falando outras línguas entre rostos de outras cores. Mas nesse alforge vem também o rosto de muitos novos irmãos e irmãs que deixaram nos nossos corações traços novos de Jesus e da sua comunidade, como uma certa Maria, doente que batizei num domingo à noite : rezou a Jesus agradecendo-Lhe porque, depois de uma vida tão atribulada, tinha finalmente «chegado a casa». Essa casa era a pequena comunidade reunida ali à volta da sua cama, na noite do seu batismo, e era também a casa eterna onde Jesus a ia receber poucos dias depois : eu nunca tinha entendido tão bem o que queria dizer que «Deus nos prepara uma casa».

Os discípulos de Emaús, chegando a Jerusalém, tinham muito que contar! O mesmo se diga de Barnabé e Paulo, uns anos mais tarde, quando regressam à comunidade de Antioquia, que os tinha enviado (Atos 13,3; 14,27-28). A missão é ir e voltar, e cada vez que se vai e vem, o Senhor faz-nos descobrir novos traços do seu rosto e do rosto da sua Igreja viva.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/628/missao-e-ir-e-voltar/

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

De executiva de sucesso a religiosa de clausura, esta “vocação relâmpago” comove milhares

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘Nicoletta Falzoni era executiva de sucesso de uma multinacional, entretanto, em uma peregrinação mariana, descobriu que o Senhor a chamava para pedir que entregasse e Ele a sua vida através da vocação religiosa em um mosteiro de clausura.

Diante do chamado de Deus se percebe um temor’, afirmou. ‘Como podemos com todos os nossos limites, nossas fraquezas, nossas infidelidades, estar a altura da vocação e nos lançar por inteiro?’, perguntou Nicoletta, que desde o dia 6 de maio tomou o nome de Irmã Maria Fides.

Em declarações ao semanário ‘L'Azione’, da Diocese de Vittorio Veneto (Itália), a religiosa afirma que o seu chamado pode se definir como uma ‘vocação relâmpago’.

Bem-sucedida gerente de marca da multinacional do tabaco Camel, Nicoletta estava acostumada ao mundo agitado dos negócios. Entretanto, em agosto de 2011 fez uma peregrinação a Medjugorje e, até a data que pediu entrar na Abadia Beneditina Mater Ecclesiae – na ilha italiana de San Julio –, passou um ano ‘pleno pelo crescente desejo de rezar, em comunhão com Maria e Jesus’.

Natural de Vazzola, Nicoletta realizou os seus votos perpétuos no dia 6 de maio, depois de cinco anos de noviciado. A cerimônia foi celebrada pela abadessa Madre Maria Canopi, de 86 anos, 44 dos quais é religiosa de clausura.

Em suas declarações a ‘L'Azione’, Irmã Maria Fides afirmou que ‘nos últimos anos compreendeu também que o Senhor não chama a fazer ou a não fazer, mas a ‘deixar-se fazer’, e aderir completamente à sua vontade, como fez Santa Teresa de Calcutá quando se definia como um simples lápis nas mãos do artista Divino. É Ele quem faz através de nós’.

Reconheci – acrescentou – que através deste chamado o Senhor me ofereceu o tesouro escondido pelo qual vale a pena deixar o resto, a pérola preciosa diante da qual qualquer outro bem perde o valor’.

Nesse sentido, com a experiência que Nicoletta teve como mulher de negócios, assinalou que ‘estamos acostumados a planejar, a organizar e queremos ter tudo sob controle, ao contrário o Senhor nos pede para entregar-lhe toda a nossa vida sem possibilidade de ter algum salva-vidas ou um paraquedas’.

O mundo nos oferece tanto : carreira, sucesso, riqueza, realização, autoafirmação, e tudo isso com certeza é muito atraente’. Entretanto, ‘o chamado de Deus está na direção contrária’ e ‘nos convida e garante ‘Não tenham medo’ e a sua fidelidade dura para sempre’.

Durante a entrevista, Madre Maria Fides também assinalou que a sociedade de hoje ‘tem tanta necessidade de uma vida de oração e de silêncio’.

Nesse sentido, recordou a importância de ‘recuperar oração e recitação do Rosário, especialmente na família’. ‘Nada nos une mais do que rezar juntos e isso também pode ser uma ajuda para combater a falta de comunicação, devido ao uso cada vez mais frequente dos telefones, que sempre estão em nossas mãos, inclusive na mesa’, acrescentou.

A religiosa de clausura disse que a atual sociedade tecnológica, ‘pode transmitir em tempo real notícias que se difundem de um lado ao outro da Terra, mas sempre deixa mais espaço para uma realidade dramática : quanto mais as distâncias a nível mundial diminuem e os tempos se reduzem, mais cavam um abismo de solidões insondáveis’.

Se é fácil estar ciente do que acontece no outro lado do mundo, torna-se paradoxalmente mais difícil estabelecer um verdadeiro diálogo com o vizinho da casa e entre os membros da mesma família’.

Esta é a proximidade e a ajuda que com a nossa escolha podemos transmitir, segundo o que afirmam estas palavras de Jan Leclercq : ‘os monges têm este privilégio de continuar olhando para o céu. Eles sabem que não verão o Senhor: viverão na fé, mas permanecerão lá. A sua cruz será amar sem ver e, entretanto, sempre contemplar, de fixar o olhar unicamente em Deus, invisível e presente’.

Seu testemunho perante o mundo – escreveu Leclercq – será mostrar, com a sua própria existência, a direção para o lugar que é preciso olhar. O seu trabalho será apressar através da oração e do desejo, o cumprimento do Reino de Deus’.

Finalmente, a Irmã Maria Fides expressou que o seu desejo ‘é de não ter medo de dizer ‘sim’ a Jesus e citou as belíssimas palavras de São João Paulo II : ‘Não tenham medo, abram as portas de par em par a Cristo’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.acidigital.com/noticias/de-executiva-de-sucesso-a-religiosa-de-clausura-esta-vocacao-relampago-comove-milhares-13055

sábado, 13 de novembro de 2021

Irmã Maris Stella: de oficial da marinha a religiosa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

‘A Irmã Maris Stella já serviu na Marinha dos EUA, mas agora dedica sua vida a servir como freira das Irmãs da Vida, uma comunidade religiosa dedicada a promover causas pró-vida.

Servi na Marinha e experimentei muitas das coisas boas que este mundo tem a oferecer, mas sabia que meu coração estava feito para algo mais’, disse a irmã Maris Stella à CNA, agência em inglês do grupo ACI.

Sua carreira militar começou na Academia Naval dos Estados Unidos em Annapolis, Maryland, que tem uma taxa de aceitação de apenas 8%. Depois de estudar por quatro anos, ela serviu durante mais cinco. Sua viagem de serviço começou em um navio de guerra como oficial de artilharia. Passou centenas de dias na costa da América do Sul em busca de traficantes de drogas. Posteriormente, trabalhou em Nápoles, Itália, como oficial de ligação.

Depois, disse ‘sim’ para servir a Deus.

O cardeal John O'Connor fundou as Irmãs da Vida em Nova York em 1991. Embora mantenham sua sede em Nova York, também estão localizadas em Denver, Filadélfia, Phoenix, Washington DC e Ontário, Canadá. A comunidade de religiosas católicas professa quatro votos : pobreza, castidade, obediência e ‘proteger e valorizar o caráter sagrado da vida humana’.

Entre outras coisas, as irmãs dedicam suas vidas para oferecer apoio e recursos a mulheres grávidas e mães, organizar retiros, evangelizar, praticar o evangelismo aos estudantes universitários e ajudar mulheres que sofrem após um aborto.

Quando conheci as Irmãs da Vida, não pude acreditar que seu carisma existisse na Igreja e no mundo’, disse a irmã Maris Stella.

Ela definiu o carisma da comunidade como ver cada vida humana como sagrada, única e irrepetível.

Significava que daríamos nossas vidas para que outros pudessem viver, e simplesmente sabendo, também, que as pessoas têm valor e significado, não por causa do que fazem e podem produzir, nem por causa de sua aparência, nem por causa da quantidade de dinheiro têm, mas porque Deus criou cada pessoa e cada pessoa é um ato de seu amor’, explicou.

Irmã Maris Stella, que cresceu em Ludlow, Massachusetts, disse que seu percurso às Irmãs da Vida começou com a Virgem Maria.

No dia seguinte à minha primeira comunhão, consagrei a minha vida a Jesus através de Maria. A Santíssima Mãe conquistou minha vocação, protegeu minha vocação e cuidou de mim durante toda a minha vida’, explicou.

Chamado ao serviço

Candidatou-se à Academia Naval após sentir a necessidade, durante o ensino médio, de ‘fazer algo grande e significativo’ com sua vida.

Eu sabia que era uma grande oportunidade para a educação, uma grande oportunidade para servir meu país, então fui lá e recebi muito mais do que isso’, disse.

A academia, disse ela, foi uma experiência que mudou sua vida.

Na Escola Naval, eu estava realmente cercada por pessoas muito impressionantes que não só tinham uma grande atitude de serviço e sacrifício, mas que também amavam a Deus de verdade’, disse.

Ela também encontrou a formação de virtudes.

Vestíamos nossos uniformes e as pessoas nos agradeciam por nosso serviço, mas realmente sabíamos que estávamos servindo a algo maior do que nós mesmos’, disse ela.

O desejo de servir a algo maior permanecia nela. Em seu segundo ano na academia, ela embarcou em uma peregrinação à Terra Santa. Enquanto estava lá, experimentou o que chamou de ‘grande momento da minha vida’.

Eu estava sentada no Horto de Getsêmani, olhei para cima e vi uma irmã religiosa passando vestida de hábito. Quando a vi, sua presença realmente despertou algo em mim’, disse ela.

Ela estava realmente dizendo com sua vida o que estava em meu coração : esse desejo de me entregar não só por algo maior, mas realmente por alguém, de dar toda a minha vida a Deus’, explicou irmã Maris Stella.

Ao mesmo tempo, ela viu o que o mundo tinha a oferecer. Ela contou que praticava esportes e fazia parte da equipe de triatlo na academia. Também foi testemunha da beleza do matrimônio católico das pessoas a sua volta.

Quando saí das Forças Armadas, basicamente entendi que Deus estava me oferecendo este convite de viver somente para Ele’.

Sua experiência no mar, onde serviu como oficial de artilharia e líder leiga católica, só a aproximou de Deus.

Às vezes estávamos a centenas de quilômetros da costa e dava para ver as estrelas à noite, algo totalmente extraordinário, tão lindo’, lembrou. Ela estava maravilhada de que ‘Deus, que fez tudo isso, também me fez e me ama e colocou seu amor em cada pessoa humana que criou’.

Enquanto pesquisava as comunidades religiosas na Europa, as Irmãs da Vida chamaram totalmente sua atenção.

Fiquei muito atraída pela nossa vida de oração, rezamos cerca de quatro horas por dia, e depois nossas obras de serviço, para servir os mais vulneráveis, os pobres e os que ainda não nasceram, e as mulheres que fizeram aborto, simplesmente levando-lhes a misericórdia de Deus’, disse ela.

Contou sobre quando participou de um retiro de discernimento com as irmãs. Depois, rezou uma novena de 33 dias a Maria e voltou para a igreja de sua infância, onde se consagrou a Jesus por Maria. Ela consagrou sua vida novamente.

Naquele mesmo dia cheguei em casa e minha carta de aceitação às Irmãs da Vida chegou pelo correio. Eu sabia que era nossa Mãe Santíssima que realmente se importava comigo’, disse.

Evangelização a estudantes universitários

Ela ingressou na ordem das Irmãs da Vida em 2006 e em 2015 mudou-se para Denver para ajudar a iniciar um novo convento.

A razão pela qual viemos para Denver é porque sabemos que as mulheres na universidade são muito vulneráveis ao aborto, porque têm a vida inteira pela frente e, às vezes, as que engravidam pensam que não conseguirão realizar seus sonhos se tiverem um filho. Viemos para os campi universitários porque queríamos muito estar presentes para as mulheres que, talvez, estivessem em crise’, diz.

Para as mulheres que fizeram um aborto, irmã Maris Stella enfatizou que existe uma ‘missão de esperança e cura’ que as irmãs fazem.

Esse é um dos nossos trabalhos mais bonitos, onde ajudamos mulheres que fizeram um aborto. Muitas vezes as mulheres que fizeram um aborto pensam que não podem ser perdoadas. Mas a verdade é o contrário, que não há pecado grande demais para a misericórdia de Deus e que Ele deseja nos curar e restaurar’, disse.

A irmã Maris Stella, mesmo depois que ingressou no convento, ainda se encontra com seus amigos militares. Muitos deles apoiam o trabalho das irmãs, especialmente ajudando na festa anual de Natal em Nova York, disse ela. Eles a apoiaram desde o início : 12 de seus colegas da academia também foram a seus votos perpétuos.

Ser esposa de Cristo é o presente mais belo que recebi. Sou muito grata por isso. Amo a minha vocação’, disse a irmã Maris Stella.

Ela compartilhou uma mensagem especial com aqueles que discernem a vida religiosa.

É uma vida tão plena e feliz. Deus não tira nada, Ele nos dá tudo. Embora possa parecer um sacrifício no início, na verdade recebemos cem vezes mais’, disse ela.

Ela recomendou passar tempo com Jesus na Eucaristia.

É aí que Ele pode nos dizer a verdade e nos ajudar a descobrir como Ele fez nosso coração amar neste mundo. Ele pode nos ajudar a descobrir para que nos criou’, concluiu.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.acidigital.com/noticias/irma-maris-stella-de-oficial-da-marinha-a-religiosa-67880

terça-feira, 20 de abril de 2021

Freira missionária reencontra Deus servindo refugiados na Grécia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Ir. Victoria Kovalchuk com uma jovem refugiada em Atenas, Grecia, em abril de 2021

*Artigo da redação da ACI


Irmã Victoria Kovalchuk é uma religiosa missionária da Crimeia, de 38 anos de idade, que se reencontrou com Deus após ser enviada para servir às famílias refugiadas na Grécia.

Meu sonho era o Brasil’, disse a irmã à EWTN News. Mas Deus a levou para servir aos refugiados na Grécia. ‘Acho que agora não será um grande problema se eu não for para lá, porque me apaixonei pela Grécia’, disse.

A irmã Victoria nasceu na década de 1980 e foi batizada na Igreja Ortodoxa Russa. Embora sua família não praticasse a fé, Deus sempre esteve presente na sua vida. Quando criança, por exemplo, ela pegou emprestada uma Bíblia infantil de uma biblioteca e, como não queria devolvê-la, copiou algumas histórias em seu caderno. No final, confessou, nunca devolveu a Bíblia.

Após a queda da União Soviética, as Bíblias reapareceram nas prateleiras das lojas e sua avó comprou uma. ‘Lembro que esse livro me impressionou tanto que costumava levá-lo para a cozinha para abrir a primeira página e começar a ler’, disse.

No início, ‘não consegui entender nada, então fechei o livro e disse a mim mesma : ‘Algum dia eu o lerei’. Graças a Deus, li e continuo lendo. Através desta experiência posso ver que Deus estava de alguma forma próximo e já estava agindo na minha vida’, acrescentou.

A religiosa conheceu a Igreja Católica graças ao seu amor pela língua e pela cultura da França. ‘Eu só queria saber como os franceses rezavam e como era a missa’ disse ela, acrescentando que depois de ler um dos livros de Alexandre Dumas, quis saber o que era o hino ‘Te Deum’.

Ela contou que convidada pelas meninas polonesas de sua universidade, participou pela primeira vez na missa em 2001, e sentiu que queria ficar para sempre; mas como foi batizada como ortodoxa, ao início teve dúvidas sobre se era correto unir-se à Igreja Católica. Logo percebeu que ao se converter, aprofundaria na presença de Deus em sua vida através dos sacramentos.

Converteu-se quando tinha apenas 18 anos e, após terminar a universidade, ingressou na vida religiosa. Antes de ser enviada para a Grécia, estava servindo na Ucrânia.

A serviço dos refugiados na Grécia

Irmã Victoria serve aos refugiados e migrantes assentados em Atenas, junto com outros membros de sua comunidade, e de empregados e voluntários do Jesuit Refugee Service (JRS). ‘Este é o melhor lugar para este tempo que Deus me deu. Este é o lugar onde Ele me fala através do país e das pessoas com as quais trabalho todos os dias’, afirmou.

Durante a crise de refugiados de 2015 e 2016, a Grécia recebeu mais de um milhão de pessoas. De acordo com a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), no final de 2019, a Grécia abrigava mais de 186 mil refugiados e solicitantes de asilo, incluindo mais de 5 mil menores. A maioria está nas ilhas orientais do país, em frente à costa da Turquia.

Em 2020, chegaram mais de 15 mil, principalmente do Afeganistão, Síria, Irã e Congo. Nesse ano, os incêndios nos refúgios nas ilhas gregas de Lesbos e Samos obrigaram milhares de pessoas a fugir e viver por dias e semanas na Praça Victoria, chamada de ‘Afghani Park’ por causa dos refugiados afegãos que vivem lá. É um espaço de encontro para mulheres e crianças, destacou a irmã Victoria.

Ela contou que ia todos os dias à Praça Victoria junto com os voluntários para brincar com as crianças. Além disso, diziam às mulheres que no centro que dirigem há chuveiros, lavanderia, roupa usada gratuita e um assistente social que dá orientação e outros recursos.

Ela trabalha com afegãos, que são em sua maioria muçulmanos, mas também há ‘cristãos e católicos dos Camarões’. Ressaltou que não os chama de refugiados ou migrantes, pois ‘são meus amigos’ e são ‘o povo de Deus, de meu Deus que os criou, que os amou’.

Sempre fala com eles que seu amor vem de Jesus, porque ‘foi Ele quem me trouxe aqui, quem colocou esse amor dentro de mim e [me permite] deixar minha família e meu país’. Ela sabe que não tem o poder para mudar a situação física e política na Grécia, ‘mas o que posso fazer é amar’.

Digo-lhes : vim aqui para estar vocês na situação em que se encontram. Estarei com vocês quando estiverem rindo ou chorando. Posso lhes mostrar um pouco do amor que tenho’, disse.

Crianças refugiadas e bonecas de pano

Atualmente, as freiras e voluntários dão aulas de grego, francês e inglês, que durante a pandemia da Covid-19 foram realizadas por chamadas de vídeo. Além disso, oferecem aulas e atividades para as crianças, uma vez que muitas não vão à escola e têm tempo livre.

Irmã Victoria confecciona ‘motanka’, bonecas de pano da tradição ucraniana que depois dá de presente às crianças para que elas brinquem. São feitas com roupas velhas que são doadas e estão em más condições. Até o momento, fizeram cerca de 500 bonecas.

Nossos filhos refugiados não têm brinquedos nem nada para brincar. Este é realmente o melhor lugar para as minhas bonecas’, disse, acrescentando que as crianças gostam de sentar com ela e vê-la fazer as bonecas, ou mesmo aprender a fazê-las.

Escolhem diferentes cores de vestido, de cabelo. E eu acho que isso também é muito importante e um pouco terapêutico’, porque eles não têm a oportunidade de tomar decisões no dia a dia, nem sequer sobre coisas pequenas como o que querem usar. ‘Portanto, ficam muito felizes em poder escolher o seu próprio estilo’, destacou.

A irmã fica realizada ao ver ‘os sorrisos, a felicidades destas crianças que, na realidade, não têm nada, que às vezes passam fome’ e não podem pedir algo para suas mães, ‘mas estão contentes com as coisas simples’, disse.

Apesar das diferenças de idioma, cultura e religião, a irmã Victoria disse que se sente respeitada e apreciada por aqueles que ajuda. As pessoas lhe expressam gratidão convidando-a para comer um pão no forno ou tomar um chá; e as crianças, espontaneamente, levam água quando faz calor ou compartilham biscoitos com ela.

Isso é muito comovente e me ajuda a ver como Deus também cuida de mim por meio deles, mesmo sendo de diferentes nacionalidades e religiões’, disse, acrescentando que a melhor recompensa são os ‘sinais de amor’ que recebe como beijos e abraços de crianças.

Minha viagem aqui começou principalmente por causa da minha necessidade pessoal de encontrar e redescobrir Deus novamente em minha vida e em minha vocação, e essas pessoas me ajudaram a conseguir isso aqui. É mútuo : busco ajudá-los da maneira que posso, simplesmente estando com eles, e depois, eles me ajudam muito’, concluiu.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.acidigital.com/noticias/freira-missionaria-reencontra-deus-servindo-refugiados-na-grecia-61460

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Forçados a fugir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)   
     

*Artigo de Bernardino Frutuoso,
jornalista

‘O jovem africano, magro e assustado, olha fixamente para o telemóvel. Desce a escada da ponte nos braços de um marinheiro de macacão azul e com uma máscara anticovid. A fotografia circula na Internet, publicada pelas ONG que trabalham há anos para salvar as pessoas que, desesperadas, fogem da África e do Médio Oriente. «Parece a Pietà» comentam nas redes sociais. A Pietà do Mediterrâneo estava a bordo do Talia, um cargueiro libanês que normalmente transporta gado e que em Julho passado recebeu cerca de cinquenta migrantes, resgatados em condições extremas e que tinham sido bloqueados a poucos quilômetros de distância de Malta.

Esta notícia – e ação de profunda humanidade do marinheiro-samaritano – lembra-nos a atualidade, o drama e o desafio da migração. Sabemos que existem múltiplas e complexas razões que levam as pessoas a migrar : conflitos, violência armada, pobreza, desigualdade, falta de emprego e oportunidades, alterações climáticas, insegurança urbana (68% das pessoas que integram as caravanas na América Central em direção aos EUA fogem da pobreza, mas também dos gangues). Dizem os especialistas que a pressão migratória vai continuar a aumentar. De fato, de acordo com os dados da Organização Internacional para as Migrações, entre 2000 e 2019 os migrantes à escala global passaram de 150 milhões para 272 milhões (de 2,8% para 3,4% da população mundial).

Uma vertente da migração, cada vez mais relevante, é o fenômeno do deslocamento interno (segundo os últimos dados publicados pelo Internal Displacement Monitoring Centre, registaram-se em 2019 em todo o mundo 33,4 milhões de novos deslocados internos). É em relação a esse drama do mundo contemporâneo, «muitas vezes invisível, que a crise mundial causada pela pandemia de covid-19 exacerbou», que Francisco reflete na mensagem para o 106.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que este ano se celebra no dia 27 deste mês de Setembro.

O ponto de partida do texto do papa é o ícone da fuga da Sagrada Família para o Egito, em que «o menino Jesus experimenta, juntamente com os seus pais, a dramática condição de deslocado e refugiado marcada por medo, incerteza e dificuldades». Na hermenêutica que faz do texto de Mateus, o papa sublinha que em cada um dos deslocados do nosso tempo «está presente Jesus, forçado – como no tempo de Herodes – a fugir para Se salvar. Nos seus rostos, somos chamados a reconhecer o rosto de Cristo faminto, sedento, nu, doente, forasteiro e encarcerado que nos interpela». E podemos interpretar, igualmente, que esse relato bíblico nos lembra que todos somos migrantes e cada um de nós tem nos seus genes uma história de migração, temporalmente mais remota ou mais próxima.

Para 2020, além de relembrar aos cristãos os verbos acolherprotegerpromover integrar, as quatro pedras angulares para uma ação eticamente comprometida que propusera na mensagem de 2018, o Papa Francisco acrescenta seis pares de verbos que traduzem ações concretas, interligadas numa relação de causa-efeito : conhecer para compreender; aproximar-se para servir; escutar para reconciliar-se; partilhar para crescer; co-envolver para promover; colaborar para construir. Verbos que conjugados pró-ativamente na prática quotidiana dos discípulos missionários de Jesus ajudarão a derrubar muros e a alicerçar um futuro mais esperançado, fraterno e justo para todos.’


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Por que servir mais?


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Segundo dom Walmor,
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘O compromisso de partilhar o dom da vida, dádiva sagrada de Deus, é o horizonte para responder a esta questão : ‘por que servir mais?’. A medida dessa oferta se alarga, sem limites, para o cristão na incansável missão de contribuir para a edificação de uma sociedade fraterna e solidária. Temos, assim, um longo caminho a percorrer, de diálogos e reflexões, no interno da Igreja, e da Igreja com a sociedade, junto aos irmãos bispos, que me confiaram a missão de presidir a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e com o apoio do povo de Deus.  O exemplo é sempre Jesus Cristo, que entrega sua vida para que todos tenham vida, e não dispensa seus discípulos de se dedicarem a fazer o bem. O grande desafio : o seu seguimento.

O porquê dessa pergunta - ‘por que servir mais?’ - se desdobra, ainda, em outro questionamento : ‘Para que servir mais?’. As urgências da vida, que é dom, exigem providências, respostas, e as comodidades não podem adiá-las. Indicam que o bem, a verdade, a justiça e o amor não podem esperar o amanhã. É preciso encontrar as respostas logo, se comprometer. Ter a necessária disposição para enfrentar sacrifícios, o que exige abrir mão das vaidades, e coragem para além de todo medo, por saber a dimensão do desafio que se apresenta. É preciso trabalhar para a recomposição dos tecidos esgarçados dos relacionamentos e dos funcionamentos da sociedade, em razão das grandes mudanças e das polarizações, para encontrarmos o caminho do respeito, sobretudo da fidelidade aos valores do evangelho. E sem as generosidades, sem a presença incondicional e plena, os projetos e as instituições não se sustentam nem se impulsionam. Sobretudo quando a busca é qualificar as condições de servir e de promover a existência de todos, com especial e urgente atenção aos mais pobres, às vítimas das indiferenças e das violências - tudo o que a vida, dom sagrado, exige para ‘ontem’.

No horizonte dessas urgências, a cultura contemporânea submerge numa avalanche de complexas mudanças, com essa preocupante configuração de polarizações e extremismos. Realidade que mostra a falta de clarividência, gerando até exigências de tratamento criminal para as incivilidades e desrespeitos à sacralidade da vida. Assim, conjugando-se mediocridade e comodidade, arrisca-se a desistir da missão de servir.

Por razão de fé e cidadania, a comodidade e a indiferença não devem prevalecer sobre as necessidades da vida, que não pode perder a sua inteireza. Torna-se urgente servir mais, oferecer o que se pode a mais, incluir sacrifícios, elevando a altos níveis o altruísmo, que não pode faltar no coração de cada pessoa. A vida só alcança a qualidade de dom na medida em que esse dom é vivido como oportunidade de servir e ser operário de uma construção social, política, cultural e religiosa, sobre os alicerces da verdade, justiça e do amor.

Põe-se aqui relevante questão ética no sentido de balizar ações, conceitos, e suas consequências : a responsabilidade de cada indivíduo ante a seriedade de suas posições, escolhas e pronunciamentos, pois a complexidade do momento pode gerar medos e acovardar posturas. Quando se decide por ‘servir mais’ é imprescindível pensar, corajosamente, sobre a oportunidade de se trabalhar por um novo momento civilizatório, considerando a importância de uma ampla reconstrução sócio-cultural-antropológica.

Urge, pois, a configuração de um novo momento. Este é possível! Requer coerência e destemor, ancorados na fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo, numa vida com força testemunhal e irretocável credibilidade, avançando na direção do bem e da verdade. Presidir a CNBB é uma missão especial, pois somos bispos, chamados por Jesus Cristo, para ajudar a humanidade a se abrir ao amor de Deus. Nosso compromisso é servir sempre mais. Vale relembrar as palavras de São Martinho de Tours : se precisam de mim, não recuso trabalho.’


Fonte :

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Mosteiro fica sem religiosas de clausura depois de 3 séculos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 


‘Após 304 anos, o Mosteiro da Visitação de Milão (Itália) ficou sem religiosas de clausura, depois que as últimas quatro foram transferidas para outro convento, de onde continuarão servindo a Igreja através da Ordem da Visitação de Santa Maria, fundada por São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca Frémyot de Chantal.
As quatro religiosas se despediram do mosteiro na tarde do dia 3 de novembro, rezando em frente ao portão, antes de partir para a sede da Ordem em Soresina, na província de Cremona, informou ‘Il Corriere della Sera’.
As religiosas da Ordem da Visitação viviam no mosteiro desde julho de 1713, quando se estabeleceram em um abrigo, atualmente em ruínas, mas que foi fundado por São Carlos Borromeu, Arcebispo de Milão, com o objetivo de oferecer um lar às meninas que ficaram órfãs devido à peste.
Com o passar do tempo, também abriram um colégio para as filhas dos nobres milaneses.
Entretanto, como o número de religiosas diminuiu para apenas quatro e o convento era muito grande, foi tomada a decisão de transferi-las à sede de Soresina, onde há mais irmãs.
Esta não é a primeira vez que um mosteiro da visitação é fechado com a consequente mudança das poucas religiosas que restavam. Já aconteceu em Sanremo, Arona e Massa Cozzile.
Embora seja um edifício histórico, isto não é o mais importante para as quatro religiosas, que não escondem a emoção da despedida.
É verdade que há muita emoção. Estamos muito felizes de ir para onde o Senhor nos pede. Mas sempre levaremos no coração este lugar, onde passamos a vida inteira’, afirma uma das religiosas através do intercomunicador.’’

Fonte :