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quarta-feira, 13 de abril de 2022

Acolher o irmão, importuno e inadequado

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE

 

‘O Filho de Deus, antes de subir ao Pai, falou com veemência sobre o sacramento da Eucaristia, com a seguinte afirmação : ‘Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém come deste pão, viverá eternamente’ (cf. Jo 6, 51-71). Temos consciência de que sempre, e por toda parte, a refeição foi símbolo de união. Para nós, cristãos, a refeição salutar por excelência é a Eucaristia, com caráter de sacrifício e de ação de graças, como repetição do sacrifício de Cristo no mistério pascal. No comer e beber da carne e do sangue de Cristo, já experimentamos, pela nossa fé, a eternidade, unidos na recíproca permanência, conforme as palavras do Mestre, que nos leva, não só a compreender seu gesto maior, ao lavar os pés dos discípulos, mas na tarefa desafiadora de procurar fazer o que ele fez, na acolhida ao irmão, quando parece um lapso importuno e inadequado de tocar a campainha.

São Jerônimo, num comentário sobre o Salmo 102, dizia : ‘Sou como um pelicano do deserto, aquele pássaro bom que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos’. Ele é o símbolo do sacrifício e da doação de si mesmo. E a Eucaristia é Jesus Cristo mesmo, como pão da vida, do céu e da paz, porque nele está a redenção da humanidade. A principal característica do pelicano é carregar consigo uma bolsa membranosa, prendendo nela o bico, sendo duas ou três vezes maior que seu estômago, com a finalidade de armazenar alimento por um determinado período de tempo. Assim, como a maioria das aves aquáticas, possui os dedos unidos por membranas. Eles são encontrados em todos os continentes, com exceção da Antártida, medindo até três metros de uma asa a outra e pesando até 13 quilos. Os machos são normalmente maiores e possuem bicos mais longos que as fêmeas e alimentam-se de peixes.

Na Europa medieval eram considerados animais especialmente zelosos e alimentavam os filhotes com o alimento tirado da sua própria bolsa e, se chegasse a faltar alimento, eles, num modo de proceder, alimentavam seus filhos com o próprio sangue, gesto este que, por analogia, nos faz pensar no próprio Filho de Deus. Daí o pelicano nos representar, nós que abraçamos a fé, nessa profunda simbologia da Paixão de Cristo, da Eucaristia e da autoimolação do Cordeiro Pascal. Esse tipo de ave costumava sofrer de uma doença, que a deixava com uma marca vermelha no peito. Outra versão é que esse tipo de animal tinha o hábito de matar os seus filhotes; depois disso, ressuscitava-os com seu sangue, o que seria análogo ao sofrimento de Jesus, ao memorial de sua morte e ressurreição.

Jesus Cristo é o pássaro bom e imprescindível, para que nossa Igreja seja verdadeiramente pascal. É por isso que suplicamos : ‘Ó pássaro bom! Ó pelicano bom, Senhor Jesus!’. Temos consciência de que a Eucaristia é a renovação da aliança do Senhor com a humanidade e que, através dela, se realiza, de um modo contínuo, a obra da redenção. Temos convicção de que a Eucaristia é o sinal da unidade e do vínculo da caridade que, por meio dela, tende toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte de onde emana toda a sua força (cf. SC. 522, 537, 537 e 600). Que o pássaro bom nos ensine a amar mais a Eucaristia, sacramento no qual Jesus se acha presente, com seu corpo, sangue, alma e divindade. Ele é o banquete sagrado, ‘o pelicano bom a nos inundar com vosso sangue, pelo qual de uma só gota quis salvar o mundo inteiro’ (Santo Tomás de Aquino).

Que a nossa fé na Eucaristia possa, não só nos empolgar e nos fascinar em determinados momentos da vida, mas que nos produza um forte desejo de aprender sempre, e cada vez mais, na certeza de vivermos animados na esperança, como bons pelicanos, na renúncia, na doação e na generosidade, como tão bem assertivou Dom Helder : ‘Que eu aprenda afinal, no mistério pascal, a cobrir de véus o acidental e efêmero, deixando em primeiro plano, apenas, o mistério da redenção’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1573463/2022/04/acolher-o-irmao-importuno-e-inadequado/

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Missionárias Combonianas celebram 150 anos de missão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Maria do Carmo Bogo,

Missionária Comboniana

 

‘A história das Missionárias Combonianas começou a partir da intuição profética de Daniel Comboni, um missionário com uma grande paixão por Cristo e pela África. Ele percebeu a urgência de integrar mulheres consagradas na missão evangelizadora da Igreja, considerando que a sua presença «constitui um elemento essencial e indispensável para a difusão da fé na África Central».

O sonho de Comboni de ter um instituto feminino dedicado exclusivamente à missão além-fronteiras iniciou-se, em Verona, Itália, em 1872, onde nasceu e se desenvolveu o Instituto feminino chamado inicialmente Pie Madri della Nigrizia (Piedosas Mães da África).

Em 1877, na sua sétima viagem à África, Comboni levou consigo as suas primeiras cinco missionárias. Elas caminharam ao lado dos africanos, por lugares desconhecidos, inóspitos e incertos, sendo testemunhas fiéis a Cristo no meio de muitas provas.

Como pretendia o fundador, as Missionárias Combonianas são mulheres apaixonadas por Jesus Cristo, sempre no caminho da missão, irmãs e companheiras de viagem dos mais pequenos e vulneráveis. Hoje, unidas por este único ideal, formam uma família exclusivamente missionária, com irmãs provenientes de 33 nações, que trabalham em 30 países de quatro continentes. 

Celebrar um ano jubilar

As Missionárias Combonianas estão a celebrar 150 anos (1872-2022) de missão percorridos pelos caminhos da África, que nunca abandonaram, embora tenham alargado os horizontes da missão à América, Ásia e Europa – sobretudo no campo das migrações.

Celebram um ano de Jubileu, sabendo que é um tempo para sincronizar a vida pessoal e comunitária ao ritmo divino. Um tempo de suspensão e receptividade permitindo que a «terra» pessoal e comunitária se possa regenerar para acolher novas sementeiras do Reino de Deus, entre os povos, onde são chamadas a viver o carisma recebido.

O chamamento à vida, ou seja, à vocação, continua a ser, antes de mais, encontro, sedução e coragem libertada de toda a ilusão, pronta a assumir as contradições e as complexidades do percurso.

O Papa Francisco lembra que o descanso é o ampliar do olhar que nos leva a reconhecer os direitos do próximo; que o descanso nos encoraja a cuidar de nós mesmos, da Natureza e dos pobres; a descobrir a ação de Deus na alma, mas também capacitando-nos a tomar decisões concretas para irmos ao encontro de quem precisa da nossa ajuda (cf. Laudato Si’, 237 e 233).

Inspira a vida dessas mulheres consagradas a experiência concreta do fundador : foi depois da paragem forçada em Roma, após o fracasso da primeira viagem à África que Daniel Comboni escreveu o Plano, apresentando novas intuições e novas estratégias missionárias.

É bom este tempo de vigia, que não se vê, porque vai para lá do visível inventando caminhos novos. A Terra contém o ritmo do Seu Criador. Aquele mesmo ritmo que, no início da Criação, alterna ação e contemplação quando «Deus disse», «Deus fez», «Deus viu» que tudo era bom.

Todos estamos convidados a viver com as Missionárias Combonianas este ano jubilar, prestando ouvidos à voz de Deus, que nos convida a confiar na Sua Providência ao longo dos nossos percursos, por vezes cansativos e difíceis de decifrar, por causa do nevoeiro que encurta o nosso horizonte. Aceitemos o descanso que se nos oferece, com tal delicadeza e amor : «Vinde até mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e dar-vos-ei descanso» (Mt 11,28).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/659/missionarias-combonianas-celebram-150-anos-de-missao/

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Como a Igreja Católica pode ajudar as mães solteiras


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Kaya Oakes,
escritora



A relação entre mães solteiras e a Igreja Católica nem sempre é fácil. Como a igreja há muito tempo define o casamento como central para a identidade católica leiga, as mães solteiras católicas às vezes permanecem escondidas nas sombras.

A história das casas de mães e bebês da Irlanda, onde as chamadas ‘mulheres caídas’ e seus filhos foram submetidas a um tratamento horrível nas mãos de ordens religiosas católicas, tornou-se amplamente conhecida graças a uma série de investigações jornalísticas e governamentais. Casas semelhantes existiam nos Estados Unidos. O abuso físico e mental, a doença descomedida e a morte prematura eram comuns em lares administrados por católicos para mães solteiras. Uma investigação do Projeto Marshall sobre lares de mães e bebês nos Estados Unidos revelou que esses lares eram ‘pelo menos tão numerosos’ até meados do século 20, quanto na Irlanda - e ‘ainda tão igualmente brutais’. As ‘mulheres caídas’ que povoavam essas casas, segundo a historiadora Estelle Freedman, experimentaram um estigma maior do que os criminosos do sexo masculino do século XIX.

Embora o tratamento da igreja para mães solteiras tenha melhorado muito, alguns desses estigmas permanecem. Em uma pesquisa com mulheres católicas encomendada à America e conduzida pelo Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado da Universidade de Georgetown, mães católicas solteiras relataram experiências variadas de vida paroquial. A pesquisa revelou que ‘as mulheres católicas têm maior probabilidade de concordar 'muito' que os católicos divorciados e recasados (25%) e católicos não heterossexuais (25%) são mais bem-vindos em sua paróquia do que os católicos não casados (16%)’. A maioria dos homens viúvos, com filhos e divorciados que responderam disseram que suas paróquias eram apenas ‘um pouco’ ou ‘dificilmente’ acolhedoras, e quase 18% disseram que suas paróquias não eram nada boas. Mais da metade das mulheres disseram que sua paróquia oferece pouco ou nenhum apoio a novas mães (52%) ou a creches (55%).

Não é novidade para os católicos que a mudança na igreja é lenta, particularmente quando se trata do status das mulheres. No caso de crianças fora do casamento, as mulheres têm, por muito tempo, o peso da responsabilidade por quaisquer pecados que possam ter levado a tornarem-se mães solteiras. Em sua exortação apostólica sobre a família, ‘Amoris Laetitia’, o Papa Francisco escreveu : ‘Um pastor não pode sentir que basta aplicar leis morais aos que vivem em situações 'irregulares', como se fossem pedras para atirar nas vidas das pessoas’.

Mas as atitudes em relação às mães solteiras variam muito de paróquia a paróquia. O papa falou contra os padres que se recusam a batizar os filhos de mães solteiras em 2016, dizendo que a negação é uma forma de ‘crueldade pastoral’. Quando se trata do batismo dos filhos de mães solteiras, diz o Catecismo da Igreja Católica, que pelo menos um dos pais deve prometer fazer o melhor para educar o filho como católico. No entanto, mesmo em Berkeley, na Califórnia, a famosa cidade liberal onde eu leciono, o padre da minha antiga paróquia me disse que recebeu uma ligação de uma mulher que chorava e que o sacerdote de outra igreja local lhe disse que seu filho não seria batizado lá a menos que fosse casada.

De acordo com o último censo dos EUA, quase um quarto das crianças nos Estados Unidos está sendo criado em lares monoparentais, e a maioria deles são famílias monoparentais. Isso significa que há mais de 10 milhões de mães solteiras, cerca de metade das quais são divorciadas, um terço das quais nunca foram casadas e um número menor são viúvas.

Tem havido várias histórias nos últimos anos de funcionários solteiros de igrejas católicas, escolas e faculdades sendo demitidas por engravidar fora do casamento. Cláusulas morais, que exigem que os professores das escolas católicas concordem em não ter um filho fora do casamento, participem de um casamento de pessoas do mesmo sexo ou usem o controle de natalidade, receberam atenção crescente em algumas dioceses. Em 2014, Shaela Evanson, de Helena, no estado de Minnesota, engravidou e foi demitida por violar a cláusula de moralidade do contrato na escola católica onde lecionava. A mãe solteira Christa Dias foi demitida pela Arquidiocese de Cincinnati em 2010, quando engravidou por fertilização in vitro, e em um tópico do Reddit de 2016, uma professora devota de uma escola católica preocupou acelerar seu casamento depois de engravidar para não perder o emprego.

Católicos de segunda classe

As dificuldades que as mães solteiras enfrentam na igreja não são novas. Embora a mãe de minha amiga participasse de uma igreja católica até sua morte, como mulher divorciada na década de 1960, às vezes enfrentava o julgamento de colegas católicos, com o estresse adicional de criar dois filhos sozinha como mulher trabalhadora. As férias eram uma raridade, as crianças muitas vezes usavam roupas de segunda mão e o dinheiro era tão pouco que alugavam quartos para pagar as contas.

Ashley Doherty, que tem cerca de 60 anos e era viúva aos 30 anos, diz que, quando se falava na paróquia sobre mães solteiras, ‘eu me sentia do lado de fora olhando para o horizonte, tentando não dar atenção, ainda que ninguém era deliberadamente rude’. Cresceu em Mississippi durante o tempo da segregação e diz que a igreja de sua infância tratava uma família monoparental ou qualquer família sem um grande número de crianças como problemática. Para esse tipo de famílias, ‘quase se torna uma exigência mandatória que você reconheça seu status de segunda classe antes de poder entrar pela porta’, apontou esta mãe.

Doherty diz que o preconceito em relação às mães solteiras na igreja pode ser parte de uma reação maior contra outros tipos de relacionamentos - casais do mesmo sexo, casais não casados vivendo juntos e assim por diante - que se afastam do ideal de uma família ‘tradicional’. Como a ascensão do feminismo na segunda metade do século 20 começou a mudar a visão da sociedade sobre os papéis disponíveis para as mulheres dentro das famílias, a igreja lutou para entender como lidar com a presença de mães solteiras que podem ter permanecido escondidas nas congregações. Nas décadas de 1970 e 80, essas mulheres estavam descobrindo uma espécie de autogerenciamento, ao verem mulheres solteiras e com poderes mais amplamente representados na cultura popular.

Não se tratava de ter atos de reivindicação de mães solteiras’, diz Doherty. Mas a presença delas tornou-se mais popular, e ficaram menos envergonhadas de seu status. Antes do feminismo, como aponta Doherty, as mães solteiras ‘estavam quase contentes em estar na parte de trás, no fundo da igreja’. Mas mesmo depois da revolução feminista, ‘a restrição de tempo e a incapacidade de participar’ que Doherty encontrou como mãe solteira significava que era difícil se sentir realmente engajada na vida paroquial, mesmo que escolhesse permanecer católica.

Essa experiência levou-a a questionar se educaria sua filha na igreja e, finalmente, decidiu que seria a decisão da própria filha. Quando sua filha estava no colégio, Doherty percebeu que as aulas de catequese de sua filha eram escassas em teologia, e disse à filha que dependia dela se continuaria com essas aulas. No momento em que sua filha tinha 13 anos e chegou a hora da crisma, Doherty lembra que falou para a filha : ‘Você pode sair a qualquer momento. Isso não é obrigatório’. Mas sua filha escolheu ser crismada, permaneceu na igreja e agora cria seus próprios filhos como católicos.

Procura-se ajuda

Donna, uma mãe solteira na faixa dos 30 anos, que pediu que seu sobrenome não fosse divulgado, diz que suas experiências na Igreja Católica também foram misturadas. Donna era divorciada no momento de sua vida quando foi expulsa da igreja, e seu filho daquele casamento acabado não foi batizado. Quando retornou à igreja um ano atrás, foi-lhe dito pelo pastor de sua igreja local que para que seu filho fosse batizado, ela precisaria obter uma anulação. Donna contatou sua arquidiocese local, mas eles nunca retornaram suas ligações.

Em seus anos como mãe solteira, essa foi parcialmente a atitude da igreja - exemplificada por essa ligação não retornada - que fez com que Donna se distanciasse da igreja novamente. A maternidade como solteira, ela diz, significa que ‘você nunca faz uma pausa, você nunca descansa ou é capaz de dar um passo para trás’, o que para ela significava que as questões espirituais tinham que ficar em segundo plano em favor da sobrevivência. A assistência logística e financeira que recebeu não veio da igreja, mas de sua comunidade artística. Às vezes, Donna fala, se sentiu ‘marcada com uma letra escarlate’ na igreja e acrescenta que nunca ‘encontrou uma comunidade católica que me ajudasse pessoalmente’.

Donna está agora noiva e grávida novamente. Embora ela tenha deixado a igreja antes porque se sentiu ‘tratada como a soma dos meus erros na vida’, apontou para seus esforços atuais para anular o primeiro casamento, casar-se na igreja e ter seu filho que nascerá em breve. A segunda criança batizada é o resultado de ‘muito crescimento’ e um esforço para superar experiências ‘desagradáveis’ com a equipe da igreja e ‘manter meus olhos em Cristo’.

Donna diz que qualquer tipo de apoio da igreja para mães solteiras teria sido muito útil no passado, mas que alguns membros do clero parecem ter medo de oferecer ‘por causa de um medo deslocado de glorificar o divórcio ou glorificar o sexo antes do casamento’. Um grupo de pais solteiros, um grupo de estudos bíblicos ou simplesmente fornecer um lugar onde mães solteiras católicas pudessem se reunir e compartilhar suas experiências, ela diz, era praticamente impossível de encontrar.

Reconhecer, aceitar, apoiar

É revelador que enquanto estava pesquisando este ensaio, minhas buscas revelaram apenas um grupo de pais solteiros católicos que foi relativamente fácil de encontrar na internet. Esse grupo se reúne na igreja St. Thomas More, em Austin, no estado de Texas. Fundada em 2003 por duas famílias monoparentais da congregação, o grupo recebeu aprovação do pároco e da diocese. Os participantes espelham a demografia mais ampla dos pais solteiros nos Estados Unidos : Enquanto os pais solteiros frequentam o grupo, cerca de três quartos dos participantes são mães solteiras, e a maioria delas é divorciada. Em sua primeira reunião, 25 pais solteiros compareceram, e estabeleceram como objetivo identificar os problemas enfrentados pelos pais solteiros católicos e atender às necessidades deles na congregação.

A principal questão identificada, de acordo com a atual diretora do programa, Jaquelyn Mika, era que os pais solteiros não sabiam onde se encaixavam na Igreja Católica e não se sentiam bem-vindos. Eles também aprenderam que o que os pais solteiros da congregação precisavam era principalmente ‘apoio emocional, prático e espiritual’.

Mika, mãe solteira de filhos adultos, diz que, em termos de apoio prático, o cuidado da criança é a prioridade número um para as mães solteiras que frequentam o grupo, de modo que a paróquia oferece serviços gratuitos de babá durante as reuniões. O formato é simples. O grupo se reúne mensalmente e é facilitado por um moderador. O moderador oferece uma oportunidade para os pais solteiros discutirem suas vidas naquilo que Mika chama de um ambiente ‘seguro e confidencial’, com oportunidades para falar, mas sem muita pressão para fazê-lo. A paróquia também oferece reuniões mensais suplementares para pais solteiros com oradores convidados oferecendo palestras sobre temas de especial interesse para os pais, incluindo os problemas psicológicos comuns nas famílias monoparentais, os problemas legais enfrentados pelas famílias monoparentais, bem como a saúde e o orçamento. No lado espiritual, o grupo já recebeu palestrantes sobre o processo de anulação e sobre a catequese de crianças. Eles também oferecem eventos sociais que os pais podem participar com ou sem filhos.

O grupo também deu apoio a grupos de pais solteiros em outras igrejas e identificou três áreas onde os pais solteiros sentem que suas necessidades pastorais não estão sendo atendidas. Essas necessidades incluem o reconhecimento, a aceitação e o apoio. O reconhecimento, diz Mika, pode significar qualquer coisa, desde reconhecimento ocasional em orações na missa até a sensibilidade dos pastores e funcionários da igreja. As necessidades dos pais solteiros são diferentes; e tempo, dinheiro e cuidados infantis são prioridades altas. A aceitação inclui a garantia de que eles têm um lugar na igreja e não estão sendo feitos para se sentirem como ‘cidadãos de segunda classe’. E o apoio pode variar de prestação de cuidados infantis até uma igreja formando seu próprio grupo de pais separados.

Mika diz que a participação pode flutuar de reunião para reunião por causa dos desafios logísticos que os pais solteiros enfrentam, mas que os números não são a prioridade. Formar comunidade é, embora seu grupo tenha sido entusiasticamente apoiado pela diocese local, muito difícil. Conseguir formar um grupo de pais solteiros nem sempre foi algo bem-sucedido em outras igrejas que buscaram ajuda para iniciar um ministério similar. E ocasionalmente, as pessoas simplesmente param de participar. Mas um e-mail enviado pela Mika, escrito pelo ex-diretor do ministério, diz que não aparecer pode realmente ser um sinal de sucesso : as pessoas chegam pela primeira vez sentindo-se espiritualmente quebradas, e depois de seis meses a um ano frequentando o grupo, às vezes sentem que é muito melhor seguir em frente, após terem aproveitado os encontros. Basta ter um lugar para se sentir reconhecido, aceito e apoiado. É o suficiente para criar mudanças.

Grupos como o da paróquia de St. Thomas More podem ajudar a superar o estigma em torno de mães solteiras na igreja, mas como as mães solteiras católicas com quem falei testemunham, é também uma questão de reconhecimento e aceitação por parte de congregações e pastores. O papa Francisco chamou uma mãe solteira que escreveu para ele em 2013 e se ofereceu para batizar seu filho se não encontrasse um padre que o fizesse. Mas o fato de que a mulher esperasse e fosse recusada pelos padres, em primeiro lugar, reflete o mesmo status de segunda classe que muitas mães solteiras experimentam.

Em suas experiências à margem da igreja, essas mulheres abnegadas que se apegam à igreja, mesmo quando empurram elas para fora, podem na verdade ser testemunhas proféticas do poder da fé. Vale a pena lembrar que a primeira pessoa a espalhar a notícia de Jesus não foi o apóstolo Paulo, mas a mulher samaritana muitas vezes casada que Jesus conheceu no poço. ‘Muitos dos samaritanos daquela cidade acreditaram nele por causa do testemunho da mulher’, diz-nos o Evangelho de João. Talvez seja hora de a igreja começar a ouvir essas mulheres também.’


Fonte :